Thursday, November 29, 2007

A Estrela

- É, enfim o fim? – disse-lhe quando estavam na beira daquele abismo.
- É, sim. Quer voltar? – respondeu ela, que sempre fora mais corajosa
- Nada, só me dá um daqueles teus abraços de urso que fica tudo bem.
- Logo agora?
- E agora tem hora pra abraço, é?
- Tem não, vem cá.
- Não quero sair daqui nunca mais.
- Não esperei esses 16 anos da minha vida por esse momento, pra passá-lo abraçada em alguém!
- Então segura minha mão. Vamos pular juntos.
- Por que tu gostas tanto de mim?
- Quer em ordem alfabética ou por preferência?

Algumas recordações:

- Jura que vai estar sempre comigo e vai segurar a minha mão no dia que eu morrer? – disse ela, aos seis anos de idade, deitada na grama mais do que verde do pátio de casa.
- Não precisava nem pedir, vamos viver juntos para sempre, grandes amigos! – respondeu ele com o coração.

- Tá vendo aquela estrela lá? – disse ele, apontando para o céu escuro e estrelado.
- To sim, por quê?
- Ela é a nossa estrela. Estrela da nossa amizade!

- Vamos trocar um pedaço de algodão doce? Tu me das um pouquinho do teu azul e eu te dou um pouco do meu rosa. – disse ela com os olhos e com a boca.
- Claro! Essa é mais uma tarde eternizada todinha nossa.


- Lembra que eu prometi segurar tua mão no dia da tua morte?
- A gente era criança, não se pode acreditar em promessa de criança...
- Pois eu levei fé. E não queria segurar a tua mão tão cedo.
- Que nada, eu cansei dessa minha vida que nada dá certo.
- E eu? Não dei certo na tua vida?
- A gente se encontra lá do outro lado daqui uns sessenta anos, tu ainda tens muito pra viver.
- E tu também! Sai desse lugar, vem comigo, te faço um suco e tudo vai se acalmar.
- Não quero suco! Deixe-me pelo menos morrer em paz, pelo amor de Deus!
- E eu, como fico se tu morreres?
- Tu vais ficar bem. És forte, irás superar, meu amigo.
- Nunca! Não saberei viver sem ti, não te lembras de quando éramos pequenos e prometemos proteger um ao outro? Pois então, cá estou eu!
- Já disse, esquece as nossas promessas de criança, tudo em vão, já esqueci tudo!
- Nunca vou esquecer, e sei que tu também não irás. Isso é só coisa de momento garota, vai passar, me abraça forte e todos teus problemas irão acabar.
- Só tu mesmo pra conseguir me fazer sair daqui. Eu te amo.
- Amigo é pra isso. Daqui a uns cinqüenta anos isso vai acontecer de novo, e eu vou fazer a mesma coisa. Tudo pra não te perder, minha grande amiga.
- O que ia ser de mim sem ti?
- No momento nada, pois irias morrer.
- Em qualquer ocasião, sem ti eu seria nada.
- Entende agora porquê te salvei?

Sobre o ódio à Matemática

Mais uma vez eu fui bem em Português, Literatura, Geografia e História e, não mais uma vez, porém também não raro, fui bem também em biologia no Simulado do colégio. Fui mal em Matemática, pra variar. Isso só aumentou meu horror por essa matéria. Tá certo que não estudo mais isso, mas quando na minha vida eu vou usar logaritmo? E números complexos? Nunca. Mesmo. Eu também não gosto muito de Física, mas pelo menos eu vejo a Física no meu dia-a-dia.
Esses dias, indo comprar pão em uma padaria próxima, eu e Luíza estávamos discutindo sobre isso. Nós, futuros jornalistas de sucesso, não precisamos saber de tudo isso, só precisamos saber somar, subtrair, multiplicar e dividir, e essa é bem a verdade mesmo!
O que me consola é saber que depois do vestibular nunca mais vou precisar estudar Matemática. Nunca mais números, só palavras, frases, textos. Crônicas, contos e estudos só nessa área! Adeus, mundo cruel da Matemática, não foi bom te conhecer!

Sunday, November 18, 2007

Entrevista com Leon Sanguiné

Leon Sanguiné é um desses novos escritores que estão encantando e estimulando os jovens a lerem e até mesmo a escreverem seus próprios contos. Fizemos uma entrevista reveladora com ele.

Redação: Então, Leon, como tu te sentes sendo uma das grandes revelações da literatura nacional?
Leon: Não me considero uma grande revelação. Grandes revelações fazem sucesso com seus livros de estréia e depois perdem a graça.
R: Quais são tuas maiores influências?
L: Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Fernando Sabino e Luís Fernando Veríssimo. E na linguagem a Adriana Falcão.
R: E de onde tu tiras inspiração para teus textos?
L: Escrever é coisa de momento. Não se escreve sem ter uma base e essa base varia de momento para momento.
R: Todos sabem que teus textos saem, em grande parte, do teu caderno de espanhol. Por quê?
L: A aula de espanhol tem um ar diferente. Um ar para escrever textos, não para estudar espanhol.
R: E o que tu fazes nas horas vagas?
L: Na verdade, eu escrevo nas horas vagas.
R: E nas horas não vagas?
L: Leio, jogo pife e futebol.
R: E os amores?
L: Escrevo.
Leon tem uma personalidade diferenciada, difícil de ser entendida e, até mesmo, de ser suportada. É preciso paciência para aturá-lo todos os dias, o próprio recomenda que as pessoas o vejam apenas uma vez por semana.

Friday, November 16, 2007

Idas e Vindas

Depois de muito tempo, se reencontram. E se beijam.
- A gente não presta mesmo, não é, Gabriela?
- Por que, Rodrigo? – ela responde, com um ar de quem sabe a resposta que vai ouvir.
- A gente diz que se odeia, mas é só se ver pra cair um nos braços do outro.
- É. Tu me deixaste sentindo tanto frio naquele inverno...
- Nem imaginas o frio que eu senti. Sem o teu abraço quente!
- Não era a mesma coisa. Eu sofri.
- Eu te amo desde aquela época. Desde antes, até.
- E aquela lá, que tu andavas até a pouco tempo?
- Sinto um friozinho na barriga por ela, admito. Mas por ti, eu me congelo. Congelo de amor.
- Será que dá certo?
- Não sofras por problemas antecipadamente, querida.
- Mas não deu certo aquela vez.
- Os tempos são outros. Certamente nossos nomes estão escritos naquela estrela lá no alto. Não é por acaso que eu to aqui e tu também.
- Tu falas tão bem.
- Por ti...
- O que ficou pra mim, desde então? Tristeza e só?
- Ficou o meu amor.
- E vamos viver a vida inteira com voltas e despedidas? Não vou suportar.
- É nosso destino. Não posso te prometer ficar aqui pra sempre. O pra sempre é hipócrita e não gosto de hipocrisia. Mas posso te dar todo meu amor agora.
- To com frio.
- Te aqueço com meu amor.
- Posso dizer que te amo?
- Deixa o verão pra mais tarde.

Wednesday, November 07, 2007

O Velho e o Moço

- Mas veja o senhor, seu Elias, o homem vive inventando jeito de tentar voar, igual a um passarinho!
- Só isso o homem não sabe fazer, guri, olha tudo que o homem já inventou por aí!
- Mas porque será que é tão difícil voar, eim?
- É justamente pro homem não se preocupar com uma besteira dessas e inventar coisa que preste!
- E voar não presta?
- Não.
- Mas então por que o homem quebra tanto a cabeça pra tentar voar?
- Porque não tem mais o que inventar, tudo que precisava já foi inventado. Podíamos viver assim, como estamos hoje.
- Os pais, avós, bisavós do senhor também pensavam assim e olha tudo de útil que já foi inventado desde então.
- É que o homem sempre aparece com uma necessidade nova.
- E voar não é uma necessidade, não, é?
- Não, pra quê que homem algum vai querer voar, menino?
- Muitos humanos já pularam daqueles negócios em cima das pontes, já foram pra Europa de avião...
- Tudo humano inútil! Voar não é coisa útil, não.
- Mas, então, todos somos inúteis, pois não só voar é uma coisa inútil!
- Vem cá, tu não fez teu tema ainda, não?

Tuesday, November 06, 2007

O Sófá

Conheci Manuela numa janta na casa do João. Gamei. Sentei ao seu lado no sofá azul.
- Fica assim do meu lado, por toda a vida, eu bem pertinho de ti?
- Sim.
- Sério?!
- Talvez. Me beija.
Beijo. Olhos brilhantes. Olhar de criancinha.
- Gostei. Agora me abraça.
Abraço. Olhos fechados. Aperto.
- Amei. Vou ficar.
- Minha vida é isso. Não preciso de mais nada, só desse sofá azul representando o céu e os teus olhos, como as estrelas.
- Tenho que ir.
- Pra sempre?
- Pra casa.
- Ah. Te vejo amanhã?
- Talvez. Me beija.
Marcamos de nos encontrar no outro dia. Manuela abriu a boca para falar, mas intervi e falei antes.
- Olha, sei como é. Pode ter sido algo de um dia só, ou sei lá, podes ter encontrado alguém.
- Só ia perguntar porque demoraste tanto.

Saturday, November 03, 2007

Sobre os Hermanos

Faz muito tempo, eu tava vendo um clipe estranho de um show na MTV e a minha mãe falou: “Essa música deve ser boa, pena que não dá pra entender nada que esse cara fala”. Era o clipe de “O Último Romance”. Uns dois meses depois, ela me disse que queria em apresentar uma banda. Eram os Hermanos. Aí comprou o Ventura e se apaixonou. Mas eu não curtia muito, não.
No início desse ano, eu comecei a ouvir Los Hermanos bastante. Mas ainda não era a minha banda predileta. A voz do amarante, os teclados do Medina e as letras do Camelo não eram meus preferidos, mas era questão de tempo, e eu sabia. Hoje eu não vivo sem e comprei mais dois CD’s deles – o Ventura continua sendo meu predileto -.
É uma tarefa dificílima classificar os Hermanos em algum estilo musical. Rock? Nem peso tem direito! Samba? Não tem pessoas e nem instrumentos o suficiente. Mas pra quê classificar? Esse é o charme, a graça da banda. Se classificar, fica chato, perde a graça. As letras de amor bala de goma do Camelo, as de amor intelectual do Amarante, nada disso pode ser rotulado.
Muita gente diz: “Não gosto de Los Hermanos, Anna Júlia é um porre”. Anna Júlia é a primeira música de sucesso, não tem nada a ver com eles. NADA! E aí vem mais um fato interessante sobre eles. Quando essa música foi lançada, todos pensavam que seria mais uma banda de um hit só, mas, contrariando a todos – inclusive a mim, admito -, os caras lançaram mais três discos depois, se tornaram uma das melhores bandas do país – pra mim a melhor – e criaram uma legião de fãs pelo Brasil a fora. Essas pessoas que vêem os Hermanos só como Anna Júlia precisam é ouvir as outras músicas e não pensar que é apenas mais uma banda de um hit só.
O que mais em impressiona no Camelo é a doçura das letras e músicas, o jeito como as duas se encaixam perfeitamente uma na outra. O modo como “És perfume de rosa na mão” consegue ser cantado de um jeito que traz mais doçura ainda para a frase. O melhor do Amarante é, com certeza, a sua voz. É aquela coisa bêbada com sono, mas nada forçada. Aqueles “UUH UUHH AAH AAH” que tem tudo a ver com a cara dele, o jeito com que a voz, as roupas, a barba e as caras que ele faz se encaixam. E eu imito igualzinho! É algo inexplicável o meu amor pelos Hermanos!
Experimenta andar pelas ruas ouvindo as músicas deles. Se for um dia de sol e tu estejas com vontade de olhar pro céu e para as nuvens, ouve “O Vento”, se encaixa perfeitamente! Mais perfeito ainda é observar o movimento da rua através de um ônibus ouvindo “Conversa de Botas Batidas” – a minha predileta -. É impressionante, parece que eles estiveram no mesmo lugar, olharam para as mesmas coisas e, inspirados por aquilo, escreveram a música.
Todo mundo deveria conhecer Los Hermanos. Devia ser um direito universal. O cara nasce e logo ganha um CD deles. Certamente o mundo seria melhor. Seria mais feliz, alegre e saltitante. Seria mais bala de goma.

Tuesday, October 30, 2007

Máquina Dos Sonhos - Parte VII

Demorei a acreditar que tinha atirado em alguém – que tinha matado alguém. Acordei com meu pai me chamando para almoçar. Eu sabia que tinha dado certo. De alguma maneira sentia que Labarthe estava morto.
– Pai, meus amigos demoraram em ir embora?
– Claro que não, tu dormiste de repente, queria que eles ficassem aqui?
– E eles chegaram bem em casa?
– Era sobre isso que eu queria falar contigo.
A confirmação.
– Labarthe levou um tiro.
– Morreu?
– Sim. Sinto muito, meu filho.
– E já sabem quem foi o assassino?
– Não, mas não se preocupe com isso. Sei que perder um amigo é muito complicado.
– Tudo bem, pai. Vou ficar bem.
Consegui, com muito esforço, disfarçar minha felicidade. Ele morreu. Meu segredo não foi revelado. Não senti nem um pouco de remorso. Resolvi que, por ser meu único amigo e conhecer toda a trama, Rafael tinha de saber que eu era o assassino de Labarthe. Chamei-o para minha casa.
– Para que tu me chamou aqui, Vitinho?
– Rafael, o que tenho para te contar é muito sério e tem de ficar apenas entre nós dois!
– Tudo bem, cara, sabes que podes contar comigo!
– Estás sabendo da morte de Labarthe, certo?
– Claro, um horror, mas o que tem a ver com o que queres me contar?
– Fui eu.
– Foste tu o que, Vitinho?
– Matei Labarthe.
– Como? Tu tava dormindo!
– É uma história muito longa, senta para que eu te conte.
– Conte.
Contei toda a história, em seus maiores detalhes para Rafael. Desde a parte da descoberta do botão, até o barulho de morte que tem uma arma.
– Não acredito que tu fez isso, cara!
– Ele ia contar para todos sobre a minha máquina!
– Essa máquina ta acabando contigo! Joga isso fora, porra!
– Eu te chamei aqui para me ajudar, Rafael, se não fores me ajudar, pode ir embora!
– Não precisa dizer duas vezes, estou indo!
Irritei-me com Rafael. Como ele pode não pensar que eu tive meus motivos para matar Labarthe? Como pode não compreender? Mas eu tinha outras coisas mais importantes para pensar, precisava saber como iria fazer para ter Lívia ao meu lado. Claro que tu já deves ter pensado na mesma coisa que eu. A Máquina dos Sonhos.

Wednesday, October 17, 2007

E eu?

Faz tempo que eu não tenho nada que me deixe feliz de verdade. Sabe... cantar de felicidade. Isso deveria ser um direito natural de todo o ser humano. Até mesmo pra mim, um completo idiota, magro, feio, baixinho e estranho. Isso mesmo, sou tudo isso! Mas e daí? Só porque sou essas coisas que acabei de citar, não tenho direito de cantar de felicidade? Se fosse assim, muitas pessoas que conheço não teriam esse direito. Mas elas têm. E eu não. É que elas têm motivos para estarem felizes, ao contrário de mim, que sou um completo fracassado.
Eu me olho no espelho e tento fazer uma rápida biografia de mim mesmo. Leon Sanguiné, 15 anos, estudando e... e o que mesmo? Nada. É isso que eu sou – um nada. Com a minha idade, Vitor Ramil já tinha feito “Estrela, Estrela” há três anos. Aos 17, a Clarice publicou “Perto do Coração Selvagem”. E eu? E o Leon, o que ele fez de produtivo nesses 15 anos de vida? Pois é, mais uma vez chego àquela resposta simples e clara: Nada. Não fiz nada de marcante. Nem pra mim, nem pra ninguém. Um simples gesto. Nem isso eu fiz.
Eu estou prestes a aparecer no jornal mais lido da cidade. E daí? Nem metade dos meus amigos vai ler. Muito menos pessoas que não conheço. Fiz a entrevista com todo amor, carinho e afeto, mas sei que, no final do dia, aquilo vai pro lixo. Quem é que vai querer ler uma matéria de um tal de Leon, que é feio e nem cara de inteligente tem? Ninguém. Ta, ninguém é uma palavra muito forte. Algumas pessoas. Mas essas “algumas” limitam-se a umas cinco. Poderia até citá-las aqui, mas não vou fazer isso.
Minha existência é tão insignificante, que creio não fazer diferença alguma na vida de ninguém. Nem para o bem dessas pessoas, nem para o mal. É tão insignificante, que às vezes não sem nem onde jogar meu corpo. Essa é a minha definição – um corpo que só faz volume aqui no mundo.
Já passou da hora de eu fazer alguma coisa que preste, alguma coisa marcante na minha vida. Alguma coisa que mais do que cinco pessoas leiam. Alguma coisa de impacto. Podia ser do tipo ser uma pessoa melhor pra conversar, já que, segundo a minha mãe, eu não sei conversar e tranco as conversas. Feio, chato, idiota, baixinho e estranho vou continuar sendo. Mas, pelo menos, vou ter algum motivo para cantar de felicidade.

Thursday, October 11, 2007

Máquina dos Sonhos - Parte VI

– Não contes para ninguém sobre isso, Abreu!
Já era tarde. Ele nem me ouvia mais, estava muito bravo.
– Lívia, a nossa colega nova, tem seus sonhos todos aqui, o que estas pensando, cara?
– Estou apaixonado por ela.
– É? Então já sei como me vingar. Ela vai ser a primeira a saber!
– Não faças isso, por favor!
Fiquei sem reação. Como eu podia impedi-lo de contar da máquina para todos? Se ao menos eu vivesse no mundo dos sonhos. Isso seria imediatamente resolvido. Não pensei duas vezes e empurrei Labarthr tão forte que ele caiu sobre minha cama, batendo a cabeça na parede. Cheguei à frente da máquina e apertei o botão “Mu.D.So” e fui direto ao mundo dos sonhos, para tentar achar um jeito de mudar aquela situação.

Chegando lá, fui até minha casa para tentar achar, dentre os botões da Máquina dos Sonhos, algum que permitisse a transferência dos fatos que ocorriam naquele mundo, para a realidade. Lembrei de que precisava querer aquilo para que, então, o botão surgisse. Concertei-me naquele desejo e o botão apareceu. Apertei-o. “TU TENS DUAS HORAS CRIAR A CENA QUE SERÁ TRANSFERIDA”, foi o que apareceu na tela. Não perdi tempo e procurei Labarthe.
Depois de dez minutos, achei-o na praça da cidade, sozinho. Resolvi conversar com ele, para saber se ele já sabia da Máquina.
– Bom dia, Abreu.
– Ó, Duarte! Como vai?
– Vou bem... Por acaso foste em minha casa hoje?
– Não, não, por quê?
– Por nada... Bem, tenho de ir, tchau, Abreu!
– Tchau, Duarte, não te esqueças do nosso trabalho, amanhã em tua casa!
– Não vou esquecer!
Obviamente minha resposta foi de cunho hipócrita, pois na verdade eu tremi nas bases, por saber que o trabalho iria existir mesmo e pior: Seria amanhã, e não dentro de duas horas! Fui para a casa, para poder pensar em uma solução para aquilo.
Deitei em minha cama e fiquei pensando em um modo para impedir Labarthe de saber da máquina. A conversa com Labarthe havia me tomado trinta minutos que, somados com os dez do tempo que demorei para achá-lo, já eram quarenta minutos que eu não tinha mais. Cada minuto é um minuto roubado da morte. No meu caso, cada minuto é um roubado da revelação que terminaria com minha vida. Mais vinte minutos foram. Agora eu tinha apenas uma hora. Metade já tinha ido.
Muitos pensamentos me consumiam naquele momento. Até que tive uma idéia, que de princípio achei absurda, mas depois de passados mais dez minutos – agora só me restavam cinqüenta minutos – tive de convir que era a única solução. Contra minha vontade, liguei para Labarthe.
– Abreu?
– Sim, Duarte?
– Podes ir até à praça dentro de no máximo trinta minutos? O trabalho foi transferido para hoje, Cosme não poderá nos encontrar amanhã, mas hoje ele pode.
– Sem problemas, estou indo!
– Tchau, Abreu.

Corri até a praça. O que era aquilo em meus bolsos, que eu tocava com minhas mãos, agora cobertas por luvas? Nunca havia tocado naquilo, nem sequer tinha visto algo daquele gênero! Vi Labarthe vindo em minha direção. Dez minutos.
– Olá, Abreu, vamos até aquele beco, Cosme nos espera lá.
– Naquele ali, deserto e escuro?
(cinco minutos).
– Sim, vamos rápido! – falei olhando para o relógio.
– Ta bom.
(três minutos).
– Olha, Abreu, eu juro que não queria fazer isso!
(dois minutos).
– Fazer o que, Duarte?
– Tu mexeste com o que não devia, tens que pagar por isso...
– Mexi com o que? O que eu fiz?
(um minuto).
– Comigo, agora sem mais explicações!
(cinqüenta segundos).
Tirei aquilo que estava no meu bolso. Era uma arma. Sim, daquelas dos filmes americanos. Tremi.
(trinta segundos)
– Desculpa, Abreu!
Atirei.

Wednesday, October 10, 2007

E Se Houver?

- Fiz Tantas cartas pra ti, Fernando!
- Elas nunca significaram nada para mim, Mariana.
- Não diz isso, meu amor!
- Tuas palavras só me fizeram dormir!
- Vou começar a chorar...
- Tua vida ta só começando, garota, não serei o último homem que te terá.
- Tens que aprender a amar, Fernando, estou disposta a te ensinar.
- Mas e a guerra?
- Um dia cessará.
- Mas e o sangue?
- Será estancado um dia.
- Não posso ficar!
- Mas e o amor?
- Deixará meu peito.
- Como?
- A guerra tomará minha atenção.
- Mas tu vais até lá para cessá-la, se teu desejo é de terminar com a batalha, não será tempo o suficiente para esquecer o amor!
- E quem disse que quero esquecê-lo? Eu tenho de esquecê-lo, mas esse não é meu desejo.
- Fica!
- Não posso, Mariana.
- Mas e nossos antepassados, que lutaram para não morrer, só para que nós nos encontrássemos um dia?
- E achas que não penso neles? E as estrelas, então, que estão lá só para ficarmos eu e tu olhando para elas, admirando-as e a nós mesmos.
- Que lindo, Fernando!
- Não quero que aches lindo. Isso só deixará tudo mais difícil.
- Mas eu te amo, meu guri!
- Irás achar alguém melhor que eu.
- Nunca. Meu amor é só teu.
- Deixa o amor!
- Não posso deixá-lo como deixo o verão pra mais tarde!
- Los Hermanos já é demais, Mariana!
- Preciso da ajuda deles para te trazer de volta pra mim, pois não estás mais aqui.
- Eu estou aqui ainda. Tenho tempo para mais um beijo longo.
- Assim vai ser mais difícil...
- Deus sabe que vou me atrasar por um bom motivo.
- Não coloques Deus no meio, Ele não tem culpa por não teres coragem.
- E se eu ficar?
- Pra quê? Te darei meu amor só até uma próxima guerra.
- Acredito em meus companheiros, farão de tudo para não haver mais guerras.
- E se houver?
- Pra quê se preocupar com o que virá? Viva agora o momento que estamos passando, deixa o futuro pra depois.
- Tenho medo de te perder de novo, Fernando, um dia irás morrer nesta maldita luta pela paz e pela liberdade!
- Meu avião partirá daqui a pouco...
- Vá. Será melhor pra ti.
- Vem comigo, Mariana?
- Uma mulher, na guerra?
- Tenho casa no local onde vou batalhar, podes ficar lá.
- Mas e nosso sonho de morar nas estrelas?
- Eu as trago pra ti.

Thursday, September 27, 2007

À Quatro Mãos


"Alô, James?"
- James?
- Sim, aquele moço alto, moreno, de smoking branco que atendeu o telefone no bar, fumando seu charuto. Diga me Leon, charuto ou cigarro?
- Charuto.
- Cubano?
- Esse mesmo. Com sua cartola cinza. Não esquece dela.
- Nunca!

Apoiado com um pé no chão, o outro entre as pernas do banco.

- Ele tem barba, sim?
- Barba... ou seu bigodinho negro bem fininho separado no meio, estilo anos 60, para combinar com o cabelo lambido de gel dividido pro lado - penteado meio pro lado, meio pra traz. Com o brilho fosco do gel já seco. Seco como sua boca que é umidecida pelo copo de dry Martini...
- Caraca, ele é da máfia italiana, pelo jeito.
- ...já sem azeitona - afinal, é a primeira coisa que ele come quando pede um desses.

"James, acordei e não te vi ao meu lado na cama. Porque saíste tão cedo?"
"Fui tratar de negócios, querida Elizabeth.”
"Gostei da rosa vermelha. O verei de novo?"
"Talvez, por enquanto contente-se com mais essa xícara de chocolate quente.”
"Como chocolate quente, James? Bebo desta xícara de café que me manterá acordada pensando em ti...”

- Juro que tento fugir do romantismo e do café... mas vivo pra/d eles.
- Odeio café

"Sem romantismos, Elizabeth, ele não te levará a canto algum..."
O telefone é batido no gancho. Ele se levanta em um movimento só, pega sua cartola cinza de cima do balcão e diz ao garçom que voltará. O garçom olha para a moça que está aos prantos e pergunta se pode lhe ser útil em alguma coisa. Elizabeth diz: "Traga-me de volta aquele homem que tanto amo!"

- Mas eles estavam no telefone. Ela não tava no bar...
- É? Putz, reformulando.

Elizabeth começa a chorar mares de lágrimas no sofá preto de dois lugares e sua mãe, a bela senhora Ana, tenta consolar a filha: "Minha tão amada filha, no que posso ajudar-te?" Elizabeth responde em meio ao choro: "Oh, minha mãe, ele não vai voltar! Eu sei que não vai!" Ana, que só pelo nome apresenta força, mulher sempre revolucionária e feminista. Pergunta se deveria tomar alguma providência para que ajudasse o estado deplorável de sua filha mais nova, sempre tão sensível.
A delicada Elizabeth com sua pele de pêssego maduro, avermelhada de tanto choro, suplica uma mão de ajuda. Ana não esconde a raiva que lhe toma agora e diz que irá fazer de tudo para encontrar o mafioso. Vivo ou morto.
"De que adianta, mamãe? Ter seu coração em minhas mãos não traz seu amor para mim" Realmente Elizabeth tinha razão. Mas mal sabia ela que James havia sido pego em uma arapuca montada pela máfia russa e agora está em mãos adversárias, podendo ser morto a qualquer momento.
Os russos lhe avisam que ele possui um único último pedido. Contrariando os que pensavam que o italiano pediria um telefonema, James pede apenas um momento de prazer: uma xícara de café e um charuto cubano. Pensa em um modo de avisar seus companheiros que foi pego, mas como? Não há como avisar ninguém, os russos são bons na resistência! Vem-lhe ao pensamento Elizabeth. Como avisar a moça da pele de pêssego? Seu pedido já havia sido feito.
James não tinha medo da morte, poucos sabiam que na sua infância ele tinha presenciado a morte de um pássaro com a asa quebrada, lá estava ele em um canto do quintal, observando, analisando, anotando. Aprendeu que existem certas coisas que não se pode fugir. Mas Elizabeth, diferente da morte, algo em Elizabeth não deixava sua mente descansar. O que seria? O que seria?

No momento em que pensava, aparece um pássaro preto, que piava sem parar, só então Elizabeth pôde perceber que se tratava de Golias. O pombo correio que servia de comunicação da mocinha com o mafioso, enquanto ele estivesse em alguma missão perigosa. Golias sabia sempre onde o casal se encontrava, não errava nunca...
Grande pequeno Golias enfeitava o silêncio enamorado, salvava o silêncio aflito. Pairava sobre o ar procurando um jeito de ajudar o jovem casal. Mas claro! O pequeno amor amarelo... Que outro lugar havia tal flor delicada senão em Pettsburg e seu clima à parte. Seu clima frio e seco acendeu o amor de Elizabeth e a fez escrever uma linda carta para seu amado mafioso, na sua bela e tão maltratada máquina de escrever.

- Acho melhor tu escrever a carta, tem mais romantismo.
- iiiiiih
- Faça metade que eu faço metade, que eu quero fazer também.

"James,
Venho dias a pensar em como te fazer achar a saída do labirinto que entraste ao começar a viver em meu coração. Espero um dia poder ter a ti do meu lado, sem preocupações, falta de explicações ou a insegurança de estares vivo ou não, me amando ou não. Escrevo com letra trêmula de quem não deseja dizer adeus, não tendo mais opções a não ser essa. Escreveste ao meu lado, presente ou não, a minha história e de meu passado não sairás. Nossa história está marcada em folhas que de tão antigas estão amareladas, desejo do fundo de meu coração que o mesmo não aconteça com nosso amor. Que a mancha de café em meu lençol saia e que de tão quente não tenha queimado meu coração. Espero-te de braços abertos, mas me perdoe se não conseguir sustentá-los por muito tempo - o tempo pesa. Nosso amor não pode ser previsível como o que vai aparecer nessa máquina após eu apertar a próxima letra. Não deixe que nosso amor se torne apenas mais um. Não me deixe com todas essas esperar citadas aqui. Deixo-te com a espera de cada pensamento meu ao escolher cada palavra para dizer em poucas o que em uma boa explicação não falaria. Tentei. Com amor, escrevo minha última espera: que me tragas uma carta datilografada em folhas amareladas de resposta, onde tenhas apagado todas as outras esperas minhas que trago até ti. Até breve.”

Elizabeth com uma caneta de pena assina acima da moldura da folha, seu nome com tanta calma que acaba deixando um borrão de tinta no final de seu H puxado... tornando a carta tão mais humana.
A moça entrega a carta a Golias, que com um rosto sábio como quem diz "Confie em mim". Sai voando pela janela, carregando toda a tristeza e as esperas de Elizabeth.

- Onde fica a cidade mesmo?
- Numa distância de milhões de gotas adocicadas.
- Isso é bom. Mas acaba com a lógica que eu ia seguir, então segue, por favor.
- Não queres seguir a tua?
- É, acho que dá.

Da cidade que fica a uma distância de milhões de gotas adocicadas até Moscou, o caminho era longo, e o pássaro tomou todo o cuidado possível para não deixar cair nem um pouco da tristeza e das esperas de Elizabeth. E como é sábio, esse pombo! Chegou ao cativeiro na qual se encontrava James e entregou a ele a carta. O mafioso reconheceu sem hesitar seu carteiro tão fiel. Recebeu em mãos o papel, pouco afetado pelo tempo, e abriu-o com cuidado e respeito. Leu, releu, olhou para o céu. Que isso? Uma lágrima. Ele que sempre brincara com corações, descobrira aonde o seu residia. Decidiu que iria tentar de todas as formas se livrar dos russos. Não por si e sim por Elizabeth, pessoa que o amava mais do que ele próprio fora capaz de um dia amar a si. Pensou um pouco e formulou seu plano. Começou a conversar com um dos guardas que acabara por virar seu amigo dentro do cativeiro. Sem titubear muito mais lhe acertou um certeiro golpe no abdome que deixou o guarda desacordado. Pegou a arma do russo e partiu em disparada. Conseguiu passar sem problemas por mais três ou quatro inimigos, mas o cansaço do italiano já era um dos aliadas dos russos e seu rendimento foi caindo.
Quando finalmente conseguiu chegar perto da porta da saída, aquele primeiro guarda que James havia acertado um soco no abdome, joga uma pedra em sua cabeça. James morre. A cartola sai voando pelos ares de Moscou. Golias sai voando, assustado, desamparado. Elizabeth sentada em sua cômoda, penteando seus cabelos negros e pesados, sente um vento em seu rosto. A rosa vermelha cai no chão e independente de seus espinhos que usa de proteção, perde suas pétalas na luta entre a gravidade e a força do vento. Elizabeth fecha os olhos.

Ana pergunta se a filha deseja alguma coisa. Elizabeth se resume em responder: "Obrigado, mamãe, mas não há mais o que fazer: A rosa despedaçou-se, o charuto não acende, o telefone não toca, a cartola já saiu voando e o café? Esse já esfria junto ao meu amor e não conforta mais minhas esperas agora eternas".

- Fim?
- Eu diria que sim.



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Monday, September 24, 2007

Satolep noite

Satolep quase 20 horas. As pessoas se dirigiam para suas casas mais cedo por causa da chuva e do frio. Mas eu fiquei por lá. Perto do aquário, ali naquela ruazinha entre ele e a Doçaria Pelotense. Eu não fui o único a passar por ali no momento, mesmo com a maioria se recolhendo aos seus aposentos, alguns humanos passavam por mim ainda.
O frio entrava por entre meu blusão vermelho de decote V. Resolvi tirar algumas fotos. A primeira saiu tremida e não a aproveitei muito bem. Não me abalei e resolvi tirar outras, até que finalmente consegui a foto ideal: Pegava a noite, o aquário, a chuva, a temperatura e as pessoas andando. Guardei aquela.
Andei até a Praça Coronel Pedro Osório e, no caminho, me deparei com o precário estado da Bibliotheca Pública. Enquanto a prefeitura, o Mercado Público, a Casa da Banha e o Grande Hotel tinham sido pintados, ela continuava lá: Com uma aparência péssima e sem cuidado algum. Tirei algumas fotos do Grande Hotel e da prefeitura, mas nenhuma superou a do mercado – uma aparência antiga, a rua vazia e ainda a prefeitura no canto. Aquela foi a minha preferida, ganhei o dia por causa dela!
Senti fome. Andei mais uma vez até a ruazinha entre o aquário e a Doçaria Pelotense e notei que a última ainda estava aberta. Quando entrei, pude escolher em qual mesa me sentar, pois pela hora que já era a doçaria já não estava mais tão movimentada. Pedi um chocolate quente para espantar o frio. Para me distrair enquanto esperava a bebida, fiquei tirando mais algumas fotos da rua. Passou por mim um casal de velhinhos muito simpáticos abraçadinhos. Não resisti, foto deles! Recebi meu chocolate quente e não pude deixar de registrar aquele momento e tirei uma foto de mim mesmo com o chocolate quente em contraste com a rua.
Acho que as pessoas ficam me olhando quando fico tirando fotos de tudo assim, como hoje. Olhei o relógio. Era tarde, tinha de voltar para a casa. Andei na chuva até a parada de ônibus. Já passava das 21 horas e o centro da cidade já estava deserto. Confesso ter ficado com um pouco de medo, temia por minha câmera com as fotos desse dia que estava sendo tão especial. Enfim cheguei seguro em casa. Estava cansado demais para fazer outra coisa senão dormir. Vesti meu pijama, coloquei um CD para tocar, apaguei a luz e me enfiei para debaixo das cobertas. A cidade me deu o seu boa noite.

Thursday, September 20, 2007

Máquina dos Sonhos - Parte V

A sigla significava “Mundo dos Sonhos”, deduzi isso quando cheguei a ele. Lá tudo era no estilo bala de goma: Bom, colorido e doce. As pessoas eram educadas e legais. De repente vi Rafael vindo em minha direção. Junto dele vinham outros garotos – todos amigos meus, no Mundo dos Sonhos. Andávamos pelas ruas quando vi Lívia olhando e sorrindo pra mim. Sorri também. Ela se aproximou cada vez mais e eu, sem entender nada, continuava apenas sorrindo. Lívia me abraçou e me beijou. Só aí pude perceber: Aquele era o meu Mundo dos Sonhos.
Eu era considerado muito especial naquele lugar e não queria sair de lá nunca mais, mas sabia que esse sonho não duraria muito tempo. Mal tive tempo de pensar em uma forma de ficar lá para sempre e vi meu pai vindo com uma mulher linda. Eu sabia que a conhecia de algum lugar, mas não sabia de onde.
– Pai! – chamei-o.
– Filho! – responderam os dois, para meu espanto.
– Quem és? – perguntei para a moça.
– Como que sou eu? Sou sua mãe! – respondeu ela, com um tom de reprovação.
Mais uma comprovação de que aquele era o mundo dos meus sonhos, pois meu maior desejo era rever minha mãe, que havia fugido há muitos anos com um homem e abandonando meu pai, que teve de ser um pai e uma mãe para mim ao mesmo tempo quando eu ainda era um bebê de colo. No Mundo dos Sonhos eles se amam, andam de mãos dadas e mandam beijos um para o outro o tempo todo. Gostei daquilo, também.
Passei a tarde toda abraçado em Lívia, que me retribuía com beijos bons e tudo que eu sempre sonhei. De repente, um grande vendaval invadiu a cidade e, quando dei por mim, tinha voltado para meu quarto, na vida real, com meu pai me chamando para o almoço.

– Dormiste a tarde toda, Vitor, estavas cansado?
– Não, eu estava tendo um sonho muito bom, seria uma pena acordar. Pai, tu nunca mais procuraste a minha mãe?
– Nos primeiros anos eu até fui atrás dela, mas depois acabei desistindo e me conformando que tua mãe não era mais minha.
Fiquei um tanto quanto triste com aquela resposta de meu pai.
No dia seguinte, no colégio, encontrei Lívia. Olhei-a com ternura, mas ela ainda nem me conhecia. Ah se eu pudesse me mudar para o Mundo dos Sonhos! Fui para a aula. Tive de formar um grupo para um trabalho com mais dois colegas – um deles Rafael e outro chamado Labarthe, que eu não tinha muita intimidade, mas entre os outros, era o “menos pior”. No final da aula, levei Rafael e Labarthe para a minha casa, para concluirmos o trabalho. Almoçamos e fomos para meu quarto. Falei para Rafael que precisava contar-lhe algumas coisas mais tarde. Para meu azar, a Máquina dos Sonhos estava piscando, por falta de bateria, afinal, minha viagem havia gastado muito dela. As luzes chamaram a atenção de Labarthe.
– O quê é aquela luz piscando ali no teu armário, Duarte? – chamou-me ele pelo meu sobrenome.
– Não vás aí, Abreu! – chamei-lhe também pelo sobrenome, assustado.
– Por que não?
– Porque estou te pedindo!
– Blá, blá, blá... Olha, “digite um nome”!
– Por favor, Abreu!
– Vou digitar meu nome... “Labarthe Fonseca Abreu”.
– Última chance!
– Pensar na pessoa? Vou pensar em mim.
– Cosme, tente impedi-lo! – implorei para Rafael, mas já era tarde.
– Como assim? O meu sonho aqui, direitinho como eu sonhei ontem? O que tu tens a dizer em tua defesa, Duarte?

Saturday, September 15, 2007

Porcelana

Era do estilo “bonequinha de porcelana” – olhos azuis, pele clara e um cabelo escuro e arrumado com um daqueles plic plac. Lembro de minha mãe achá-la bonita, assim como eu. Namorava com um cara bonito, legal e popular, mas que eu sentia que não conseguia dar amor a ela Eu os olhava como quem quer separá-los para poder tratá-la devidamente como merece. Senti seu perfume quando fui me despedir. Apertei a mão dele cinicamente e com uma pitada de inveja. Ela me deu um tchau meigo, mas não diferente dos outros, nem ao menos olhou para meu rosto. Nem saber meu nome ela sabe.

Conheci-a através de amigos. Achei linda, de primeira mesmo, mas nunca tive coragem de conversar, tentar criar uma amizade ou algo parecido. Demorei muito e ela o encontrou. Um cara mais bonito e mais popular que eu, mas que não tinha metade das coisas em comum que eu tinha com ela. Eu precisava fazer ela me notar, mas como? Como eu poderia aparecer sem chamar muita atenção, somente para ela saber da minha existência?

Fui a uma janta de amigos e ela estava lá. Fitei-a nos olhos – azuis que, com a forte maquiagem, se ressaltavam e ficavam ainda mais belos. Ela olhou-me e desviei o olhar rapidamente. Ele viu que eu a estava olhando. Ficou me fitando como se com aquele olhar pudesse me pulverizar. Passei a odiá-lo. Ela buscou mais um copo de guaraná e mais algumas coisas que ele havia pedido, o que me deixou mais raivoso, pois ele nem sequer olhou para o rosto dela! E vi que ela ficou chateada. Fiquei feliz.

Depois de alguns dias, a vi de novo, em outra janta. Ele estava junto dela como um cão de guarda. Não resisti. Respirei fundo, corri, empurrei-o e beijei-a como nunca havia beijado alguém antes. Seu nome era Ana.

Saturday, September 08, 2007

A Humanidade Segundo o Pobre Relógio

Esse troço aqui ta ligado? Beleza, então. Posso começar? Então ta.

Bom, eu sou um relógio. Vai rir? Tenta rir depois do que eu vou falar. Eu to cansado desse negócio de ser um relógio. Não que eu não goste de ser um relógio, eu não aturo a tal subordinação a qual somos expostos pela humanidade. Ô raça maldita, essa.

Ta certo que tenho que agradecer por ter sido inventado por eles, mas poxa vida, de uns tempos pra cá, esses caras perderam a noção de poder! Estão me deixando louco! São capazes de em uma mesma hora, querer que a mesma passe rápido e devagar. É demais para um simples relógio! Sem contar os cucos, pobres pássaros escravizados para que humanos não percam a hora. Não sei se odeio mais a humanidade ou as horas, que já perdi o controle sobre elas. De uns tempos pra cá, inventaram até bomba com o meu pobre nome! Bomba-relógio vê se pode!

Hoje em dia, outro fato ruim na qual eu sou identificado é o tal “tempo é dinheiro”. Se fosse assim, eu seria um direito de poucos e mal usado por esses poucos. Sem contar que pessoas fazem de tudo por dinheiro, até matar. Imagina se fizessem isso por mim? Eu não suportaria. Aí me vem gente querendo criar máquinas do tempo, pra me controlar. O que é isso?! Pediram minha opinião por acaso? Pensam que é bom pra mim que exista um tempo artificial por aí? É como se eu fosse demitido e colocassem um robô no meu lugar! Ora, vá se danar, humanidade!

Eu falei tudo isso apenas pra dizer isto: Estou me demitindo. É, isso mesmo, não agüento mais essa pressão de ficar andando mais rápido ou mais devagar, das pessoas dizendo que não têm tempo pra isso, não têm tempo para aquilo, bombas com o meu nome. Chega! Querem um tempo para passar? Tratem de criar a tal máquina do tempo. E tenho dito.


Deu, pode desligar, Xavier.

Wednesday, August 29, 2007

Tuesday, August 28, 2007

O Guarda-chuva

Eram três horas de uma madrugada chuvosa e a tal princesa do conto de fadas estava toda encharcada e longe, muito longe do seu reino com pozinhos mágicos.

Amanheceu àquele dia com aquela estranha vontade de caminhar por aí, pelo bosque encantado, só que não imaginou que iria tão longe. Até o outro reino, que era mais desenvolvido e colorido. Gostava de coisas coloridas e, junto com a tal estranha vontade de caminhar, foi isso que a levou até esse reino até então desconhecido.

Quando chegou, viu um sino de cores fortes e brilhantes. Não hesitou nem um pouco em tocá-lo, mas ao fazer esse gesto tão sem pensar, a porta gigante e amarela do reino se abriu. Saiu de lá o bobo da corte a contar piadas, divertindo a todos que por ali estavam. De repente notou a bela princesa que tinha longos cabelos loiros e olhos incrivelmente azuis. Parou, olhou-a com um ar de surpresa e perguntou com uma voz fraca e frouxa: “E tu, quem és?”. A donzela respondeu baixinho: “Sou a princesa Ana do reino encantado das sete mil maravilhas”. O rapaz retrucou, rindo-se: “Me desculpa, bela moça, mas aqui é o reino encantado das dez mil maravilhas, como chegaste aqui?”. A princesa deslocou o olhar e ficou sem resposta para tal pergunta. O bobo da corte analisou a menina dos pés a cabeça e disse: “Pensando bem, as três mil maravilhas que faltam a teu reino, encontram-se em ti mesma”. A pequena arregalou e ergueu mais uma vez os olhos, mas ficou sem ter o que responder. O serviçal do rei teve de quebrar o silêncio: “Mas só até a primeira hora da noite”, disse-lhe.

Andou por todo aquele reino colorido de três mil maravilhas a mais que o seu. Queria descobrir o que tinha lá que não em sua casa, além daquelas cores todas. Quando o bobo da corte chegou com toda a sua trupe é que ela notou o que faltava em seu reino: Felicidade e sol. O bobo resolveu, então, que iria acompanhar-lhe na sua caminhada pelas dez mil maravilhas e andou com ela por todos os cantos do lugar, mas não percebeu que a princesa o olhava fixamente: Estava apaixonada.

Quando chegou a tão triste hora de a donzela ir embora do reino das dez mil maravilhas, todos já a conheciam e acompanharam ela até a porta do castelo onde ficava o rei, a rainha e o bobo da corte. Despediu-se de todos e partiu em direção à sua casa. Em seu caminho de volta, reparou nos outros reinos que não tinha visto na ida. Passou pelo das nove mil maravilhas e das oito mil.

Eram três horas de uma madrugada chuvosa e a tal princesa do conto de fadas estava toda encharcada e longe, muito longe do seu reino com pozinhos mágicos. Ouviu um barulho em meio à chuva e olhou para trás a fim de ver o que se passava. Era o bobo da corte. Ele trazia um guarda-chuva e vinha dizendo: “Como podes ser tão tímida ao ponto de não me pedir um guarda-chuva?”. Ela riu, pegou o guarda-chuva e disse: “Estava dispersa, desculpa-me, não queria incomodar-te”. Ele respondeu: “Incômodo algum, linda donzela” e saiu em direção ao seu reino de dez mil maravilhas.

Quando a princesa chegou, o rei perguntou: “Por onde andaste, Ana, minha filha?”. A linda moça gaguejou, mas falou: “Perdoa-me, papai, estava andando pelo reino e perdi a hora”. O rei respondeu aliviado: “Tudo bem, estou precisando de idéias tuas para melhorias do reino, tens alguma?” Dessa vez ela não precisou pensar antes de responder: “Cor, sol e felicidade”.

Friday, August 24, 2007

Máquina dos Sonhos - Parte IV

– Lívia.

– Bonito nome. Já está aprendendo números complexos?

Não é de suma importância destacar aqui todo o diálogo de Rafael e a garota dos meus sonhos, que agora eu podia chamar apenas de “Lívia”! Mas ainda faltava descobrir uma coisa: o sobrenome da linda menina. Escrevi em um pedaço de papel um bilhete para Rafael, pedindo para que ele fizesse alguma coisa para descobrir a tão preciosa informação. Ele teve uma boa idéia.

– Não vai colocar nome na folha de exercícios? Ela é para entregar, não? – disse ele

– Ah, claro, já estava me esquecendo. Tem outra Lívia na turma certo? Vou ter que colocar meu sobrenome – respondeu ela, me fazendo quase pular da classe.

Lívia Bandeira. Esse era o nome que predominava em minha tão alegre cabeça naquele momento. Agora era só esperar chegar em casa para enfim descobrir que tipo de sonhos a pequena dos cabelos e olhos negros costumava ter. Eu estava tão disperso com aquilo que os números complexos não fluíam em minha cabeça e eu fui muito mal naquele trabalho. Na verdade, eu nunca fui muito bom em matemática, mas sempre fazia dupla com Rafael, que é um gênio dos números, mas dessa vez ele precisava mudar de dupla para me ajudar. Nem que isso me custasse uma recuperação no final do mês.

Quando eu finalmente cheguei à minha casa, fui direto para meu quarto e dele direto para o armário onde havia escondido a máquina dos sonhos. Tão afobado fui, que me lembrei que precisava esperar até a manhã do dia seguinte para então ver o que Lívia sonhava. Resolvi então mexer nela para tentar descobrir alguma função nova que pudesse talvez me transferir para os sonhos da garota linda. Não descobri nada referente à transferências de pessoas para sonhos de outras. Apenas vi um botão com a sigla “Mu.D.So.”. Achei estranho, mas estava muito cansado, havia tido aula na manhã e na tarde e ainda precisava terminar de ler o livro que eu estava lendo. Dormi.

Acordei eufórico para ver o que Lívia tinha sonhado na noite anterior. Ela sonhou com uma figura masculina mais velha, que cri¹ ser seu pai e com uma bicicleta rosa. Achei um sonho tão superficial, aquele dela. De repente me deparei mais uma vez com o botão que continha a sigla “Mu.D.So”. Hesitei um pouco, mas acabei apertando o botão. Mal sabia eu o que existia por trás daquele botão, muito menos a reviravolta que ele iria trazer em minha vida.

¹: Sim, eu procurei no dicionário e esse é o pretérito perfeito do verbo “crer” na 1ª pessoa do singular. (Y)


Wednesday, August 22, 2007

Os Imprevistos da vida, caso a parte V

Comentário rápido: Sim, eu sei que é estranho eu voltar a esse conto, mas é que as pessoas têm me comentado uma coisa que eu nunca havia percebido: Nunca terminei conto algum aqui! Foram dois fracassos! Enfim, como ele é meio antigo, vale a pena lembrar de onde eu parei de contar a história do casal mais água com açúcar do mundo. Romeu e Isabel estavam brigados por motivos de ciúme de ambas as partes e de preocupação adicionada ainda ao lado de Romeu. Mas os dois se esqueceram das brigas quando Isabel chegou de viagem e logo deram um ao outro um longo e apertado abraço acompanhado de palavras de amor. E foi aí que os deixei em coma. É meu dever desfazer esse erro. Vamos lá.

Duas semanas depois de Isabel ter voltado de viagem, chegou seu aniversário e o frio que fazia em Satolep no dia não tirou da sua cabeça a idéia de fazer uma festa à fantasia, pois ela havia conhecido O Teatro Mágico, e desde então as fantasias fascinaram a moça. Sua mãe concordou de imediato, mas com a condição de que a filha estaria vestida de Cinderela. Claro que Isabel não concordou, pois queria ir vestida de algo mais alternativa, como algo relacionado a cordel. D. Margarida cedeu.

Era segunda feira e na sexta seria a festa e Isabel ainda tinha muito para preparar, como bebidas, músicas – pensou em fazer um sarau, mas foi desiludida por sua mãe, que lembrou que nem todas as pessoas eram alternativas assim. Chamou sua amiga Lisbela para lhe ajudar nos preparativos e foram as duas para o centro da cidade, enfrentando o frio para comprar tudo o que fosse necessário para a festa. Inclusive suas fantasias. Compraram de tudo: Luzes pisca-pisca, globos espelhados dos anos 80, CDs de todos os tipos – piratas -, bebidas alcoólicas e Guaraná Antártica, velas de 1 e 7 e letreiros de papel que formavam um belo e colorido “FELIZ ANIVERSÁRIO”. Acabaram de comprar tudo na quinta-feira e deixaram para preparar tudo no dia seguinte.

Acordaram bem cedinho na sexta-feira para organizar a festa. D. Margarida se ofereceu para ajudar, mas as duas amigas recusaram seu apoio por quererem uma festa ao gosto de Isabel, e não ao gosto de sua mãe. Quando acabaram tudo, se sentiram extremamente cansadas e cederam a si mesmas um tempo de descanso que serviu para D. Margarida finalmente olhar, sem fazer barulho algum, o que Isabel e Lisbela haviam preparado para a tão aguardada noite.

Quando acordaram do descanso, se limitaram a colocar as fantasias – Isabel vestida da personagem Lisbela do filme “Lisbela e o Prisioneiro” e sua amiga de Amelie Poulain, devido seu cabelo preto e curto. Quando os convidados começaram a chegar, as duas tiveram de ir para a garagem, para recepcioná-los. Eles chegavam sem nenhuma surpresa nas fantasias, eram muitos hippies e muitas diabinhas, mas nenhuma criativa. Nenhuma personagem de filmes como elas, nenhum personagem do Teatro Mágico. Só um cara vestido de Patrick do Bob Esponja. Só.

Depois de um tempo, Romeu chegou. O único realmente criativo entre os homens – nada de piratas ou coisa parecida, ele estava vestido de guerrilheiro da revolução farroupilha! Isabel não foi a única a achar a fantasia de seu namorado linda, todos na festa olhavam para ele admirados. Romeu deixou a barba crescer, pegou uma espada de verdade de seu avô, um colete azul antigo que achou em casa, pediu para sua mãe bordá-lo de dourado, colocou alguns broches que comprou em uma loja de antiguidades e enfiou na cabeça um incrível chapéu que ninguém sabe de onde ele tirou.

- Este é realmente meu namorado lindo? – perguntou Isabel

- Sim, sou eu mesmo. Parabéns, amor, eu te amo muito!

- Eu também, Romeu, pra sempre!

Não se viu mais os dois durante a festa.