Wednesday, March 18, 2009

O Cobertor e a Mocinha

Era uma vez um cobertor. Adorava o fato daquela menina de mais ou menos onze anos perfumar-se antes de deitar. Tentava, em vão, se aquecer o máximo possível para aquecê-la. Rezava para ter, quem sabe algum dia, calor próprio, sonhava em ser o sol para aquela menina. Mal sabia ele que, para ela, ele era o protetor, a quem ela buscava quando sentia frio. “Mãe, estou com frio e vou me agarram em meu cobertor”, dizia ela. Ele há muito tempo já estava esperando sua vinda, como quem diz “Vem, querida, te aquecerei com meu carinho”.
Mas, como todo caso, há um problema: Nosso cobertorzinho não agüenta o fato de não conseguir comunicar-se com sua menina. Ora, como seria possível um cobertor se declarar para uma garota? Eis que nosso protagonista tem uma idéia: Abraçará sua pequena enquanto ela dorme profundamente. Claro, como não pensara nisso antes?
A noite chega, fria como de costume, e a garotinha se dirige a seu quarto. Perfuma-se, coloca-se debaixo do cobertor e cai no sono. Observando a situação, ele abraça-a fortemente. Para sua surpresa, ela também o abraça. Não sei se era o vento ou aquele cobertor sorriu.

Saturday, March 07, 2009

Carta ao futuro

Caro Futuro,

Desculpe-me pela falta de educação em não perguntar como estás, mas é que não estou muito preocupado com isso agora. Vim só pra bater um papo contigo. É, levar um lero que é mais um pedido: Demora. Não te sintas mal com isso, mas a vida passa tão rápido que eu quero-te bem longe junto do teu amigo tempo. Se tu serás bom ou ruim? Não sei. Viverei sem me preocupar com isso. Viverei a procurar uma forma de não te procurar. Vai arrecadando mais outras almas para aquela outra amiga tua e volta a me procurar só quando eu chamar. Perfuma-te e procura alguém pra passar o tempo, assim como eu procurei. Aceita os conselhos desse velho amigo; vive. E quando chegares, vem manso que é pra não me assustar, vem com rodas de algodão e motor à base de água. Se serás bom ou ruim? Não sei. Viverei.

Atenciosamente,
Passageiro.

Monday, March 02, 2009

Maior Questão

Dois amigos se encontram, após a morte, na frente de São Pedro.
- Fábio! Quanto tempo! Nunca imaginei que fosse te ver só... depois mesmo.
- Fernando! Vimos-nos a última vez no fim do colegial, com todas aquelas promessas de se ver aos sábados. Acho que nunca tivemos tempo depois daquilo.
- É, mas eu nunca esqueci das nossas loucuras em sala de aula.
- Nem eu. Mas, me conta como tu vieste parar... aqui?
- Tristeza, solidão, essas coisas. E tu?
- Morri por falta de doador de alegria.
- Se a gente pelo menos continuasse se vendo aos sábados...
- São Pedro está vindo aí.
- Pois é, temos que causar uma boa impressão.
- Vocês dois são frustrados pela de amizade na vida, passem ao final da fila.

Saturday, February 21, 2009

Em Três

- Eu acho...
- Você acha que já está apaixonada por mim, pode falar.
- Eu já estou apaixonada por você.

Friday, February 13, 2009

Um Milhão

Resolvi criar três personagens e pensar em destinos bem clichês para eles. Primeiro, são dois homens, Luiz Leonardo e Mateus. Depois, claro, uma moça e ela se chama Beatriz. Eles vivem na cidade de Porto Alegre, ela e Luiz em um prédio e Mateus no prédio da frente. Logicamente, Beatriz encontra Mateus na fila da padaria, deixa cair um pacote de biscoitos, ele ajuda-a. Nesse momento estão trocando olhares e imaginando um futuro juntos. Enfim trocam palavras.
- Seu pacote de biscoitos, senhorita.
- Muito obrigada.
- Meu pai está muito doente em um hospital, tenho dívidas, muitas alergias, não gosto de chocolate e sou fracassado no amor.
- Não gosta de chocolate?
- Me desculpe, cara donzela, mas esse seu olhar profundo deu-me confiança e vontade de falar.
- Tudo bem, seus olhos já mostram tudo isso.
Ela deixa o local sabendo que Mateus a está observando. Ela sorri.
Luiz Leonardo percebe que sua companheira está de volta e vai recepcioná-la.
- Trouxe meus biscoitos?
- Me apaixonei por um par de mãos na padaria, preciso te deixar.
Ele ameaça se matar, chora e não a vê partir.
Beatriz procura o par de mãos na padaria, mas não o acha, pergunta aos atendentes por onde mora um rapaz moreno, de óculos e cabelo bagunçado. Ninguém soube responder. Ela fala das mãos e uma atendente, que também era apaixonada pelo rapaz, diz-lhe o endereço. A moça chega entusiasmada ao local, arruma o cabelo procurando o charme especial, respira fundo e, enfim, toca a campainha. Quem abre é Taninha Furacão, prostituta conhecida na região, inclusive pela jovem Beatriz, que sente-se decepcionada com as mãos, “Como aquelas mãos tocaram nela? Pareciam mãos tão gentis e confiáveis”. O que ela não sabe é que a atendente da padaria mentiu. Mentiu por também ser apaixonada por Mateus e não querer que uma mulher tão atraente como aquela que esteve na padaria chegue perto de seu grande amor. Mentiu por insegurança. Mentiu para proteger seu macho.
Chove na rua e Beatriz está nela. Molhada, com vergonha de Luiz Leonardo e nojo de Mateus, ela sente a água como o menor mal e dorme ali mesmo. Amanhece e tudo continua do jeito como terminou, provando como cíclicas são as coisas do Amor.
A moça apaixonada por mãos resolve pegar um ônibus e recomeçar sua vida em uma cidade vizinha. Sem sucesso, volta a morar na casa da mãe. Luiz Leonardo não agüenta uma semana sem o amor de seu amor e se mata com um tiro na boca. Mateus se muda para perto do hospital onde seu pai depois de certo tempo morreria, conhece Marina, uma atendente da padaria perto de sua casa antiga e tem uma filha com ela chamada Beatriz.

Monday, January 26, 2009

Pais e Filhos

Se tem uma coisa que eu gosto de ver é família feliz. Pode ser clichê, mas uma das coisas que mais me fazem brilhar os olhos é um pai e uma mãe com um filho pequeno. Nessas horas, a gente vê que tudo passa tão rápido, num momento o casal se apaixona em uma lanchonete, começam a se encontrar mais vezes e enfim se casam. Passados uns cinco anos do matrimônio, a notícia boa chega: Terão um menino, ele será saudável, inteligente e torcerá pelo time de futebol o qual o pai é fanático. Quando o garoto tiver seus seis anos, ganhará uma irmãzinha e a família, enfim, estará completa. Os pais se sacrificarão para dar a eles todas as oportunidades na vida. Os filhos, enquanto isso, crescerão sempre gratos e orgulhosos por todo o esforço feito por aqueles que os trouxeram a esse mundo. Entrarão em uma faculdade e, nesse momento, temerão não estarem preparados para esse novo desafio, se acharão fracos e, mais uma vez, quem os sustentará são os pais. Talvez chegue o dia em que a situação irá se inverter e, quem se sacrificará para dar o melhor serão os filhos e, quem receberá o apoio pelo esforço de uma vida inteira, serão os pais. Isso é o mais lindo na vida, ela sempre se renovará, mas sempre dará um jeitinho de deixar quem a gente gosta por perto. Valeu, vida.

Wednesday, January 14, 2009

Nervosismo

Encontro-me nesse momento sentado na mesa de um bar sem nome. Perto de mim, um bêbado se afunda ainda mais na cachaça. O dono do bar, sem ao menos ter pena do indivíduo, atualiza o copo do mesmo com mais bebida. Será mesmo que o dono do estabelecimento não percebe que contribuirá, assim, para o fim de uma vida? Mas isso não é o que mais me atrai no local. Três mesas da minha uma moça de mais ou menos vinte e um anos possui um olhar extremamente marcante e ele mostra certo nervosismo. A garota parece estar esperando alguém e, quando esse alguém finalmente chega, percebo algo maravilhoso: Não é o seu olhar o mais fascinante, e sim o sorriso; totalmente natural e despreocupado. O rapaz a cumprimenta de maneira preocupada e fria. Pelo pouco que aprendi de leitura labial, tento reproduzir o diálogo. Ele olha no fundo dos olhos lindos e marcantes da menina e diz que os dois têm de conversar. Ela olha-o como quem não entende nada. Sim, o garoto está traindo-a com outra e prefere contar-lhe tudo antes que ela descubra por outro. Ele termina o namoro, dá-lhe um beijo na testa e despede-se.
Penso eu: Como alguém abandona um olhar desses? E um sorriso desses? Imagino-me de mãos dadas com a moça, ela lançando-me olhares e sorrisos sem iguais. Pago minha conta e vou pra casa.

Wednesday, December 17, 2008

Da Janela

Duca está olhando a vista da janela de seu apartamento. Abraça fortemente seu travesseiro, gosta de fazer isso todas as noites. Sente uma paz de espírito sem igual quando olha, no prédio em frente, uma janela com luzes acesas. É como se pensasse “não estou sozinho”. Tenta adivinhar o que aquelas pessoas estão pensando e gosta de inventar histórias envolvendo-as. Dona Vitória, como chamou a moradora do 4º andar, perdera o marido dois anos atrás e até hoje os filhos a culpam pela morte do pai. Vê seriados de drama, procurando sempre achar alguém em uma situação pior que a sua. Passa a noite na frente da televisão. Marina, do 3º andar, está nessa noite montando delicadamente sua árvore de Natal. Cada detalhe é organizado meticulosamente. Faz isso para ocupar no coração o espaço deixado por um amor não correspondido. Gosta de comer tortas de pêssego e de ler livros os quais Duca nunca consegue descobrir quais.
Enquanto abraça fortemente seu travesseiro, o jovem também gosta de ver carros passando pela sua rua. Tão forte é sua imaginação, que tenta descobrir para que lugar os veículos se dirigem. Carlos Roberto dirige um Ford Fiesta de cor preta. É um promotor de justiça e está, nesse momento, se dirigindo para a casa de sua amante e, em casa, deixa uma mulher e quatro filhos. Como se fosse um castigo divino, o homem temseu carro e sua vida acabadas naquele segundo.
Carlos Eduardo, mais conhecido como Duca, mora em um prédio em frente ao meu. Gosta de abraçar fortemente seu travesseiro. Sente uma paz de espírito sem igual quando olha, no prédio em frente, uma janela com luzes acesas. É como se pensasse “não estou sozinho”. Quem sou eu? Gabriela, moro no 3º andar, gosto de comer tortas de pêssego e ler livros os quais ele nunca conseguiu identificar quais são. Tenho uma vizinha idosa chamada Vitória que não me deixa dormir com o barulho de sua televisão até altas horas. Já que, pelo visto, ela não irá desligar o aparelho tão cedo, acho que vou montar minha árvore de Natal.

Wednesday, December 10, 2008

Ponto Final

Ler ao som de Elephant Gun, do Beirut.


Antônio Luiz da Silveira Gonçalves tem oitenta e nove anos, três filhos e sete netos e está nesse momento sentado à frente de seu aparelho televisor quarenta e duas polegadas. Bebe cerveja e come amendoim. Troca de canal algumas vezes, até parar no canal cinqüenta e um de sua companhia de TV a cabo. São três horas da tarde de uma terça-feira, horário específico de programas antigos. Antônio tem, então, sua última crise existencial de sua existência. Dá alguns passos até seu quarto e, primeiramente, segura o retrato de sua falecida esposa, dona Rosinha, uma simpática senhora que teve sua vida dedicada à confecção de tortas. As primeiras lágrimas ganham liberdade no momento em que ele deixa o retrato sob o criado mudo. O senhor se dirige ao guarda-roupa, abre uma gaveta e pega uma pequena caixa antiga, feita de metal. Balança-a como se quisesse conferir se o que procura está mesmo ali. Sorri ao saber que sim, abre-a e começa a vasculhar: Era a caixa de recordações de sua infância. Antônio chora ao pensar que a morte se aproxima e a vida passa diante de seus olhos; desde o momento em que ganhou seu primeiro carrinho, o dia em que perdeu o mesmo em uma aposta e teve de pedir para seu pai resgatá-lo, passando pelo primeiro beijo, a primeira noite de amor, a entrada na faculdade, o dia em que conheceu Rosa Garcia Rodrigues, o ano em que perdeu o pai, o nascimento de seus três filhos e dos cinco netos. “Não fui útil em nada nesse mundo”, resmunga para si mesmo. De repente, sente a presença de algo. É a morte e ele sabe. Antônio pensa e morre sorrindo.
Vamos aos fatos:
Em 1930, Antônio Luiz da Silveira Gonçalves estava convencido a seguir a carreira de médico. Anda tranqüilamente pela Rua Dois quando, por acaso, olha em um poste a propaganda do curso de Medicina Veterinária. Naquele instante, nem o próprio Antônio conseguiu descrever a sensação de estar fazendo o certo. Conheceu Rosa Garcia na faculdade e teve um filho chamado Francisco Gonçalves Rodrigues, que depois veio a se casar com Antonieta Magalhães, cuja vontade era criar uma instituição de caridade. Os dois criaram a APV, Associação Pela Vida, responsável por achar a cura para o vírus da AIDS. Depois de muito trabalho, conseguiram a façanha desejada e muitas pessoas foram salvas pela descoberta do casal.
Por isso que Antônio Luiz da Silveira Gonçalves sorriu em seu leito de morte: Se não tivesse desistido da Medicina, não entraria no curso de Veterinária, logo, não conheceria dona Rosinha, por conseqüência, não seria pai de Francisco, que não teria conhecido a bela Antonieta, não nascendo, por tal, a APV, cujo objetivo não teria sido alcançado e milhares de pessoas ainda morreriam de AIDS no mundo.
É, seu Antônio, o essencial é invisível aos olhos.

Sunday, October 05, 2008

Canção de Ninar

Mal posso esperar o momento chegar. Sonho todos os dias (sem faltar nenhum) com teu nascimento, com a chegada tua e da minha alegria. Vou criar-te apelidos bobos, apertar-te de jeitos tolos e amar-te puramente. Vou acordar de madrugada com teu choro, música para meus ouvidos, e vou cantar-te até o sono, enfim, chegar-te. E te admirarei a noite inteira; tu dormindo e eu sorrindo na espera de um novo gesto meigo, puro e lindo.
Quando a manhã enfim chegar, para o trabalho irei com o pensamento em ti. Mal podendo esperar o momento de encontrar-te novamente, fico o tempo todo olhando o relógio, gritando para o tempo, pedindo que aquele danado passe mais rápido. Quando cresceres um pouco, serás a minha menininha, e eu te protegerei com minha vida. Quando ficares mais adulta – virando moça –, terei ciúmes de teus namorados e desejarei a morte de todos, mesmo sabendo que eles te farão feliz. Terei medo que me troque por eles e que façam de ti, uma menina mais feliz do que eu consegui fazer. Ao saber disso, me lançarás um sorriso rasgado e dirás que ninguém é mais importante e te faz mais feliz que eu mesmo, e eu notarei que a vida está passando. Logo, então, chegará teu casamento e eu estarei lá pra te levar até o homem que escolheste. Voltarei para a casa pensando: “minha menininha definitivamente cresceu”. Voltarei feliz. Voltarei para minha cama quente, recolherei meus cabelos grisalhos e, mais uma vez, gritarei com o danado do tempo, mas agora para que ele passe mais devagar. Vai, tempo, vai falar com a morte e pede para que ela tenha piedade desse velho pai que só quer passar mais tempo com sua filha. Mas e quem sou eu para pedir algo para a morte? Ela não respeitará nem o pedido do tempo, nem a mim. Um dia, chegará em meu quarto, bem de mansinho e dirá: “Vem, Fernando, tua filha ficará em boas mãos”. Falará de um jeito doce para que eu não chore, mas minha vida toda passará diante de meus olhos, se transformará em lágrimas e cairá diante do fim. Lá de cima, passarei o tempo (danado que não me deixa em paz) todo te observando, cada passo, cada gesto meigo, puro e lindo. Só, então, perceberei que nada mudou.

Friday, September 26, 2008

Da luta não me retiro

Não há um jogo sequer que o Brasil de Pelotas não dê emoção para nós, seus fiéis torcedores. O time luta e a torcida grita, tem sido assim em todos os jogos. Não foi fácil, por muitos momentos falamos mal dos atletas e vaiamos o time, mas no próximo segundo já aplaudindo e gritando o nome de cada um. O caminho até aqui não foi fácil e o que virá também não será, lutamos muito e não será agora que irão tirar-nos essa incrível força que nos move até o Bento Freitas a cada dia de espetáculo. Por muitos percalços já passamos, mas nunca pensamos em desistir e isso é ser torcedor Xavante. Isso é torcer por um time: Não deixar nunca que um resultado momentaneamente desfavorável venha resultar numa trágica desistência e é por essas e outras que estamos entre os oito. Agora Falta pouco.

Tuesday, September 02, 2008

Bicho-da-seda

Todos marcaram hora no salão de beleza, tomaram banho (inclusive João, que não gostava muito d’água) e até passaram perfume. Era o dia da foto da família e não havia um parente desarrumado, muito menos um móvel desarrumado na casa de Dona Rica.

Ana tentou mostrar seu penteado recém penteado, Carlos tentou não mostrar os dentes destruídos pelo cigarro, Natália usou do brilho de seus olhos e Gabriela precisou apenas de sua graça natural, assim apresentou-se e representou-se a terceira geração, os netos de Dona Rica. Tia Chiquinha lutou para esconder as rugas que a idade lhe dera, seu marido pareceu estar mais preocupado com ligações importantes do que o momento da foto. Maria de Lurdes e Rameu tentaram parecer um casal feliz e Ricardo e Solange tentaram parecer felizes, assim foi representada a segunda geração, os filhos de Dona Rica. A Matriarca não se importava com o visual e nem com o sentimento que passaria através da foto; Estava feliz e ponto. Estavam todos lá: Netos, filhos, noras, genros e até a fotografia do falecido Brigadeiro Matias.

Contrataram um fotógrafo de primeira, aquela seria a grande foto da família Matias Medeiros. Ana conseguiu mostrar o penteado, mas ele tapou metade de seu rosto. Natália piscou e só ficou sabendo do brilho de seus olhos quem conhecia a moça. Tia Chiquinha cansou de conter as rugas, elas apareceram e aquela mulher forte pareceu feliz. Maria de Lurdes e Rameu foram traídos por seus olhares e não manifestaram felicidade matrimonial. Carlos deixou um cigarro cair no chão, foi descoberto pelos pais e os três mostraram tristeza com os olhos e com os lábios. Mas foi uma bela foto; Gabriela exalou sua graça natural e Dona Rica soltou um belo sorriso, agarrada no Brigadeiro.

Quem tivesse um coração com bons pensamentos conseguiu perceber um sorriso no canto do rosto de Matias.

Saturday, August 09, 2008

Sonho parece verdade quando a gente esquece de acordar


Indescritível o momento e a emoção do show do Teatro Mágico. É algo que só vendo pra ver, com o perdão da redundância. Vendo os vídeos no youtube, eu imaginava ser fantástico, mas, ao assistir, vi que o fato de estar lá é realmente significante. A empolgação e a proximidade do público com a trupe são únicos. A leveza com que Gabi Veiga apresentava sua performance, fazendo com que ninguém desgrudasse os olhos do teto, iluminado pela luz natural da atriz circense, a simpatia dos instrumentistas, sempre jogando sorrisos para a platéia e arrancando outros e a energia transmitida por Fernando Anitelli permanecerão para sempre na memória de todos.
Depois de tão grandiosa experiência, me sinto um grande camarada d’água, um anjo bem mais velho, cidadão de papelão, mas também estou abaçaiado por ter que esperar mais um tempo indeterminado para sentir tudo de novo e não sei como será a primeira semana longe da trupe, porque, na verdade, o que eu queria era ter tudo isso pratododia.
Acreditem, caros leitores, sonho parece verdade quando a gente esquece de acordar.

Tuesday, July 08, 2008

Fogo Verde

Acordou bem cedinho como fazia há quatorze anos - até na hora de nascer foi maneira: insistiu muito em nascer junto com o sol, seis da manhã já estava gritando coisas aparentemente sem sentido -, saiu para caminhar ao lado dos pássaros que deram-lhe bom dia entusiasmados e ela respondeu a altura. Os olhos verdes e os cabelos cor de fogo davam-lhe um ar de moça nova e as poucas sardas, de menina tímida.

Foi para a escola cedinho como fazia desde os seis anos. Anotou tudinho em seu caderno rosa com plumas lilases. Assistiu o garoto de seus sonhos ser espancado em uma briga no colégio e ficou parada. Buscou algodão e água e limpou os ferimentos. “Estás bem?”, perguntou, “Agora contigo aqui estou.”, obteve como resposta. O garoto pegou-a pela mão e disse “Tu és a única que se importa comigo aqui.”, ela sorriu com os olhos e disse “Meu importamento vale por todos”. Ele levantou-se para beijá-la pela primeira vez na vida. Nunca havia sido tocada, o que fazer naquele momento tão ilustre? A vida toda passou em sua cabeça em um segundo, desde o primeiro momento de vida que lembra (ninguém lembra dos primeiros anos de vida, muito menos do momento em que nasceu). Como seria um beijo? O garoto beijaria bem? Seria nojento? Preferiu não fazer nada. O garoto encostou os tímidos lábios nos mais tímidos ainda da menina. Os dois fizeram careta no final, tiveram a mesma impressão ruim de primeiro beijo: Tinha gosto de cuspe. “Eu, eim, prefiro muito mais caminhar e ouvir o canto dos pássaros do que isso!”, pensou ela, “Eu, eim, prefiro muito mais os pokemons ou meus carrinhos do que isso!”, pensou ele. Andaram de mãos dadas pela escola inteira, dando “estalinhos”, nome que deram a tal ato com gosto de cuspe. Todos que viam faziam cara e sons de enojados.

Depois daquele dia, nunca mais acordou cedinho para ir caminhar ao lado dos pássaros, com a mão livre e nunca mais respondeu sozinha ao bom dia das aves. Agora ela o tinha ao seu lado. Depois despediram-se com um estalinho seguido de careta de nojo e ela foi à casa de uma amiga. Quando foi perguntada como foi a sensação de ser beijada, respondeu com firmeza: “Tem gosto de cuspe e eu prefiro andar com os pássaros, mas eu não quero nunca ficar sem tocar na mão dele por muito tempo.”

Thursday, May 01, 2008

Tava lendo os posts antigos. Não sei se eu fico feliz por ter melhorado, ou triste por os velhos serem tão ruins.

Tuesday, April 15, 2008

Prosopopéia

Era uma vez, uma mão. Andava pra lá e pra cá sempre presa a um braço muitas vezes maior. Não gostava daquilo, queria mesmo a tal liberdade, mas por pura preguiça decidiu que junto dele estava confortável, então ficaria ali mesmo. Assim não iria se cansar. Nem arriscar. Ficou, pois, colada com o braço. Perambulando pelo mundo afora sem direção alguma ela ia. E pensando em algum lugar melhor. Pensando se esse lugar existia.
Foi, então, num dia de frio e sol de outono. A mão passeava pelas ruas – grudada no braço – quando de repente (explosão) o braço se descuida e ela bate em uma mão feminina. Bem cuidada. Parecia uma daquelas balas que se vende junto com marshmallow, dava vontade de morder, aquela danada! Deu uma vontade de trombar de novo com ela. Mas como? No meio de tantas mãozinhas pequeninas, como ia achar aquela? Não precisou nem estalar os dedos. No outro dia estava lá ela. E no outro também. Só então resolveu tocá-la. Deixar uma colada na outra, como se tivesse medindo qual a maior. E não é que combinava?

Tuesday, April 08, 2008

Tinta branca colorida

E não ia ser assim mesmo? Caindo pelos cantos, caindo em prantos. Catando cantos. É cansativo, eu sei. Mas não estaria tudo fora do seu tempo? Tudo rápido. Tudo ríspido. E mais uma vez tu te recusas a me salvar. E mais uma vez eu fico esperando. Caindo pelos cantos. Só a prosa poética me faz companhia e faz tempo que não me responde. Onde? Para onde fugir? Têm vezes que as conseqüências sucumbem os frutos. É chato ser sarcástico com quem não se gosta. Bom mesmo é ser o que quiser. Bom mesmo é ser vivo. As cores foram junto com as balas de goma e nem avisaram quando voltariam. Riam, senhores, riam. Rima é para poucos. Poucos riem, muitos vêem e mais uma vez tu te recusas a me salvar. Mas e teus olhos? Por que continuam meus? Eu. Alguém pediria para ser eu? Eu padeço. Eu pareço. Eu mereço. Às vezes nem me conheço, mas sempre me reconheço. Tenho memória forte. Sei do abandono. Sei do sono e do consolo, mesmo que do último saiba pouco. Mas teus olhos ainda olham tímidos para mim. Tímidos maquiados. Mas não ficam melhores limpos? Ficam mais puros, o olhar fica ainda mais bonito e mais sincero. Mortal mero que sou, tenho opinião fraca. Tenho em mãos a faca e o medo de ferir. Medo de fazer rir. Medo de rir. Medo de ir.

Monday, March 24, 2008

Empréstimo

- Bom dia.
- Bom.
- O senhor queria um empréstimo, certo?
- Sim. Um empréstimo de Amor.
- Por quanto tempo?
- O tempo que for preciso. Seis meses ta mais que bom.
- Amor em que nível de afetividade?
- Estou carecido de um nível oito, o máximo.
- Com suspiros?
- Só os bons.
- Desenhos no caderno?
- Só os claros e coloridos.
- E quanto aos olhares?
- Quero aqueles em que os olhos brilham tanto que dá pra arrumar o cabelo olhando no fundo deles.
- Sorrisos também?
- Claro. Daqueles sinceros e lindos em que os olhos ficam parecendo pontes, bem curvadinhos.
- O senhor é bem exigente...
- Não é exigência. É carência.
- Entendo.
- E então, quando eu recebo meu Amor?
- Quando fizeres por merecer.
- Mas eu não sei me expressar, fico falando bobagem, sabe como é.
- Sei... Quer, então, um amor fácil?
- Fácil não é a palavra certa. Coisas fáceis são sem graça. Mas eu só aparento ser sem graça. Eu diria prático.
- Certo. É só preencher esses papéis aqui e tu terás teu Amor em breve!
- Passa pra cá, não vejo a hora de ter Amor em minha vida!
- Prontinho. Foi um prazer negociar com o senhor.
- O prazer foi todo meu!

Estou tão ansioso. Sempre quis um Amor em nível oito de afetividade!

- Oi, vem sempre aqui? Gosta de Los Hermanos?

Tuesday, February 12, 2008

Carta à remetente inexistente

Oi, querida que não existe. Estou mandando mais uma carta, na tentativa de ser pela primeira vez respondido, mesmo sabendo que será em vão. Só queria por alguns segundos pensar que não estou sozinho nessa. Por alguns segundos pensar que alguém recebe e lê essas cartas densas e chatas.
Como vai a tua vida aí nesse reino que não existe? Espero que esteja tudo bem, pois quando eu chegar por aí, quero que seja tudo perfeito. Não foi a toa que demorei esses meus vinte e cinco anos de vida construindo esse reino para que possamos viver nele quando a hora chegar. E como será boa nossa vida. Tudo nós teremos, querida. Tudo. Cada um de nós receberá um lápis mágico, que dará vida a tudo que desenharmos. E não tenhas medo, não. A vida será bala de goma, eu prometo.
Fico imaginando como és. Se com cabelos castanhos claros, olhos marcantes e sorriso lindo. Se é feliz, se fala muito ou pouco. Se não fala. Se tem ou não manias e, se tem, quais são elas. Qual o jeito de se vestir, o jeito de arrumar o cabelo de um jeito que fique o mais belo possível. Se gostaria mesmo de me conhecer, se é pequena, como eu sempre sonhei. Se tem os mesmos sonhos que eu. Se ronca à noite, se tem facilidade para dormir à noite. Do que gosta de comer. Se existe.
Despeço-me nessas últimas linhas desejando que tenhas uma ótima semana e avisando que já estou de malas prontas para minha partida. Ficaremos juntos para sempre nesse mundo bala de goma que eu criei para nós! Peço-te que me responda pela primeira vez, eu pularia de felicidade ao ver na minha caixa de correspondências a tua carta perfumada com teu cheiro doce.
Com carinho, um beijo do cara do rosto de bebê, que fala muito e dono do cabelo de vassoura bagunçada.

Saturday, February 09, 2008

O Sonho(Pesadelo)

- Vamos fugir?
- Fugir, Romeu?
- É, Julieta, fugir. Sumir daqui, ir pra um lugar que seja só nosso.
- E onde seria esse lugar?
- A lua é uma boa pedida, acha não?
- A lua é muito longe, Romeu!
- Com o nosso amor como meio de transporte, ela fica há duas quadras daqui, se a gente quiser.
- E como fazer isso?
- É só pensar.
- Endoideceu de vez, guri?
- Não fala mais nada. Só fecha os olhos e segura minha mão.
- Ta. E agora?
- Pensa em nós dois.
- Mas não é que tudo desapareceu? Não é que tá só nós dois aqui?
- E não é perfeito?
- É, sim, mais que perfeito. Queria pular pra dentro desse pensamento e não sair nunca mais dele.
- Terias coragem?
- Coragem de passar a vida toda abraçada contigo? E quem é que não teria?
- Então vamos... 1... 2... 3... Vai!
- Agora é isso aqui pra sempre?
- Não é um sonho?
- É sempre igual, não muda nunca?
- Tu que pediste assim, amor.
- Não que eu não queira. Mas um dia cansa, não é mesmo? E quando a gente tiver filhos?
- Filhos? Não. Tu escolheste só nós dois, ninguém mais.
- Mas ter filhos é meu sonho!
- Tu abriste mão de muitas coisas pra estar aqui hoje, inclusive de ter filhos.
- Eu quero voltar!
- Não tem como voltar, é pra sempre assim!
- E se eu me matar?
- Aí tu não vais ter nem a mim, nem aos outros!
- Não! Também não quero isso!
- Então pára de reclamar!
- Vamos parar de brigar, se a gente se separar, isso vai ser um inferno até o dia da morte de um de nós!
- Só há um jeito de algum de nós morrer. Se o outro quiser que o outro morra, isso fui eu que pedi.
- Mas então não termina nunca?
- Só no dia que algum de nós se encher da cara do outro.
- Tem de haver um jeito de voltar!
- Assim eu me sinto um pouquinho desprezado...
- Não é isso, amor. O problema não és tu, é a rotina de todos os dias fazer a mesma coisa!
- Mas é sempre fazer uma coisa que se gosta. É uma forma de não se fazer algo que não se goste!
- Mas será que tu não percebes que isso um dia vai fazer parte do grupo de coisas que não se gosta? Nem que seja daqui a trezentos anos!
- Me desculpa, Julieta. Só queria te fazer feliz.

Monday, January 14, 2008

Palavras

Ele acenou para ela, que não o viu. Tentou gritar, mas voz nenhuma saiu, como se todas as palavras quisessem deixá-lo sozinho naquele momento triste. E no que elas iam ajudar, não é mesmo? Melhor fugir antes que ele as jogasse longe. Voltou para a casa, murrou a porta do quarto, acordando os pais. Perguntaram o que havia acontecido, mas não respondeu. Apenas enfiou a cabeça no travesseiro macio e esperou o dia acabar.

O sol acordou depois dele. E de tão mal-humorado, Fernando nem bom dia deu ao astro-rei, que não se atreveu a reclamar. Vai que o garoto-homem fechasse a janela para ele de tanta raiva? Melhor não arriscar. Botou suas calças jeans, logo após calçou seus tênis all star verdes. Por último, enfiou em si uma camisa pólo de cor verde. Pegou suas chaves e saiu antes que alguém lhe entregasse algumas palavras, como se recusasse algum presente. Como se dissesse "Palavras? Quero não. Servem pra nada essas aí.". Caminhou alguns quarteirões e resolveu ligar. Mas que frases usar? Os verbos andavam tão contra ele ultimamente. Respirou fundo e não ligou. Viu que antes precisava fazer as pazes com as palavras. Pediu desculpas com vontade e foi atendido. "E nós lá conseguimos viver sem ti, menino?", disseram.

O telefone tocou pela primeira vez. Ela estava dormindo e não quis atender. "Quem é que tem a coragem de ligar uma hora dessas eim?". Tocou de novo. E ela foi atender.

- ESCUTE AQUI, SEJA LÁ QUEM VOCÊ SEJA, VOCÊ PENSA QUE PODE ME ACORDAR A ESSA HORA, É?
- Te acordei, foi? Desculpa.
- Ah, é você, Fernando. Tudo bem, vai. Mas faz isso de novo, não.
- Tudo bem. Veja, eu sei que fiz coisa errada com você. Mas tô arrependido por demais. Queria teu perdão, pequena.
- Já te perdoei, Fernando.
- E fingiu que não me viu por quê?
- E eu lá sou de fazer isso, garoto?
- Veja, eu fiz as pazes com as palavras pra conseguir te ligar e pedir perdão. Não queira usar a palavra "mentir" em tua defesa.
- Tá bom. Fingi que não vi. Vai ser melhor assim, Fernando.
- E posso saber o porquê?
- Eu tenho três meses de vida só.
- E você me contou só agora, é?
- E ia contar como? Se você nunca me ouve?
- Mas a gente não precisa se afastar. A gente pode viver esses três meses intensamente. Juntinhos. Sem nem pensar no que vai acontecer.
- Se as palavras estão do se lado, Fernando, você poderia não usar a palavra pena, por favor?
- Não é o substantivo pena. É o verbo amar. E verbos são os nomes das ações. E essa é a minha ação agora: Te amar.

Ele amou-a pelos três meses inteirinhos. Sem abandoná-la um que fosse. As palavras "eu", "te" e "amo" foram usadas a toda hora, em todos os dias. Até o dia em que a palavra morte chegou e levou-a consigo. Agora ele só tem as palavras como companhia.

Friday, January 11, 2008

Liberdade!

Há muito tempo sofro com as redações no colégio. Não que eu não goste de escrever, apenas me sinto limitado com os temas propostos. Por isso trago a vocês uma proposta a ser levada às suas instituições educacionais: Redação livre. Tá certo que o principal propósito da disciplina "Redação" nos colégios é preparar o aluno para fazer um bom trabalho no vestibular, mas nem que fosse um redação livre por trimestre, iria ajudar o vestibulando a ter suas ideias bem organizadas na cabeça, pois deixaria-o bem mais relaxado na hora da prova do vestibular.

Assim como os desenhos livres tinham como principal função exercitar a criatividade das crianças, as redações livres poderiam ter o mesmo efeito com os adolescentes prestes a enfrentar um vestibular, já que a originalidade é um dos pontos mais avaliados e também um dos mais raros de se encontrar no mesmo. Todos sabem que pelo menos 70% dos jovens não gostam de escrever. Acham chato, ou algo assim. Nunca pararam para perguntar o porquê disso? É claro que é o fato do tema ser proposto. Se o tema fosse livre, o jovem teria muito mais prazer em escrever.

Redação livre. Leve essa ideia adiante. Faça seus textos do jeito que quiser e não se importe se no seu colégio acharem eles ruins. Há quem goste! Mande para mim que vou adorar!

Tuesday, January 08, 2008

Sobre a falta de paciência repentina

Ando precisando de muitos conselhos. Ando mais bem acompanhado do que nunca fui e estou me sentindo bem assim. Só às vezes me sinto sem muita paciência para com os outros. Ultimamente, tenho tido muita vontade de ficar sozinho cinco minutos que sejam. E isso não é estranho, visto que estou mais bem acompanhado do que nunca? Caraca, tem vezes que nem eu me entendo. Deve ser porque eu sou um pé no saco mesmo.
Tenho descoberto muitas pessoas que não gostam de mim. E de novo me vem a pergunta: E isso não é estranho, visto que estou mais bem acompanhado do que nunca? Espero responder essa pergunta até o final desse texto. Até o final dessa fase. Até o final da minha vida. Como já comentado, eu sempre fui um cara sem inimigos. Nunca briguei com ninguém, nem muito menos alguém brigou comigo. Exceto minha irmã. Aí eu fico pensando: Será que então eu estou vivendo a fase mais chata da minha vida? Ou será que eu cheguei em alguma fase difícil de se passar sem nenhuma briga? Não, essa não vai ser mais uma pergunta sem resposta. Todos passaram, estão passando ou já passaram por essa fase e todos tiveram aquele certo alguém de quem não gostasse ou vice-versa. Todos. Sem exceção. De John Lennon à Marcelo Camelo, De Deus à Platão, De Antônio de Dona Nazaré à Paulo Autran.
Admito. Tenho andado muito chato com algumas pessoas ultimamente. Não vou citá-las todas aqui porque não só eu como esse texto se tornaria insuportável, mas peço-lhes desculpas. Alguns sabem de todos os meus problemas e procuram entender, outros não entendem nada. Mas nem a estes eu culpo. A responsabilidade é toda minha. Eu que não deveria ter deixado a minha chatice ultrapassar minha genteboasice, que sempre foi uma das minhas marcas registradas. Todos falavam pra mim “Leon, tu é tão legal”, hoje alguns dizem “Estás precisando de umas cosquinhas, estás muito chato hoje.” Estou, sim, precisando de umas cosquinhas. Mas das de certa pequena que não tem coragem nem de me abraçar com toda a sua pouca força. Tudo bem, os risos que tu me proporciona com a tua doçura e ingenuidade me servem como cosquinha. Mas a tua mão com a vontade única de tocar na minha ia ser de grande ajuda também.
Preciso de mais paciência, senão vou enlouquecer. Senão vou acabar sozinho. Preciso parar com essa grossura que me consumiu de uma hora para outra como um frio que chega sem nem pedir permissão. Mal educada, essa grossura. E eu não termino esse texto sem responder àquela pergunta. Não, não é de se impressionar. Quanto mais pessoas agradáveis entram no nosso círculo da amizade, mais olhar de onça vai olhar.
Desculpem, leitores e amigos.

Saturday, January 05, 2008

Conchinhas

Conchinhas que estão na minha frente agora, costumam te trazer à minha lembrança. São tão pequenas, tão carinhosas e tão doces. É tão difícil me ver sem ti. Vai, dribla os problemas, prncipalmente aquele maior. Por mim. Por nós.
Sempre fomos tão parecidos, não é mesmo? A nossa distância em quilômetros nunca significou nada perto das nossas conversas sempre muito produtivas, divertidas e intermináveis. Sempre soubemos o que dizer um pro outro, pequena. Eu me encontrava em ti, e sei que tu também te encontravas.
Teu cabelo sempre me pareceu lindo. O teu olhar cativante e tua companhia, a mais agradável. Tua mão delicada de bela moça. Ô, conchinha que está aqui na minha frente, quando? Quando ela vai notar que sempre simpatizei mais com ela?

Thursday, January 03, 2008

Leon no cassino

Atenção, trupe, postarei três textos que escrevi durante minha estadia no cassino. Meu computador não abre mais de três programas. Não consigo ficar sem ouvir música, estar no msn, com uma página da internet e no word ao mesmo tempo, então tô escrevendo direto aqui, por isso podem haver alguns erros de português e derivados. Peço desculpas antecipadas.


Parte 1 - A Viagem
Eu queria fazer uma crônica onde eu inventasse um navio. Daqueles bem grandes, pra colocar todas as pessoas que conheço. Todas elas: meus familiares(todos, os que gostam de mim e os que não gostam), meus amigos e até meus inimigos(alguém tem que morrer, afinal, esse é um texto meu, não é mesmo?). Nele, eu seria o grande capitão. Todos teriam que me respeitar e recorreriam a mim, se tivessem algum problema. Eu os levaria a todos os cantos do mundo, saberia tudo sobre todos os lugares e ensinaria aos passageiros todas as curiosidades sobre o país visitado. O navio teria uma jukebox com The Beatles, Teatro Mágico, Los Hermanos e The Strokes, para que todos se divertissem jogando sinuca e futebol. Eu seria o melhor em ambos e todos teriam medo de me enfrentar. Aquela garotinha dos olhos que brilham seria somente minha e diria que me ama de cinco em cinco minutos. Numa noite ocorreria uma grande tempestade e eu seria o herói do momento. Salvaria uma parte de meus parentes e meus amigos. Jogaria ao mar meus inimigos, para liberar peso do navio. Tubarões viriam e matariam todos. Depois eu voltaria pra casa, dormiria e sentiria que tudo não passou de um belo sonho.

Friday, December 28, 2007

Ex-pelho

Aproximei-me do espelho.Olhei-me e percebi que estava mais velho do que a última vez que o fiz. Apaguei a luz e então minha imagem quase não se via mais refletida. Relacionei o momento com a vida: Viver se resume em olhar-se no ex-pelho e, depois de alguns anos, olhar-se, agora no espelho e ver um rosto velho, mudado. Ficar olhando-se ali, até que a luz se apague e nada mais se veja.

Monday, December 10, 2007

O Ser Verde

Era uma linda garota triste. As lágrimas já se acostumavam a ofuscar o azul de seus olhos. As olheiras eram rotineiras, os seguidos dias sem sair de casa davam uma aparência suja, sonolenta e um mau-hálito deveras grande. Não tinha amigos, os poucos foram abandonando-lhe até o dia em que não sobrou nenhum. Os pais já estavam preocupados com a filha, "triste todo mundo fica, mas uma hora a tristeza gasta!".
Todos tentavam descobrir o motivo de tanta melancolia.
Namorado que a deixou? Ninguém deixaria uma pessoa tão linda.
Notas baixas? Aluna exemplar.
Então, o que seria? "Nada", respondia Camila quando indagada, com os olhos sem cores. Ninguém conseguia descobrir, pois era algo seu. Seu e de mais ninguém.
Foi, pois, num domingo de sol, céu azul sem nenhuma nuvem, que tudo mudou. Os pássaros sinalizavam como se soubessem - piu, piu, piu! -, mas foi outro animal o responsável. A garota deixou a porta aberta, levantou-se, serviu-se de suco e, ao voltar, levou um susto. Era Margarida, a tartaruga. Já nascera com esse nome, fora dado por sua mãe tartaruga. Camila supreendeu-se e em um só segundo pulou e gritou por sua mãe - em vão. Tão indefesa era Margarida, que só olhava a garota como quem diz: "sou tão feia e estranha assim?". "És, sim, feia, estranha e verde, como o musgo que dá no cimento", respondeu Camila com o olhar. Margarida, enfim, sorriu para aquelas lindas bolhas d'água, que estavam no lugar dos tristes olhos da menina triste. Camila sorriu de volta.
Dois meses se passavam e aquele ser feio, estranho e verde tirava a garota da cama. Margarida(parei agora, Tamires acaba de chegar) visitava Camila, a menina erguia os olhos, enfim azuis, e dava-lhe boas-vindas com os mesmos. Conversavam com o olhar durante horas. Aos poucos o tal ser feio, estranho e verde foi ganhando outras cores. primeiro o azul dos olhos de Camila, depois o vermelho do amor entre as duas. Mesmo assim, a garota continuava sem sair de casa, que mais parecia um túmulo cheio de tristeza.
Eis que o pior aconteceu: Margarida desapareceu. As bolhas d'água tornaram a ocupar o lugar dos olhos da menina. E agora, para quem ela iria dar as tão honrosas boas-vindas? Ninguém. Margarida era insubstituível. Nem os pássaros - piu, piu, piu! - poderiam tomar seu lugar. Camila, pois, resolveu ir à busca do ser feio, estranho e verde. Em vão, a tartaruga nunca mais fora achada. Mas não é que aqueles olhos azuis, enfim saíram para a rua?

Saturday, December 01, 2007

Pequenino Pedaço de Papel

Pintei a amizade escrita naquele teu pequenino pedaço de papel. Mas e de que adianta tanta cor se teu amor é tão incolor ao ponto de manchar o que pintei, de um cinza chuva tão sem graça?

Thursday, November 29, 2007

A Estrela

- É, enfim o fim? – disse-lhe quando estavam na beira daquele abismo.
- É, sim. Quer voltar? – respondeu ela, que sempre fora mais corajosa
- Nada, só me dá um daqueles teus abraços de urso que fica tudo bem.
- Logo agora?
- E agora tem hora pra abraço, é?
- Tem não, vem cá.
- Não quero sair daqui nunca mais.
- Não esperei esses 16 anos da minha vida por esse momento, pra passá-lo abraçada em alguém!
- Então segura minha mão. Vamos pular juntos.
- Por que tu gostas tanto de mim?
- Quer em ordem alfabética ou por preferência?

Algumas recordações:

- Jura que vai estar sempre comigo e vai segurar a minha mão no dia que eu morrer? – disse ela, aos seis anos de idade, deitada na grama mais do que verde do pátio de casa.
- Não precisava nem pedir, vamos viver juntos para sempre, grandes amigos! – respondeu ele com o coração.

- Tá vendo aquela estrela lá? – disse ele, apontando para o céu escuro e estrelado.
- To sim, por quê?
- Ela é a nossa estrela. Estrela da nossa amizade!

- Vamos trocar um pedaço de algodão doce? Tu me das um pouquinho do teu azul e eu te dou um pouco do meu rosa. – disse ela com os olhos e com a boca.
- Claro! Essa é mais uma tarde eternizada todinha nossa.


- Lembra que eu prometi segurar tua mão no dia da tua morte?
- A gente era criança, não se pode acreditar em promessa de criança...
- Pois eu levei fé. E não queria segurar a tua mão tão cedo.
- Que nada, eu cansei dessa minha vida que nada dá certo.
- E eu? Não dei certo na tua vida?
- A gente se encontra lá do outro lado daqui uns sessenta anos, tu ainda tens muito pra viver.
- E tu também! Sai desse lugar, vem comigo, te faço um suco e tudo vai se acalmar.
- Não quero suco! Deixe-me pelo menos morrer em paz, pelo amor de Deus!
- E eu, como fico se tu morreres?
- Tu vais ficar bem. És forte, irás superar, meu amigo.
- Nunca! Não saberei viver sem ti, não te lembras de quando éramos pequenos e prometemos proteger um ao outro? Pois então, cá estou eu!
- Já disse, esquece as nossas promessas de criança, tudo em vão, já esqueci tudo!
- Nunca vou esquecer, e sei que tu também não irás. Isso é só coisa de momento garota, vai passar, me abraça forte e todos teus problemas irão acabar.
- Só tu mesmo pra conseguir me fazer sair daqui. Eu te amo.
- Amigo é pra isso. Daqui a uns cinqüenta anos isso vai acontecer de novo, e eu vou fazer a mesma coisa. Tudo pra não te perder, minha grande amiga.
- O que ia ser de mim sem ti?
- No momento nada, pois irias morrer.
- Em qualquer ocasião, sem ti eu seria nada.
- Entende agora porquê te salvei?

Sobre o ódio à Matemática

Mais uma vez eu fui bem em Português, Literatura, Geografia e História e, não mais uma vez, porém também não raro, fui bem também em biologia no Simulado do colégio. Fui mal em Matemática, pra variar. Isso só aumentou meu horror por essa matéria. Tá certo que não estudo mais isso, mas quando na minha vida eu vou usar logaritmo? E números complexos? Nunca. Mesmo. Eu também não gosto muito de Física, mas pelo menos eu vejo a Física no meu dia-a-dia.
Esses dias, indo comprar pão em uma padaria próxima, eu e Luíza estávamos discutindo sobre isso. Nós, futuros jornalistas de sucesso, não precisamos saber de tudo isso, só precisamos saber somar, subtrair, multiplicar e dividir, e essa é bem a verdade mesmo!
O que me consola é saber que depois do vestibular nunca mais vou precisar estudar Matemática. Nunca mais números, só palavras, frases, textos. Crônicas, contos e estudos só nessa área! Adeus, mundo cruel da Matemática, não foi bom te conhecer!

Sunday, November 18, 2007

Entrevista com Leon Sanguiné

Leon Sanguiné é um desses novos escritores que estão encantando e estimulando os jovens a lerem e até mesmo a escreverem seus próprios contos. Fizemos uma entrevista reveladora com ele.

Redação: Então, Leon, como tu te sentes sendo uma das grandes revelações da literatura nacional?
Leon: Não me considero uma grande revelação. Grandes revelações fazem sucesso com seus livros de estréia e depois perdem a graça.
R: Quais são tuas maiores influências?
L: Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Fernando Sabino e Luís Fernando Veríssimo. E na linguagem a Adriana Falcão.
R: E de onde tu tiras inspiração para teus textos?
L: Escrever é coisa de momento. Não se escreve sem ter uma base e essa base varia de momento para momento.
R: Todos sabem que teus textos saem, em grande parte, do teu caderno de espanhol. Por quê?
L: A aula de espanhol tem um ar diferente. Um ar para escrever textos, não para estudar espanhol.
R: E o que tu fazes nas horas vagas?
L: Na verdade, eu escrevo nas horas vagas.
R: E nas horas não vagas?
L: Leio, jogo pife e futebol.
R: E os amores?
L: Escrevo.
Leon tem uma personalidade diferenciada, difícil de ser entendida e, até mesmo, de ser suportada. É preciso paciência para aturá-lo todos os dias, o próprio recomenda que as pessoas o vejam apenas uma vez por semana.

Friday, November 16, 2007

Idas e Vindas

Depois de muito tempo, se reencontram. E se beijam.
- A gente não presta mesmo, não é, Gabriela?
- Por que, Rodrigo? – ela responde, com um ar de quem sabe a resposta que vai ouvir.
- A gente diz que se odeia, mas é só se ver pra cair um nos braços do outro.
- É. Tu me deixaste sentindo tanto frio naquele inverno...
- Nem imaginas o frio que eu senti. Sem o teu abraço quente!
- Não era a mesma coisa. Eu sofri.
- Eu te amo desde aquela época. Desde antes, até.
- E aquela lá, que tu andavas até a pouco tempo?
- Sinto um friozinho na barriga por ela, admito. Mas por ti, eu me congelo. Congelo de amor.
- Será que dá certo?
- Não sofras por problemas antecipadamente, querida.
- Mas não deu certo aquela vez.
- Os tempos são outros. Certamente nossos nomes estão escritos naquela estrela lá no alto. Não é por acaso que eu to aqui e tu também.
- Tu falas tão bem.
- Por ti...
- O que ficou pra mim, desde então? Tristeza e só?
- Ficou o meu amor.
- E vamos viver a vida inteira com voltas e despedidas? Não vou suportar.
- É nosso destino. Não posso te prometer ficar aqui pra sempre. O pra sempre é hipócrita e não gosto de hipocrisia. Mas posso te dar todo meu amor agora.
- To com frio.
- Te aqueço com meu amor.
- Posso dizer que te amo?
- Deixa o verão pra mais tarde.

Wednesday, November 07, 2007

O Velho e o Moço

- Mas veja o senhor, seu Elias, o homem vive inventando jeito de tentar voar, igual a um passarinho!
- Só isso o homem não sabe fazer, guri, olha tudo que o homem já inventou por aí!
- Mas porque será que é tão difícil voar, eim?
- É justamente pro homem não se preocupar com uma besteira dessas e inventar coisa que preste!
- E voar não presta?
- Não.
- Mas então por que o homem quebra tanto a cabeça pra tentar voar?
- Porque não tem mais o que inventar, tudo que precisava já foi inventado. Podíamos viver assim, como estamos hoje.
- Os pais, avós, bisavós do senhor também pensavam assim e olha tudo de útil que já foi inventado desde então.
- É que o homem sempre aparece com uma necessidade nova.
- E voar não é uma necessidade, não, é?
- Não, pra quê que homem algum vai querer voar, menino?
- Muitos humanos já pularam daqueles negócios em cima das pontes, já foram pra Europa de avião...
- Tudo humano inútil! Voar não é coisa útil, não.
- Mas, então, todos somos inúteis, pois não só voar é uma coisa inútil!
- Vem cá, tu não fez teu tema ainda, não?

Tuesday, November 06, 2007

O Sófá

Conheci Manuela numa janta na casa do João. Gamei. Sentei ao seu lado no sofá azul.
- Fica assim do meu lado, por toda a vida, eu bem pertinho de ti?
- Sim.
- Sério?!
- Talvez. Me beija.
Beijo. Olhos brilhantes. Olhar de criancinha.
- Gostei. Agora me abraça.
Abraço. Olhos fechados. Aperto.
- Amei. Vou ficar.
- Minha vida é isso. Não preciso de mais nada, só desse sofá azul representando o céu e os teus olhos, como as estrelas.
- Tenho que ir.
- Pra sempre?
- Pra casa.
- Ah. Te vejo amanhã?
- Talvez. Me beija.
Marcamos de nos encontrar no outro dia. Manuela abriu a boca para falar, mas intervi e falei antes.
- Olha, sei como é. Pode ter sido algo de um dia só, ou sei lá, podes ter encontrado alguém.
- Só ia perguntar porque demoraste tanto.

Saturday, November 03, 2007

Sobre os Hermanos

Faz muito tempo, eu tava vendo um clipe estranho de um show na MTV e a minha mãe falou: “Essa música deve ser boa, pena que não dá pra entender nada que esse cara fala”. Era o clipe de “O Último Romance”. Uns dois meses depois, ela me disse que queria em apresentar uma banda. Eram os Hermanos. Aí comprou o Ventura e se apaixonou. Mas eu não curtia muito, não.
No início desse ano, eu comecei a ouvir Los Hermanos bastante. Mas ainda não era a minha banda predileta. A voz do amarante, os teclados do Medina e as letras do Camelo não eram meus preferidos, mas era questão de tempo, e eu sabia. Hoje eu não vivo sem e comprei mais dois CD’s deles – o Ventura continua sendo meu predileto -.
É uma tarefa dificílima classificar os Hermanos em algum estilo musical. Rock? Nem peso tem direito! Samba? Não tem pessoas e nem instrumentos o suficiente. Mas pra quê classificar? Esse é o charme, a graça da banda. Se classificar, fica chato, perde a graça. As letras de amor bala de goma do Camelo, as de amor intelectual do Amarante, nada disso pode ser rotulado.
Muita gente diz: “Não gosto de Los Hermanos, Anna Júlia é um porre”. Anna Júlia é a primeira música de sucesso, não tem nada a ver com eles. NADA! E aí vem mais um fato interessante sobre eles. Quando essa música foi lançada, todos pensavam que seria mais uma banda de um hit só, mas, contrariando a todos – inclusive a mim, admito -, os caras lançaram mais três discos depois, se tornaram uma das melhores bandas do país – pra mim a melhor – e criaram uma legião de fãs pelo Brasil a fora. Essas pessoas que vêem os Hermanos só como Anna Júlia precisam é ouvir as outras músicas e não pensar que é apenas mais uma banda de um hit só.
O que mais em impressiona no Camelo é a doçura das letras e músicas, o jeito como as duas se encaixam perfeitamente uma na outra. O modo como “És perfume de rosa na mão” consegue ser cantado de um jeito que traz mais doçura ainda para a frase. O melhor do Amarante é, com certeza, a sua voz. É aquela coisa bêbada com sono, mas nada forçada. Aqueles “UUH UUHH AAH AAH” que tem tudo a ver com a cara dele, o jeito com que a voz, as roupas, a barba e as caras que ele faz se encaixam. E eu imito igualzinho! É algo inexplicável o meu amor pelos Hermanos!
Experimenta andar pelas ruas ouvindo as músicas deles. Se for um dia de sol e tu estejas com vontade de olhar pro céu e para as nuvens, ouve “O Vento”, se encaixa perfeitamente! Mais perfeito ainda é observar o movimento da rua através de um ônibus ouvindo “Conversa de Botas Batidas” – a minha predileta -. É impressionante, parece que eles estiveram no mesmo lugar, olharam para as mesmas coisas e, inspirados por aquilo, escreveram a música.
Todo mundo deveria conhecer Los Hermanos. Devia ser um direito universal. O cara nasce e logo ganha um CD deles. Certamente o mundo seria melhor. Seria mais feliz, alegre e saltitante. Seria mais bala de goma.

Tuesday, October 30, 2007

Máquina Dos Sonhos - Parte VII

Demorei a acreditar que tinha atirado em alguém – que tinha matado alguém. Acordei com meu pai me chamando para almoçar. Eu sabia que tinha dado certo. De alguma maneira sentia que Labarthe estava morto.
– Pai, meus amigos demoraram em ir embora?
– Claro que não, tu dormiste de repente, queria que eles ficassem aqui?
– E eles chegaram bem em casa?
– Era sobre isso que eu queria falar contigo.
A confirmação.
– Labarthe levou um tiro.
– Morreu?
– Sim. Sinto muito, meu filho.
– E já sabem quem foi o assassino?
– Não, mas não se preocupe com isso. Sei que perder um amigo é muito complicado.
– Tudo bem, pai. Vou ficar bem.
Consegui, com muito esforço, disfarçar minha felicidade. Ele morreu. Meu segredo não foi revelado. Não senti nem um pouco de remorso. Resolvi que, por ser meu único amigo e conhecer toda a trama, Rafael tinha de saber que eu era o assassino de Labarthe. Chamei-o para minha casa.
– Para que tu me chamou aqui, Vitinho?
– Rafael, o que tenho para te contar é muito sério e tem de ficar apenas entre nós dois!
– Tudo bem, cara, sabes que podes contar comigo!
– Estás sabendo da morte de Labarthe, certo?
– Claro, um horror, mas o que tem a ver com o que queres me contar?
– Fui eu.
– Foste tu o que, Vitinho?
– Matei Labarthe.
– Como? Tu tava dormindo!
– É uma história muito longa, senta para que eu te conte.
– Conte.
Contei toda a história, em seus maiores detalhes para Rafael. Desde a parte da descoberta do botão, até o barulho de morte que tem uma arma.
– Não acredito que tu fez isso, cara!
– Ele ia contar para todos sobre a minha máquina!
– Essa máquina ta acabando contigo! Joga isso fora, porra!
– Eu te chamei aqui para me ajudar, Rafael, se não fores me ajudar, pode ir embora!
– Não precisa dizer duas vezes, estou indo!
Irritei-me com Rafael. Como ele pode não pensar que eu tive meus motivos para matar Labarthe? Como pode não compreender? Mas eu tinha outras coisas mais importantes para pensar, precisava saber como iria fazer para ter Lívia ao meu lado. Claro que tu já deves ter pensado na mesma coisa que eu. A Máquina dos Sonhos.

Wednesday, October 17, 2007

E eu?

Faz tempo que eu não tenho nada que me deixe feliz de verdade. Sabe... cantar de felicidade. Isso deveria ser um direito natural de todo o ser humano. Até mesmo pra mim, um completo idiota, magro, feio, baixinho e estranho. Isso mesmo, sou tudo isso! Mas e daí? Só porque sou essas coisas que acabei de citar, não tenho direito de cantar de felicidade? Se fosse assim, muitas pessoas que conheço não teriam esse direito. Mas elas têm. E eu não. É que elas têm motivos para estarem felizes, ao contrário de mim, que sou um completo fracassado.
Eu me olho no espelho e tento fazer uma rápida biografia de mim mesmo. Leon Sanguiné, 15 anos, estudando e... e o que mesmo? Nada. É isso que eu sou – um nada. Com a minha idade, Vitor Ramil já tinha feito “Estrela, Estrela” há três anos. Aos 17, a Clarice publicou “Perto do Coração Selvagem”. E eu? E o Leon, o que ele fez de produtivo nesses 15 anos de vida? Pois é, mais uma vez chego àquela resposta simples e clara: Nada. Não fiz nada de marcante. Nem pra mim, nem pra ninguém. Um simples gesto. Nem isso eu fiz.
Eu estou prestes a aparecer no jornal mais lido da cidade. E daí? Nem metade dos meus amigos vai ler. Muito menos pessoas que não conheço. Fiz a entrevista com todo amor, carinho e afeto, mas sei que, no final do dia, aquilo vai pro lixo. Quem é que vai querer ler uma matéria de um tal de Leon, que é feio e nem cara de inteligente tem? Ninguém. Ta, ninguém é uma palavra muito forte. Algumas pessoas. Mas essas “algumas” limitam-se a umas cinco. Poderia até citá-las aqui, mas não vou fazer isso.
Minha existência é tão insignificante, que creio não fazer diferença alguma na vida de ninguém. Nem para o bem dessas pessoas, nem para o mal. É tão insignificante, que às vezes não sem nem onde jogar meu corpo. Essa é a minha definição – um corpo que só faz volume aqui no mundo.
Já passou da hora de eu fazer alguma coisa que preste, alguma coisa marcante na minha vida. Alguma coisa que mais do que cinco pessoas leiam. Alguma coisa de impacto. Podia ser do tipo ser uma pessoa melhor pra conversar, já que, segundo a minha mãe, eu não sei conversar e tranco as conversas. Feio, chato, idiota, baixinho e estranho vou continuar sendo. Mas, pelo menos, vou ter algum motivo para cantar de felicidade.

Thursday, October 11, 2007

Máquina dos Sonhos - Parte VI

– Não contes para ninguém sobre isso, Abreu!
Já era tarde. Ele nem me ouvia mais, estava muito bravo.
– Lívia, a nossa colega nova, tem seus sonhos todos aqui, o que estas pensando, cara?
– Estou apaixonado por ela.
– É? Então já sei como me vingar. Ela vai ser a primeira a saber!
– Não faças isso, por favor!
Fiquei sem reação. Como eu podia impedi-lo de contar da máquina para todos? Se ao menos eu vivesse no mundo dos sonhos. Isso seria imediatamente resolvido. Não pensei duas vezes e empurrei Labarthr tão forte que ele caiu sobre minha cama, batendo a cabeça na parede. Cheguei à frente da máquina e apertei o botão “Mu.D.So” e fui direto ao mundo dos sonhos, para tentar achar um jeito de mudar aquela situação.

Chegando lá, fui até minha casa para tentar achar, dentre os botões da Máquina dos Sonhos, algum que permitisse a transferência dos fatos que ocorriam naquele mundo, para a realidade. Lembrei de que precisava querer aquilo para que, então, o botão surgisse. Concertei-me naquele desejo e o botão apareceu. Apertei-o. “TU TENS DUAS HORAS CRIAR A CENA QUE SERÁ TRANSFERIDA”, foi o que apareceu na tela. Não perdi tempo e procurei Labarthe.
Depois de dez minutos, achei-o na praça da cidade, sozinho. Resolvi conversar com ele, para saber se ele já sabia da Máquina.
– Bom dia, Abreu.
– Ó, Duarte! Como vai?
– Vou bem... Por acaso foste em minha casa hoje?
– Não, não, por quê?
– Por nada... Bem, tenho de ir, tchau, Abreu!
– Tchau, Duarte, não te esqueças do nosso trabalho, amanhã em tua casa!
– Não vou esquecer!
Obviamente minha resposta foi de cunho hipócrita, pois na verdade eu tremi nas bases, por saber que o trabalho iria existir mesmo e pior: Seria amanhã, e não dentro de duas horas! Fui para a casa, para poder pensar em uma solução para aquilo.
Deitei em minha cama e fiquei pensando em um modo para impedir Labarthe de saber da máquina. A conversa com Labarthe havia me tomado trinta minutos que, somados com os dez do tempo que demorei para achá-lo, já eram quarenta minutos que eu não tinha mais. Cada minuto é um minuto roubado da morte. No meu caso, cada minuto é um roubado da revelação que terminaria com minha vida. Mais vinte minutos foram. Agora eu tinha apenas uma hora. Metade já tinha ido.
Muitos pensamentos me consumiam naquele momento. Até que tive uma idéia, que de princípio achei absurda, mas depois de passados mais dez minutos – agora só me restavam cinqüenta minutos – tive de convir que era a única solução. Contra minha vontade, liguei para Labarthe.
– Abreu?
– Sim, Duarte?
– Podes ir até à praça dentro de no máximo trinta minutos? O trabalho foi transferido para hoje, Cosme não poderá nos encontrar amanhã, mas hoje ele pode.
– Sem problemas, estou indo!
– Tchau, Abreu.

Corri até a praça. O que era aquilo em meus bolsos, que eu tocava com minhas mãos, agora cobertas por luvas? Nunca havia tocado naquilo, nem sequer tinha visto algo daquele gênero! Vi Labarthe vindo em minha direção. Dez minutos.
– Olá, Abreu, vamos até aquele beco, Cosme nos espera lá.
– Naquele ali, deserto e escuro?
(cinco minutos).
– Sim, vamos rápido! – falei olhando para o relógio.
– Ta bom.
(três minutos).
– Olha, Abreu, eu juro que não queria fazer isso!
(dois minutos).
– Fazer o que, Duarte?
– Tu mexeste com o que não devia, tens que pagar por isso...
– Mexi com o que? O que eu fiz?
(um minuto).
– Comigo, agora sem mais explicações!
(cinqüenta segundos).
Tirei aquilo que estava no meu bolso. Era uma arma. Sim, daquelas dos filmes americanos. Tremi.
(trinta segundos)
– Desculpa, Abreu!
Atirei.

Wednesday, October 10, 2007

E Se Houver?

- Fiz Tantas cartas pra ti, Fernando!
- Elas nunca significaram nada para mim, Mariana.
- Não diz isso, meu amor!
- Tuas palavras só me fizeram dormir!
- Vou começar a chorar...
- Tua vida ta só começando, garota, não serei o último homem que te terá.
- Tens que aprender a amar, Fernando, estou disposta a te ensinar.
- Mas e a guerra?
- Um dia cessará.
- Mas e o sangue?
- Será estancado um dia.
- Não posso ficar!
- Mas e o amor?
- Deixará meu peito.
- Como?
- A guerra tomará minha atenção.
- Mas tu vais até lá para cessá-la, se teu desejo é de terminar com a batalha, não será tempo o suficiente para esquecer o amor!
- E quem disse que quero esquecê-lo? Eu tenho de esquecê-lo, mas esse não é meu desejo.
- Fica!
- Não posso, Mariana.
- Mas e nossos antepassados, que lutaram para não morrer, só para que nós nos encontrássemos um dia?
- E achas que não penso neles? E as estrelas, então, que estão lá só para ficarmos eu e tu olhando para elas, admirando-as e a nós mesmos.
- Que lindo, Fernando!
- Não quero que aches lindo. Isso só deixará tudo mais difícil.
- Mas eu te amo, meu guri!
- Irás achar alguém melhor que eu.
- Nunca. Meu amor é só teu.
- Deixa o amor!
- Não posso deixá-lo como deixo o verão pra mais tarde!
- Los Hermanos já é demais, Mariana!
- Preciso da ajuda deles para te trazer de volta pra mim, pois não estás mais aqui.
- Eu estou aqui ainda. Tenho tempo para mais um beijo longo.
- Assim vai ser mais difícil...
- Deus sabe que vou me atrasar por um bom motivo.
- Não coloques Deus no meio, Ele não tem culpa por não teres coragem.
- E se eu ficar?
- Pra quê? Te darei meu amor só até uma próxima guerra.
- Acredito em meus companheiros, farão de tudo para não haver mais guerras.
- E se houver?
- Pra quê se preocupar com o que virá? Viva agora o momento que estamos passando, deixa o futuro pra depois.
- Tenho medo de te perder de novo, Fernando, um dia irás morrer nesta maldita luta pela paz e pela liberdade!
- Meu avião partirá daqui a pouco...
- Vá. Será melhor pra ti.
- Vem comigo, Mariana?
- Uma mulher, na guerra?
- Tenho casa no local onde vou batalhar, podes ficar lá.
- Mas e nosso sonho de morar nas estrelas?
- Eu as trago pra ti.

Thursday, September 27, 2007

À Quatro Mãos


"Alô, James?"
- James?
- Sim, aquele moço alto, moreno, de smoking branco que atendeu o telefone no bar, fumando seu charuto. Diga me Leon, charuto ou cigarro?
- Charuto.
- Cubano?
- Esse mesmo. Com sua cartola cinza. Não esquece dela.
- Nunca!

Apoiado com um pé no chão, o outro entre as pernas do banco.

- Ele tem barba, sim?
- Barba... ou seu bigodinho negro bem fininho separado no meio, estilo anos 60, para combinar com o cabelo lambido de gel dividido pro lado - penteado meio pro lado, meio pra traz. Com o brilho fosco do gel já seco. Seco como sua boca que é umidecida pelo copo de dry Martini...
- Caraca, ele é da máfia italiana, pelo jeito.
- ...já sem azeitona - afinal, é a primeira coisa que ele come quando pede um desses.

"James, acordei e não te vi ao meu lado na cama. Porque saíste tão cedo?"
"Fui tratar de negócios, querida Elizabeth.”
"Gostei da rosa vermelha. O verei de novo?"
"Talvez, por enquanto contente-se com mais essa xícara de chocolate quente.”
"Como chocolate quente, James? Bebo desta xícara de café que me manterá acordada pensando em ti...”

- Juro que tento fugir do romantismo e do café... mas vivo pra/d eles.
- Odeio café

"Sem romantismos, Elizabeth, ele não te levará a canto algum..."
O telefone é batido no gancho. Ele se levanta em um movimento só, pega sua cartola cinza de cima do balcão e diz ao garçom que voltará. O garçom olha para a moça que está aos prantos e pergunta se pode lhe ser útil em alguma coisa. Elizabeth diz: "Traga-me de volta aquele homem que tanto amo!"

- Mas eles estavam no telefone. Ela não tava no bar...
- É? Putz, reformulando.

Elizabeth começa a chorar mares de lágrimas no sofá preto de dois lugares e sua mãe, a bela senhora Ana, tenta consolar a filha: "Minha tão amada filha, no que posso ajudar-te?" Elizabeth responde em meio ao choro: "Oh, minha mãe, ele não vai voltar! Eu sei que não vai!" Ana, que só pelo nome apresenta força, mulher sempre revolucionária e feminista. Pergunta se deveria tomar alguma providência para que ajudasse o estado deplorável de sua filha mais nova, sempre tão sensível.
A delicada Elizabeth com sua pele de pêssego maduro, avermelhada de tanto choro, suplica uma mão de ajuda. Ana não esconde a raiva que lhe toma agora e diz que irá fazer de tudo para encontrar o mafioso. Vivo ou morto.
"De que adianta, mamãe? Ter seu coração em minhas mãos não traz seu amor para mim" Realmente Elizabeth tinha razão. Mas mal sabia ela que James havia sido pego em uma arapuca montada pela máfia russa e agora está em mãos adversárias, podendo ser morto a qualquer momento.
Os russos lhe avisam que ele possui um único último pedido. Contrariando os que pensavam que o italiano pediria um telefonema, James pede apenas um momento de prazer: uma xícara de café e um charuto cubano. Pensa em um modo de avisar seus companheiros que foi pego, mas como? Não há como avisar ninguém, os russos são bons na resistência! Vem-lhe ao pensamento Elizabeth. Como avisar a moça da pele de pêssego? Seu pedido já havia sido feito.
James não tinha medo da morte, poucos sabiam que na sua infância ele tinha presenciado a morte de um pássaro com a asa quebrada, lá estava ele em um canto do quintal, observando, analisando, anotando. Aprendeu que existem certas coisas que não se pode fugir. Mas Elizabeth, diferente da morte, algo em Elizabeth não deixava sua mente descansar. O que seria? O que seria?

No momento em que pensava, aparece um pássaro preto, que piava sem parar, só então Elizabeth pôde perceber que se tratava de Golias. O pombo correio que servia de comunicação da mocinha com o mafioso, enquanto ele estivesse em alguma missão perigosa. Golias sabia sempre onde o casal se encontrava, não errava nunca...
Grande pequeno Golias enfeitava o silêncio enamorado, salvava o silêncio aflito. Pairava sobre o ar procurando um jeito de ajudar o jovem casal. Mas claro! O pequeno amor amarelo... Que outro lugar havia tal flor delicada senão em Pettsburg e seu clima à parte. Seu clima frio e seco acendeu o amor de Elizabeth e a fez escrever uma linda carta para seu amado mafioso, na sua bela e tão maltratada máquina de escrever.

- Acho melhor tu escrever a carta, tem mais romantismo.
- iiiiiih
- Faça metade que eu faço metade, que eu quero fazer também.

"James,
Venho dias a pensar em como te fazer achar a saída do labirinto que entraste ao começar a viver em meu coração. Espero um dia poder ter a ti do meu lado, sem preocupações, falta de explicações ou a insegurança de estares vivo ou não, me amando ou não. Escrevo com letra trêmula de quem não deseja dizer adeus, não tendo mais opções a não ser essa. Escreveste ao meu lado, presente ou não, a minha história e de meu passado não sairás. Nossa história está marcada em folhas que de tão antigas estão amareladas, desejo do fundo de meu coração que o mesmo não aconteça com nosso amor. Que a mancha de café em meu lençol saia e que de tão quente não tenha queimado meu coração. Espero-te de braços abertos, mas me perdoe se não conseguir sustentá-los por muito tempo - o tempo pesa. Nosso amor não pode ser previsível como o que vai aparecer nessa máquina após eu apertar a próxima letra. Não deixe que nosso amor se torne apenas mais um. Não me deixe com todas essas esperar citadas aqui. Deixo-te com a espera de cada pensamento meu ao escolher cada palavra para dizer em poucas o que em uma boa explicação não falaria. Tentei. Com amor, escrevo minha última espera: que me tragas uma carta datilografada em folhas amareladas de resposta, onde tenhas apagado todas as outras esperas minhas que trago até ti. Até breve.”

Elizabeth com uma caneta de pena assina acima da moldura da folha, seu nome com tanta calma que acaba deixando um borrão de tinta no final de seu H puxado... tornando a carta tão mais humana.
A moça entrega a carta a Golias, que com um rosto sábio como quem diz "Confie em mim". Sai voando pela janela, carregando toda a tristeza e as esperas de Elizabeth.

- Onde fica a cidade mesmo?
- Numa distância de milhões de gotas adocicadas.
- Isso é bom. Mas acaba com a lógica que eu ia seguir, então segue, por favor.
- Não queres seguir a tua?
- É, acho que dá.

Da cidade que fica a uma distância de milhões de gotas adocicadas até Moscou, o caminho era longo, e o pássaro tomou todo o cuidado possível para não deixar cair nem um pouco da tristeza e das esperas de Elizabeth. E como é sábio, esse pombo! Chegou ao cativeiro na qual se encontrava James e entregou a ele a carta. O mafioso reconheceu sem hesitar seu carteiro tão fiel. Recebeu em mãos o papel, pouco afetado pelo tempo, e abriu-o com cuidado e respeito. Leu, releu, olhou para o céu. Que isso? Uma lágrima. Ele que sempre brincara com corações, descobrira aonde o seu residia. Decidiu que iria tentar de todas as formas se livrar dos russos. Não por si e sim por Elizabeth, pessoa que o amava mais do que ele próprio fora capaz de um dia amar a si. Pensou um pouco e formulou seu plano. Começou a conversar com um dos guardas que acabara por virar seu amigo dentro do cativeiro. Sem titubear muito mais lhe acertou um certeiro golpe no abdome que deixou o guarda desacordado. Pegou a arma do russo e partiu em disparada. Conseguiu passar sem problemas por mais três ou quatro inimigos, mas o cansaço do italiano já era um dos aliadas dos russos e seu rendimento foi caindo.
Quando finalmente conseguiu chegar perto da porta da saída, aquele primeiro guarda que James havia acertado um soco no abdome, joga uma pedra em sua cabeça. James morre. A cartola sai voando pelos ares de Moscou. Golias sai voando, assustado, desamparado. Elizabeth sentada em sua cômoda, penteando seus cabelos negros e pesados, sente um vento em seu rosto. A rosa vermelha cai no chão e independente de seus espinhos que usa de proteção, perde suas pétalas na luta entre a gravidade e a força do vento. Elizabeth fecha os olhos.

Ana pergunta se a filha deseja alguma coisa. Elizabeth se resume em responder: "Obrigado, mamãe, mas não há mais o que fazer: A rosa despedaçou-se, o charuto não acende, o telefone não toca, a cartola já saiu voando e o café? Esse já esfria junto ao meu amor e não conforta mais minhas esperas agora eternas".

- Fim?
- Eu diria que sim.



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Monday, September 24, 2007

Satolep noite

Satolep quase 20 horas. As pessoas se dirigiam para suas casas mais cedo por causa da chuva e do frio. Mas eu fiquei por lá. Perto do aquário, ali naquela ruazinha entre ele e a Doçaria Pelotense. Eu não fui o único a passar por ali no momento, mesmo com a maioria se recolhendo aos seus aposentos, alguns humanos passavam por mim ainda.
O frio entrava por entre meu blusão vermelho de decote V. Resolvi tirar algumas fotos. A primeira saiu tremida e não a aproveitei muito bem. Não me abalei e resolvi tirar outras, até que finalmente consegui a foto ideal: Pegava a noite, o aquário, a chuva, a temperatura e as pessoas andando. Guardei aquela.
Andei até a Praça Coronel Pedro Osório e, no caminho, me deparei com o precário estado da Bibliotheca Pública. Enquanto a prefeitura, o Mercado Público, a Casa da Banha e o Grande Hotel tinham sido pintados, ela continuava lá: Com uma aparência péssima e sem cuidado algum. Tirei algumas fotos do Grande Hotel e da prefeitura, mas nenhuma superou a do mercado – uma aparência antiga, a rua vazia e ainda a prefeitura no canto. Aquela foi a minha preferida, ganhei o dia por causa dela!
Senti fome. Andei mais uma vez até a ruazinha entre o aquário e a Doçaria Pelotense e notei que a última ainda estava aberta. Quando entrei, pude escolher em qual mesa me sentar, pois pela hora que já era a doçaria já não estava mais tão movimentada. Pedi um chocolate quente para espantar o frio. Para me distrair enquanto esperava a bebida, fiquei tirando mais algumas fotos da rua. Passou por mim um casal de velhinhos muito simpáticos abraçadinhos. Não resisti, foto deles! Recebi meu chocolate quente e não pude deixar de registrar aquele momento e tirei uma foto de mim mesmo com o chocolate quente em contraste com a rua.
Acho que as pessoas ficam me olhando quando fico tirando fotos de tudo assim, como hoje. Olhei o relógio. Era tarde, tinha de voltar para a casa. Andei na chuva até a parada de ônibus. Já passava das 21 horas e o centro da cidade já estava deserto. Confesso ter ficado com um pouco de medo, temia por minha câmera com as fotos desse dia que estava sendo tão especial. Enfim cheguei seguro em casa. Estava cansado demais para fazer outra coisa senão dormir. Vesti meu pijama, coloquei um CD para tocar, apaguei a luz e me enfiei para debaixo das cobertas. A cidade me deu o seu boa noite.

Thursday, September 20, 2007

Máquina dos Sonhos - Parte V

A sigla significava “Mundo dos Sonhos”, deduzi isso quando cheguei a ele. Lá tudo era no estilo bala de goma: Bom, colorido e doce. As pessoas eram educadas e legais. De repente vi Rafael vindo em minha direção. Junto dele vinham outros garotos – todos amigos meus, no Mundo dos Sonhos. Andávamos pelas ruas quando vi Lívia olhando e sorrindo pra mim. Sorri também. Ela se aproximou cada vez mais e eu, sem entender nada, continuava apenas sorrindo. Lívia me abraçou e me beijou. Só aí pude perceber: Aquele era o meu Mundo dos Sonhos.
Eu era considerado muito especial naquele lugar e não queria sair de lá nunca mais, mas sabia que esse sonho não duraria muito tempo. Mal tive tempo de pensar em uma forma de ficar lá para sempre e vi meu pai vindo com uma mulher linda. Eu sabia que a conhecia de algum lugar, mas não sabia de onde.
– Pai! – chamei-o.
– Filho! – responderam os dois, para meu espanto.
– Quem és? – perguntei para a moça.
– Como que sou eu? Sou sua mãe! – respondeu ela, com um tom de reprovação.
Mais uma comprovação de que aquele era o mundo dos meus sonhos, pois meu maior desejo era rever minha mãe, que havia fugido há muitos anos com um homem e abandonando meu pai, que teve de ser um pai e uma mãe para mim ao mesmo tempo quando eu ainda era um bebê de colo. No Mundo dos Sonhos eles se amam, andam de mãos dadas e mandam beijos um para o outro o tempo todo. Gostei daquilo, também.
Passei a tarde toda abraçado em Lívia, que me retribuía com beijos bons e tudo que eu sempre sonhei. De repente, um grande vendaval invadiu a cidade e, quando dei por mim, tinha voltado para meu quarto, na vida real, com meu pai me chamando para o almoço.

– Dormiste a tarde toda, Vitor, estavas cansado?
– Não, eu estava tendo um sonho muito bom, seria uma pena acordar. Pai, tu nunca mais procuraste a minha mãe?
– Nos primeiros anos eu até fui atrás dela, mas depois acabei desistindo e me conformando que tua mãe não era mais minha.
Fiquei um tanto quanto triste com aquela resposta de meu pai.
No dia seguinte, no colégio, encontrei Lívia. Olhei-a com ternura, mas ela ainda nem me conhecia. Ah se eu pudesse me mudar para o Mundo dos Sonhos! Fui para a aula. Tive de formar um grupo para um trabalho com mais dois colegas – um deles Rafael e outro chamado Labarthe, que eu não tinha muita intimidade, mas entre os outros, era o “menos pior”. No final da aula, levei Rafael e Labarthe para a minha casa, para concluirmos o trabalho. Almoçamos e fomos para meu quarto. Falei para Rafael que precisava contar-lhe algumas coisas mais tarde. Para meu azar, a Máquina dos Sonhos estava piscando, por falta de bateria, afinal, minha viagem havia gastado muito dela. As luzes chamaram a atenção de Labarthe.
– O quê é aquela luz piscando ali no teu armário, Duarte? – chamou-me ele pelo meu sobrenome.
– Não vás aí, Abreu! – chamei-lhe também pelo sobrenome, assustado.
– Por que não?
– Porque estou te pedindo!
– Blá, blá, blá... Olha, “digite um nome”!
– Por favor, Abreu!
– Vou digitar meu nome... “Labarthe Fonseca Abreu”.
– Última chance!
– Pensar na pessoa? Vou pensar em mim.
– Cosme, tente impedi-lo! – implorei para Rafael, mas já era tarde.
– Como assim? O meu sonho aqui, direitinho como eu sonhei ontem? O que tu tens a dizer em tua defesa, Duarte?

Saturday, September 15, 2007

Porcelana

Era do estilo “bonequinha de porcelana” – olhos azuis, pele clara e um cabelo escuro e arrumado com um daqueles plic plac. Lembro de minha mãe achá-la bonita, assim como eu. Namorava com um cara bonito, legal e popular, mas que eu sentia que não conseguia dar amor a ela Eu os olhava como quem quer separá-los para poder tratá-la devidamente como merece. Senti seu perfume quando fui me despedir. Apertei a mão dele cinicamente e com uma pitada de inveja. Ela me deu um tchau meigo, mas não diferente dos outros, nem ao menos olhou para meu rosto. Nem saber meu nome ela sabe.

Conheci-a através de amigos. Achei linda, de primeira mesmo, mas nunca tive coragem de conversar, tentar criar uma amizade ou algo parecido. Demorei muito e ela o encontrou. Um cara mais bonito e mais popular que eu, mas que não tinha metade das coisas em comum que eu tinha com ela. Eu precisava fazer ela me notar, mas como? Como eu poderia aparecer sem chamar muita atenção, somente para ela saber da minha existência?

Fui a uma janta de amigos e ela estava lá. Fitei-a nos olhos – azuis que, com a forte maquiagem, se ressaltavam e ficavam ainda mais belos. Ela olhou-me e desviei o olhar rapidamente. Ele viu que eu a estava olhando. Ficou me fitando como se com aquele olhar pudesse me pulverizar. Passei a odiá-lo. Ela buscou mais um copo de guaraná e mais algumas coisas que ele havia pedido, o que me deixou mais raivoso, pois ele nem sequer olhou para o rosto dela! E vi que ela ficou chateada. Fiquei feliz.

Depois de alguns dias, a vi de novo, em outra janta. Ele estava junto dela como um cão de guarda. Não resisti. Respirei fundo, corri, empurrei-o e beijei-a como nunca havia beijado alguém antes. Seu nome era Ana.

Saturday, September 08, 2007

A Humanidade Segundo o Pobre Relógio

Esse troço aqui ta ligado? Beleza, então. Posso começar? Então ta.

Bom, eu sou um relógio. Vai rir? Tenta rir depois do que eu vou falar. Eu to cansado desse negócio de ser um relógio. Não que eu não goste de ser um relógio, eu não aturo a tal subordinação a qual somos expostos pela humanidade. Ô raça maldita, essa.

Ta certo que tenho que agradecer por ter sido inventado por eles, mas poxa vida, de uns tempos pra cá, esses caras perderam a noção de poder! Estão me deixando louco! São capazes de em uma mesma hora, querer que a mesma passe rápido e devagar. É demais para um simples relógio! Sem contar os cucos, pobres pássaros escravizados para que humanos não percam a hora. Não sei se odeio mais a humanidade ou as horas, que já perdi o controle sobre elas. De uns tempos pra cá, inventaram até bomba com o meu pobre nome! Bomba-relógio vê se pode!

Hoje em dia, outro fato ruim na qual eu sou identificado é o tal “tempo é dinheiro”. Se fosse assim, eu seria um direito de poucos e mal usado por esses poucos. Sem contar que pessoas fazem de tudo por dinheiro, até matar. Imagina se fizessem isso por mim? Eu não suportaria. Aí me vem gente querendo criar máquinas do tempo, pra me controlar. O que é isso?! Pediram minha opinião por acaso? Pensam que é bom pra mim que exista um tempo artificial por aí? É como se eu fosse demitido e colocassem um robô no meu lugar! Ora, vá se danar, humanidade!

Eu falei tudo isso apenas pra dizer isto: Estou me demitindo. É, isso mesmo, não agüento mais essa pressão de ficar andando mais rápido ou mais devagar, das pessoas dizendo que não têm tempo pra isso, não têm tempo para aquilo, bombas com o meu nome. Chega! Querem um tempo para passar? Tratem de criar a tal máquina do tempo. E tenho dito.


Deu, pode desligar, Xavier.

Wednesday, August 29, 2007

Tuesday, August 28, 2007

O Guarda-chuva

Eram três horas de uma madrugada chuvosa e a tal princesa do conto de fadas estava toda encharcada e longe, muito longe do seu reino com pozinhos mágicos.

Amanheceu àquele dia com aquela estranha vontade de caminhar por aí, pelo bosque encantado, só que não imaginou que iria tão longe. Até o outro reino, que era mais desenvolvido e colorido. Gostava de coisas coloridas e, junto com a tal estranha vontade de caminhar, foi isso que a levou até esse reino até então desconhecido.

Quando chegou, viu um sino de cores fortes e brilhantes. Não hesitou nem um pouco em tocá-lo, mas ao fazer esse gesto tão sem pensar, a porta gigante e amarela do reino se abriu. Saiu de lá o bobo da corte a contar piadas, divertindo a todos que por ali estavam. De repente notou a bela princesa que tinha longos cabelos loiros e olhos incrivelmente azuis. Parou, olhou-a com um ar de surpresa e perguntou com uma voz fraca e frouxa: “E tu, quem és?”. A donzela respondeu baixinho: “Sou a princesa Ana do reino encantado das sete mil maravilhas”. O rapaz retrucou, rindo-se: “Me desculpa, bela moça, mas aqui é o reino encantado das dez mil maravilhas, como chegaste aqui?”. A princesa deslocou o olhar e ficou sem resposta para tal pergunta. O bobo da corte analisou a menina dos pés a cabeça e disse: “Pensando bem, as três mil maravilhas que faltam a teu reino, encontram-se em ti mesma”. A pequena arregalou e ergueu mais uma vez os olhos, mas ficou sem ter o que responder. O serviçal do rei teve de quebrar o silêncio: “Mas só até a primeira hora da noite”, disse-lhe.

Andou por todo aquele reino colorido de três mil maravilhas a mais que o seu. Queria descobrir o que tinha lá que não em sua casa, além daquelas cores todas. Quando o bobo da corte chegou com toda a sua trupe é que ela notou o que faltava em seu reino: Felicidade e sol. O bobo resolveu, então, que iria acompanhar-lhe na sua caminhada pelas dez mil maravilhas e andou com ela por todos os cantos do lugar, mas não percebeu que a princesa o olhava fixamente: Estava apaixonada.

Quando chegou a tão triste hora de a donzela ir embora do reino das dez mil maravilhas, todos já a conheciam e acompanharam ela até a porta do castelo onde ficava o rei, a rainha e o bobo da corte. Despediu-se de todos e partiu em direção à sua casa. Em seu caminho de volta, reparou nos outros reinos que não tinha visto na ida. Passou pelo das nove mil maravilhas e das oito mil.

Eram três horas de uma madrugada chuvosa e a tal princesa do conto de fadas estava toda encharcada e longe, muito longe do seu reino com pozinhos mágicos. Ouviu um barulho em meio à chuva e olhou para trás a fim de ver o que se passava. Era o bobo da corte. Ele trazia um guarda-chuva e vinha dizendo: “Como podes ser tão tímida ao ponto de não me pedir um guarda-chuva?”. Ela riu, pegou o guarda-chuva e disse: “Estava dispersa, desculpa-me, não queria incomodar-te”. Ele respondeu: “Incômodo algum, linda donzela” e saiu em direção ao seu reino de dez mil maravilhas.

Quando a princesa chegou, o rei perguntou: “Por onde andaste, Ana, minha filha?”. A linda moça gaguejou, mas falou: “Perdoa-me, papai, estava andando pelo reino e perdi a hora”. O rei respondeu aliviado: “Tudo bem, estou precisando de idéias tuas para melhorias do reino, tens alguma?” Dessa vez ela não precisou pensar antes de responder: “Cor, sol e felicidade”.

Friday, August 24, 2007

Máquina dos Sonhos - Parte IV

– Lívia.

– Bonito nome. Já está aprendendo números complexos?

Não é de suma importância destacar aqui todo o diálogo de Rafael e a garota dos meus sonhos, que agora eu podia chamar apenas de “Lívia”! Mas ainda faltava descobrir uma coisa: o sobrenome da linda menina. Escrevi em um pedaço de papel um bilhete para Rafael, pedindo para que ele fizesse alguma coisa para descobrir a tão preciosa informação. Ele teve uma boa idéia.

– Não vai colocar nome na folha de exercícios? Ela é para entregar, não? – disse ele

– Ah, claro, já estava me esquecendo. Tem outra Lívia na turma certo? Vou ter que colocar meu sobrenome – respondeu ela, me fazendo quase pular da classe.

Lívia Bandeira. Esse era o nome que predominava em minha tão alegre cabeça naquele momento. Agora era só esperar chegar em casa para enfim descobrir que tipo de sonhos a pequena dos cabelos e olhos negros costumava ter. Eu estava tão disperso com aquilo que os números complexos não fluíam em minha cabeça e eu fui muito mal naquele trabalho. Na verdade, eu nunca fui muito bom em matemática, mas sempre fazia dupla com Rafael, que é um gênio dos números, mas dessa vez ele precisava mudar de dupla para me ajudar. Nem que isso me custasse uma recuperação no final do mês.

Quando eu finalmente cheguei à minha casa, fui direto para meu quarto e dele direto para o armário onde havia escondido a máquina dos sonhos. Tão afobado fui, que me lembrei que precisava esperar até a manhã do dia seguinte para então ver o que Lívia sonhava. Resolvi então mexer nela para tentar descobrir alguma função nova que pudesse talvez me transferir para os sonhos da garota linda. Não descobri nada referente à transferências de pessoas para sonhos de outras. Apenas vi um botão com a sigla “Mu.D.So.”. Achei estranho, mas estava muito cansado, havia tido aula na manhã e na tarde e ainda precisava terminar de ler o livro que eu estava lendo. Dormi.

Acordei eufórico para ver o que Lívia tinha sonhado na noite anterior. Ela sonhou com uma figura masculina mais velha, que cri¹ ser seu pai e com uma bicicleta rosa. Achei um sonho tão superficial, aquele dela. De repente me deparei mais uma vez com o botão que continha a sigla “Mu.D.So”. Hesitei um pouco, mas acabei apertando o botão. Mal sabia eu o que existia por trás daquele botão, muito menos a reviravolta que ele iria trazer em minha vida.

¹: Sim, eu procurei no dicionário e esse é o pretérito perfeito do verbo “crer” na 1ª pessoa do singular. (Y)


Wednesday, August 22, 2007

Os Imprevistos da vida, caso a parte V

Comentário rápido: Sim, eu sei que é estranho eu voltar a esse conto, mas é que as pessoas têm me comentado uma coisa que eu nunca havia percebido: Nunca terminei conto algum aqui! Foram dois fracassos! Enfim, como ele é meio antigo, vale a pena lembrar de onde eu parei de contar a história do casal mais água com açúcar do mundo. Romeu e Isabel estavam brigados por motivos de ciúme de ambas as partes e de preocupação adicionada ainda ao lado de Romeu. Mas os dois se esqueceram das brigas quando Isabel chegou de viagem e logo deram um ao outro um longo e apertado abraço acompanhado de palavras de amor. E foi aí que os deixei em coma. É meu dever desfazer esse erro. Vamos lá.

Duas semanas depois de Isabel ter voltado de viagem, chegou seu aniversário e o frio que fazia em Satolep no dia não tirou da sua cabeça a idéia de fazer uma festa à fantasia, pois ela havia conhecido O Teatro Mágico, e desde então as fantasias fascinaram a moça. Sua mãe concordou de imediato, mas com a condição de que a filha estaria vestida de Cinderela. Claro que Isabel não concordou, pois queria ir vestida de algo mais alternativa, como algo relacionado a cordel. D. Margarida cedeu.

Era segunda feira e na sexta seria a festa e Isabel ainda tinha muito para preparar, como bebidas, músicas – pensou em fazer um sarau, mas foi desiludida por sua mãe, que lembrou que nem todas as pessoas eram alternativas assim. Chamou sua amiga Lisbela para lhe ajudar nos preparativos e foram as duas para o centro da cidade, enfrentando o frio para comprar tudo o que fosse necessário para a festa. Inclusive suas fantasias. Compraram de tudo: Luzes pisca-pisca, globos espelhados dos anos 80, CDs de todos os tipos – piratas -, bebidas alcoólicas e Guaraná Antártica, velas de 1 e 7 e letreiros de papel que formavam um belo e colorido “FELIZ ANIVERSÁRIO”. Acabaram de comprar tudo na quinta-feira e deixaram para preparar tudo no dia seguinte.

Acordaram bem cedinho na sexta-feira para organizar a festa. D. Margarida se ofereceu para ajudar, mas as duas amigas recusaram seu apoio por quererem uma festa ao gosto de Isabel, e não ao gosto de sua mãe. Quando acabaram tudo, se sentiram extremamente cansadas e cederam a si mesmas um tempo de descanso que serviu para D. Margarida finalmente olhar, sem fazer barulho algum, o que Isabel e Lisbela haviam preparado para a tão aguardada noite.

Quando acordaram do descanso, se limitaram a colocar as fantasias – Isabel vestida da personagem Lisbela do filme “Lisbela e o Prisioneiro” e sua amiga de Amelie Poulain, devido seu cabelo preto e curto. Quando os convidados começaram a chegar, as duas tiveram de ir para a garagem, para recepcioná-los. Eles chegavam sem nenhuma surpresa nas fantasias, eram muitos hippies e muitas diabinhas, mas nenhuma criativa. Nenhuma personagem de filmes como elas, nenhum personagem do Teatro Mágico. Só um cara vestido de Patrick do Bob Esponja. Só.

Depois de um tempo, Romeu chegou. O único realmente criativo entre os homens – nada de piratas ou coisa parecida, ele estava vestido de guerrilheiro da revolução farroupilha! Isabel não foi a única a achar a fantasia de seu namorado linda, todos na festa olhavam para ele admirados. Romeu deixou a barba crescer, pegou uma espada de verdade de seu avô, um colete azul antigo que achou em casa, pediu para sua mãe bordá-lo de dourado, colocou alguns broches que comprou em uma loja de antiguidades e enfiou na cabeça um incrível chapéu que ninguém sabe de onde ele tirou.

- Este é realmente meu namorado lindo? – perguntou Isabel

- Sim, sou eu mesmo. Parabéns, amor, eu te amo muito!

- Eu também, Romeu, pra sempre!

Não se viu mais os dois durante a festa.

Friday, August 03, 2007

Máquina dos Sonhos - Parte III

– Ele só pode ser louco.

– Certamente, quem sonha uma coisa dessas?

– Sonhar com essas guerras, e se formos nos guiar por o que Freud dizia, este é um desejo dele, matar todas essas pessoas e dominar o mundo.

– Não tinha um desenho assim?

– Sim, Pink e Cérebro.

– Vamos trocar de cobaia, Vitinho?

– Com certeza.

Mandei Rafael ir para a casa, ele já devia estar cansado de ouvir falar em sonhos por tanto tempo. E uns sonhos daqueles ainda. Ele não hesitou nem um pouco, tão visível era seu cansaço que eu havia lhe proporcionado sem me importar muito nem tampouco fazer algo para reverter tal situação.

Na segunda-feira, acordei muito disposto a escolher novas cobaias e desvendar outros sonhos. Estava obcecado por aquilo, era a minha maior diversão. Mas algo apareceu na minha vida de uma maneira completamente repentina, e sem pedir licença alguma, começou a tomar os meus pensamentos, que estavam todos voltados para a máquina de sonhos. Era ela – a garota na qual eu sempre sonhei. Devia ter menos de um metro e sessenta centímetros, cabelos pretos lisos, covinha em uma das bochechas e olhos escuros brilhantes Entrara na minha turma do colégio no meio do ano, por motivos de transferência de seu pai, tinha um sotaque estranho, mas meigo.

Fiquei parado olhando-a com os olhos brilhando mais do que o natural dos olhos dela. Passou por mim sem me notar, mas eu a notei. Ah se notei! E eu não tinha com quem dividir aquele segredo – que estava apaixonado pela colega nova – já que Rafael fora à aula e ninguém mais eu podia confiar naquele colégio escuro, que de repente parecia tão claro para mim. Se ao menos eu soubesse o nome dela. Nem isso eu sabia e é claro que não iria perguntar, também.

Foi aí então que me veio à mente uma das mais terríveis idéias que ela poderia ter me proporcionado, mas eu precisava saber, tinha que desvendar os sonhos dela. Logo que cheguei em casa, liguei para Rafael contando todo o acontecido do dia.

– Cosme?

– Quem é? – respondeu ele com uma voz de sono

– Sou eu.

– Eu quem?

– Estou apaixonado. Por uma colega nova. Ela é linda, Cosme, precisas ver. Tem um cabelo escuro escorrido lindíssimo, olhos igualmente lindos, sem falar da sua baixa estatura.

– Olha, acho que tu ligou pro número errado, aqui não é de nenhum daqueles programas de rádio que os locutores te dão dicas para relacionamentos.

– Não, seu bobo, é contigo mesmo!

– Deve ser com meu pai, ele é Cosme também. Rodrigo Cosme.

– Se tu não fosses meu único amigo, eu juro que te partia a cara, Rafael Cosme!

– Ah, é tu, Vitinho.

– Sim.

– Mas me fale mais dessa menina, qual o nome dela?

– Não sei, ainda.

– E já está apaixonado? Poxa.

– Paixão à primeira vista, bobo, ela é linda, tens que conhecer ela amanhã.

– Certamente, irei à aula amanhã.

– Ótimo. Assim poderemos montar nosso plano.

– Nosso? Tô fora, Vitinho!

– Eu preciso descobrir o que ela anda sonhando.

– Esta máquina está te enlouquecendo, Vítor!

Senti gravidade na última frase de Rafael. Desde o meu aniversário de dez anos, ele nunca me chamou de Vítor. Mas não dei muita importância, só tinha mente para ela, a menina dos meus olhos, aquela que eu sonho ter uma vida junto, filhos, casa e tudo que temos direito. Eu só precisava descobrir o nome dela, para que, assim, pudesse invadir seus sonhos. Era por isso que eu precisava de Cosme.

Acordei naquela terça-feira cansado e com dor nas costas. Mas eu tinha que ir para a aula, precisava convencer Rafael de perguntar qual o nome dela. No intervalo, pude finalmente conversar com ele e tentar arranjar um jeito de pedir para que ele perguntasse qual era a graça da tal moça, pois ele sempre foi mais solto que eu, sempre fui mais tímido, e não teria coragem de falar com ela. Apenas nos sonhos.

– Não vou, Vitinho, já falei!

– Eu preciso de ti, Cosme!

– Em dez anos de amizade, sempre fui fiel a ti, e tu também foste comigo, não podes quebrar esta corrente, sabes que só tenho a ti para contar!

– Se é para a felicidade da nossa amizade, eu digo que pergunto.

– Eu sabia que podia contar contigo! Muito obrigado, meu amigo!

– Fala aí, como vou fazer isso?

– Simples, agora na aula de matemática, ela vai estar sozinha, pois ainda não fez amiga alguma, então tu vais propor fazer uma parceria para efetuar os exercícios. Nesse meio tempo, certamente vais descobrir o nome da bela.

– Isso não vai dar certo, no fim tu vai te dar mal, Vitinho! Mas tudo bem, eu farei tudo isso.

– Muito obrigado!

Quando chegou a aula de matemática, fiquei muito apreensivo para a hora de efetuar os exercícios, para que finalmente Rafael perguntasse o nome da garota. E não demorou muito para chegar os cálculos da aula.

– Podem se sentar em duplas para efetuar o trabalho – disse a professora, para a minha felicidade.

– Ei, notei que tu está sem dupla para fazer o trabalho, se quiser pode fazer comigo! – disse Rafael, para meu alívio.

– Ah, tudo bem, eu não estou entendendo muito bem a matéria mesmo, vai ser melhor.

– Ótimo. Qual seu nome mesmo?