Friday, August 22, 2014

A subjetividade anárquica em quadrinhos

“Esse aqui, por exemplo. Eu não quis dizer nada”, diz Rafael Sica. E tem explicação: “Percebi com as tiras sem palavras que as pessoas faziam seu próprio sentido, entendiam do jeito que elas queriam. Então não adiantava eu propor alguma lógica se todo mundo buscava o seu sentido.” Com sua produção sem exatamente uma lógica de narrativa, Sica, nascido em Pelotas, está de volta à cidade e expõe uma mostra na Casa Paralela com inauguração nesta sexta-feira (22).
A exposição é uma versão estendida do trabalho que o quadrinista apresentou em Porto Alegre um tempo antes. Lá, contou que estava de partida para Pelotas e queria expor por aqui. Contatos o levaram ao sócio da Casa Paralela Chico Machado e o local recebe agora mais de mil tiras, além de quadrinhos, fanzines e boa parte do trabalho de Sica a partir de 2008 voltado à publicação.
Ajuda a formar o acervo a série Fim, que exemplifica a proposta tão enigmática quanto anárquica da produção do artista. “É um quadrinho depois do outro sem uma lógica linear. Completamente aberta e a busca pelo entendimento de quem lê acaba montando uma sequência lógica. Ainda sim é quadrinhos.”
A independênciaJá são 20 anos trabalhando na área - a primeira tira foi publicada no jornal Dando o Troco, com 15 anos, do Sindicato dos Bancários de Pelotas, e retratava o trabalhador dos bancos. Sica diz que desenha bastante, “na verdade”. Não necessariamente por demanda, mas sim pela vontade de desenhar, o que lhe obriga a estar sempre criando, por exemplo, séries para publicar em um fanzine ou vender a quem se interesse. “Desenho muito no impulso.” Tiras em jornal, por exemplo, ele continua publicando mesmo após certa perda de espaço por parte dos quadrinhos e charges nos veículos impressos. “Eu parei de publicar em jornal há mais de cinco anos, mas é um formato que seguiu dando certo na internet. Costumo publicar lá”, afirma.
A maior parte de sua produção, porém, é na área da ilustração, onde consegue mais dinheiro, embora a sua publicação autoral se espalhe por todos os segmentos do desenho. Sem nunca, e ele faz questão de ressaltar, se aproximar da publicidade. “É uma coisa que eu evito por uma questão de não querer e ser um trabalho difícil. Pessoas avaliando teu trabalho e querendo mudar o que tu tá fazendo. Eles dizem que querem teu traço, mas no fim querem outra coisa. Não vale a pena.”
Manter-se independente, aliás, é uma bandeira e ele aponta esse como sendo um caminho a ser traçado pelos quadrinistas hoje em dia, tendo em vista uma maior facilidade de se autopublicar. “Qualidade de conteúdo sempre teve, mas hoje tá mais fácil e tem surgido mais coisas.”
Chico Machado, que além de sócio da Casa Paralela é “ex”-quadrinista membro da antológica revista pelotense Kamikaze, dos anos 80, entra na conversa e concorda, fazendo uma abordagem histórica: “Era direto do original que se tiravam as cópias. Não tinha recurso de ampliação, era caro. A revolução tecnológica tá aí. Animação por exemplo, quem fazia naquela época era o Otto Guerra, hoje em dia qualquer um com um softwarezinho mete bala e tu vê uma produção muito legal, que naquela época ficava bloqueada porque não era acessível”. Segue Sica: “Essa coisa colaborativa é massa. Hoje em dia tu publica com gente do Rio, de Brasília por processo independente e simplesmente manda por e-mail a página. Antigamente tinha que mandar o original por fax, por correio, demorava um baita tempo pra chegar”. Finaliza Machado: “Se tem acesso ao que se produz no mundo inteiro. Nas décadas de 80, 70 era muito difícil chegar em produções de contracultura. A maioria achava que quadrinismo era super-herói, Pato Donald e Cebolinha. Isso abriu a cabeça da galera”.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Thursday, August 14, 2014

Em Las Vegas, grupo de dança Trem do Sul descobriu sua apoteose

Após pequena temporada nos Estados Unidos, mais precisamente em Las Vegas e com rápida passagem por Miami, o grupo de dança hip hop Trem do Sul está de volta a Pelotas. O principal foi a participação no Campeonato Mundial de Hip Hop e a classificação até as quartas de final de um dos participantes na categoria de batalhas de locking, mas a experiência se expandiu para muito além.
“Ficamos muito emocionados porque era tudo muito diferente. Acima de tudo, participar do evento foi a coisa mais emocionante da minha vida”, começa Paulo Monteiro, coreógrafo. O grupo foi eliminado na etapa preliminar - muito pela falta de treinos, abdicados para que conseguissem o dinheiro para a viagem. Mas os comentários do júri, que considerou o Trem do Sul um dos melhores grupos de locking do Brasil, parecem ter recompensado. “Isso pra nós foi muito satisfatório. Além do primeiro lugar. Só estarmos lá já era ser campeões, porque a luta era essa. Tivemos de abdicar de várias coisas da nossa vida para correr atrás do dinheiro e representar o país e a cidade”, comenta Monteiro. Ele destaca que os apoios que receberam foram de suma importância. “A prefeitura de Pelotas, com as secretarias de Justiça Social e de Cultura, foi crucial. Entenderam que já estávamos há quase oito anos batalhando pra isso. Lojas Martins e Dana, Marcos Amir que fez a parte da papelada, o Antônio Rodrigues que cortou o cabelo do pessoal, o pedágio onde as pessoas nos ajudavam todos os dias. São varias coisas que nos deixaram emocionados”, cita.
Estrondando e bem recebidos nos EUA
O apoio e o respeito ao grupo continuou quando o Trem do Sul chegou aos Estados Unidos. Partindo da própria população. Monteiro lembra de um grande parceiro que surgiu de repente na viagem. Uma rapaz, que trabalhava com aluguel de carros particulares, passou por eles na rua. “Com um carro que eu pensei que só ia andar em outra vida”, comenta Monteiro. “Nos olhou uniformizados e perguntou o que estávamos fazendo lá. Falamos que estávamos participando do campeonato e ele nos deu uma carona de boa vontade até o hotel.” A partir daí, transporte não foi mais problema. O novo amigo se ofereceu para transportá-los para a competição e para outros lugares por um preço muito menor do que esperavam pagar de táxi.
No hotel onde se hospedaram, só alegria. Maiander Prestes, ainda com cara de guri, destaca, além da participação no campeonato, a estadia em Las Vegas. “Gostei muito principalmente por causa do calor. A gente tomava banho de piscina quase todos os dias, treinava no sol. Muito bom.”
No campeonato nada mudou. Nunca foram tratados de forma tão profissional, comenta Monteiro. “Nos valorizaram muito. Era uma organização, um luxo. Tudo o que a gente nunca teria se não tivesse batalhado para isso.” Preconceito? Nunca. “Independentemente da classe social todo mundo era tratado como um profissional da dança que estava lá competindo. Tinha todo um respeito.”
Elogios de quem sabe
Otávio Xavier, além de dançarino, desempenhou outra importante função na viagem: fluente em inglês, foi o responsável pela tradução daquilo que era falado aos demais e daquilo que os demais queriam dizer.
Foi ele quem contou a Tagner Mattos que o criador do locking o havia considerado muito bom. “Disse que ele nasceu pra isso”, conta. “Ele disse que éramos um dos grupos de locking preferidos dele. Pra nós, ter tirado primeiro ou segundo lugar não teria sido tão importante. Lutamos pra isso mesmo”, conta Xavier.
Mattos tem muito do que se orgulhar, além, claro, da participação e dos elogios: foi o primeiro brasileiro a avançar para as quartas de final do torneio na categoria batalha de locking, onde um dançarino disputa com outro. Da preliminar, com 28 participantes, apenas 16 passavam. “Só de ter entrado nesses já foi demais. Os melhores para que a competição ficasse em alto nível. Pra mim já foi uma coisa forte. Quando eles falaram aquelas coisas foi emocionante.” Ele ressalta também que nos Estados Unidos há uma valorização maior do hip hop. “Lá a dança de rua já tem seu espaço. É considerada arte.”
Representando os bairros
Nas camisetas vermelhas que os membros vestiram na apresentação estavam estampados os nomes de alguns dos bairros da periferia de Pelotas - além do Movimento Sem Terra. “Navega”, Getúlio Vargas, Pestano, entre outros além de uma dezena que eles também gostariam de ter homenageado. “Eu moro no Navegantes. Eu frequento o Dunas. Tem pessoas que trabalham no dia a dia e fazem com que a nossa cidade cresça, fique limpa. Os nomes dos bairros eram para essas pessoas”, explica Monteiro.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Thursday, July 31, 2014

Agora é seleção brasileira de Hip Hop

O verde-e-amarelo da camisa que os membros do grupo de dança Trem do Sul usam não é por acaso. Desde 2006 na batalha, agora eles representarão o Brasil no Campeonato Mundial de Hip Hop, que acontece a partir de 3 de agosto em Las Vegas, nos Estados Unidos. Através do talento, disputarão o título com seleções de mais de 40 países.
O projeto começou em 2006 quando o então aluno Paulo Monteiro resolveu levar a proposta do grupo Piratas de Rua para a escola onde estudava, a Nossa Senhora dos Navegantes. A iniciativa cresceu, começou a ganhar prêmios e transformou-se no Trem do Sul. “Chegou num nível de dança que não era mais reconhecido como o projeto dos meninos carentes, aquela coisa da pena. Já estava sendo reconhecido pelo talento”, afirma ele, agora professor e coreógrafo do grupo.
Falta apoio
Essa é a terceira vez que o Trem do Sul tem a oportunidade de representar o país na competição - em todas se creditou após vencer o Sul-americano de Hip Hop, duas vezes na categoria versátil e uma na infantil. Porém, é a primeira vez que de fato farão essa representação. Isso porque nas duas chances anteriores a expectativa de ter o talento visto no mundo inteiro barrou na falta de apoio.
Monteiro conta que em ambas ocasiões o Trem do Sul se esvaziou. “As crianças pensam que não adianta dançar, aprender algo que não pode ser usado. Acham que a gente só quer manter elas enclausuradas dentro da aula. E na rua tem um monte de gente oferecendo o outro lado. Dizendo que ser do bem não tem apoio, que eles sim apoiam.”
Segundo ele, Pelotas ainda não acordou para a realidade de ter um grupo bicampeão sul-americano e que representará a Seleção Brasileira de hip hop. Monteiro diz que boa parte dos patrocínios que o Trem do Sul recebe é oriunda de empresas de outras cidades. “A gente conta também com a boa colaboração das pessoas da avenida Bento Gonçalves, onde o pessoal fica na sinaleira pedindo. Temos muitas empresas em Pelotas e poucas apoiam. Mas na hora de reclamar que o crime tá aumentando na cidade aí todo mundo reclama. Quando tem alguém decidido a não ir para esse lado, a fazer coisas boas, aí ninguém apoia”, afirma.
Monteiro diz que a falta de apoio também prejudica os treinamentos. “Ou tu treina, ou tu fica na sinaleira pedindo ou correndo atrás de empresas que patrocinem. As equipes dos outros países não precisam fazer isso, podem se dedicar só aos treinos.” Atualmente, o Trem do Sul conta, além do dinheiro que arrecada no sinal, com patrocínio da loja Danna, da Open Extreme de Santa Cruz do Sul e das lojas Martins, além da Secretaria de Cultura e da Secretaria de Igualdade Social. A prefeitura apoiou indicando possíveis patrocinadores.
Terceira geração
Ele lembra que o legado do grupo vai além dos dançarinos que lá estarão. “Daqui eles vão para o Estados Unidos e quando voltarem vão divulgar nos projetos sociais e vai incentivar a gurizada mais nova a dançar também” - vale lembrar que essa é a terceira geração de meninos campeã sul-americana pelo Trem do Sul. O coreógrafo, porém, rejeita o rótulo de “coitadinho”. Enfatiza que o grupo irá para Las Vegas por seus próprios méritos e talento. Porque são campeões.
Ítalo Santana, 17, faz parte da geração que conseguirá viajar. Ele enfatiza a importância de disputar uma competição mundial - e que tem transmissão ao vivo da MTV americana. Sobre o que espera, ele não consegue destacar algo em especial, tamanha a expectativa. “Só de estar participando já é uma coisa sensacional. É a realização do nosso sonho e a dança pode mudar totalmente as nossas vidas.”
Já Tagner Mattos, 22, começou como dançarino do Trem do Sul e agora é treinador. Assistente do coreógrafo Paulo Monteiro. Quando dançava, não teve a oportunidade de participar, mas se sente igualmente ou ainda mais satisfeito vendo os mais novos alcançarem o objetivo. “É uma batalha que a gente vem há anos correndo atrás. Sempre no final a gente acaba sendo barrado porque não tem apoio. Dessa vez falta quase nada e estaremos lá. Pra mim é ainda mais incrível porque eu tô vendo. O que eles tão fazendo hoje, que é ir lá e dançar eu tentei e não consegui. O fato de ver eles conseguirem isso é muito mais importante porque não consegui, mas vi alguém conseguir. É ver que não é impossível.” Mattos estará lá. Não para dançar, mas para dar apoiar à equipe. “Vou para gritar a incentivar a galera”, conta.
A coreografia
O campeonato tem uma fase prévia, de 1º a 3 de agosto onde será escolhido o grupo que representará os Estados Unidos. O Trem do Sul (Seleção Brasileira) desembarca em Las Vegas no dia 3, quando se inicia a etapa mundial. O pelotenses focarão a coreografia no locking, estilo da década de 1970, mas sem se desvencilhar do hip hop atual. “Tu tens que apresentar na coreografia três estilos. Vamos com o break dance, o locking e o hip hop dance”, explica o coreógrafo Paulo Monteiro.
Serão dois minutos de apresentação, onde o grupo mostrará o dia a dia do trabalhador. “Muitas vezes a gente tá andando na rua e vê o pessoal que trabalha no caminhão do lixo. Eles escutam uma música e, mesmo no sufoco de tentar deixar a cidade limpa, ainda dançam, brincam. Muitas vezes a gente passa por uma empregada doméstica que está ouvindo uma música e tá dançando mesmo tendo aquele serviço difícil.”

>As empresas que desejarem patrocinar o Trem do Sul - a viagem está garantida, mas falta verba para manterem-se em Las Vegas - podem entrar em contato pelo número (53) 8378-5906 ou pelo e-mail tremdosulfreestyle@yahoo.com.br<

*Matéria escrita para o Diário Popular

Monday, June 30, 2014

Coletivo Artcidade Criativa incentiva a cultura em Pelotas

Se Marco Polo contasse ao jovem Kublain Khan acerca de uma cidade que tinha difusa em sua população a ideia de uma forma alternativa de economia, relacionada diretamente com a cultura, dando poder à sociedade civil para que esta pudesse intervir nas lógicas de produção do local, o personagem do livro As cidades invisíveis, do escritor italiano/cubano Ítalo Calvino, das duas uma: ou aumentaria e muito sua curiosidade acerca das missões diplomáticas do navegador ou deixaria de prestar atenção, por acreditar ser impossível. Entretanto, novas cidades são de fato possíveis, de acordo com o que pensam e tentam agir os membros do coletivo Artcidade Criativa, que realiza oficinas, intervenções artísticas e rodas de conversa na cidade.
“Somos uma desorganização organizada”, conta um dos membros, Cássia Cavalheiro, estudante de Relações Internacionais na UFPel. “Fugimos desse padrão institucional”, completa. O Artcidade Criativa começou há cerca de dois anos realizando oficinas teóricas de cidades criativas e economia criativa, incentivado por uma crise teórica de Cássia quando, durante o curso, o tema cidades virou tópico principal, mas não da forma com que ela pensava. “Estava muito longe de Pelotas e daquilo que a gente fazia”, afirma.
Surgiu então a oportunidade de se inscrever no Procultura. “Era para artista, então associamos os malabares de rua e o origami como atividade lúdica para trabalhar a criatividade, conta a estudante. O coletivo surge como uma forma de fomentar a criatividade e fazer com que esta seja trabalhada na cidade de forma mais democrática, com maior responsabilidade social, civil e cultural”, explica. O grupo ressalta: as oficinas que trabalham, como malabares, origami, parkour, entre outras, são lúdicas, porém, não no sentido de formação e sim para dar acesso.
As oficinas, já foram em pontos específicos da cidade como as praças Coronel Pedro Osório e da Alfândega e em escolas pelotenses. Sempre com o objetivo de ressignificar. Exemplifica Cássia: “Ali na Conde de Porto Alegre tem um espaço que a comunidade usa como uma pracinha. A gente descobriu que não é um espaço público, mas sim privado, é um terreno abandonado. As pessoas jogam lixo lá, a prefeitura não pode limpar, mas ao mesmo tempo as pessoas usam aquele espaço como lazer. Tivemos a iniciativa de fazer algumas oficinas, entrar em contato com essa comunidade e refletir sobre esse lugar que também é nosso.”
As oficinas também estarão em breve na internet, através de vídeos. O objetivo, segundo Cássia, é fomentar a inclusão social e acostumar as pessoas - principalmente os jovens - a não verem o computador apenas pelo lado das redes sociais, mas também como um instrumento de formação.
Uma casa na cidade
Seguindo a ideia de coletivo, os membros do Artcidade Criativa moram juntos, em casa na região do porto. Colorida desde sua fachada, suas paredes são ressignificadas com intervenções artísticas visuais e papéis com as letras da banda Musa Híbrida, que tem como vocalista Camila Cuqui, também membro do coletivo.
Sobre morarem todos sob o mesmo teto, Cássia conta que foi uma consequência. Ela e Guilherme Lucas, que também faz parte do Artcidade Criativa, já eram amigos e decidiram morar juntos “e aproveitar para otimizar a casa para que não fosse só um lugar de morada, mas que dialogasse com a cidade”, conta. Abriram então as portas e janelas e começaram a realizar atividades para além das propostas financiadas pelo Procultura. O dinheiro do programa municipal reverte para os materiais das oficinas, no deslocamento destas, na divulgação e em um valor simbólico para cada oficineiro de R$ 70,00 por oficina.
Essas atividades são rodas de conversa aos sábados (quase todos) para possibilitar a integração entre as pessoas e fomentar ideias com potencial de contribuir no futuro, sempre dentro da responsabilidade social, cultural e econômica “mais real” que o grupo propõe.
Economia solidária diferente
Essa proposta diferenciada referente a essas questões é trabalhada de forma diferente até mesmo dentro da economia criativa, onde parte-se do pressuposto de que existem classes criativas que produziriam a partir da sua criatividade produtos com valor agregado que geraria uma nova indústria, a indústria cultural. “Nós vamos por outro viés, que seria acreditar na criatividade inata de todas as pessoas e que ela não deve ser alvo de privilégio de alguns grupos ou classes, por isso, então trabalhamos com oficinas abertas e itinerantes”, explica Cássia.
Crescimento pessoal
Bruna Fortes, membro do coletivo, responsável pela realização dos vídeos on-line das oficinas, ressalta outro ponto interessante da proposta: a troca de culturas. “É uma reflexão sobre as pessoas, o que elas vivem, o que elas são, o que elas estão fazendo naquela rua e o que desejam para a cidade. É lindo ver o crescimento dos próprios membros do grupo com o contato, como mudamos muito através do contato com as pessoas. Vejo uma troca, uma circulação cultural e de informação”, diz. Acompanha a colega Suéllen Cortes, afirmando acreditar que o pelotense se limita a vivenciar apenas as regiões do Centro e do Porto da cidade. “O Artcidade proporciona essa vivência de estudantes que somos de uma integração e uma extensão real para além dos muros da universidade. Estamos indo para o empírico mesmo, nos jogando no meio da sociedade.”

*Matéria escrita para o Diário Popular

Tuesday, April 08, 2014

O espaço construído pelo metal

Existe em Pelotas uma cena musical extremamente particular. Trabalhando essencialmente através da contracultura dounderground, o metal construiu um dos maiores e mais fiéis públicos da cidade. Sempre trabalhando por si, seja na produção das músicas ou dos festivais, sempre lotados. Um dos exemplos dessa luta que tem dado certo do estilo por aqui é a banda Postmortem, que lançou recentemente o EP/disco Within the carcass. 

O grupo surgiu em 2004, quando os irmãos Bruno e Daniel Añaña chegaram a Pelotas oriundos de Bagé. Loucos para tocar, saíram atrás de outros músicos a fim de formar uma banda de metal. Encontraram Douglas Veiga, baterista, e Willian Knuth, vocalista. Ali iniciaram os primeiros barulhos, denominados Wargot. Após o primeiro show e muitas mudanças, um guitarrista que já acompanhava os shows se juntou à banda: Mou Machado, até hoje no grupo.

Este acréscimo trouxe à Postmortem muito mais peso e em 2007 veio então o primeiro demo. Out of tomb foi gravado no finado estúdio pelotense Eletric, contou com quatro faixas, rendeu shows em várias cidades do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina e teve distribuição da França à Malásia. Ao mesmo tempo, o baixista Matheus Heres dá lugar a Juliano Pacheco, formando enfim o quarteto que até hoje propaga o death metal pela cidade: Pacheco no baixo, Douglas Veiga na bateria, Bruno Añaña nos vocais e dividindo as guitarras com Mou Machado. 

Maturidade
Após o lançamento em 2013 de um já bem produzido Atra mors (Añanã acumulara a função de produtor da banda um ano antes), agora a Postmortem lança Within the carcass, de forma física. O EP/disco conta com canções inéditas como Chains of Hypocrisy e Deny The Cross, além de Decomposition on High Degree, também presente no primeiro demo. 

Sobre essa trajetória e as diferenças que Within the carcass pode ter em relação aos trabalhos anteriores, os músicos usam a palavra maturidade. “Dá bem pra notar que nesse ponto crescemos”, comenta Añaña. “A gente teve mais recursos, mais tempo para fazer ele. O Bruno teve mais tempo de produzir e a gente de gravar. O resultado ficou num nível muito alto, além do que a gente esperava”, completa Veiga. 

A banda se mostra madura também na hora de apontar as referências. Claro, primeiramente surge o suprassumo do death metal, o Cannibal Corpse, além dos estadunidenses do Nile - “e Nile de novo”, comenta Pacheco -, mas os músicos fazem questão de frisar que passam longe daquele estereótipo do metaleiro que só ouve metal. “É importante não ter a cabeça fechada”, comenta Añaña.

Uma cena sustentada pelos músicos
Veiga, inclusive, cita a música gauchesca como tendo muitas coisas boas, “parecidas com o metal”. O baterista cita o tradicionalismo, também, para tentar explicar o porquê de o metal não ter tanto espaço no mercado fonográfico brasileiro. “A música folclórica na Finlândia é o rock. Aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, é como se fosse a música nativista.” 

Tendo em vista essa difícil recepção do mercado brasileiro ao metal, ele afirma que há espaço para o estilo por aqui. Mas ele é construído pelas próprias bandas. “A gente não depende de que outras pessoas abram espaço, porque a gente mesmo faz isso.” Segundo ele, a questão vai além da música propriamente dita. Na própria mídia tem se tornado necessário criar novas possibilidades de divulgação. “A cultura underground, da contracultura, se faz pelo faça você mesmo. As bandas usam a internet, usam a mídia impressa criando jornais e zines. O underground gera a si mesmo”, afirma. 

Em Pelotas
Quando o assunto é trazido até Pelotas, o espaço recebe um sentido mais físico. Os músicos lamentam a falta de uma casa com tradição na produção de eventos voltados ao rock e ao metal. Quando perguntados se algum local funciona desta forma, são categóricos: “Não tem. A gente tem que ir em alguma casa que abra algum espaço. E esse abrir espaço o que é: não é eles criarem um evento. É dizerem que tem uma data disponível e aí vem de nós”, afirma Veiga, que é seguido por Añaña: “Um aluga e começa a função. Fazer contato com as bandas daqui, batalhar pra trazer uma banda de Porto Alegre. E aí garimpa o equipamento, a gente mesmo faz o cartaz, bola tudo, faz divulgação. É fazer por ti mesmo”.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Wednesday, March 12, 2014

Madrugada

Porque ela pensou que ele tinha pensado algo ele pensou que ela tinha pensado algo e fez uma cara estranha. Porque ele fez uma cara estranha ela pensou que ele tinha pensado algo e ficou pensando no que tinha dito para ele ficar tão sério assim de repente. Ele ficou sério de repente porque sempre fica com medo de parecer bobalhão nesses momentos, e por ela ser mais velha, pensou que não era o caso de parecer bobalhão. E aí passaram dias sem se falar.
Porque ele há dias não falava nada ela ficou pensando que tinha estragado tudo, como sempre fazia, na vida inteira, mas era assim mesmo, fazer o que, não ia mudar seu jeito assim de uma hora pra outra e talvez nem valesse a pena, ou até valesse, mas ela não estava tão disposta assim a fazer as coisas valerem a pena e andava tão ocupada que não tinha tempo pra ficar se martirizando por “ter estragado tudo, como sempre fazia, na vida inteira”. Aí resolveu ficar off-line. Aí ficou pensando que ele ia pensar que ela tinha ficado off-line pra ele não ir falar com ela. Aí pensou em ficar online de novo. Aí pensou que ele ia pensar que ela tinha ficado off-line pra ele não ir falar com ela, mas que depois desistiu.
Porque ela há dias não falava nada ele ficou pensando que havia passado dos limites nas bobagens e olha só ela acabou de compartilhar um link supercabeça, será que “supercabeça” se escreve assim ou se escreve com hífen?  Essa nova ortografia complica demais uma língua que antes era deliciosamente complicada, que absurdo. Pensou em puxar assunto falando sobre nova ortografia, mas lembrou que eles já tinham falado sobre isso, e na verdade ele pensava que os dois já tinham conversado sobre todos os assuntos do mundo, até que ela sem querer falou (diz ele que em outras palavras) que ele era meio fútil e desde então ele tem pensado cinquenta vezes antes de puxar qualquer assunto.
E já passava das 4 da manhã. Ele achava legal ela ficar online às 4 da manhã.
E aí ela ficou off-line. E ele pensou que era um cagão mesmo.
Aí passou mais um tempo.
E durante esse tempo ela postou um link com livros do Foucault.
E ele postou um vídeo besta de Friends e ficou se sentindo idiota, porque resolveu conversar com outra nesse meio tempo e essa outra achava Friends besta.
E se passou mais um tempo.
Aí ele se embebedou no aniversário de 76 anos da avó e resolveu mandar mensagem. Ela estava estudando e não entendeu nada, mas resolveu responder qualquer coisa pra não parecer grossa. Ele falou que queria que ela fosse namorada dele pra poder morder a bochecha dela sem ser preso por isso. Ela falou que provavelmente o mandaria preso mesmo que eles fossem namorados. Ele disse que então ela enxergava a possibilidade do ajuntamento. Ela disse que não foi isso que disse. Ele disse que mas, porém, todavia, entretanto ela disse. Ela quis desconversar e perguntou como estava a festa. Ele pensou que ela estava mudando de assunto porque não estava mais interessada e ficou sério o resto do aniversário inteiro. Aí chegou em casa e viu que ela estava estudando enquanto ele falava merda. Aí botou a mão na testa.
Porque ele não respondeu mais nada, ela ficou pensando que mais uma vez tinha sido insensível, mas não dá pra ficar o tempo todo pisando em ovos, tenho que dizer o que eu penso, que coisa mais chata, uma hora me irrito e nem respondo mais, que cara chato e que se ofende com umas coisas sem sentido, tenho paciência não.
E se passou mais um tempo.
E durante esse tempo ele pensou que ela tinha desistido de vez, tinha visto que na verdade ele não era tão legal quanto parecia naquelas conversas de, sei lá, três horas, e que talvez até tenha voltado para algum ex mais interessante. Isso sempre acontecia, não era novidade alguma e ele não estava surpreso. Essa era a sua sina. As mulheres o achavam interessante no início, o papo é bom, mas depois ele sempre estraga tudo. A culpa é da ex. A culpa é da família, que nunca lhe deu carinho o suficiente. Que nada, a culpa é minha mesmo.
E se encontraram na mesma festa onde, há dois anos, ele gostou do movimento dela. E ele falou pra ela que eles estavam na mesma festa onde, há dois anos, ele gostou do movimento dela. Ela riu e pediu pra ele atualizar a ordem cronológica dos fatos porque não lembrava mais, mas na verdade ela gostava de ouvir ele contando. Ele contou que viu ela primeira vez na fila de uma festa, depois em outra e só depois num show resolveu puxar assunto. Ela riu e pediu pra ele contar pra uma amiga que tinha voltado do bar. Ele contou de novo, porque também gostava de contar e porque achava que essa amiga não gostava muito dele, então também tentou engatar algumas piadinhas sem graça, mas que a amiga acabou gostando e deu tudo certo. Ele chamou uns amigos pra entrarem na roda. Os amigos dele foram embora, um estava com pneumonia e o outro desfilaria num evento militar na manhã do dia seguinte, mas ele resolveu que ficaria e ela não queria deixá-lo sozinho, então o chamou pra ficar junto no grupo. E ele ficou no grupo.
Porque ele não tinha como voltar, ela ofereceu carona. Eles moravam muito longe um do outro, então ele disse que não precisava, mas já abrindo a porta do carro.
E aí ele olhou nos olhos dela.
E aí ela não entendeu muito bem a reação dele.
E aí ele a beijou.
E aí ela quase atravessou uma preferencial aonde vinha uma van.
E ele falou que seria uma morte muito triste se eles morressem agora.
E ela falou que seria uma morte muito besta, isso sim.
E aí ele fez uma cara estranha.

Porque ele fez uma cara estranha ela pensou que ele tinha pensado algo e ficou pensando no que tinha dito para ele ficar tão sério assim de repente

Friday, March 07, 2014

Dia para lembrar as lutas

O dia 8 de março é marcado por ser o Dia Internacional da Mulher. Ao contrário daquilo que determina o senso comum graças a décadas de distorção em torno do assunto, a data representa algo muito maior do que o cafuné, a flor, o perfume ou o estojo de maquiagem recebidos por elas com o objetivo de mantê-las no lugar designado pelos homens. Também não é exatamente um momento de celebração. É uma data marcada pela lembrança. A lembrança da luta das mulheres por um status de pesadíssima leveza e simplicidade: o de igualdade. Essa inferiorização também é notada no que tange o espaço para o sexo feminino na produção cultural brasileira.
Coadjuvantes
Há cerca de 70 anos a escritora britânica Virginia Woolf publicou dois artigos, A nota feminina na literatura e Mulheres romancistas. Neles, a autora buscou debater e criticar as dificuldades que as mulheres encontravam para alcançar o sucesso com seus escritos, além de rebater afirmações à época de que a literatura feita por elas era inferior. Recente estudo da professora da Universidade de Brasília (UnB), Regina Dalcastagnè, aponta que pouca coisa mudou em nossa sociedade neste aspecto. Segundo a pesquisa, 72,7% dos romances lançados entre 1990 e 2004 no Brasil foram escritos por homens.
Outro dado da pesquisa: 62,1% das personagens consideradas importantes nas produções são do sexo masculino, contra 37,8% de personagens femininas. Através destes dados, Regina conclui que, ao contrário da forma como fomos condicionados a pensar com o passar dos séculos, a voz masculina tem, sim, um gênero, o que acabou por criar duas categorias: literatura e literatura feminina. Esse ponto de vista é acompanhado pela escritora Luisa Geisler, natural de Canoas. “A recepção ainda é um problema: existe um preconceito de que uma mulher escreve pra mulheres, de que uma mulher escreve de uma maneira específica, de que mulheres ‘falam muito de sentimentos’, enquanto homens atingem os dois gêneros.” Para a escritora pelotense Angélica Freitas a mudança tem de partir por quem lê. “Acho que no Brasil as editoras, os prêmios literários, os leitores estão apaixonados por senhores. A situação não vai mudar enquanto não decidirmos comprar mais livros de autoras brasileiras.”
Cinema feminista
O cinema é responsável pela formação da opinião pública acerca de questões sociais até então pouco debatidas. Caso do mais recente vencedor do Oscar de Melhor Filme, 12 anos de escravidão. O longa de Steve McQueen, além de importante relato da era escrava nos Estados Unidos, reacende a discussão sobre o quão extinta a escravidão realmente está.
Sendo assim, o cinema também se transforma em importante ferramenta para a propagação dos ideais de luta pelos direitos das mulheres. E são muitos os exemplos de filmes que abordam a temática feminista de forma responsável, enfática e até mesmo didática (pois tudo tem de começar cedo). Mas este espaço que teoricamente as mulheres teriam para propagação de seus ideais parece esbarrar, mais uma vez, na inferiorização. “No cinema, os lugares que as mulheres ocupam, na maioria das vezes, são os que são ‘destinados’ pra elas em outros âmbitos: ou elas trabalham com os figurinos ou são as atrizes. Papéis de direção são raramente tomados pelas mulheres”, afirma a professora do Centro de Artes da UFPel Ana Paula Penkala, que critica os papéis exercidos. “Ou elas exercem os papéis tipicamente femininos ou estão servindo, como no caso das atrizes, muitas vezes como um espelho de como a mulher é vista ainda na cultura.”
Frente feminista
A importância do cinema para propagação do debate acerca da opressão a que são submetidas as mulheres também é ressaltada por Daniele Rehling, membro da Frente Feminista Giamarê, em Pelotas. “É mais didático e facilita na luta”, afirma, lembrando de cine-debates promovidos pelo grupo para passar adiante a ideia.
A Frente Feminista Giamarê nasceu durante a articulação da Marcha das Vadias, em novembro de 2013, da necessidade de se fazer eventos como este durante o ano inteiro. Daniele conta que, para este 8 de março, serão realizadas diversas oficinas em escolas sobre a data e as mais variadas violências contra a mulher. No sábado, às 10h, haverá panfletagem convidando para uma exposição de vídeos feministas mais tarde, às 20h, na frente do Mercado Central.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Thursday, February 13, 2014

Cinema ao Sul do mundo

O momento é de destaque. Apesar de haver muito ainda o que se construir, há de se concordar que a América Latina está na vitrine do mundo, embora ainda tenha de ser discutido o quanto isso é positivo e muda de fato a vida das pessoas daqui. Com leis progressistas decretadas por um presidente que dirige um fusca, o Uruguai foi considerado o país do ano passado pela revista britânica Economist. Com a Copa do Mundo, as Olimpíadas de 2016 e os protestos contra a vinda destes eventos para cá, o Brasil estampou capas de jornais do planeta inteiro em 2013.
Esse protagonismo parece refletir-se no cinema produzido pelo Sul da América, que conquistou seu segundo Oscar em 2010 com o argentino O segredo de seus olhos e dois consecutivos prêmios Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim, com o brasileiro Tropa de elite, em 2008, e o peruano La teta asustada um ano depois. Em 1998, o Brasil já havia vencido com Central do Brasil.
Um panorama sobre esse atual momento passa por análise de suas características. Historicamente, o cinema latino-americano fora qualificado como uma escola mais realista que as demais. Enquanto Hollywood, por exemplo, canta o mundo inteiro e assim o conquista, as produções feitas mais ao Sul prezam por histórias sobre a sua gente, sendo cases com este objetivo os de maior sucesso.
Da América Latina para a América Latina
Em mesa de debates do Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente intitulada Nuevos Caminos del Cine Latinoamericano, a colombiana Mónika Wagenberg, diretora do Festival de Cine de Cartagena e idealizadora da Cinema Tropical (distribuidora de cinema latino-americano nos Estados Unidos) propôs explicações para essa excitação criativa, acompanhada de renovação, e credita exatamente a esse viés mais realista o êxito: “O que vemos é uma preocupação, um compromisso com o que é real”, afirmou. Mónika ainda disse considerar um momento de produções extremamente autorais. “Também filmes intimistas, pessoais, que não querem julgar. São filmes de personagens, que tratam espaços interiores, o mundo dos sentimentos e famílias comuns e disfuncionais”.
Porém, o fato de o cinema latino-americano estar alcançando novo patamar de reconhecimento não é, para todos, o principal triunfo. César Charlone, diretor uruguaio de O banheiro do papa e responsável pela fotografia de filmes como Cidade de Deus, acredita que o maior contato do próprio público latino com suas produções é o que mais conta. “O importante primeiro é a gente se ver. Ver filme equatoriano num festival do Equador, como vi. Filme peruano no Peru”, afirmou em entrevista ao Diário Popular. Charlone também vê com destaque o firmamento de acordos de coprodução cinematográfica entre países latinos. “Tem recentemente assinado um entre Brasil e Uruguai, já havia um entre Brasil e Argentina. São fundamentais. É assim no cinema europeu. Você não vê um filme que não seja uma coprodução de vários países. Isso abre salas, abre público”, disse.
A seguir o leitor encontra exemplos atuais e clássicos desta característica latina de se produzir filmes: contando histórias a partir de sua própria história. A partir de seu próprio povo.
Brasil
Tropa de Elite (2007)
Vencedor do Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim, o mais recente sucesso brasileiro de público e crítica surgiu em 2007 antes mesmo de chegar às telonas. Foi o primeiro filme produzido no Brasil a vazar, meses antes, para o mercado pirata e a internet. O longa, dirigido por José Padilha, gerou interpretações mistas. Capitão Nascimento, o protagonista vivido por Wagner Moura, chegou a ser considerado um herói nacional, ideia fortemente rechaçada por Padilha, que afirmou ter sido exatamente contrária à mensagem a ser passada. Capitão Nascimento não era herói, mas sim vilão e o próprio endeusamento do personagem tinha o objetivo de servir de alerta. Veio então o segundo filme, com o intuito de desconstruir a imagem que a opinião pública brasileira havia erroneamente construído a seu respeito.
Terra em transe (1967)
Exatos 40 anos antes estava a pleno vapor no Brasil o Cinema Novo. O movimento, composto por nomes como Cacá Diegues, Gustavo Dahl e Glauber Rocha, surgiu em meados dos anos 1950 como uma antropofagia do neorrealismo italiano e da nouvelle vague francesa. O resultado esperado era um cinema que refletisse mais a realidade brasileira, com mais conteúdo e menos custo, e que fosse contra à alienação cultural causada pelas chanchadas.
Terra em transe, de Glauber Rocha, venceu o Festival de Cannes e pertence à segunda fase do movimento, prolongada de 1964 a 1972 e com o objetivo de refletir sobre o momento de Ditadura Militar e suas consequências no Brasil. Por caracterizar-se como um grupo de confronto à política de desenvolvimentismo imposta pelos militares, o Cinema Novo, aos poucos, dissolveu-se, porém se renovando com a criação do cinema marginal.
Argentina
O segredo dos seus olhos (2009)
Em 2010 O segredo dos seus olhos foi o segundo filme latino-americano a vencer o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (o primeiro você saberá logo abaixo). Baseado no livro La pergunta de sus ojos, o longa conta a história de Benjamín Espósito, um ex-servidor da justiça penal argentina que, recém-aposentado, procura aproveitar o tempo livre para escrever um livro. Para tal, inspira-se em um caso real ocorrido 25 anos antes e que sempre o comoveu: o brutal estupro seguido de assassinato de uma bela jovem, Liliana Colotto.
O segredo dos seus olhos foi o responsável por trazer ao conhecimento do grande público o provável principal personagem da nova fase do cinema argentino. Ricardo Darín parece onipresente nas produções hermanas atuais, mas talvez a verdade seja que apenas chegue até nós aqueles longas alavancados por sua presença.

A história oficial (1985)
Primeiro longa latino-americano a vencer o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, A história oficial, de 1985, também surge, assim como Terra em transe, como forma de reflexão sobre um período de ditadura, nesse caso a Revolução Argentina, como ficou conhecido o período em que os militares governaram o país vizinho.
O longa conta a história de Alicia, uma conservadora professora de História que parece estar alheia à realidade do país e acreditar nas informações transmitidas pelo governo. Em decorrência disso, a protagonista começa a ser confrontada pelos alunos. Com a chegada de uma amiga que havia sido torturada e exilada pelo regime, Alicia começa a abrir os olhos para a verdadeira história argentina da época.
Uruguai
A Casa (2010)
Quatro dias foi a duração das filmagens do terror uruguaio A Casa, de 2010. Dirigido por Gustavo Hernández, o filme tem outro dado incrível, tendo em vista os altíssimos orçamentos cinematográficos atuais: Foi rodado com apenas US$ 6 mil. Filmado com uma câmera dessas que eu e você temos em casa, o longa foi exibido em Cannes, entre outros festivais internacionais.
Equador
A que distância (2006)
A produção cinematográfica no Equador vive grande momento. Um dos grandes exemplos disso é a diretora Tania Hemida, que lançou em 2011 Em nome da filha e já havia dirigido, em 2006, A que distância, filme rodado em montanhas e praias de oito províncias do país, Pichincha, Cotopaxi, Tungurahua, Chimborazo, Cañar, Azuay, Manabí e Guayas.
Peru
A teta assustada (2009)
Após a vitória do argentino O segredo dos seus olhos no Festival de Berlim de 2008, no ano seguinte foi a vez de outro sul-americano: A teta assustada, peruano dirigido por Claudia Llosa garantiu a dobradinha.
O filme, que também venceu o Festival de Cinema de Havana, é baseado no mito andino de que as mulheres estupradas passam uma doença rara, chamada teta assustada, para os filhos provenientes do crime, através do leite materno. A protagonista, Fausta, tem a síndrome, pois a mãe fora estuprada durante a década de 1980. Ela então resolve fugir do mundo para evitar que o mesmo a ocorra.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Thursday, February 06, 2014

Marcado pela insatisfação

“Somos a bola da vez”. Assim César Charlone, diretor e fotógrafo uruguaio responsável pela direção de O banheiro do papa (2007) e pela fotografia de filmes como Ensaio sobre a cegueira(2008), O jardineiro fiel (2005) e Cidade de Deus(2002), define o momento vivido pela América latina, tanto no cenário cultural, como no cenário econômico e social. Enquanto seu filme La redota - Histórias de Artigas era exibido na semana acadêmica dos cursos de Cinema da UFPel, o cineasta conversou com o Diário Popular sobre estas e outras questões.
Charlone pertence a uma geração marcada por uma insatisfação com o sistema capitalista e seus traços na sociedade, o que, segundo ele, se refletiu na escolha das profissões. Enquanto alguns colegas partiram para o jornalismo investigativo e a advocacia voltada para a defesa de presos políticos, sua vocação se mostrava mais artística. Resolveu então contribuir através do Cinema de denúncia. “E me interessei por isso, comecei a frequentar um cineclube no Uruguai que tinha essa preocupação de mostrar documentários e filmes políticos, como de Santiago Álvarez”.
Atual momento do Cinema
Vive-se duas revoluções no mundo cinematográfico atual, segundo Charlone. A primeira, maior, é de nível mundial e abrange outras áreas que não somente a Sétima Arte. É o surgimento da plataforma digital, aliado à democratização dos meios. “Olha como eu fazia filmes no início: eu tinha uma colega cujo pai era encarregado de resolver a final das corridas de cavalo. Tinha câmeras de 16mm apontadas para a linha de chegada e, quando acontecia um possível empate, eles usavam um reversível. Ele levava num laboratório lá mesmo no jóquei, revelava e fixava o quadro para ver quem tinha ganho. A gente revelava nossos filmes lá”. Muito diferente do cenário atual, em que um filme gravado com uma câmera fotográfica digital tem a chance de ser exibido em Cannes, como foi o caso do uruguaio A casa, de 2010, com exibição neste e em outros festivais internacionais.
A isso soma-se a maior facilidade de divulgação trazida pela democratização dos novos meios. “Hoje você produz e coloca no Vimeo, no Youtube, tem grande qualidade e muita gente vê. A revolução é oPorta dos fundos. Daqui a uns anos, quando olharmos a história do Cinema, isso será o principal”, afirma.
Charlone também destaca o maior reconhecimento e repercussão do Cinema latino-americano, mas ressalta que a principal conquista é o fato de os latino-americanos estarem se assistindo. “Pegamos carona com a Argentina e o México, com o próprio Cinema Novo que já tinha começado. Mas o importante primeiro é a gente se ver. Filme equatoriano num festival do Equador, como vi”.
Essa vitrine cinematográfica em que se encontra a América Latina parece passar pela sociedade como um todo. “Estamos bem. Tem muito para fazer, mas estamos governados por um projeto social. Não é uma pessoa, um partido. Não é o Pepe (Mujica) ou a Dilma. São várias pessoas que lutam por um lugar melhor e que agora estão conseguindo que os uruguaios pelo menos comam e se eduquem. Acho que estamos indo bem”, afirma o diretor.
Lei da TV paga
Com o objetivo de aumentar a produção e a circulação de conteúdo audiovisual brasileiro diversificado e de qualidade, o governo Federal sancionou, em 2011, a Lei da TV Paga, que obriga canais predominantemente exibidores de filmes, séries, animações e documentários à veicularem produções brasileiras por três horas e trinta minutos semanais de seu horário nobre - das 11h às 14h e das 17h às 21h nos canais direcionados para as crianças e de 18h à 0h para os demais. Charlone, que trabalha no seriado Destino: São Paulo, da HBO, mostra entusiasmo com a iniciativa. “Isso é conquista de espaço. Lamentavelmente o estímulo ao Cinema de tela não está voltando pro contribuinte que paga imposto. Essa grana que sai do nosso bolso vai pra produção de um filme que é visto por três mil pessoas. Uma minissérie que fala sobre assunto nacional, que é escrita por roteiristas nacionais e vista por milhões, acaba sendo bem mais interessante pro contribuinte”.
Falta de recursos como estímulo à criatividade
Não é segredo a dificuldade em produzir Cinema quando o assunto é a captação de recursos. Principalmente na América Latina, longe ainda de receber a repercussão de público e os investimentos financeiros oriundos dela que as produções norte-americanas e europeias têm. Uma explicação para as constantemente melhores histórias contadas no Terceiro Mundo é dada por Charlone: “Acho que a falta de recursos é uma provocação para inventar. Mas tem que ter dinheiro. Acho que é função do Estado financiar cultura, através da construção de salas de cinema. Tem que ter órgãos que promovam isso, criando salas que exibam filmes bons não porque dará dinheiro, mas porque são educativos e relevantes. Assim como conquistamos o espaço na TV a cabo, temos que conquistar o espaço dos cinemas”, afirma.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Wednesday, January 29, 2014

Hardcore na estrada

Pelotas, 13 de janeiro. Noite. Em meio a um temporal, um grupo de cinco jovens cruza os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina em um carro lotado de parafernálias. Poderia ser a viagem de verão mais furada rumo às praias catarinenses, mas foi o início da turnê da Suburban Stereotype, que passou por Curitiba (PR), Urussanga (SC), Florianópolis (SC) e Canoas (RS).

Curitiba, a capital do rock
Florianópolis, 15 de janeiro. Após realizar ensaio no estúdio Pimenta do Reino, a banda parte por volta das 16h rumo a Curitiba. Com todo cuidado possível para vencerem o congestionamento na saída da cidade e a chuva que refresca o verão da serra catarinense. Hospedam-se na casa de João Machado, da Better Leave Town, que se apresentara em Pelotas em setembro. João é um dos grandes amigos que o hardcore proporciona após festivais do estilo e recebeu os membros da banda pelotense com toda a cordialidade.

Curitiba sempre foi um dos grandes redutos do rock no Brasil. Melhor lugar impossível para começar a turnê da Suburban. Clima de festa no bar Dame Dame. A banda local Josh Making Songs lança EP na noite. Surpresa. Surge o primeiro amigo pelotense: Fabrício Luerce, conhecidíssima figura do “mundo alternativo” pelotense. Chega a hora de subir ao palco - uma espécie de garagem, aumentando o clima underground da ocasião. Show mais curto da turnê, com público sério, mas interessado no som pesado e direto da banda.
Urussanga e um castelo
Curitiba, 17 de janeiro. A banda deixa a capital paranaense rumo à região metropolitana de Criciúma. Ao quase entrar no estado do Rio Grande do Sul, a suspeita de algo errado. O destino fica no Sul de Santa Catarina, mas a banda já está na estrada há mais tempo do que fora imaginado no planejamento. Perdidos, dão meia-volta e chegam à cidade de Urussanga, local do segundo show.

Um grande portão com enorme placa em forma de guitarra os espera. Os músicos são recebidos pelos responsáveis pelo local, chamado Ventuno. Hulk, o proprietário, é um fã de rock que construiu uma casa destinada a receber shows. Deixou para trás duas empresas e apostou todas as fichas no lugar. O resultado foi um castelo com gigantesca estrutura. Vários artistas nacionais, como Raimundos e Ratos de Porão, já passaram por ali e agora é chegada a vez da Suburban Stereotype se aconchegar em uma sala com um balde de cervejas antes de subir no magnificente palco da casa.

Após apresentação para um público pouco menos contido do que o paranaense, o grupo se hospeda em Cocal do Sul, na casa de Rodrigo Zanette, responsável pelas duas datas da Suburban em Santa Catarina.

Florianópolis e o pedido por menos volume
Cocal do Sul, 18 de janeiro. Florianópolis está no caminho inverso feito até então. Serão necessárias algumas horas a mais de viagem. Zanette, então, consegue uma van para fazer o deslocamento até o General Lee, local do terceiro show da turnê.

É uma casa de rock também, mas com formato mais clássico - qualquer uma seria comum após Ventuno - com mesas lotando o bar. A apresentação fora organizada pelo coletivo O Clube, que promove a festa Conexão. Tendo em vista o ambiente mais voltado para apresentações menos enérgicas, cresce a preocupação com a aceitação do público em relação ao som pesado da Suburban. Surge então o pedido para que os rapazes “tirem o pé”. O que é sumariamente ignorado. Com a energia de sempre, o quinteto hardcore conquista a plateia. Mais um sucesso.

Canoas e a perfeição
Canoas, 19 de janeiro. A banda chega ao destino do último show da turnê no fim da tarde. Clima de confraternização com as demais bandas que dividirão o palco mais tarde.

O show acontecerá no estúdio Black Bird em evento organizado pelos já conhecidos Guilherme Gonçalves e Wender Zanon, agitadores culturais locais e amigos.

No momento de subir no palco, a consagração: bons equipamentos, espaço lotado, amigos e bandas quebrando tudo. A melhor celebração para encerrar este capítulo da breve história da Suburban Stereotype. Estão quase em casa.

Cristal e a volta
Cristal, 20 de janeiro. A banda decide encostar no Paradouro 6 para jantar. Muito movimento. Adentram o restaurante e são recebidos com muita cordialidade: 
- Só estamos servindo com reservas, podem ir embora! Não vamos servir vocês, vão embora!
Só restava ir para casa.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Tuesday, January 28, 2014

Procura-se espaço

O poeta Rogério Nascente, conhecido pelo blogCertas palavras, lançou este mês, com distribuição gratuita, fascículo homônimo não apenas com textos seus, mas também produções de outros escritores, compondo sete das oito páginas da publicação - a última foi dedicada à biografia da poeta brasileira Cora Coralina e crônica escrita por ela. O lançamento coloca os olhares literários focados nas produções coletivas, feitas por pessoas que, além de terem algo em comum a dizer, encontram as mesmas vocações, sonhos e dificuldades.

Esse não é o primeiro trabalho de Nascente acerca da publicação literária feita de forma comunitária. Em 1997 ele produziu o Mural do Sul, jornal que tinha como objetivo colaborar para a fomentação da literatura por aqui. O parceiro Paulo Cezar Lisboa das Neves, que diagrama a versão impressa do Certas palavras, o acompanhou também na parte gráfica do projeto anterior.
A primeira edição do fascículo, lançada este mês, ainda é composta à base de convites feitos por Rogério a escritores amigos do país inteiro. A partir de fevereiro, porém, a ideia é que interessados procurem o poeta para terem seus textos publicados. Caso aconteça de o número de textos enviados ser maior do que o de páginas, os últimos a serem enviados serão guardados para o próximo mês. Não haverá uma seleção, pois, segundo Rogério Nascente, este não é o objetivo. “Ficar analisando se tal texto é bom o suficiente para entrar não me parece justo. A ideia é a divulgação. O leitor que acaba fazendo isso. Gosta mais de um autor e passa a acompanhá-lo”, diz, destacando ainda a característica de continuidade trazida pelo formato. “Será uma publicação mensal. Assim dá pra ir guardando até formar uma espécie de livro.”
O exemplo
Curitiba parece ser um bom espelho quando o assunto é produção literária comunitária. A cidade tem, pelo menos, seis publicações em atividades voltadas para a fomentação da literatura e a criação de espaços para a produção literária: Rascunho, Arte & Letra: Estórias, Jandique, Cândido, Mapa e o jornal RelevO.
O editor Daniel Zanella, que também escreve para o jornal, destaca a maior facilidade de impressão hoje em dia, se compararmos com 20 anos atrás. “Há mais gráficas e os custos são estáveis”, diz.
RelevO chegará em breve à 50ª edição com média de 50 escritos recebidos por mês. Sua “montagem” é feita em conjunto. Zanella faz o processo final de escolha dos textos a serem publicados. O editor-assistente, Ricardo Pozzo, sugere textos de autores de seu gosto ou que lhe tenham sido enviados, trabalho que também é feito pelo revisor Mateus Ribeirete.
Convergências
Assim como o Certas palavras do pelotense Rogério Nascente, não há um fim lucrativo. “Todos trabalham em regime de gratuidade. Eu mesmo nunca me remunerei através do jornal. E não aceitamos financiamento público, todos os nossos recursos advêm de pequenos empresários e anunciantes”, comenta Zanella. O fato de não ser focado no lucro, porém, traz dificuldades para o jornal, como a mensal tensão de não saber se ele conseguirá ser rodado. Por isso, o trabalho em conjunto dos envolvidos é ainda mais importante. “Os autores auxiliam muito na divulgação”, afirma o editor, que vê no feedback diverso recebido através da circulação mensal - três mil exemplares - a grande recompensa.
Também há semelhanças no objetivo. RelevO surgiu em agosto de 2010 como jornal destinado a dar espaço a cronistas e acabou se tornando um espaço para múltiplas vozes - contistas, poetas, romancistas, fotógrafos e ilustradores - de Curitiba e região. Porém, Zanella ressalta que o potencial de expansão trazido pelos meios digitais possibilita que a publicação chegue a lugares inimagináveis. “Nos últimos três meses, por exemplo, publicamos cinco autores de Manaus, um que foi indicando o outro.”
Rogério Nascente diz: “É uma satisfação ter o trabalho publicado”. E as oportunidades surgem. Os escribas interessados podem mandar suas produções para os dois projetos: para o Certas palavrasatravés do e-mail blogcertaspalavras@gmail.com e jornalrelevo@gmail.com para o RelevO.

Monday, January 20, 2014

Os minutos que faltam para eu comer a pizza que sobrou do almoço

Eu devia ter comido toda a pizza no almoço.
Mas aí eu não teria pizza pra comer quando chegar em casa às 7. Eu teria que ir na fruteira da esquina, que tem um cheiro muito bom e salgados de peito de peru extraordinários.

Felizmente eu não comi a pizza inteira no almoço, felizmente eu estava atrasado e não deu tempo de comer a pizza inteira no almoço, me dando a oportunidade de comer o resto quando chegar em casa às 7. Felizmente também eu fiquei com fome por não ter comido a pizza inteira no almoço, me dando a oportunidade de satisfazer um desejo enorme que é comer o resto quando chegar em casa às 7.
Quem não concorda com essa felicidade é o dono da fruteira da esquina, que tem um cheiro muito bom, não o dono, ele eu nunca cheirei, mas a fruteira, que tem um cheiro de uva delicioso e ainda tem salgados de peito de peru extraordinários, não o peru, quer dizer, talvez o peru fosse extraordinário e essa seja a real causa do salgado feito dele ser tão bom.

Eu poderia também ter lembrado de trazer dinheiro, que aí dava para ir no Cruz de Malta e comer dois croquetes com muito treme-treme enquanto tomo uma coca, porque hoje é só segunda e o todo mundo sabe que o dia de tomar chopp no Cruz de Malta depois do trabalho é sexta.

O ruim é que agora já são quase sete e meia, até eu chegar em casa são oito, aí oito horas não é um bom horário pra comer, porque fica muito perto da janta e aí não vou ter fome na janta, e se eu não jantar vou ter fome de manhã e, ou vou ter que acordar dez minutos antes pra tomar café, e aí não vou ter fome no almoço, deixando pra ter fome no meio da tarde, quando não dá pra comer, aí só vou consegui às oito, que não é um bom horário pra comer porque fica muito perto da janta e aí não vou ter fome na janta e se eu não jantar vou ter fome de manhã e, ou vou ter que acordar dez minutos antes pra tomar café ou não vou comer até o almoço, quando vou estar com tanta fome que vou comer rápido e quando eu como rápido acabo não comendo nada e se eu não comer nada no almoço vai chegar perto das seis e eu vou estar definhando e seis horas já não dá pra sair pra comer, aí vou esperar até a hora de ir embora e aí já são oito e oito horas não é um bom horário pra comer por que

Tuesday, January 14, 2014

O falso 9

Apesar da suposta facilidade com que trabalha o jogador centroavante – necessita às vezes apenas que a bola encoste nele e entre –, muito embora hoje se tenha conhecimento de um gene extremamente recessivo que condiciona o ser humano a ter maior facilidade em botar a bola pra dentro, há atletas que preferem não se ater apenas a essa função. São os falsos 9.
O falso 9 está lá, na marca do pênalti. Ele veste a camisa do centroavante.
Faz, de fato, muitos gols.
Mas não queira ver o falso 9 como uma referência.
Falsos 9 não admitem essa possibilidade.
Falsos 9 não se prendem a esquemas táticos pré-determinados que o coloquem com a função única e exclusiva de fazer o gol.
Mas o falso 9 faz, de fato, muitos gols.
O falso 9 precisa constantemente sair da área para respirar.
E não tente prender o falso 9 dentro da área.
O falso 9 não funciona preso à área.
Há quem pense que o falso 9 surgiu no Barcelona de 2011, com Messi.
Ou no Arsenal, anteriormente, com Fàbregas.
Que no meu time da Master League já jogou até de lateral.
Direito e esquerdo.
Mas o primeiro falso 9 – que se tem conhecimento – surgiu muito antes, na Hungria dos anos 50.
Enquanto Puskas vestia a 10, Hidegkuti usava a 9.
A diferença é que o húngaro se movimentava apenas para dentro ou fora da área, sempre centralizado.
Messi transita tridimensionalmente pelo campo.
Por isso, além de falso 9, é gênio.
Mas também não pense que o falso 9 é falso.
Que está ali para ludibriar o adversário.
Aproveitar-se da fragilidade tática dele.
O falso 9 é honestíssimo.
Ou pelo menos tem de ser para funcionar.
Se cai na tentação de ser falso apenas pelo adjetivo, não engana a ninguém.
A não ser a si mesmo.
Há muitos centroavantes que se passam por falso 9.
Erro.
É o falso falso 9.
Qualquer definição que tenha um adjetivo negando outro é um erro.
Mas há quem tenha maior poder de adaptação e consiga funcionar tanto como centroavante, quanto meia e falso 9.
Dependendo da situação.
Se o jogo é em casa ou fora.
Mas é raríssimo encontrar um jogador dessa qualidade.
Ou então se torna um atleta como Jorge Henrique.
Apenas polivalente.
Adaptar-se mantendo o padrão de qualidade e satisfação é muito difícil.