Tuesday, February 12, 2008

Carta à remetente inexistente

Oi, querida que não existe. Estou mandando mais uma carta, na tentativa de ser pela primeira vez respondido, mesmo sabendo que será em vão. Só queria por alguns segundos pensar que não estou sozinho nessa. Por alguns segundos pensar que alguém recebe e lê essas cartas densas e chatas.
Como vai a tua vida aí nesse reino que não existe? Espero que esteja tudo bem, pois quando eu chegar por aí, quero que seja tudo perfeito. Não foi a toa que demorei esses meus vinte e cinco anos de vida construindo esse reino para que possamos viver nele quando a hora chegar. E como será boa nossa vida. Tudo nós teremos, querida. Tudo. Cada um de nós receberá um lápis mágico, que dará vida a tudo que desenharmos. E não tenhas medo, não. A vida será bala de goma, eu prometo.
Fico imaginando como és. Se com cabelos castanhos claros, olhos marcantes e sorriso lindo. Se é feliz, se fala muito ou pouco. Se não fala. Se tem ou não manias e, se tem, quais são elas. Qual o jeito de se vestir, o jeito de arrumar o cabelo de um jeito que fique o mais belo possível. Se gostaria mesmo de me conhecer, se é pequena, como eu sempre sonhei. Se tem os mesmos sonhos que eu. Se ronca à noite, se tem facilidade para dormir à noite. Do que gosta de comer. Se existe.
Despeço-me nessas últimas linhas desejando que tenhas uma ótima semana e avisando que já estou de malas prontas para minha partida. Ficaremos juntos para sempre nesse mundo bala de goma que eu criei para nós! Peço-te que me responda pela primeira vez, eu pularia de felicidade ao ver na minha caixa de correspondências a tua carta perfumada com teu cheiro doce.
Com carinho, um beijo do cara do rosto de bebê, que fala muito e dono do cabelo de vassoura bagunçada.

Saturday, February 09, 2008

O Sonho(Pesadelo)

- Vamos fugir?
- Fugir, Romeu?
- É, Julieta, fugir. Sumir daqui, ir pra um lugar que seja só nosso.
- E onde seria esse lugar?
- A lua é uma boa pedida, acha não?
- A lua é muito longe, Romeu!
- Com o nosso amor como meio de transporte, ela fica há duas quadras daqui, se a gente quiser.
- E como fazer isso?
- É só pensar.
- Endoideceu de vez, guri?
- Não fala mais nada. Só fecha os olhos e segura minha mão.
- Ta. E agora?
- Pensa em nós dois.
- Mas não é que tudo desapareceu? Não é que tá só nós dois aqui?
- E não é perfeito?
- É, sim, mais que perfeito. Queria pular pra dentro desse pensamento e não sair nunca mais dele.
- Terias coragem?
- Coragem de passar a vida toda abraçada contigo? E quem é que não teria?
- Então vamos... 1... 2... 3... Vai!
- Agora é isso aqui pra sempre?
- Não é um sonho?
- É sempre igual, não muda nunca?
- Tu que pediste assim, amor.
- Não que eu não queira. Mas um dia cansa, não é mesmo? E quando a gente tiver filhos?
- Filhos? Não. Tu escolheste só nós dois, ninguém mais.
- Mas ter filhos é meu sonho!
- Tu abriste mão de muitas coisas pra estar aqui hoje, inclusive de ter filhos.
- Eu quero voltar!
- Não tem como voltar, é pra sempre assim!
- E se eu me matar?
- Aí tu não vais ter nem a mim, nem aos outros!
- Não! Também não quero isso!
- Então pára de reclamar!
- Vamos parar de brigar, se a gente se separar, isso vai ser um inferno até o dia da morte de um de nós!
- Só há um jeito de algum de nós morrer. Se o outro quiser que o outro morra, isso fui eu que pedi.
- Mas então não termina nunca?
- Só no dia que algum de nós se encher da cara do outro.
- Tem de haver um jeito de voltar!
- Assim eu me sinto um pouquinho desprezado...
- Não é isso, amor. O problema não és tu, é a rotina de todos os dias fazer a mesma coisa!
- Mas é sempre fazer uma coisa que se gosta. É uma forma de não se fazer algo que não se goste!
- Mas será que tu não percebes que isso um dia vai fazer parte do grupo de coisas que não se gosta? Nem que seja daqui a trezentos anos!
- Me desculpa, Julieta. Só queria te fazer feliz.

Monday, January 14, 2008

Palavras

Ele acenou para ela, que não o viu. Tentou gritar, mas voz nenhuma saiu, como se todas as palavras quisessem deixá-lo sozinho naquele momento triste. E no que elas iam ajudar, não é mesmo? Melhor fugir antes que ele as jogasse longe. Voltou para a casa, murrou a porta do quarto, acordando os pais. Perguntaram o que havia acontecido, mas não respondeu. Apenas enfiou a cabeça no travesseiro macio e esperou o dia acabar.

O sol acordou depois dele. E de tão mal-humorado, Fernando nem bom dia deu ao astro-rei, que não se atreveu a reclamar. Vai que o garoto-homem fechasse a janela para ele de tanta raiva? Melhor não arriscar. Botou suas calças jeans, logo após calçou seus tênis all star verdes. Por último, enfiou em si uma camisa pólo de cor verde. Pegou suas chaves e saiu antes que alguém lhe entregasse algumas palavras, como se recusasse algum presente. Como se dissesse "Palavras? Quero não. Servem pra nada essas aí.". Caminhou alguns quarteirões e resolveu ligar. Mas que frases usar? Os verbos andavam tão contra ele ultimamente. Respirou fundo e não ligou. Viu que antes precisava fazer as pazes com as palavras. Pediu desculpas com vontade e foi atendido. "E nós lá conseguimos viver sem ti, menino?", disseram.

O telefone tocou pela primeira vez. Ela estava dormindo e não quis atender. "Quem é que tem a coragem de ligar uma hora dessas eim?". Tocou de novo. E ela foi atender.

- ESCUTE AQUI, SEJA LÁ QUEM VOCÊ SEJA, VOCÊ PENSA QUE PODE ME ACORDAR A ESSA HORA, É?
- Te acordei, foi? Desculpa.
- Ah, é você, Fernando. Tudo bem, vai. Mas faz isso de novo, não.
- Tudo bem. Veja, eu sei que fiz coisa errada com você. Mas tô arrependido por demais. Queria teu perdão, pequena.
- Já te perdoei, Fernando.
- E fingiu que não me viu por quê?
- E eu lá sou de fazer isso, garoto?
- Veja, eu fiz as pazes com as palavras pra conseguir te ligar e pedir perdão. Não queira usar a palavra "mentir" em tua defesa.
- Tá bom. Fingi que não vi. Vai ser melhor assim, Fernando.
- E posso saber o porquê?
- Eu tenho três meses de vida só.
- E você me contou só agora, é?
- E ia contar como? Se você nunca me ouve?
- Mas a gente não precisa se afastar. A gente pode viver esses três meses intensamente. Juntinhos. Sem nem pensar no que vai acontecer.
- Se as palavras estão do se lado, Fernando, você poderia não usar a palavra pena, por favor?
- Não é o substantivo pena. É o verbo amar. E verbos são os nomes das ações. E essa é a minha ação agora: Te amar.

Ele amou-a pelos três meses inteirinhos. Sem abandoná-la um que fosse. As palavras "eu", "te" e "amo" foram usadas a toda hora, em todos os dias. Até o dia em que a palavra morte chegou e levou-a consigo. Agora ele só tem as palavras como companhia.

Friday, January 11, 2008

Liberdade!

Há muito tempo sofro com as redações no colégio. Não que eu não goste de escrever, apenas me sinto limitado com os temas propostos. Por isso trago a vocês uma proposta a ser levada às suas instituições educacionais: Redação livre. Tá certo que o principal propósito da disciplina "Redação" nos colégios é preparar o aluno para fazer um bom trabalho no vestibular, mas nem que fosse um redação livre por trimestre, iria ajudar o vestibulando a ter suas ideias bem organizadas na cabeça, pois deixaria-o bem mais relaxado na hora da prova do vestibular.

Assim como os desenhos livres tinham como principal função exercitar a criatividade das crianças, as redações livres poderiam ter o mesmo efeito com os adolescentes prestes a enfrentar um vestibular, já que a originalidade é um dos pontos mais avaliados e também um dos mais raros de se encontrar no mesmo. Todos sabem que pelo menos 70% dos jovens não gostam de escrever. Acham chato, ou algo assim. Nunca pararam para perguntar o porquê disso? É claro que é o fato do tema ser proposto. Se o tema fosse livre, o jovem teria muito mais prazer em escrever.

Redação livre. Leve essa ideia adiante. Faça seus textos do jeito que quiser e não se importe se no seu colégio acharem eles ruins. Há quem goste! Mande para mim que vou adorar!

Tuesday, January 08, 2008

Sobre a falta de paciência repentina

Ando precisando de muitos conselhos. Ando mais bem acompanhado do que nunca fui e estou me sentindo bem assim. Só às vezes me sinto sem muita paciência para com os outros. Ultimamente, tenho tido muita vontade de ficar sozinho cinco minutos que sejam. E isso não é estranho, visto que estou mais bem acompanhado do que nunca? Caraca, tem vezes que nem eu me entendo. Deve ser porque eu sou um pé no saco mesmo.
Tenho descoberto muitas pessoas que não gostam de mim. E de novo me vem a pergunta: E isso não é estranho, visto que estou mais bem acompanhado do que nunca? Espero responder essa pergunta até o final desse texto. Até o final dessa fase. Até o final da minha vida. Como já comentado, eu sempre fui um cara sem inimigos. Nunca briguei com ninguém, nem muito menos alguém brigou comigo. Exceto minha irmã. Aí eu fico pensando: Será que então eu estou vivendo a fase mais chata da minha vida? Ou será que eu cheguei em alguma fase difícil de se passar sem nenhuma briga? Não, essa não vai ser mais uma pergunta sem resposta. Todos passaram, estão passando ou já passaram por essa fase e todos tiveram aquele certo alguém de quem não gostasse ou vice-versa. Todos. Sem exceção. De John Lennon à Marcelo Camelo, De Deus à Platão, De Antônio de Dona Nazaré à Paulo Autran.
Admito. Tenho andado muito chato com algumas pessoas ultimamente. Não vou citá-las todas aqui porque não só eu como esse texto se tornaria insuportável, mas peço-lhes desculpas. Alguns sabem de todos os meus problemas e procuram entender, outros não entendem nada. Mas nem a estes eu culpo. A responsabilidade é toda minha. Eu que não deveria ter deixado a minha chatice ultrapassar minha genteboasice, que sempre foi uma das minhas marcas registradas. Todos falavam pra mim “Leon, tu é tão legal”, hoje alguns dizem “Estás precisando de umas cosquinhas, estás muito chato hoje.” Estou, sim, precisando de umas cosquinhas. Mas das de certa pequena que não tem coragem nem de me abraçar com toda a sua pouca força. Tudo bem, os risos que tu me proporciona com a tua doçura e ingenuidade me servem como cosquinha. Mas a tua mão com a vontade única de tocar na minha ia ser de grande ajuda também.
Preciso de mais paciência, senão vou enlouquecer. Senão vou acabar sozinho. Preciso parar com essa grossura que me consumiu de uma hora para outra como um frio que chega sem nem pedir permissão. Mal educada, essa grossura. E eu não termino esse texto sem responder àquela pergunta. Não, não é de se impressionar. Quanto mais pessoas agradáveis entram no nosso círculo da amizade, mais olhar de onça vai olhar.
Desculpem, leitores e amigos.

Saturday, January 05, 2008

Conchinhas

Conchinhas que estão na minha frente agora, costumam te trazer à minha lembrança. São tão pequenas, tão carinhosas e tão doces. É tão difícil me ver sem ti. Vai, dribla os problemas, prncipalmente aquele maior. Por mim. Por nós.
Sempre fomos tão parecidos, não é mesmo? A nossa distância em quilômetros nunca significou nada perto das nossas conversas sempre muito produtivas, divertidas e intermináveis. Sempre soubemos o que dizer um pro outro, pequena. Eu me encontrava em ti, e sei que tu também te encontravas.
Teu cabelo sempre me pareceu lindo. O teu olhar cativante e tua companhia, a mais agradável. Tua mão delicada de bela moça. Ô, conchinha que está aqui na minha frente, quando? Quando ela vai notar que sempre simpatizei mais com ela?

Thursday, January 03, 2008

Leon no cassino

Atenção, trupe, postarei três textos que escrevi durante minha estadia no cassino. Meu computador não abre mais de três programas. Não consigo ficar sem ouvir música, estar no msn, com uma página da internet e no word ao mesmo tempo, então tô escrevendo direto aqui, por isso podem haver alguns erros de português e derivados. Peço desculpas antecipadas.


Parte 1 - A Viagem
Eu queria fazer uma crônica onde eu inventasse um navio. Daqueles bem grandes, pra colocar todas as pessoas que conheço. Todas elas: meus familiares(todos, os que gostam de mim e os que não gostam), meus amigos e até meus inimigos(alguém tem que morrer, afinal, esse é um texto meu, não é mesmo?). Nele, eu seria o grande capitão. Todos teriam que me respeitar e recorreriam a mim, se tivessem algum problema. Eu os levaria a todos os cantos do mundo, saberia tudo sobre todos os lugares e ensinaria aos passageiros todas as curiosidades sobre o país visitado. O navio teria uma jukebox com The Beatles, Teatro Mágico, Los Hermanos e The Strokes, para que todos se divertissem jogando sinuca e futebol. Eu seria o melhor em ambos e todos teriam medo de me enfrentar. Aquela garotinha dos olhos que brilham seria somente minha e diria que me ama de cinco em cinco minutos. Numa noite ocorreria uma grande tempestade e eu seria o herói do momento. Salvaria uma parte de meus parentes e meus amigos. Jogaria ao mar meus inimigos, para liberar peso do navio. Tubarões viriam e matariam todos. Depois eu voltaria pra casa, dormiria e sentiria que tudo não passou de um belo sonho.

Friday, December 28, 2007

Ex-pelho

Aproximei-me do espelho.Olhei-me e percebi que estava mais velho do que a última vez que o fiz. Apaguei a luz e então minha imagem quase não se via mais refletida. Relacionei o momento com a vida: Viver se resume em olhar-se no ex-pelho e, depois de alguns anos, olhar-se, agora no espelho e ver um rosto velho, mudado. Ficar olhando-se ali, até que a luz se apague e nada mais se veja.

Monday, December 10, 2007

O Ser Verde

Era uma linda garota triste. As lágrimas já se acostumavam a ofuscar o azul de seus olhos. As olheiras eram rotineiras, os seguidos dias sem sair de casa davam uma aparência suja, sonolenta e um mau-hálito deveras grande. Não tinha amigos, os poucos foram abandonando-lhe até o dia em que não sobrou nenhum. Os pais já estavam preocupados com a filha, "triste todo mundo fica, mas uma hora a tristeza gasta!".
Todos tentavam descobrir o motivo de tanta melancolia.
Namorado que a deixou? Ninguém deixaria uma pessoa tão linda.
Notas baixas? Aluna exemplar.
Então, o que seria? "Nada", respondia Camila quando indagada, com os olhos sem cores. Ninguém conseguia descobrir, pois era algo seu. Seu e de mais ninguém.
Foi, pois, num domingo de sol, céu azul sem nenhuma nuvem, que tudo mudou. Os pássaros sinalizavam como se soubessem - piu, piu, piu! -, mas foi outro animal o responsável. A garota deixou a porta aberta, levantou-se, serviu-se de suco e, ao voltar, levou um susto. Era Margarida, a tartaruga. Já nascera com esse nome, fora dado por sua mãe tartaruga. Camila supreendeu-se e em um só segundo pulou e gritou por sua mãe - em vão. Tão indefesa era Margarida, que só olhava a garota como quem diz: "sou tão feia e estranha assim?". "És, sim, feia, estranha e verde, como o musgo que dá no cimento", respondeu Camila com o olhar. Margarida, enfim, sorriu para aquelas lindas bolhas d'água, que estavam no lugar dos tristes olhos da menina triste. Camila sorriu de volta.
Dois meses se passavam e aquele ser feio, estranho e verde tirava a garota da cama. Margarida(parei agora, Tamires acaba de chegar) visitava Camila, a menina erguia os olhos, enfim azuis, e dava-lhe boas-vindas com os mesmos. Conversavam com o olhar durante horas. Aos poucos o tal ser feio, estranho e verde foi ganhando outras cores. primeiro o azul dos olhos de Camila, depois o vermelho do amor entre as duas. Mesmo assim, a garota continuava sem sair de casa, que mais parecia um túmulo cheio de tristeza.
Eis que o pior aconteceu: Margarida desapareceu. As bolhas d'água tornaram a ocupar o lugar dos olhos da menina. E agora, para quem ela iria dar as tão honrosas boas-vindas? Ninguém. Margarida era insubstituível. Nem os pássaros - piu, piu, piu! - poderiam tomar seu lugar. Camila, pois, resolveu ir à busca do ser feio, estranho e verde. Em vão, a tartaruga nunca mais fora achada. Mas não é que aqueles olhos azuis, enfim saíram para a rua?

Saturday, December 01, 2007

Pequenino Pedaço de Papel

Pintei a amizade escrita naquele teu pequenino pedaço de papel. Mas e de que adianta tanta cor se teu amor é tão incolor ao ponto de manchar o que pintei, de um cinza chuva tão sem graça?

Thursday, November 29, 2007

A Estrela

- É, enfim o fim? – disse-lhe quando estavam na beira daquele abismo.
- É, sim. Quer voltar? – respondeu ela, que sempre fora mais corajosa
- Nada, só me dá um daqueles teus abraços de urso que fica tudo bem.
- Logo agora?
- E agora tem hora pra abraço, é?
- Tem não, vem cá.
- Não quero sair daqui nunca mais.
- Não esperei esses 16 anos da minha vida por esse momento, pra passá-lo abraçada em alguém!
- Então segura minha mão. Vamos pular juntos.
- Por que tu gostas tanto de mim?
- Quer em ordem alfabética ou por preferência?

Algumas recordações:

- Jura que vai estar sempre comigo e vai segurar a minha mão no dia que eu morrer? – disse ela, aos seis anos de idade, deitada na grama mais do que verde do pátio de casa.
- Não precisava nem pedir, vamos viver juntos para sempre, grandes amigos! – respondeu ele com o coração.

- Tá vendo aquela estrela lá? – disse ele, apontando para o céu escuro e estrelado.
- To sim, por quê?
- Ela é a nossa estrela. Estrela da nossa amizade!

- Vamos trocar um pedaço de algodão doce? Tu me das um pouquinho do teu azul e eu te dou um pouco do meu rosa. – disse ela com os olhos e com a boca.
- Claro! Essa é mais uma tarde eternizada todinha nossa.


- Lembra que eu prometi segurar tua mão no dia da tua morte?
- A gente era criança, não se pode acreditar em promessa de criança...
- Pois eu levei fé. E não queria segurar a tua mão tão cedo.
- Que nada, eu cansei dessa minha vida que nada dá certo.
- E eu? Não dei certo na tua vida?
- A gente se encontra lá do outro lado daqui uns sessenta anos, tu ainda tens muito pra viver.
- E tu também! Sai desse lugar, vem comigo, te faço um suco e tudo vai se acalmar.
- Não quero suco! Deixe-me pelo menos morrer em paz, pelo amor de Deus!
- E eu, como fico se tu morreres?
- Tu vais ficar bem. És forte, irás superar, meu amigo.
- Nunca! Não saberei viver sem ti, não te lembras de quando éramos pequenos e prometemos proteger um ao outro? Pois então, cá estou eu!
- Já disse, esquece as nossas promessas de criança, tudo em vão, já esqueci tudo!
- Nunca vou esquecer, e sei que tu também não irás. Isso é só coisa de momento garota, vai passar, me abraça forte e todos teus problemas irão acabar.
- Só tu mesmo pra conseguir me fazer sair daqui. Eu te amo.
- Amigo é pra isso. Daqui a uns cinqüenta anos isso vai acontecer de novo, e eu vou fazer a mesma coisa. Tudo pra não te perder, minha grande amiga.
- O que ia ser de mim sem ti?
- No momento nada, pois irias morrer.
- Em qualquer ocasião, sem ti eu seria nada.
- Entende agora porquê te salvei?

Sobre o ódio à Matemática

Mais uma vez eu fui bem em Português, Literatura, Geografia e História e, não mais uma vez, porém também não raro, fui bem também em biologia no Simulado do colégio. Fui mal em Matemática, pra variar. Isso só aumentou meu horror por essa matéria. Tá certo que não estudo mais isso, mas quando na minha vida eu vou usar logaritmo? E números complexos? Nunca. Mesmo. Eu também não gosto muito de Física, mas pelo menos eu vejo a Física no meu dia-a-dia.
Esses dias, indo comprar pão em uma padaria próxima, eu e Luíza estávamos discutindo sobre isso. Nós, futuros jornalistas de sucesso, não precisamos saber de tudo isso, só precisamos saber somar, subtrair, multiplicar e dividir, e essa é bem a verdade mesmo!
O que me consola é saber que depois do vestibular nunca mais vou precisar estudar Matemática. Nunca mais números, só palavras, frases, textos. Crônicas, contos e estudos só nessa área! Adeus, mundo cruel da Matemática, não foi bom te conhecer!

Sunday, November 18, 2007

Entrevista com Leon Sanguiné

Leon Sanguiné é um desses novos escritores que estão encantando e estimulando os jovens a lerem e até mesmo a escreverem seus próprios contos. Fizemos uma entrevista reveladora com ele.

Redação: Então, Leon, como tu te sentes sendo uma das grandes revelações da literatura nacional?
Leon: Não me considero uma grande revelação. Grandes revelações fazem sucesso com seus livros de estréia e depois perdem a graça.
R: Quais são tuas maiores influências?
L: Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Fernando Sabino e Luís Fernando Veríssimo. E na linguagem a Adriana Falcão.
R: E de onde tu tiras inspiração para teus textos?
L: Escrever é coisa de momento. Não se escreve sem ter uma base e essa base varia de momento para momento.
R: Todos sabem que teus textos saem, em grande parte, do teu caderno de espanhol. Por quê?
L: A aula de espanhol tem um ar diferente. Um ar para escrever textos, não para estudar espanhol.
R: E o que tu fazes nas horas vagas?
L: Na verdade, eu escrevo nas horas vagas.
R: E nas horas não vagas?
L: Leio, jogo pife e futebol.
R: E os amores?
L: Escrevo.
Leon tem uma personalidade diferenciada, difícil de ser entendida e, até mesmo, de ser suportada. É preciso paciência para aturá-lo todos os dias, o próprio recomenda que as pessoas o vejam apenas uma vez por semana.

Friday, November 16, 2007

Idas e Vindas

Depois de muito tempo, se reencontram. E se beijam.
- A gente não presta mesmo, não é, Gabriela?
- Por que, Rodrigo? – ela responde, com um ar de quem sabe a resposta que vai ouvir.
- A gente diz que se odeia, mas é só se ver pra cair um nos braços do outro.
- É. Tu me deixaste sentindo tanto frio naquele inverno...
- Nem imaginas o frio que eu senti. Sem o teu abraço quente!
- Não era a mesma coisa. Eu sofri.
- Eu te amo desde aquela época. Desde antes, até.
- E aquela lá, que tu andavas até a pouco tempo?
- Sinto um friozinho na barriga por ela, admito. Mas por ti, eu me congelo. Congelo de amor.
- Será que dá certo?
- Não sofras por problemas antecipadamente, querida.
- Mas não deu certo aquela vez.
- Os tempos são outros. Certamente nossos nomes estão escritos naquela estrela lá no alto. Não é por acaso que eu to aqui e tu também.
- Tu falas tão bem.
- Por ti...
- O que ficou pra mim, desde então? Tristeza e só?
- Ficou o meu amor.
- E vamos viver a vida inteira com voltas e despedidas? Não vou suportar.
- É nosso destino. Não posso te prometer ficar aqui pra sempre. O pra sempre é hipócrita e não gosto de hipocrisia. Mas posso te dar todo meu amor agora.
- To com frio.
- Te aqueço com meu amor.
- Posso dizer que te amo?
- Deixa o verão pra mais tarde.

Wednesday, November 07, 2007

O Velho e o Moço

- Mas veja o senhor, seu Elias, o homem vive inventando jeito de tentar voar, igual a um passarinho!
- Só isso o homem não sabe fazer, guri, olha tudo que o homem já inventou por aí!
- Mas porque será que é tão difícil voar, eim?
- É justamente pro homem não se preocupar com uma besteira dessas e inventar coisa que preste!
- E voar não presta?
- Não.
- Mas então por que o homem quebra tanto a cabeça pra tentar voar?
- Porque não tem mais o que inventar, tudo que precisava já foi inventado. Podíamos viver assim, como estamos hoje.
- Os pais, avós, bisavós do senhor também pensavam assim e olha tudo de útil que já foi inventado desde então.
- É que o homem sempre aparece com uma necessidade nova.
- E voar não é uma necessidade, não, é?
- Não, pra quê que homem algum vai querer voar, menino?
- Muitos humanos já pularam daqueles negócios em cima das pontes, já foram pra Europa de avião...
- Tudo humano inútil! Voar não é coisa útil, não.
- Mas, então, todos somos inúteis, pois não só voar é uma coisa inútil!
- Vem cá, tu não fez teu tema ainda, não?

Tuesday, November 06, 2007

O Sófá

Conheci Manuela numa janta na casa do João. Gamei. Sentei ao seu lado no sofá azul.
- Fica assim do meu lado, por toda a vida, eu bem pertinho de ti?
- Sim.
- Sério?!
- Talvez. Me beija.
Beijo. Olhos brilhantes. Olhar de criancinha.
- Gostei. Agora me abraça.
Abraço. Olhos fechados. Aperto.
- Amei. Vou ficar.
- Minha vida é isso. Não preciso de mais nada, só desse sofá azul representando o céu e os teus olhos, como as estrelas.
- Tenho que ir.
- Pra sempre?
- Pra casa.
- Ah. Te vejo amanhã?
- Talvez. Me beija.
Marcamos de nos encontrar no outro dia. Manuela abriu a boca para falar, mas intervi e falei antes.
- Olha, sei como é. Pode ter sido algo de um dia só, ou sei lá, podes ter encontrado alguém.
- Só ia perguntar porque demoraste tanto.

Saturday, November 03, 2007

Sobre os Hermanos

Faz muito tempo, eu tava vendo um clipe estranho de um show na MTV e a minha mãe falou: “Essa música deve ser boa, pena que não dá pra entender nada que esse cara fala”. Era o clipe de “O Último Romance”. Uns dois meses depois, ela me disse que queria em apresentar uma banda. Eram os Hermanos. Aí comprou o Ventura e se apaixonou. Mas eu não curtia muito, não.
No início desse ano, eu comecei a ouvir Los Hermanos bastante. Mas ainda não era a minha banda predileta. A voz do amarante, os teclados do Medina e as letras do Camelo não eram meus preferidos, mas era questão de tempo, e eu sabia. Hoje eu não vivo sem e comprei mais dois CD’s deles – o Ventura continua sendo meu predileto -.
É uma tarefa dificílima classificar os Hermanos em algum estilo musical. Rock? Nem peso tem direito! Samba? Não tem pessoas e nem instrumentos o suficiente. Mas pra quê classificar? Esse é o charme, a graça da banda. Se classificar, fica chato, perde a graça. As letras de amor bala de goma do Camelo, as de amor intelectual do Amarante, nada disso pode ser rotulado.
Muita gente diz: “Não gosto de Los Hermanos, Anna Júlia é um porre”. Anna Júlia é a primeira música de sucesso, não tem nada a ver com eles. NADA! E aí vem mais um fato interessante sobre eles. Quando essa música foi lançada, todos pensavam que seria mais uma banda de um hit só, mas, contrariando a todos – inclusive a mim, admito -, os caras lançaram mais três discos depois, se tornaram uma das melhores bandas do país – pra mim a melhor – e criaram uma legião de fãs pelo Brasil a fora. Essas pessoas que vêem os Hermanos só como Anna Júlia precisam é ouvir as outras músicas e não pensar que é apenas mais uma banda de um hit só.
O que mais em impressiona no Camelo é a doçura das letras e músicas, o jeito como as duas se encaixam perfeitamente uma na outra. O modo como “És perfume de rosa na mão” consegue ser cantado de um jeito que traz mais doçura ainda para a frase. O melhor do Amarante é, com certeza, a sua voz. É aquela coisa bêbada com sono, mas nada forçada. Aqueles “UUH UUHH AAH AAH” que tem tudo a ver com a cara dele, o jeito com que a voz, as roupas, a barba e as caras que ele faz se encaixam. E eu imito igualzinho! É algo inexplicável o meu amor pelos Hermanos!
Experimenta andar pelas ruas ouvindo as músicas deles. Se for um dia de sol e tu estejas com vontade de olhar pro céu e para as nuvens, ouve “O Vento”, se encaixa perfeitamente! Mais perfeito ainda é observar o movimento da rua através de um ônibus ouvindo “Conversa de Botas Batidas” – a minha predileta -. É impressionante, parece que eles estiveram no mesmo lugar, olharam para as mesmas coisas e, inspirados por aquilo, escreveram a música.
Todo mundo deveria conhecer Los Hermanos. Devia ser um direito universal. O cara nasce e logo ganha um CD deles. Certamente o mundo seria melhor. Seria mais feliz, alegre e saltitante. Seria mais bala de goma.

Tuesday, October 30, 2007

Máquina Dos Sonhos - Parte VII

Demorei a acreditar que tinha atirado em alguém – que tinha matado alguém. Acordei com meu pai me chamando para almoçar. Eu sabia que tinha dado certo. De alguma maneira sentia que Labarthe estava morto.
– Pai, meus amigos demoraram em ir embora?
– Claro que não, tu dormiste de repente, queria que eles ficassem aqui?
– E eles chegaram bem em casa?
– Era sobre isso que eu queria falar contigo.
A confirmação.
– Labarthe levou um tiro.
– Morreu?
– Sim. Sinto muito, meu filho.
– E já sabem quem foi o assassino?
– Não, mas não se preocupe com isso. Sei que perder um amigo é muito complicado.
– Tudo bem, pai. Vou ficar bem.
Consegui, com muito esforço, disfarçar minha felicidade. Ele morreu. Meu segredo não foi revelado. Não senti nem um pouco de remorso. Resolvi que, por ser meu único amigo e conhecer toda a trama, Rafael tinha de saber que eu era o assassino de Labarthe. Chamei-o para minha casa.
– Para que tu me chamou aqui, Vitinho?
– Rafael, o que tenho para te contar é muito sério e tem de ficar apenas entre nós dois!
– Tudo bem, cara, sabes que podes contar comigo!
– Estás sabendo da morte de Labarthe, certo?
– Claro, um horror, mas o que tem a ver com o que queres me contar?
– Fui eu.
– Foste tu o que, Vitinho?
– Matei Labarthe.
– Como? Tu tava dormindo!
– É uma história muito longa, senta para que eu te conte.
– Conte.
Contei toda a história, em seus maiores detalhes para Rafael. Desde a parte da descoberta do botão, até o barulho de morte que tem uma arma.
– Não acredito que tu fez isso, cara!
– Ele ia contar para todos sobre a minha máquina!
– Essa máquina ta acabando contigo! Joga isso fora, porra!
– Eu te chamei aqui para me ajudar, Rafael, se não fores me ajudar, pode ir embora!
– Não precisa dizer duas vezes, estou indo!
Irritei-me com Rafael. Como ele pode não pensar que eu tive meus motivos para matar Labarthe? Como pode não compreender? Mas eu tinha outras coisas mais importantes para pensar, precisava saber como iria fazer para ter Lívia ao meu lado. Claro que tu já deves ter pensado na mesma coisa que eu. A Máquina dos Sonhos.

Wednesday, October 17, 2007

E eu?

Faz tempo que eu não tenho nada que me deixe feliz de verdade. Sabe... cantar de felicidade. Isso deveria ser um direito natural de todo o ser humano. Até mesmo pra mim, um completo idiota, magro, feio, baixinho e estranho. Isso mesmo, sou tudo isso! Mas e daí? Só porque sou essas coisas que acabei de citar, não tenho direito de cantar de felicidade? Se fosse assim, muitas pessoas que conheço não teriam esse direito. Mas elas têm. E eu não. É que elas têm motivos para estarem felizes, ao contrário de mim, que sou um completo fracassado.
Eu me olho no espelho e tento fazer uma rápida biografia de mim mesmo. Leon Sanguiné, 15 anos, estudando e... e o que mesmo? Nada. É isso que eu sou – um nada. Com a minha idade, Vitor Ramil já tinha feito “Estrela, Estrela” há três anos. Aos 17, a Clarice publicou “Perto do Coração Selvagem”. E eu? E o Leon, o que ele fez de produtivo nesses 15 anos de vida? Pois é, mais uma vez chego àquela resposta simples e clara: Nada. Não fiz nada de marcante. Nem pra mim, nem pra ninguém. Um simples gesto. Nem isso eu fiz.
Eu estou prestes a aparecer no jornal mais lido da cidade. E daí? Nem metade dos meus amigos vai ler. Muito menos pessoas que não conheço. Fiz a entrevista com todo amor, carinho e afeto, mas sei que, no final do dia, aquilo vai pro lixo. Quem é que vai querer ler uma matéria de um tal de Leon, que é feio e nem cara de inteligente tem? Ninguém. Ta, ninguém é uma palavra muito forte. Algumas pessoas. Mas essas “algumas” limitam-se a umas cinco. Poderia até citá-las aqui, mas não vou fazer isso.
Minha existência é tão insignificante, que creio não fazer diferença alguma na vida de ninguém. Nem para o bem dessas pessoas, nem para o mal. É tão insignificante, que às vezes não sem nem onde jogar meu corpo. Essa é a minha definição – um corpo que só faz volume aqui no mundo.
Já passou da hora de eu fazer alguma coisa que preste, alguma coisa marcante na minha vida. Alguma coisa que mais do que cinco pessoas leiam. Alguma coisa de impacto. Podia ser do tipo ser uma pessoa melhor pra conversar, já que, segundo a minha mãe, eu não sei conversar e tranco as conversas. Feio, chato, idiota, baixinho e estranho vou continuar sendo. Mas, pelo menos, vou ter algum motivo para cantar de felicidade.

Thursday, October 11, 2007

Máquina dos Sonhos - Parte VI

– Não contes para ninguém sobre isso, Abreu!
Já era tarde. Ele nem me ouvia mais, estava muito bravo.
– Lívia, a nossa colega nova, tem seus sonhos todos aqui, o que estas pensando, cara?
– Estou apaixonado por ela.
– É? Então já sei como me vingar. Ela vai ser a primeira a saber!
– Não faças isso, por favor!
Fiquei sem reação. Como eu podia impedi-lo de contar da máquina para todos? Se ao menos eu vivesse no mundo dos sonhos. Isso seria imediatamente resolvido. Não pensei duas vezes e empurrei Labarthr tão forte que ele caiu sobre minha cama, batendo a cabeça na parede. Cheguei à frente da máquina e apertei o botão “Mu.D.So” e fui direto ao mundo dos sonhos, para tentar achar um jeito de mudar aquela situação.

Chegando lá, fui até minha casa para tentar achar, dentre os botões da Máquina dos Sonhos, algum que permitisse a transferência dos fatos que ocorriam naquele mundo, para a realidade. Lembrei de que precisava querer aquilo para que, então, o botão surgisse. Concertei-me naquele desejo e o botão apareceu. Apertei-o. “TU TENS DUAS HORAS CRIAR A CENA QUE SERÁ TRANSFERIDA”, foi o que apareceu na tela. Não perdi tempo e procurei Labarthe.
Depois de dez minutos, achei-o na praça da cidade, sozinho. Resolvi conversar com ele, para saber se ele já sabia da Máquina.
– Bom dia, Abreu.
– Ó, Duarte! Como vai?
– Vou bem... Por acaso foste em minha casa hoje?
– Não, não, por quê?
– Por nada... Bem, tenho de ir, tchau, Abreu!
– Tchau, Duarte, não te esqueças do nosso trabalho, amanhã em tua casa!
– Não vou esquecer!
Obviamente minha resposta foi de cunho hipócrita, pois na verdade eu tremi nas bases, por saber que o trabalho iria existir mesmo e pior: Seria amanhã, e não dentro de duas horas! Fui para a casa, para poder pensar em uma solução para aquilo.
Deitei em minha cama e fiquei pensando em um modo para impedir Labarthe de saber da máquina. A conversa com Labarthe havia me tomado trinta minutos que, somados com os dez do tempo que demorei para achá-lo, já eram quarenta minutos que eu não tinha mais. Cada minuto é um minuto roubado da morte. No meu caso, cada minuto é um roubado da revelação que terminaria com minha vida. Mais vinte minutos foram. Agora eu tinha apenas uma hora. Metade já tinha ido.
Muitos pensamentos me consumiam naquele momento. Até que tive uma idéia, que de princípio achei absurda, mas depois de passados mais dez minutos – agora só me restavam cinqüenta minutos – tive de convir que era a única solução. Contra minha vontade, liguei para Labarthe.
– Abreu?
– Sim, Duarte?
– Podes ir até à praça dentro de no máximo trinta minutos? O trabalho foi transferido para hoje, Cosme não poderá nos encontrar amanhã, mas hoje ele pode.
– Sem problemas, estou indo!
– Tchau, Abreu.

Corri até a praça. O que era aquilo em meus bolsos, que eu tocava com minhas mãos, agora cobertas por luvas? Nunca havia tocado naquilo, nem sequer tinha visto algo daquele gênero! Vi Labarthe vindo em minha direção. Dez minutos.
– Olá, Abreu, vamos até aquele beco, Cosme nos espera lá.
– Naquele ali, deserto e escuro?
(cinco minutos).
– Sim, vamos rápido! – falei olhando para o relógio.
– Ta bom.
(três minutos).
– Olha, Abreu, eu juro que não queria fazer isso!
(dois minutos).
– Fazer o que, Duarte?
– Tu mexeste com o que não devia, tens que pagar por isso...
– Mexi com o que? O que eu fiz?
(um minuto).
– Comigo, agora sem mais explicações!
(cinqüenta segundos).
Tirei aquilo que estava no meu bolso. Era uma arma. Sim, daquelas dos filmes americanos. Tremi.
(trinta segundos)
– Desculpa, Abreu!
Atirei.