Sunday, April 14, 2013
Monday, April 08, 2013
Não adianta insistir
Roberto decidiu: Não viajaria nunca mais. Chega do estresse
de achar que o avião vai cair, que o ônibus vai tombar, que está muito estranho
o jeito com que esse motorista faz as curvas, ou de não saber se é mais seguro
botar o cinto ou não. Certa vez um amigo contara de um amigo que havia morrido
por estar usando o cinto. “O ônibus tombou e ele ficou preso”. Tudo bem que na
maioria das vezes Roberto não morria e voltava pra casa em segurança, mas toda
aquela apreensão, somada à dor no pescoço decorrente do trajeto Pelotas-Porto
Alegre não valiam a pena para desbravar novos horizontes e viver experiências magníficas.
Roberto não viajaria nunca mais e “não adianta insistir”.
Em sua última viagem, diga-se de passagem uma das em que se
encontrava mais animado, Roberto terminou com vômito de bebê no colo e um
ligamento de joelho rompido. Ao perceber que a criança estava prestes a fazer
aquilo que dali 20 anos fará em demasia por outros motivos, Roberto pulou de
seu acento, mas como são pequenos os espaços nos aviões, meu Deus do céu,
Roberto bateu com o joelho no acento da frente com força jamais vista. Após saberem do ocorrido, os amigos, já
acostumados com suas desistências de cinco minutos, tentaram argumentar,
dizendo-lhe que ele estava exagerando, que era coisa de momento, de calor da
hora. “Você está vendo a viagem apenas pelo lado negativo. Não está levando em
conta o fato de que viajando se descobre coisas novas, conhece pessoas novas,
descobre você mesmo, conhece você mesmo”. De nada adiantou. Não viajaria nunca
mais.
Tudo bem, Roberto, você tem todo o direito de não querer
mais viajar para evitar o estresse de correr pelo aeroporto inteiro para
descobrir que seu vôo mudou de portão, ou correr para comprar a última passagem
do ônibus da meia noite para pelotas porque o próximo só sai às sete da manhã.
Tudo bem querer evitar se perder em uma cidade desconhecida e andar de um lado
para o outro sem saber o que fazer. Tudo bem até não querer fazer uma parada no
Grill antes de seguir viagem porque é muito perigoso. Mas, Roberto, assim você
perde o prazer que é voltar pra casa.
Sunday, March 31, 2013
Fundo branco
- Sai.
- O quê?
- Eu não quero você no meu sonho.
- É claro que você quer. Se não quisesse eu não tava aqui,
só eu e esse fundo branco.
- Não quero. Por que você não aparece quando a gente tá bem?
Você só aparece no meu sonho quando eu já passei uma noite inteira pensando em
como não pensar em você. Quando eu quero sonhar com você acabo sonhando com
carros, trabalho, comida, campos de girassóis...
- O problema é que você pensa demais em mim. É por isso que
eu estou aqui.
- Então você quer que eu pare de pensar em você?
- Não “parar de pensar em mim”. Parar de só pensar em mim. Você podia às vezes,
só pra variar um pouco, pensar em carros, trabalho, comida, campos de
girassóis...
- Eu pensei que fosse bom ter uma pessoa que pensa em você
toda hora.
- É bom. Mas você não me dá muita folga, entende? Quando eu
tô de pernas pra cima, tomando um suco na frente do mar, aparece um chamado
avisando que você vai pensar em mim de novo e lá vou eu tomar banho rápido pra
ficar bonita e entrar no seu pensamento.
- Eu não sabia que pensar em você te dava tanto trabalho. Me
desculpa.
- Ah, não. Lá vem você ficar encucado com algo que eu falei.
Vou ligar pra casa e avisar que hoje a noite vai ser longa e que só vou voltar
de manhã.
- Não tô encucado com nada. Tô realmente surpreso com isso
tudo. Mas, olha, não é totalmente culpa minha. E quando você aparece de repente
na minha mente?
- Aí a culpa é minha. Sou eu cumprindo horário na sua
cabeça. Não é algo que eu queira também. Mas sabe como é, tenho que comprar
comida pros filhos...
- Você e essa mania de transformar tudo em obrigação. Até
parece que não gosta de me ver pensando em você.
- Mas eu gosto. Como eu disse, o problema é a hora extra.
Quando você pensa só em mim ao ponto de discutir comigo dentro do seu próprio
sonho só para ouvir a minha voz.
- É, eu tenho esse dom de dominar os diálogos dentro dos
meus sonhos. Pouca gente consegue.
- Sim. E quem sofre com isso sou eu.
-...
- Ai, tô brincando. Você tem que achar mais graça das minhas
piadas.
- Eu acho graça. Na verdade sempre tento achar graça, mas é
difícil quando a piada é com você mesmo.
- Talvez você tenha que aprender a rir mais de você mesmo.
- E talvez você tenha que parar de me dizer o que fazer.
- Você com certeza
tem que aprender a rir mais de você mesmo.
- Que horas são?
- Quatro e meia.
- A gente tem que ficar conversando aqui até que horas?
- Tá marcado pra você FINALMENTE parar de pensar em mim lá
pelas oito.
- E o que a gente faz até lá?
- O de sempre. Você fica tentando conversar comigo tudo o
que não consegue falar no mundo real e eu faço as caras que você adora na
frente desse fundo branco.
- De novo, mil desculpas por isso.
- De novo, para de ficar me pedindo desculpas por tudo.
- Me diz uma coisa que eu provavelmente vá me arrepender de
perguntar. O meu “eu dos sonhos” também tá bolado por ser chamado toda hora por
“você do mundo real”?
- Jura. Você vai correndo.
Thursday, March 07, 2013
"Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha cobardia".
Pessoa
Pessoa
Wednesday, February 20, 2013
A gente ter se mudado pra cá
- Você passou a segunda demão na parede da sala?
- Tu tá falando “você”? Não faz duas semanas que a gente tá
no Rio.
- Ai, não enche. Vê se não vai estragar essa parede, pelo
amor de Deus, sabe-se lá quando a gente vai ter dinheiro pra pintar de novo.
- Relaxa. Esse é o primeiro momento em duas semanas que a
gente sentou pra fazer nada. Aproveita que tá tudo nos conformes. Relaxa.
- Relaxar... Não sei como tu consegue. O mundo inteiro
desmoronando e tu nesse clima novela das seis.
- Depois de passar duas semanas de sufoco após vir pra
cidade grande sem certeza alguma, conseguir um emprego que vai dar pro gasto
nos próximos meses sem atrapalhar nossos estudos, organizar uma casa nova e
pintar uma sala inteira, eu me permito viver num clima novela das seis.
- Como se fosse só nesses casos...
- A partir do momento em que essa conversa deixar de ser
sobre a parede da sala eu vou começar a dormir.
- Então tu achas que tá tudo perfeito pra gente? Acha que a
vida vai ser moleza a partir de agora?
- É claro que não. Eu só tô aproveitando uma horinha de paz
antes de me desesperar de novo.
- Não é melhor levantar e fazer tudo logo?
- Não.
- Então tá. Vou ficar sentada aqui também. Totalmente
relaxada, esse mundo é uma beleza mesmo, acho que vou pegar uma revista, um
pacote de biscoito e tomar um suco.
- Tu tá relaxando do jeito errado. E eu comi o último pacote
de bolacha.
- EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ COMEU O ÚLTIMO PACOTE DE BOLACHA.
- Relaxa, eu compro mais amanhã. Deixa eu te ensinar a fazer
isso da maneira certa. Sentar na sacada
com vista para uma construção: Sim. Encucar porque eu comi o último pacote de
bolacha: Não.
- COM QUE DINHEIRO TU VAIS COMPRAR “MAIS”?
- Relaxa. Vamos fazer assim. A gente se esparrama na cama,
liga o ventilador, dorme por uma horinhazinha só e depois senta pra fazer as
contas pra conseguir comprar mais bolacha amanhã. Pode ser?
- Que cama?! Tu não percebeu que a gente tá dormindo no
colchão de solteiro que o teu amigo emprestou? A gente só vai poder comprar uma
cama de verdade semana que vem.
- “Cama” pra mim não é o objeto cama. É um lugar pra
descansar. Se fossem folhas de jornal eles seriam “cama” pra mim.
- Até parece que eu vou conseguir dormir, mas tá.
- Vai, sim. Ninguém resiste ao meu cafuné. É a música da
Jigglypuff dos cafunés.
- Tu acha que vai dar certo?
- Eu juro que passei a segunda demão na parede. Dorme, por
favor.
- Às vezes só o esforço de fazer tudo certo na hora de
pintar a parede não adianta.
- Ok. Tu tá falando “da gente”, do fato de a gente ter se mudado
pra cá ou simplesmente da parede?
- Eu tava falando simplesmente da parede. Pensei que tu não
querias falar sobre “a gente” ou “a gente ter se mudado pra cá”. Mas já que o
assunto foi tocado...
- Sim, talvez e sim.
- O talvez é “a gente”?
- Não, o talvez é “a gente ter se mudado pra cá”.
- Tu tens mais confiança na pintura da parede do que no fato
de a gente ter se mudado pra cá?
- Não é questão de ter mais confiança. É mais uma coisa de
navegar é preciso, viver não é preciso. Eu li uns tutoriais na internet e saquei
como se pinta uma parede. Não existe um tutorial online que ensine a vencer na
cidade grande. Quer dizer, existe. Na verdade uns quantos, talvez bem mais do
que ensinando a pintar parede. Mas o que eu quero dizer é que existem vários
caminhos para o que a gente quer em termos de “a gente ter se mudado pra cá”.
Pode ser que a gente tenha vindo pelo certo. Pode ser que a gente precise de
uns atalhos. Pode ser que a gente erre o caminho e tenha que recalcular a rota.
Pode ser que a gente tenha que recalcular a rota de novo. E de novo. Mas de
demão em demão a gente vai levando.
- ZZZZzzzzzZzzZZZZZZZZZZZZZzzzzzZZZZ
- Ok, dormiu. Agora é a hora de passar essa segunda demão.
Monday, February 18, 2013
Um inseto pousou em meu ombro
Não sei direito qual, é um daqueles que entram pela janela do quarto
nas madrugadas de verão e quando a gente acorda eles não estão mais lá. Mas bem maior. Tem grandes olhos pretos e o
corpo meio alaranjado na parte de baixo e uma coisa meio cinza em cima.
Passei a
mão no ombro para tirá-lo.
O bicho se
assustou e saiu voando.
Direto para
o ventilador, que friamente o corta ao meio. Uma parte cai no chão e a outra
fica presa nas grades.
Morte na
hora, penso eu. E fico alguns segundos parado olhando a cena ao mesmo tempo em
que tento processá-la. Tudo isso aconteceu em questão de três segundos. Um,
vejo o bicho no meu ombro. Dois, tiro. Três, ele é partido ao meio. Como a
morte é rápida, meu Deus do céu. Como a vida é curta, meu Deus do céu. De um
segundo para outro todo mundo puft, seja humano ou inseto que só especialistas
em inseto sabem o nome.
Passados
alguns segundos a parte do bicho que caiu no chão começa a se mexer.
Felicidade, penso eu. Só abrir a janela, soltá-lo no mundo e ir dormir com o
ventilador me refrescando. Mas o bicho não consegue voar. Tenta com todas as
suas forças, se debate incessantemente, mas as leis da aerodinâmica o
condenaram a não sair mais do chão. E o
ventilador girando.
O inseto
ali, me olhando com aqueles olhos pretos e gigantes que se dividem em ter medo
e verem em mim uma oportunidade de salvação. Tenho que salvá-lo, penso. Surge a
ideia de amarrar o restante que ficou preso nas grades ao pedaço que bate asas,
pois parece realmente ser um caso de falta de peso, mas obviamente não sei como
proceder, então desisto. E se esgotam as ideias para salvar o bicho que fora
cortado ao meio porque deixei a janela aberta por causa do calor. E o bicho
aqui, do meu lado, tirando forças das forças das forças para tentar voar, mas
começando a cair a ficha de que não conseguirá.
Que morrerá
nesse lugar estranho.
Que nunca
mais verá os filhos, órfãos e sem ter o que comer a partir de agora.
O mais
velho terá de sair da faculdade para trabalhar, até que um dia será cortado ao
meio por um objeto cortador não identificado.
Tento
descobrir na internet de que inseto se trata para descobrir o quão ligados à
família eles são.
Tenta mais
uma vez sem sucesso alçar voo.
Começo a
pensar em dar-lhe o golpe de misericórdia. Acabar com seu sofrimento e ir para
a cama descansar, pois amanhã será um longo e cansativo dia. Porém, lembro que
eu sou eu e que nunca teria coragem para tal. Você leitor também não teria. A
gente diz que teria, mas na hora dá para trás. Óbvio que é a melhor opção. Mas
não é uma opção. Enfiar uma estaca no peito do bicho e dormir como se nada
tivesse acontecido não está nos planos. Lembro do recente caso em que minha
cadela estava no último estágio de um câncer que iniciou nas mamas e em questão
de dias se espalhou para os pulmões. Ela foi levada ao veterinário já com a
possibilidade da eutanásia na mesa, mas o próprio doutor via o processo com
resistência. Talvez pelo mesmo pensamento que me corrói agora: Sou contra
porque sou eu quem irá proceder. Na
verdade, este foi o principal desempate entre seguir a carreira de jornalista e
de médico veterinário. Ver bicho sofrendo pelo resto da vida não estava nos
meus planos e eu respeito profundamente a profissão muito também por essa
frieza necessária que eu, escritor, não tenho e por isso escrevo ao invés de
tentar fazer algo pelo inseto.
Já faz duas
horas desde que o bicho foi cortado pelo ventilador. Acho que vou dormir e
esperar para ver amanhã o que se sucedeu durante o restante da madrugada. Como
sempre na vida.
Pensar que
meia hora antes do acontecido eu havia cogitado seriamente ir dormir. Fecharia
a janela e nada disso teria acontecido.
Sunday, February 10, 2013
O gato
Você chega em casa cansado do trabalho. O mundo inteiro caiu
em suas costas no dia de hoje e só o que você quer é atirar a chave em qualquer
canto, se atirar no sofá e ver TV. E quando eu digo “ver TV” é ver TV. Ver
novela, ver alguma série qualquer. Você enfim deita no sofá. Decide não comer
nada, está cansado demais para sentir fome. É só ver TV e ir deitar.
Aí vem o gato.
O gato vem, pisa em cima de você, procura um lugar fofo em
seu peito magro e, quando finalmente acha, deita.
E você fica naquela posição por horas.
Está cansado, não quer mais ver TV, mas como que vai tirar o
gato dali? Além de atrapalhar o conforto do bichano, ele está lhe dando calor,
querendo ele ou não fazer isso. “Ele vai me odiar se eu sair daqui agora”.
Humanos pensam isso de gatos. Acham que vão perdê-los para sempre se decidirem
mover-se para maior conforto. Aí ficam
ali engessados. Tentam se mover bruscamente numa tentativa de passar para o
gato a responsabilidade do desconforto, mas a verdade é que o gato não está se
importando muito. O gato dorme em cima do seu nariz, se for necessário. Ele
quer é dormir. “Ele quer dormir junto de mim”, pensa você, ingênuo ser humano
lendo essa frase. Pode até ser. Mas também se não fosse essa coisa de o gato
querer ficar encostado na gente, a gente nem ia dar bola pro gato. Porque o
gato gosta do ser humano. Quer ele ali, paradinho, só com o corpo encostado no
seu. Mas aí, se o ser humano, num ato de pura brutalidade resolver trazer o
gato mais pra perto de si, aí ferrou. “Aí babaus”, como diria um amigo meu.
O bicho vai embora, você está o sufocando.
Mas isso tudo é só você pensando, enquanto permanece imóvel
no sofá para não atrapalhar a equação perfeita do conforto do gato. Você pensa pensa pensa pensa pensa e, quando
volta a si, já está passando o Corujão e a fome venceu o cansaço. Você resolve
ir na cozinha fazer um sanduíche, mas, na hora em que iria se levantar, lembra
que o gato está ali. E você não consegue tirar o gato dali. O gato é mais forte
que a fome, que o cansaço, que você, e que tudo isso junto. E aí já passou
Corujão, tá começando Telecurso 2000, você está podre de sono, mas não pode se
mover até a cama porque o gato segue lá, torturando você com todo aquele tonemaíismo.
E isso piora quando o gato é daqueles mais ariscos. Daqueles
que não costumam aceitar um colo com facilidade. Uma oportunidade de fazer
carinho num desses é como pasta de dente: Você aproveita até o final, vai
enrolando, enrolando e, se precisar, ainda corta a ponta no final para durar
mais.
É claro que, de repente, depois de cinco horas de sono no
seu peito, o gato resolve acordar e sai de cima.
Aí cabe a você ficar chorando pela ausência do gato ou correr pra cama antes que ele volte.
Aí cabe a você ficar chorando pela ausência do gato ou correr pra cama antes que ele volte.
Tuesday, February 05, 2013
Maria do Céu
O nariz arrebitado o sinal em cima da boca o timbre rouco
carinhoso manhoso e pedindo carinho o ponto. assim. de repente. Dando a. Cadência.
Céus, a cadência.
Céus, o toque nos cabelos.
Céus, a boca.
Céus, a boca.
Céus, o Brasil.
Céus, o Brasil falando francês brasileiro.
Céus, a enrugada no rosto.
Céus, a roda.
Céus, o pra lá e pra cá.
Céus, a mordida na fruta.
Céus, o aAa.
Sunday, January 20, 2013
- ...
Passou duas vezes pela mulher de cabelos negros e batom bem
vermelho. Fingiu que não viu, cara forte que tava tentando parecer. Percebeu,
ficando até que feliz, não sei, tava escuro, mas acho que sorriu, que ela
estava olhando. Meio sem entender muito bem, é verdade, mas ele não entendeu
muito bem se o que ela não tinha entendido muito bem era o que diabos essa
pessoa tá fazendo dando voltas na festa ou por que diabos ele não lhe deu oi.
Aí resolveu passar uma terceira vez. Só pra confirmar qual
do não-entendimento era o caso dela. Tentou só passar, fingir não ver que ela
estava ali do lado, não vou dar oi não vou dar oi não vou dar oi, mas quando
deu por si já tava cutucando. Cutucando.
- Bu.
- Oi?
- Passei duas vezes aqui, tu fingiu que não m...
- Eu vejo você meio que em todos os lugares que eu vou.
- A gente se viu umas quatro vezes, cinco contando a
primeira. Do jeito que tu falou ficou parecendo aquele episódio de Friends que
a Phoebe se apaixona por um cara que ia nos mesmos lugares que ela, mas no
final ela acaba descobrindo que ele escrevia pornografia pra crianças.
- Mas é meio isso mesmo.
- Tu tá apaixonada por mim?
- Não, mas acho você meio esquisito.
- Esquisito tipo Johnny Depp, tipo Woody Allen, tipo Faustão
ou tipo o meu colega, que embora tenha contado o final do Harry Potter pra
turma toda é um sujeito adorável?
- Tipo que escreve pornografia pra crianças.
- Que injustiça, tu nem me conhece. Eu escrevo pornografia
pra adolescentes, é um público muito mais legal pra isso. Criança que vê
pornografia não sabe o que tá fazendo, adolescente tem uma relação muito mais
visceral.
- ...
- !!!
- ???
- Tu já parou pra pensar que o fato de a gente se ver em
todos os lugares pode ser obra do destino?
- Destino?
- É. Acredita?
- Só quando é alguma coisa boa pra mim.
- Então, nesse caso?
- Não.
- Eu juro que sou legal. Pergunta pra qualquer um. Eu sou um
doce.
- Eu nunca disse que você não é legal.
- Mas qual o meu problema então?
- Eu nunca disse que você tinha algum problema.
- Mas então por que essa indiferença toda?
- Nunca ocorreu a você que talvez eu só não esteja
interessada? Que “não ter problema” não necessariamente significa uma pessoa
interessante?
- Mas eu sou interessante. Tu que não me deixa mostrar isso.
- Você repete isso “eu sou interessante” desde a primeira
vez que a gente conversou. Não acha meio pretensioso pra uma pessoa de um metro
e setenta, com no máximo cinquenta e cinco quilos e que não sabe nem dançar?
- Não. Se eu não me achar interessante, quem que vai achar?
Com toda a minha autoestima já tem mulher que me vê como um boneco Ken daqueles
que não têm pênis.
- Vai ver você dá atenção demais.
- Tá, essa conversa está virando um diálogo adolescente e eu
acho que o cara que tá escrevendo vai parar de escrever a nossa história se
continuar assim.
- Tem um cara escrevendo a “nossa história”? Depois você
ainda acha estranho eu te achar esquisito ao invés de estar apaixonada.
- Nunca ouviu falar em Deus? Brincadeira.
- ...
- !!!
-???
- Aquilo de um cara estar escrevendo esse diálogo foi
brincadeira também.
...
...
Tuesday, January 15, 2013
Os alquimistas estão chegando
Um cara está aprendendo a cozinhar e vai à casa da namorada
mostrar-lhe isso.
Não.
Um cara está aprendendo a cozinhar e vai à casa da avó
mostrar-lhe isso. Com a namorada. Já que criei a criatura não dá pra deixa-la
solta assim no universo.
“Só consigo cozinhar escutando música”, fala o cara enquanto
coloca o celular no aleatório. Começa a tocar uma música do Jorge Ben. Sei lá,
leitor, escolhe aí qualquer uma pra fazer fundo, não vou impor nada. Ele tira a
camisa, coloca o avental com os dizeres “sou a melhor vovó do mundo” e parte
para cima do frango para cortá-lo. A namorada vai para a sala ver Estrelas com
a avó. Sim, o almoço saiu tarde.
Após alguns minutos de silêncio, a avó resolve virar para a
namorada.
- Você gosta muito do meu neto, não é?
- S-s-sim, responde a namorada.
- E ele gosta muito de você também, pressuponho...
- É... eu espero que sim. Do jeito dele, mas nesse tempo
todo eu já aprendi a ler ele e acho que sou importante.
- Quanto tempo é esse tempo?
- Cinco anos.
- Hm. Escuta, eu estou morrendo e não tenho coragem de
contar para ele, ainda mais agora que ele está tão entusiasmado em cozinhar para
mim. Você acha que pode fazer isso por mim?
- O-o-o que?
- Estava sentido algumas dores e fiz alguns exames. Contei
para ele que era apenas um mal jeito nas costas, mas a verdade é que estou
morrendo. Até peço desculpas por te colocar nessa situação, a minha ideia era
pedir para a minha filha contar para ele, mas acho que não vai haver tempo,
então como já estamos os três aqui...
- Mas eu não posso
fazer isso! Quem sou eu para dar uma notícia dessas? A senhora tem certeza
disso? Já pediu outra opinião?
- Minha filha, quando a gente é velho, sabe quando vai
morrer. Fiz os exames apenas para que ele não desconfiasse de nada, mas a
verdade é que eu já sabia os resultados. E você é a pessoa que o acompanha há
cinco anos. Quando vocês começarem a assinalar uma opção diferente no campo “Estado
Civil” da conta da NET você vai se tornar, sem o exagero que se usa na
adolescência, a pessoa mais importante da vida dele. Se por acaso ele tiver a
chance de salvar uma pessoa de assistir ao Caldeirão do Huck será você. Essa
relação linda de vocês começa hoje, com essa notícia que você dará.
Lá da cozinha o cara segue cantando a plenos pulmões:
“ZAAAZUEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEIRAAAAAAAAAÁÁÁÁÁ
ZAAAAAZUEEEEEEEEEIRAAAAAAAA”
Tudo dando certo no Frango Xadrez, tá douradinho ali na
panela junto com os pimentões e o shoyo. Não colocou amendoim, a vó não gosta,
faz mal, ouviu dizer. Mexe isso aí, guri, diminui esse fogo aí, vai queimar
tudo, lembrou dessas coisas que ela dizia quando ele ainda tava engatinhando
nessa coisa de frango. Era um frango no frango. Falta agora só diluir o amido
de milho (que, agora sabendo cozinhar, ele compra só Maizena), colocar no todo,
misturar e servir.
Tá, ficou tudo pronto, hora de servir, a namorada bota a
mesa e a avó só esperando. Vem, vó, tá
na mesa.
Lá pelo meio do almoço, percebendo o clima pesado, o cara,
sem vocação alguma para tal, resolve tentar melhorar o ambiente puxando o
seguinte assunto:
- Que silêncio. Parece até que alguém aqui está morrendo.
Eis que a namorada e
a avó gelam, será que ele ouviu a conversa da cozinha? Até que não seria mal,
pensa a namorada. Que horror pensar assim, pensa de novo. A avó, que já estava
quase morrendo, cai durinha ali no chão da sala.
- O que está acontecendo, santo deus todo poderoso????!!!!
- Exatamente aquilo que você ouviu da cozinha! Chama a
ambulância. Rápido!
Três dias depois, enquanto o cara havia saído para almoçar,
o médico aparece e pede para falar com alguém da família. Ninguém. Só a
namorada está. O médico pensa, não pode dar a notícia para algum estranho, mas
também não pode deixar a idosa morta na UTI sem ninguém saber. Resolve
arriscar.
- Há quanto tempo vocês estão juntos?
- Cinco anos.
- Então a relação de vocês é muito estreita?
- Costumamos dizer que se ele pudesse salvar alguém de ver o
Caldeirão do Huck pro resto da vida, esse alguém seria eu.
- Ok... Nós tentamos de tudo, mas a verdade é que ela já
estava comprometida antes mesmo do que aconteceu e...
- Eu sei. Eu sei.
- Você acha que consegue contar para ele?
- Não. Mas eu tenho. É como fazer regime.
Quando o cara estava de volta do almoço, a namorada respira
fundo e senta ao seu lado. Olha em seus olhos.
- Sabia que existem pouco mais de mil exemplares do Leopardo
Persa...
- Você sabe que eu não gosto quando chamam animal de
exemplar.
- Sabia que existem pouco mais de mil indivíduos adultos do
Leopardo Persa em todo o planeta? Tão tendo que reproduzir eles em cativeiro,
porque a dizimação tá pesada. Pensando por esse lado, nem é tão ruim o fato de
que existem três mil pandas ao redor do mundo, você não acha?
- Amor, citando a Berta, em um dos seus melhores momentos em
Two and a Half Men, todo mundo sabe que depois do Herb ela é a minha personagem
predileta, você pode colocar açúcar em cocô que ainda sim não vai ser
chocolate. Tudo bem ela ter morrido.
- Não está tudo bem. A pessoa mais importante na sua vida, a
que você mais amava, acabou de falecer. Você nunca mais irá cozinhar para ela.
- Olha, eu não sei você, mas antes de aceitar participar
desse texto, eu li todos os outros do cara que está escrevendo. Em um deles,
ele diz que o universo é muito pequeno e, por conta disso, os seres magníficos,
como a minha avó, têm de respeitar uma fila, pois são grandes demais e ocupam
muito espaço. Essa fila precisava andar e a minha avó, gentilmente, cedeu o
lugar dela para uma nova pessoa ser a que eu mais amo e que mais me cuidará
daqui pra frente.
Depois de um tempo, acho que uns dez anos, quando o cara e a
namorada já assinalavam outra opção no campo “espaço civil” do contrato da NET,
Deus, O Todo Poderoso, desceu dos céus. Foi uma loucura. Pessoas se ajoelhando,
pedindo perdão pelos seus pecados, dizendo que fariam qualquer coisa para
permanecerem vivos, imaginem que coisa legal deve ser você ser Deus. Enfim, o
Supremo, quando finalmente conseguiu com um raio daqueles fazer com que toda a
humanidade calasse a boca, disse que tava cansado daquela zona toda. Tomaria
uma atitude drástica e definitiva e passaria o resto da eternidade no Rio de
Janeiro vendo as moças passarem de bicicleta. Ou os moços jogarem altinha, se
você for daqueles que acreditam que Deus é uma mulher. A atitude seria punir
toda a humanidade, fazendo com que todos os seres, fora os pandas e os
leopardos persas, fossem obrigados a assistir, por toda a eterna eternidade, ao
Caldeirão do Huck.
Todos fora um humano, escolhido via sorteio para, junto com
outra pessoa a sua escolha, passarem o resto dos tempos junto dele vendendo água-de-coco
na praia.
Tuesday, December 25, 2012
Morte
A morte é a pior coisa que existe. E digo a morte como a do
tarô, com vários significados, todos eles arrasadores. As pessoas que dizem
considerar a morte algo bonito, ou não estão com ela as rondando ou estão
tentando amaciá-la. A morte é feia e malcheirosa. A morte dá vontade de morrer
e só ressuscitar quando o mundo for bonito novamente.
Mas a morte também é como um parente chato que inventou
estar com saudades apenas para passar uma semana na sua casa de praia. Você não
pode negá-la. Não pode ignorá-la. Não pode expulsá-la por ela ser inconveniente.
Tem de aguentar o seu cheiro podre. Tem que aguentá-la palitando os dentes após
o almoço.
A partir do momento em que você se propôs a ter uma casa na
praia, automaticamente se propôs a receber o parente indesejável.
Aí você se prepara psicologicamente para recebê-lo. Tenta
relaxar, vou ter que passar por isso mais dia menos dia, que seja agora. Mas lá
no fundo (e não tão fundo assim) ainda há a esperança de que ele não venha. O
carro pode quebrar no caminho. Mudou de ideia. Tenta amenizar o sofrimento com
toda essa preparação, mas na hora que ele chega é tudo inútil.
Você desaba.
Tuesday, December 11, 2012
Uma manhã sem luz
Faltou luz aqui no trabalho. Oh, olha só, uma caneta, vamos
tentar escrever alguma coisa.
Essa falta de luz veio em um bom momento, como quando no
Orkut por uma bela surpresa o amor da sua vida visualizava o seu perfil e
aquilo dava uma alegria inesperada capaz de durar umas duas semanas. Como na
única vez em que aquela menina bonita, dona de uma cor de pele que autoriza o
bom uso do batom, me respondeu no Facebook,
uma pena agora ela apenas visualizar minhas mensagens e nem me chamar de
chato indiretamente dizendo que ela também
é chata.
Por favor, moça bonita, me dê uma luz, ilumina minha vida,
já que meu trabalho está numa escuridão só. Ser de luz própria que és, venha
nos iluminar, ou melhor, não venha, que é para eu poder continuar a escrever
minhas bobagens sobre ti só pelo prazer de ver a caneta deslizando, poucas
esperanças que tenho de te convencer a sorrir pra mim como sorriu no dia em que
nos conhecemos, de pegar tua mão macia e fingir dançar, como no dia em que nos
conhecemos.
Ah, mocinha, me ensina das coisas de Goiás, me explica a
diferença entre o sotaque de lá e o de Minas, me explica o porquê de JK não
ter transformado Goiânia em capital do país ao invés de gastar aquela nota toda
construindo uma cidade do nada ali do lado e colocando o breguíssimo nome de “Brasília”,
me explica o porquê de os goianos formarem tantas duplas sertanejas se em
Goiás nem ao menos tem sertão. Me explica como o Atlético Goianiense conseguiu subir meteoricamente para a primeira
divisão, me explica o caso Carlinhos Cachoeira na visão dos goianos, que
elegem a direita há tanto tempo e, finalmente, me explica o porquê de não
gostar de mim, se temos tanto em comum de acordo com as coisas que curtimos no
Facebook.
Acabaram de ligar para o chefe, que no
momento está em Porto Alegre. Ele disse que não, não podemos ir para casa, que
temos que continuar “trabalhando” coisa e tal. Acho que os outros funcionários
irão organizar uma espécie de motim, algo como dormir durante toda a tarde.
Acho que vou convencê-los a fazerem o mesmo para acabar com essa tua
indiferença em relação a mim. Com a falta de luz que assola minha manhã e
minhas pretensões de passar uma tarde inteirinha te fazendo cafuné, as pessoas
aqui do lugar onde eu trabalho começaram a fofocar loucamente. Em questão de
meia hora eu já sei desde as incompetências de uma tal de Marli até o nome do
próximo Secretário de Educação da cidade. Parece um pouco piada, mas agora eles
começaram a falar sobre Sessão da Tarde.
Não que seja ruim, eu adoro Sessão da Tarde. Passar aquela uma hora e meia
vendo filme ruim e comendo besteira está entre as minhas 15 melhores coisas do
mundo, logo atrás de usar pela primeira vez uma meia que acabei de comprar.
Vamos um dia, moreninha, passar a tarde
toda vendo filme ruim e comendo besteira? “O Amor é Cego” e bolacha Maria com
margarina. “Lagoa Azul” e marshmallows. Qualquer filme com o Eddie Murphy e Doritos.
“Esqueceram de mim” e dois potes de pipoca com manteiga. Vamos fazer um filme
ruim nós mesmos e não mostrar a ninguém . Um filme sobre uma mulher iluminada
que aparece de repente e ilumina uma cidade inteira, sem luz há muito tempo. “A
Moreninha Iluminada”, e aí assim, não mais que de repente, surja “A Moreninha
Iluminada – O Retorno”.
Estão me avisando aqui que, finalmente,
chegou a minha hora de ir embora. Ainda bem, pois estou louco de fome. Mas
mesmo assim uma pena, logo agora que eu forçaria uma poesia fazendo uma
metáfora entre a luz do sol que me aquece e me ilumina nessa manhã escura e o
momento em que aceitaste minha tentativa e me deste a mão, blablablá, nada que
eu já não tenha dito umas cem vezes durante esse texto construído durante uma
manhã inteira. Vou me embora, prenda minha. Vou para a casa.
Espero que lá tenha luz.
Espero um dia “dançar” contigo novamente.
E a luz se fará assim.
Ponto Final.
Friday, December 07, 2012
Para a moça que me acha um pé no saco
Te conheci esses dias, moça lá do estado que eu não tinha
muita simpatia, mas que agora por tua causa eu até que gosto. Parecia legal,
parecia bonita, eu já estava meio bêbado mesmo, fui lá falar. Riste das besteiras
que eu falei, respondeste algumas outras, mas deu pra ver claramente uma coisa
muito triste: Me achaste um pé no saco. Para a tua sorte, já que é uma glória
me ter como conhecido, pessoa futuramente muito rica e dona de uma capacidade
intelectual invejável que serei, eu não me dou por vencido de primeira, como tu
podes ver por esse outro texto que eu fiz em uma situação bem semelhante e que,
se interessa saber, foi revertida pela minha graça, minha fofura e acho que
devo um pouco ao meu perfume também.
Na bem verdade, se tivesses me ignorado completamente (tá,
como fez no facebook esses dias), recusado minha solicitação de casamento no
facebook ou ainda não dado risadas lindas do meu besteirol, eu teria desistido
fáci fácil. Porque não seria o caso de tu me achares chato. Seria o caso de tu quereres
a minha morte e eu realmente espero que essa não seja a verdade. Tu queres que
eu morra? Se tivesses um pedido a fazer seria que eu caísse ali, durinho, no salão
da festa? Irias ao meu enterro? Levarias flores? Acho que vou simular a minha
própria morte para ver se tu te importarias.
Dançar realmente é uma arte muito complicada. Tem que fazer
vários movimentos ao mesmo tempo, com várias partes do corpo e ainda tem que
olhar para a outra pessoa. Realmente, tens razão. Eu mesmo sou um cara
inteligentíssimo, cheio de talentos e não sei dançar. Sou meio duro. Um amigo,
grande pé-de-valsa, certa vez tentou ensinar a mim e a outro amigo essa grande
arte que é se mexer e isso ser aclamado pelas outras pessoas. Era ensino médio, a gente era meio feio e
precisava de alguma coisa pras guriazinhas gostarem da gente. Como pudeste
perceber no dia em que te conheci, não deu muito certo.
Mas eu tentei. Eu sempre tento. Mais ou menos como a última
coisa que eu te disse no facebook e que obtive resposta: O homem não sabia ler,
não sabia escrever, não sabia fazer batata frita, mas em determinado ponto da
sua história pensou: Cara, dá pra tentar isso aí.
Eu vou tentando.
Tuesday, November 27, 2012
Encomendas do Solstício
Olá!
Talvez vocês não saibam, porque eu não tenho muito senso de marketing, mas eu escrevi um livro com as coisas que eu publiquei aqui ao longo dos anos e mais algumas outras. Ele se chama Solstício, tem ilustrações da Patrícia Lindoso e foi lançado na Feira do Livro de Pelotas desse ano. Se tu, que estás lendo essa palavra agora, tiveres interesse em encomendar um (ou cem) exemplares, é só mandar e-mail pra queremossolsticio@gmail.com.
Obrigado!
Talvez vocês não saibam, porque eu não tenho muito senso de marketing, mas eu escrevi um livro com as coisas que eu publiquei aqui ao longo dos anos e mais algumas outras. Ele se chama Solstício, tem ilustrações da Patrícia Lindoso e foi lançado na Feira do Livro de Pelotas desse ano. Se tu, que estás lendo essa palavra agora, tiveres interesse em encomendar um (ou cem) exemplares, é só mandar e-mail pra queremossolsticio@gmail.com.
Obrigado!
Tuesday, October 16, 2012
Palhetas
Quando um quarto está todo bagunçado, com roupas espalhadas,
cadernos revirados, gavetas abertas, gavetas que não abrem, é difícil achar
algo que é ou era importante. É difícil achar no meio de tanta coisa bagunçada.
Será que deixei no armário? Não foi debaixo da cama? Aí a gente esquece, nem
que seja por um tempo. Depois aparece, assim de repente, quando eu não estiver
mais procurando.
Acontece muito com palhetas. A verdade é que não existe um
universo paralelo para onde elas – e também as borrachas – vão para serem
felizes aproveitando a liberdade que lhes foi concedida após ultrapassarem a
fina barreira que separa o mundo real do mundo das palhetas e das borrachas. A
verdade é que elas ficam sempre lá. Escondidas no meio de um sofá, escondidas
dentro de gavetas, esperando o momento em que alguém decide tomar a frente da
situação e limpar tudo até, assim de repente, encontrá-las. Elas ficam lá,
pedindo socorro antes que aconteça a tragédia de outro alguém varrê-las e, aí
sim, elas sumirem para sempre.
Também pode acontecer de elas padecerem a essa espera. Pode
acontecer de uma pessoa sentar em cima da palheta perdida e aí, depois da
arrumação que se faz no quarto, ela ser achada quebrada no meio, tornando-se
totalmente inutilizável. Nesse ponto da história das palhetas pode ser que
exista outro mundo. Uma espécie de céu das palhetas, onde aquelas que se
cansaram demais durante a vida, ou simplesmente caíram no esquecimento, descansam
eternamente. Mortinhas da silva, mas descansando.
Wednesday, September 19, 2012
Dona Cecília
Talvez Deus, um pouco cansado de escrever a história de tanta gente, tenha resolvido dar para Fernando Sabino a tarefa de roteirizar o 80º ano de Cecília Giménez.
Em uma bela, ensolarada e provavelmente muito inspirada
tarde espanhola, a devota senhora resolveu restaurar a pintura Ecce Commo, retrato de Jesus
Cristo feito na década de 30 por Elías García Martínez. Confiando em seu talento, ela já
pintava vasos de flores em casa, não tinha como dar muito errado, os
responsáveis pela obra autorizaram. Vai lá, dona Cecília. Dona Cecília foi.
Quando toco violão em casa, preparo uma apresentação em
casa, falo comigo mesmo em casa, sou incrível. Não tem quem seja melhor do que
eu. Quando faço todas essas tarefas em público sou mais tosco que Sérgio
Mallandro. Acho que foi isso que aconteceu. Seus vasos de flor, cestas de
frutas, casas e ruas eram incríveis, mas, quando caiu a ficha da
responsabilidade que seria restaurar uma obra tão importante como o Ecce Commo, a aposentada
espanhola gelou. Católica, tentou rezar, mas Deus estava um pouco cansado de
escrever a história de tanta gente, “agora não dá, dona Cecília”.
Dona Cecília começou. Mão pesada. Braço trêmulo. Coração
gelado. Até que não ficou ruim, dá pra continuar. Engole seco e vai, o tempo tá
passando. Foi pintando e até ficou um pouco mais confiante, embora ainda
gélida. O desenho do pergaminho ficou bom, nada mais pode dar errado, eu
consigo. Mas, em um ato de
puro impulso de alguém que está nervoso e erra até a pergunta de 5 mil no Show
do Milhão, cometeu um erro gravíssimo. Apaixonada desde pequena pelos olhos
ternos de Jesus Cristo, seu pastor e nada lhe faltará, resolveu desenhá-los
antes de tudo. Qualquer pessoa que tenha uma pequena noção de desenho sabe que
olhos, ainda mais que mãos, são a parte mais complicada na hora de desenhar. É
preciso muita pesquisa prévia, é preciso muito cálculo e é preciso muito braço
firme para um olho ficar perfeito. Por ser tão apaixonada pelos olhos de
Cristo, dona Cecília se dedicou demais e, como acontece comigo, toda essa
dedicação pressionou a senhora. Mas e se não ficar bom? E se Deus meu Senhor
não gostar? Errou a mão.
Quando viu que não havia mais como consertar, dona Cecília
passou por alguns estágios. O primeiro: Desespero. Não irei mais pro céu, ai
meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus. Segundo: Raiva. Quer saber? Não quero mais
pintar isso não significa nada sem os olhos lindos de meu Senhor vou me embora
para a minha casa fazer um bolo e ficar com meus netos! Terceiro: Tristeza (daí
o borrão na boca, dona Cecília chorou muito). Como pude fazer isso? Nunca faço
nada direito mesmo, minha vida não serve pra nada. Viu sua história toda passar
pela mente. 80 anos em um minuto. No meio daquela agonia toda surge uma luz. É Jesus Cristo, mas seus olhos já não parecem tão ternos. O Rei dos Reis se aproxima da espanhola e fala:
- Dona Cecília, o que foi que a senhora fez?
- F...F...Foi s...sem querer..er.
- Foi sem querer que Eu descobri o dom de caminhar sobre as águas. A senhora por acaso caminhou sobre as águas nesta pintura?
- N..Não, senhor.
- A senhora nem ao menos nadou sobre as águas.
- Mil perdões, meu Senhor, mil perdões.
- Pensarei em teu caso.
E dali Jesus Cristo se foi novamente em direção à luz. Dona Cecília resolveu ir pra casa descansar um pouco.
- Dona Cecília, o que foi que a senhora fez?
- F...F...Foi s...sem querer..er.
- Foi sem querer que Eu descobri o dom de caminhar sobre as águas. A senhora por acaso caminhou sobre as águas nesta pintura?
- N..Não, senhor.
- A senhora nem ao menos nadou sobre as águas.
- Mil perdões, meu Senhor, mil perdões.
- Pensarei em teu caso.
E dali Jesus Cristo se foi novamente em direção à luz. Dona Cecília resolveu ir pra casa descansar um pouco.
Quando acordou, rezou, tomou seu café e foi ver
televisão. Se viu. Se desesperou. O mundo inteiro já estava sabendo daquela
idiossincrasia que cometera. Resolveu que não sairia de casa nunca mais,
esperaria o juízo final sentada em seu sofá rezando pela redenção de seu Senhor
Jesus Cristo. Botaria até um vasinho de flor em cima da mesa para esperá-lo.
Um dia, então, sua vizinha veio trazer-lhe a informação: As
visitas na igreja onde está o Ecce
Commo restaurado
aumentaram em uma proporção que só Deus sabe fazer a conta. Antes recebendo
média de 400 visitantes durante todos os verões passados, depois da restauração
de dona Cecília foram cerca de 30 mil. A igreja inclusive já planeja ganhar dinheiro, ou como estão chamando, "donativos" com o sucesso da sua restauração. Aí atacou os nervos. Mão Pesada. Braço
Trêmulo. Coração gelado.
Sunday, August 12, 2012
Gentileza
O universo deve mesmo ser algo muito pequeno. Isso porque é
preciso achar uma maneira de entender porque até os melhores seres, aqueles que
facilmente teriam cargo vitalício por aqui, um dia partem. Partem porque o
universo, além de muito pequeno, deve ser muito democrático e por,
infelizmente, ter estas duas características, precisa constantemente ser
renovado. Partem porque – ainda bem – a fila dos melhores seres que querem
fazer parte do universo é gigante. Partem porque são gigantes e ocupam muito
espaço em um algo que deve mesmo ser muito pequeno. E aí, gentilmente, cedem
seus lugares para maravilhas novas fazerem cafuné na gente.
Tuesday, July 31, 2012
Superpoder
Era uma vez um menino. Era uma vez um menino que sabia voar.
Não necessariamente era um menino que queria
voar. Ele só sabia. Também não era um voar estilo Super-Homem, com uma capa
imponente, tampouco estilo anjo, com asas. Ele só sabia.
O menino usava esse “superpoder” quando julgava necessário –
dentro do seu entendimento de necessário, coisa que vai de pessoa pra pessoa,
de cachorro pra cachorro, de margarida pra margarida. Ele julgava necessário voar
quando se sentia ameaçado. O que não acontecia lá muito, criança tranquila que
era. Veja você que era exatamente essa tranquilidade que o fazia ser
considerado ameaça e, por consequência, se sentir ameaçado. Os demais meninos,
ao o verem daquela forma, não entendiam. Como alguém conseguia segurar tanta
paz nas costas? O menino jogava bolinha de gude, claro, mas caso perdia – e isto
acontecia bastante – não se importava lá muito. Também não tentava tirar
proveito dos meninos menos habilidosos, chamando-os para duelos apenas para
ganhar suas bolinhas. “Para que irei excluí-los da brincadeira?”, dizia. E era
aí que os meninos partiam para cima. E era aí que o menino voava. Voava direto
para a padaria ao lado do colégio e lá ficava, comendo bomba de chocolate.
Mais pra frente, quando o menino já amava as meninas, a sua
tranquilidade continuava a lhe trazer problemas. Não que vivesse sempre em banho-maria.
Era um menino de bastante atitude e borogodó. O que incomodava as meninas era a
tranquilidade dele perante a sociedade. Certa vez perdeu uma namorada por ter
lhe tascado um beijo apaixonado dentro de um elevador lotado. Outra por não ter
lhe tascado um beijo apaixonado dentro de um elevador lotado. Mas não se
importava muito. Quando um relacionamento começava a não valer mais a pena o
menino simplesmente levantava voo. Voava pra casa e lá ficava até que desse
vontade de sair de novo.
Não apenas no que dizia respeito ao lado afetivo, o menino
cumpria este ritual em tudo na vida. De conversas triviais, onde para os amigos
sempre foi uma grande dúvida se era a embriaguez que já estava alta ou se um
amigo havia levantado voo ali diante de seus olhos, até no âmbito profissional.
Não conseguia parar em emprego algum, pois assim que as tarefas não lhe eram
mais interessantes ele levantava voo. Ali, de terno mesmo.
Até que ficou velho. E aí ficou mais velho, até que, tranquilamente,
levantou voo em direção a... Na verdade
desta última vez não sei para onde o menino foi. Sei que foi. Mas eu também
podia estar embriagado.
Thursday, July 12, 2012
Eu só queria dar umas risadas
Esse texto tem spoiler da 7ª temporada de How I Met Your Mother. Ou eu Inventei tudo.
Vocês não odeiam quando se preparam para uma coisa esperando
só dar risada e ela acaba emocionando? Sei lá, como quando eu baixo um episódio
de How I Met Your Mother e ele é sobre a Robin não poder ter filhos. Minha
internet anda meio lenta, então eu espero mais ou menos uma hora para um episódio
em 720p terminar de baixar. Depois que essa parte se conclui, eu vasculho a
casa inteira atrás de um pen-drive para passar o arquivo pra TV da sala, onde
me sento, me tapo, pego comida e a minha gata sobe pra tentar pegar a comida de
mim.
Enfim dou o play, já exercitando a mandíbula para as risadas.
Quando desligo a TV vem nó na garganta. Pô, não era isso que eu queria. Fiz
essa burocracia toda porque às 02:14 da manhã eu queria dar umas risadas. Se
fosse um domingo às 21h eu ia querer sofrer vendo Melancholia ou algo do
gênero, mas hoje, às 02:14, eu queria dar umas risadas. Nada contra colocarem
esse drama na série, acho que enriqueceu a personagem, blablabla. Até o Chaplin
colocava pitadas de drama nos seus filmes, a questão não é nessa. Sei que drama
embonifica as coisas, mas, com o perdão do egoísmo, às 02:14 da manhã eu queria
dar umas risadas! Saca quando a tua alma tá com o (insira aqui o nome do
músculo entre a bochecha e a boca) dolorido de tanto rir, mas tu queres colocar
isso pra fora? Então, era mais ou menos isso. Eu queria usar o How I Met Your
Mother como um meio para transferir as risadas da minha alma para o meu corpo.
Não queria passar horas e horas pensando o quão triste deve ser para as
mulheres reais passarem por essa situação, se também tem amigos tão gente fina
quanto os da Robin, às 02:14 da manhã eu queria dar umas risadas!
Me crucifiquem, me chamem de simplório, inventem adjetivos
pejorativos para mim, mas, principalmente nestes últimos meses, em que meu
coraçãozinho tá descansando numa rede, a diversão é o que tem sustentado a
minha graça. Não é que eu esteja cheio de nãometoques emocionais. É que, cara,
às 02:14 da manhã o que eu quero mesmo é dar umas risadas.
Tuesday, July 10, 2012
Por um mundo com os olhos de Alison Brie
Eu tenho uma teoria.
Sei que acaba ficando monótono escrever um texto inteirinho só sobre uma única pessoa, mas acredito que se todo mundo tivesse acesso aos olhos de Alison Brie os problemas do universo todos se extinguiriam. Não digo só os problemas que surgiram depois que ela nasceu.
Acho que se realmente existisse um Deus, esses olhos teriam sido as primeiras coisas a serem inventadas. Eva seria Alison Brie. Imagina se Caim, vendo os olhos azuis de sua mãe, teria a ideia cruel e seca de matar o próprio irmão. Daí por diante. Sei lá, vamos pegar ali a Idade Média. Quem precisaria da Igreja? Ou, se por um desvio da humanidade ela tivesse sido criada, quem contestaria a teoria da Igreja de que aquilo só poderia ter sido criado por um ser superior? Dois olhos lindos daquele jeito, formados assim, ao acaso? Não, impossível. Avancemos. Por que Hitler teria todo aquele ódio todo no coração se Alison Brie franze a testa fazendo uma cara de séria que dá vontade de rir e apertar? O Capitalismo seria baseado em pessoas querendo ter mais Alison Brie para si, mas para que mais Alison Brie para si? Aqueles olhos são como açúcar. Na dose certa é a perfeição. Não tem motivo para ter mais. Pensem em quantos problemas isso evitaria. Muro de Berlin, fome na África, Terrorismo (ori e ocidental). Por que diabos políticos haveriam de roubar dinheiro, se já teriam os olhos de Alison Brie?
Sei que acaba ficando monótono escrever um texto inteirinho só sobre uma única pessoa, mas acredito que se todo mundo tivesse acesso aos olhos de Alison Brie os problemas do universo todos se extinguiriam. Não digo só os problemas que surgiram depois que ela nasceu.
Acho que se realmente existisse um Deus, esses olhos teriam sido as primeiras coisas a serem inventadas. Eva seria Alison Brie. Imagina se Caim, vendo os olhos azuis de sua mãe, teria a ideia cruel e seca de matar o próprio irmão. Daí por diante. Sei lá, vamos pegar ali a Idade Média. Quem precisaria da Igreja? Ou, se por um desvio da humanidade ela tivesse sido criada, quem contestaria a teoria da Igreja de que aquilo só poderia ter sido criado por um ser superior? Dois olhos lindos daquele jeito, formados assim, ao acaso? Não, impossível. Avancemos. Por que Hitler teria todo aquele ódio todo no coração se Alison Brie franze a testa fazendo uma cara de séria que dá vontade de rir e apertar? O Capitalismo seria baseado em pessoas querendo ter mais Alison Brie para si, mas para que mais Alison Brie para si? Aqueles olhos são como açúcar. Na dose certa é a perfeição. Não tem motivo para ter mais. Pensem em quantos problemas isso evitaria. Muro de Berlin, fome na África, Terrorismo (ori e ocidental). Por que diabos políticos haveriam de roubar dinheiro, se já teriam os olhos de Alison Brie?
E os países se invadindo em busca de petróleo? Imaginem
que incrível seria o mundo se tivéssemos Alison Brie e não petróleo!
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