Sunday, June 21, 2009

Presente

Quando você chegar, a gente vai andar por aí de mãos dadas e apertadas. Elas irão balançar felizes, pra frente e pra trás, pra frente e pra trás. A nossa sincronia será tão perfeita, quando eu te olhar, você me olhará também e sorriremos juntos. O sol olhará para nós e brilhará aquecendo nossos corações, como querendo abraçar o nosso amor infinito. Pintaremos nosso quarto com nossas cores (e ele será demasiado colorido!), pintaremos nossas vidas com nossas cores. Distribuiremos rosas perfumadas para pessoas nas ruas e estas se inspirarão em nossa alegria para serem mais alegres. O brilho nos meus olhos será o seu brilho.
Quando você chegar, a gente vai comprar um sofá daqueles bem pequenos, para ficarmos ainda mais juntos. Eu te acordarei com café na cama dizendo “bom dia, vida” e você me retribuirá meu gesto com aquele sorriso que só você sabe sorrir; aquele sem mostrar os dentes. Ao chegar a noite, você me contará seu dia e eu fingirei estar prestando atenção em tudo, quando na verdade eu estarei com o pensamento em seus olhos e em toda a boa energia que eles me passam. Eu sorrirei e você pensará estar me agradando com sua conversa, mas eu sorrirei por saber que seus olhos só olham a mim e esse meu sorriso é um movimento involuntário do meu corpo. Corpo esse que é seu refém. Meus olhos brilham, minhas mãos suam, meus pulmões se enchem e meu coração acelera só por ti.
Mas aí eu lembro* que tudo está em futuro do presente, me viro e invento outro sonho.
*Licença poética pela mudança de tempo verbal, plz.

Saturday, June 06, 2009

Não é de todo inútil o trabalhoso processo da vida? Deve ser difícil para quem tem o trabalho de fazer a gente. E não só a gente humana. Toda gente, incluindo os mosquitos. Não deve ser fácil colar todos os órgãos em seus devidos lugares, testar para ver se está tudo funcionando conforme as normas. E pra que? A pessoa vem, passa umas férias aqui e volta. Qual o propósito de ter pêlos para aquecer, pulmão para respirar, coração pra bater e sentimento pra sentir, se depois tudo acaba? E depois? E depois a gente morre.

Wednesday, May 27, 2009

Surpresas Européias no Futebol

Manchester United e Barcelona entraram em campo conhecidos como a melhor defesa e o melhor ataque do mundo, respectivamente. Além disso, contavam com os dois melhores jogadores do mundo, C. Ronaldo pelos ingleses e Lionel Messi pelos espanhóis. Tinha tudo pra ser um grande espetáculo desses dois atletas, um tentando demonstrar mais futebol que o outro. Nada disso ocorreu. Os dois jogaram mal e quem roubou a cena foi a dupla de meias do Barcelona: Xavi e Iniesta. No meio de grandes estrelas apontadas como possíveis donas do jogo, esses espanhóis mostraram ser o pulmão do clube catalão. Entre o ouro de Messi e do Ronaldo luso, entre os estrangeiros, quem fez a diferença foram as pratas da casa. Mas não foram apenas os dois pré-protagonistas que tiveram atuações decepcionantes, a partida em si prometia muito mais. Mais uma vez, essa Liga dos Campeões nos reservou surpresa: A principal partida, a mais emocionante, se realizou nas quartas-de-final e foi disputada por dois times que não eram nem mesmo candidatas a título. De fato, Liverpool e Chelsea não conseguiram o que o Barcelona conseguiu, mas, diante de uma final pífia como a desta edição, não há quem duvide que o quatro a quatro do duelo inglês foi a partida dessa Liga Dos Campeões.
Outro ponto é a relevância que essa vitória catalã tem no futebol mundial atual: No duelo de um time de acionistas, movido pelo mercado, contra o time da sua torcida, movido por seus sócios, todos apostariam no primeiro, pela fase do esporte. Hoje em dia as equipes de futebol se transformaram em simples empresas, como a Coca-Cola ou a Nokia, preocupadas apenas no lucro que aqueles onze funcionários irão trazer para seus donos. E, em plena esta época fria do futebol, a taça mais importante da europa e segunda do mundo é conquistada por um time que vive das mensalidades dos sócios e, com essa política, é um dos mais ricos e o melhor do mundo.

Sunday, May 17, 2009

Lá no alto

Foi dormir e quando acordou estava na Lua. Achou estranho o seu quarto agora estar tão leve e com tantos buracos, mas o que mais lhe surpreendeu foi o falta de cores que o quarto estara no momento. Aí que se deu conta do lugar que se encontrara. A falta de cores roubou o lugar da natural dúvida “onde estou” e ela desejou, então, uma grande e recheada caixa de lápis aquarela para colorir adequadamente cada canto e cada contorno de seu novo lar. Rodou toda a lua e não achou um toquinho sequer de lápis de cor. Resolveu sair pelo espaço procurando. Pediu ao sol e ele lhe deu o amarelo e o laranja. Foi a Marte e lá encontrou o vermelho que tanto queria. Faltavam agora apenas o azul, o verde, e o violeta. Veio para a terra; nos rios achou o azul, nas plantações o verde, e o violeta na flor de mesmo nome. Guardou todas as cores em um potinho e partiu de volta para a Lua. Sempre que há sol após um dia de chuva é possível ver a moça com suas cores lá no alto.

Friday, May 08, 2009

Brilha onde estiver

- Olha, eu poderia ser piegas e dizer umas palavras bem clichês, mas tu sabes como escritor tem a péssima mania de tentar o máximo possível escapar disso tudo. Eu era pra te dizer “olha, eu te amo” e voltar para o meu mundinho de açúcar e banho-maria. Mas as palavras parecem sociedades com grande anomia prejudicando as suas consciências coletivas, devido a uma grande falha no controle social (vê só como são as palavras, comecei a falar de sociologia em meio a um discurso romântico, a culpa não é minha, é sua por mexer tanto comigo que me desestabiliza). Enfim, falei tanto que até agora não falei nada. Eu só quero te dizer que o jeito que arrumas o cabelo me faz pensar em como ficaríamos bem, os dois, de mãos dadas andando por aí, não achas? Vou encarar esse olhar como um sim. Aliás, teus olhos regulam meus batimentos cardíacos, sabias? Não? Imaginei. Porque eu sou tímido e disfarço. Quando me olhas me seguro para prender esse sentimento todo que tenho dentro do meu peito, sentimento que se transforma em ar; tentando sair de mim. O sentimento tentando sair, pela necessidade fisiológica de sair, mas eu resistindo. Trancando. Matando. Assassinando. Sufocando o sentimento. Mas hoje, aqui nessa simples parada de ônibus, eu resolvi que preciso respirar, entende? Precisava respirar que é a tua simplicidade que me faz amar o sol e o verão. Tu deves estar te perguntando “não vai falar do meu sorriso?”. Minha querida, nosso tempo é tão curto, se eu for gastá-lo falando do teu sorriso, passaríamos os dois sentados uma eternidade aqui, só comigo falando sobre o teu sorriso. Mas isso não seria bom? Passar a eternidade toda aqui, nesse banco de estação? Sinto-me chato falando tanto, estou sendo chato? Não? Posso continuar? Tudo bem, eu paro por aqui, teu ônibus chegou.

Friday, May 01, 2009

Flor de Lis

Olhar para mim mesmo, não para o passado. Esse aí não é um dos tempos verbais, pois estes servem para nos apressar, mostrar ou lembrar. O passado é um grande pesadelo ininterrupto e que ri das pessoas todos os dias.
(Texto encontrado num caderno do ano passado, se ele não for meu e alguém conhecer o autor, por favor avise - mas acho que é meu)

Tuesday, March 31, 2009

O Calculismo na Era do Sentimental

Ser forte é para os fracos. Os bons e mais resistentes sabem lidar com as emoções de forma diferenciada sem apelar para o calculismo, criam estratégias de defesa e ataque com um roteiro tão bom que o mesmo nem sequer é notado. Vão por mim, caros leitores, deixem se levar, às vezes, pelas emoções. A frieza é um bom refúgio e um péssimo modo de vida, pois esta última é única e é necessário sensibilidade para notar o que de bom existe.
- E aquela estrela lá?
(Acho linda. Nasceu brilhando e vai brilhar seja de onde eu esteja olhando-a. Não é mágico? Nada vai afetá-la, jamais.)
- Ela nem está lá. Na verdade já desapareceu há muito tempo, mas, por estar muito longe, ainda não nos chegou a informação de que ela explodiu.
- Acho linda. Nasceu brilhando e vai brilhar seja de onde eu esteja olhando-a. Não é mágico? Nada vai afetá-la, jamais.
Liberta-te e te libertarás.

Monday, March 23, 2009

Em Diálogos

- Adeus, você. Eu hoje vou pro lado de lá, to levando tudo de mim...
- Que é pra não ter razão pra chorar?
- Vê se te alimenta e não pensa que eu fui por não te amar! Cuida do teu pra que ninguém te jogue no chão, procure dividir-se em alguém.
- Procure-me em qualquer confusão!
- Levante e te sustenta e não pensa que eu fui por não te amar!
- Quero ver você maior, meu bem, pra que minha vida siga adiante!
- Adeus você, não venha mais me negacear!
- Seu choro não me faz desistir...
- Teu riso não me faz reclinar!
- Acalma essa tormenta e se agüenta que eu vou pro meu lugar. É bom às vezes se perder sem ter porque, sem ter razão. É um dom saber envaidecer, por si, saber mudar de tom.
- Quero não saber de cor, também, pra que minha vida siga adiante.

Wednesday, March 18, 2009

O Cobertor e a Mocinha

Era uma vez um cobertor. Adorava o fato daquela menina de mais ou menos onze anos perfumar-se antes de deitar. Tentava, em vão, se aquecer o máximo possível para aquecê-la. Rezava para ter, quem sabe algum dia, calor próprio, sonhava em ser o sol para aquela menina. Mal sabia ele que, para ela, ele era o protetor, a quem ela buscava quando sentia frio. “Mãe, estou com frio e vou me agarram em meu cobertor”, dizia ela. Ele há muito tempo já estava esperando sua vinda, como quem diz “Vem, querida, te aquecerei com meu carinho”.
Mas, como todo caso, há um problema: Nosso cobertorzinho não agüenta o fato de não conseguir comunicar-se com sua menina. Ora, como seria possível um cobertor se declarar para uma garota? Eis que nosso protagonista tem uma idéia: Abraçará sua pequena enquanto ela dorme profundamente. Claro, como não pensara nisso antes?
A noite chega, fria como de costume, e a garotinha se dirige a seu quarto. Perfuma-se, coloca-se debaixo do cobertor e cai no sono. Observando a situação, ele abraça-a fortemente. Para sua surpresa, ela também o abraça. Não sei se era o vento ou aquele cobertor sorriu.

Saturday, March 07, 2009

Carta ao futuro

Caro Futuro,

Desculpe-me pela falta de educação em não perguntar como estás, mas é que não estou muito preocupado com isso agora. Vim só pra bater um papo contigo. É, levar um lero que é mais um pedido: Demora. Não te sintas mal com isso, mas a vida passa tão rápido que eu quero-te bem longe junto do teu amigo tempo. Se tu serás bom ou ruim? Não sei. Viverei sem me preocupar com isso. Viverei a procurar uma forma de não te procurar. Vai arrecadando mais outras almas para aquela outra amiga tua e volta a me procurar só quando eu chamar. Perfuma-te e procura alguém pra passar o tempo, assim como eu procurei. Aceita os conselhos desse velho amigo; vive. E quando chegares, vem manso que é pra não me assustar, vem com rodas de algodão e motor à base de água. Se serás bom ou ruim? Não sei. Viverei.

Atenciosamente,
Passageiro.

Monday, March 02, 2009

Maior Questão

Dois amigos se encontram, após a morte, na frente de São Pedro.
- Fábio! Quanto tempo! Nunca imaginei que fosse te ver só... depois mesmo.
- Fernando! Vimos-nos a última vez no fim do colegial, com todas aquelas promessas de se ver aos sábados. Acho que nunca tivemos tempo depois daquilo.
- É, mas eu nunca esqueci das nossas loucuras em sala de aula.
- Nem eu. Mas, me conta como tu vieste parar... aqui?
- Tristeza, solidão, essas coisas. E tu?
- Morri por falta de doador de alegria.
- Se a gente pelo menos continuasse se vendo aos sábados...
- São Pedro está vindo aí.
- Pois é, temos que causar uma boa impressão.
- Vocês dois são frustrados pela de amizade na vida, passem ao final da fila.

Saturday, February 21, 2009

Em Três

- Eu acho...
- Você acha que já está apaixonada por mim, pode falar.
- Eu já estou apaixonada por você.

Friday, February 13, 2009

Um Milhão

Resolvi criar três personagens e pensar em destinos bem clichês para eles. Primeiro, são dois homens, Luiz Leonardo e Mateus. Depois, claro, uma moça e ela se chama Beatriz. Eles vivem na cidade de Porto Alegre, ela e Luiz em um prédio e Mateus no prédio da frente. Logicamente, Beatriz encontra Mateus na fila da padaria, deixa cair um pacote de biscoitos, ele ajuda-a. Nesse momento estão trocando olhares e imaginando um futuro juntos. Enfim trocam palavras.
- Seu pacote de biscoitos, senhorita.
- Muito obrigada.
- Meu pai está muito doente em um hospital, tenho dívidas, muitas alergias, não gosto de chocolate e sou fracassado no amor.
- Não gosta de chocolate?
- Me desculpe, cara donzela, mas esse seu olhar profundo deu-me confiança e vontade de falar.
- Tudo bem, seus olhos já mostram tudo isso.
Ela deixa o local sabendo que Mateus a está observando. Ela sorri.
Luiz Leonardo percebe que sua companheira está de volta e vai recepcioná-la.
- Trouxe meus biscoitos?
- Me apaixonei por um par de mãos na padaria, preciso te deixar.
Ele ameaça se matar, chora e não a vê partir.
Beatriz procura o par de mãos na padaria, mas não o acha, pergunta aos atendentes por onde mora um rapaz moreno, de óculos e cabelo bagunçado. Ninguém soube responder. Ela fala das mãos e uma atendente, que também era apaixonada pelo rapaz, diz-lhe o endereço. A moça chega entusiasmada ao local, arruma o cabelo procurando o charme especial, respira fundo e, enfim, toca a campainha. Quem abre é Taninha Furacão, prostituta conhecida na região, inclusive pela jovem Beatriz, que sente-se decepcionada com as mãos, “Como aquelas mãos tocaram nela? Pareciam mãos tão gentis e confiáveis”. O que ela não sabe é que a atendente da padaria mentiu. Mentiu por também ser apaixonada por Mateus e não querer que uma mulher tão atraente como aquela que esteve na padaria chegue perto de seu grande amor. Mentiu por insegurança. Mentiu para proteger seu macho.
Chove na rua e Beatriz está nela. Molhada, com vergonha de Luiz Leonardo e nojo de Mateus, ela sente a água como o menor mal e dorme ali mesmo. Amanhece e tudo continua do jeito como terminou, provando como cíclicas são as coisas do Amor.
A moça apaixonada por mãos resolve pegar um ônibus e recomeçar sua vida em uma cidade vizinha. Sem sucesso, volta a morar na casa da mãe. Luiz Leonardo não agüenta uma semana sem o amor de seu amor e se mata com um tiro na boca. Mateus se muda para perto do hospital onde seu pai depois de certo tempo morreria, conhece Marina, uma atendente da padaria perto de sua casa antiga e tem uma filha com ela chamada Beatriz.

Monday, January 26, 2009

Pais e Filhos

Se tem uma coisa que eu gosto de ver é família feliz. Pode ser clichê, mas uma das coisas que mais me fazem brilhar os olhos é um pai e uma mãe com um filho pequeno. Nessas horas, a gente vê que tudo passa tão rápido, num momento o casal se apaixona em uma lanchonete, começam a se encontrar mais vezes e enfim se casam. Passados uns cinco anos do matrimônio, a notícia boa chega: Terão um menino, ele será saudável, inteligente e torcerá pelo time de futebol o qual o pai é fanático. Quando o garoto tiver seus seis anos, ganhará uma irmãzinha e a família, enfim, estará completa. Os pais se sacrificarão para dar a eles todas as oportunidades na vida. Os filhos, enquanto isso, crescerão sempre gratos e orgulhosos por todo o esforço feito por aqueles que os trouxeram a esse mundo. Entrarão em uma faculdade e, nesse momento, temerão não estarem preparados para esse novo desafio, se acharão fracos e, mais uma vez, quem os sustentará são os pais. Talvez chegue o dia em que a situação irá se inverter e, quem se sacrificará para dar o melhor serão os filhos e, quem receberá o apoio pelo esforço de uma vida inteira, serão os pais. Isso é o mais lindo na vida, ela sempre se renovará, mas sempre dará um jeitinho de deixar quem a gente gosta por perto. Valeu, vida.

Wednesday, January 14, 2009

Nervosismo

Encontro-me nesse momento sentado na mesa de um bar sem nome. Perto de mim, um bêbado se afunda ainda mais na cachaça. O dono do bar, sem ao menos ter pena do indivíduo, atualiza o copo do mesmo com mais bebida. Será mesmo que o dono do estabelecimento não percebe que contribuirá, assim, para o fim de uma vida? Mas isso não é o que mais me atrai no local. Três mesas da minha uma moça de mais ou menos vinte e um anos possui um olhar extremamente marcante e ele mostra certo nervosismo. A garota parece estar esperando alguém e, quando esse alguém finalmente chega, percebo algo maravilhoso: Não é o seu olhar o mais fascinante, e sim o sorriso; totalmente natural e despreocupado. O rapaz a cumprimenta de maneira preocupada e fria. Pelo pouco que aprendi de leitura labial, tento reproduzir o diálogo. Ele olha no fundo dos olhos lindos e marcantes da menina e diz que os dois têm de conversar. Ela olha-o como quem não entende nada. Sim, o garoto está traindo-a com outra e prefere contar-lhe tudo antes que ela descubra por outro. Ele termina o namoro, dá-lhe um beijo na testa e despede-se.
Penso eu: Como alguém abandona um olhar desses? E um sorriso desses? Imagino-me de mãos dadas com a moça, ela lançando-me olhares e sorrisos sem iguais. Pago minha conta e vou pra casa.

Wednesday, December 17, 2008

Da Janela

Duca está olhando a vista da janela de seu apartamento. Abraça fortemente seu travesseiro, gosta de fazer isso todas as noites. Sente uma paz de espírito sem igual quando olha, no prédio em frente, uma janela com luzes acesas. É como se pensasse “não estou sozinho”. Tenta adivinhar o que aquelas pessoas estão pensando e gosta de inventar histórias envolvendo-as. Dona Vitória, como chamou a moradora do 4º andar, perdera o marido dois anos atrás e até hoje os filhos a culpam pela morte do pai. Vê seriados de drama, procurando sempre achar alguém em uma situação pior que a sua. Passa a noite na frente da televisão. Marina, do 3º andar, está nessa noite montando delicadamente sua árvore de Natal. Cada detalhe é organizado meticulosamente. Faz isso para ocupar no coração o espaço deixado por um amor não correspondido. Gosta de comer tortas de pêssego e de ler livros os quais Duca nunca consegue descobrir quais.
Enquanto abraça fortemente seu travesseiro, o jovem também gosta de ver carros passando pela sua rua. Tão forte é sua imaginação, que tenta descobrir para que lugar os veículos se dirigem. Carlos Roberto dirige um Ford Fiesta de cor preta. É um promotor de justiça e está, nesse momento, se dirigindo para a casa de sua amante e, em casa, deixa uma mulher e quatro filhos. Como se fosse um castigo divino, o homem temseu carro e sua vida acabadas naquele segundo.
Carlos Eduardo, mais conhecido como Duca, mora em um prédio em frente ao meu. Gosta de abraçar fortemente seu travesseiro. Sente uma paz de espírito sem igual quando olha, no prédio em frente, uma janela com luzes acesas. É como se pensasse “não estou sozinho”. Quem sou eu? Gabriela, moro no 3º andar, gosto de comer tortas de pêssego e ler livros os quais ele nunca conseguiu identificar quais são. Tenho uma vizinha idosa chamada Vitória que não me deixa dormir com o barulho de sua televisão até altas horas. Já que, pelo visto, ela não irá desligar o aparelho tão cedo, acho que vou montar minha árvore de Natal.

Wednesday, December 10, 2008

Ponto Final

Ler ao som de Elephant Gun, do Beirut.


Antônio Luiz da Silveira Gonçalves tem oitenta e nove anos, três filhos e sete netos e está nesse momento sentado à frente de seu aparelho televisor quarenta e duas polegadas. Bebe cerveja e come amendoim. Troca de canal algumas vezes, até parar no canal cinqüenta e um de sua companhia de TV a cabo. São três horas da tarde de uma terça-feira, horário específico de programas antigos. Antônio tem, então, sua última crise existencial de sua existência. Dá alguns passos até seu quarto e, primeiramente, segura o retrato de sua falecida esposa, dona Rosinha, uma simpática senhora que teve sua vida dedicada à confecção de tortas. As primeiras lágrimas ganham liberdade no momento em que ele deixa o retrato sob o criado mudo. O senhor se dirige ao guarda-roupa, abre uma gaveta e pega uma pequena caixa antiga, feita de metal. Balança-a como se quisesse conferir se o que procura está mesmo ali. Sorri ao saber que sim, abre-a e começa a vasculhar: Era a caixa de recordações de sua infância. Antônio chora ao pensar que a morte se aproxima e a vida passa diante de seus olhos; desde o momento em que ganhou seu primeiro carrinho, o dia em que perdeu o mesmo em uma aposta e teve de pedir para seu pai resgatá-lo, passando pelo primeiro beijo, a primeira noite de amor, a entrada na faculdade, o dia em que conheceu Rosa Garcia Rodrigues, o ano em que perdeu o pai, o nascimento de seus três filhos e dos cinco netos. “Não fui útil em nada nesse mundo”, resmunga para si mesmo. De repente, sente a presença de algo. É a morte e ele sabe. Antônio pensa e morre sorrindo.
Vamos aos fatos:
Em 1930, Antônio Luiz da Silveira Gonçalves estava convencido a seguir a carreira de médico. Anda tranqüilamente pela Rua Dois quando, por acaso, olha em um poste a propaganda do curso de Medicina Veterinária. Naquele instante, nem o próprio Antônio conseguiu descrever a sensação de estar fazendo o certo. Conheceu Rosa Garcia na faculdade e teve um filho chamado Francisco Gonçalves Rodrigues, que depois veio a se casar com Antonieta Magalhães, cuja vontade era criar uma instituição de caridade. Os dois criaram a APV, Associação Pela Vida, responsável por achar a cura para o vírus da AIDS. Depois de muito trabalho, conseguiram a façanha desejada e muitas pessoas foram salvas pela descoberta do casal.
Por isso que Antônio Luiz da Silveira Gonçalves sorriu em seu leito de morte: Se não tivesse desistido da Medicina, não entraria no curso de Veterinária, logo, não conheceria dona Rosinha, por conseqüência, não seria pai de Francisco, que não teria conhecido a bela Antonieta, não nascendo, por tal, a APV, cujo objetivo não teria sido alcançado e milhares de pessoas ainda morreriam de AIDS no mundo.
É, seu Antônio, o essencial é invisível aos olhos.

Sunday, October 05, 2008

Canção de Ninar

Mal posso esperar o momento chegar. Sonho todos os dias (sem faltar nenhum) com teu nascimento, com a chegada tua e da minha alegria. Vou criar-te apelidos bobos, apertar-te de jeitos tolos e amar-te puramente. Vou acordar de madrugada com teu choro, música para meus ouvidos, e vou cantar-te até o sono, enfim, chegar-te. E te admirarei a noite inteira; tu dormindo e eu sorrindo na espera de um novo gesto meigo, puro e lindo.
Quando a manhã enfim chegar, para o trabalho irei com o pensamento em ti. Mal podendo esperar o momento de encontrar-te novamente, fico o tempo todo olhando o relógio, gritando para o tempo, pedindo que aquele danado passe mais rápido. Quando cresceres um pouco, serás a minha menininha, e eu te protegerei com minha vida. Quando ficares mais adulta – virando moça –, terei ciúmes de teus namorados e desejarei a morte de todos, mesmo sabendo que eles te farão feliz. Terei medo que me troque por eles e que façam de ti, uma menina mais feliz do que eu consegui fazer. Ao saber disso, me lançarás um sorriso rasgado e dirás que ninguém é mais importante e te faz mais feliz que eu mesmo, e eu notarei que a vida está passando. Logo, então, chegará teu casamento e eu estarei lá pra te levar até o homem que escolheste. Voltarei para a casa pensando: “minha menininha definitivamente cresceu”. Voltarei feliz. Voltarei para minha cama quente, recolherei meus cabelos grisalhos e, mais uma vez, gritarei com o danado do tempo, mas agora para que ele passe mais devagar. Vai, tempo, vai falar com a morte e pede para que ela tenha piedade desse velho pai que só quer passar mais tempo com sua filha. Mas e quem sou eu para pedir algo para a morte? Ela não respeitará nem o pedido do tempo, nem a mim. Um dia, chegará em meu quarto, bem de mansinho e dirá: “Vem, Fernando, tua filha ficará em boas mãos”. Falará de um jeito doce para que eu não chore, mas minha vida toda passará diante de meus olhos, se transformará em lágrimas e cairá diante do fim. Lá de cima, passarei o tempo (danado que não me deixa em paz) todo te observando, cada passo, cada gesto meigo, puro e lindo. Só, então, perceberei que nada mudou.

Friday, September 26, 2008

Da luta não me retiro

Não há um jogo sequer que o Brasil de Pelotas não dê emoção para nós, seus fiéis torcedores. O time luta e a torcida grita, tem sido assim em todos os jogos. Não foi fácil, por muitos momentos falamos mal dos atletas e vaiamos o time, mas no próximo segundo já aplaudindo e gritando o nome de cada um. O caminho até aqui não foi fácil e o que virá também não será, lutamos muito e não será agora que irão tirar-nos essa incrível força que nos move até o Bento Freitas a cada dia de espetáculo. Por muitos percalços já passamos, mas nunca pensamos em desistir e isso é ser torcedor Xavante. Isso é torcer por um time: Não deixar nunca que um resultado momentaneamente desfavorável venha resultar numa trágica desistência e é por essas e outras que estamos entre os oito. Agora Falta pouco.

Tuesday, September 02, 2008

Bicho-da-seda

Todos marcaram hora no salão de beleza, tomaram banho (inclusive João, que não gostava muito d’água) e até passaram perfume. Era o dia da foto da família e não havia um parente desarrumado, muito menos um móvel desarrumado na casa de Dona Rica.

Ana tentou mostrar seu penteado recém penteado, Carlos tentou não mostrar os dentes destruídos pelo cigarro, Natália usou do brilho de seus olhos e Gabriela precisou apenas de sua graça natural, assim apresentou-se e representou-se a terceira geração, os netos de Dona Rica. Tia Chiquinha lutou para esconder as rugas que a idade lhe dera, seu marido pareceu estar mais preocupado com ligações importantes do que o momento da foto. Maria de Lurdes e Rameu tentaram parecer um casal feliz e Ricardo e Solange tentaram parecer felizes, assim foi representada a segunda geração, os filhos de Dona Rica. A Matriarca não se importava com o visual e nem com o sentimento que passaria através da foto; Estava feliz e ponto. Estavam todos lá: Netos, filhos, noras, genros e até a fotografia do falecido Brigadeiro Matias.

Contrataram um fotógrafo de primeira, aquela seria a grande foto da família Matias Medeiros. Ana conseguiu mostrar o penteado, mas ele tapou metade de seu rosto. Natália piscou e só ficou sabendo do brilho de seus olhos quem conhecia a moça. Tia Chiquinha cansou de conter as rugas, elas apareceram e aquela mulher forte pareceu feliz. Maria de Lurdes e Rameu foram traídos por seus olhares e não manifestaram felicidade matrimonial. Carlos deixou um cigarro cair no chão, foi descoberto pelos pais e os três mostraram tristeza com os olhos e com os lábios. Mas foi uma bela foto; Gabriela exalou sua graça natural e Dona Rica soltou um belo sorriso, agarrada no Brigadeiro.

Quem tivesse um coração com bons pensamentos conseguiu perceber um sorriso no canto do rosto de Matias.