Wednesday, September 19, 2012

Dona Cecília



Talvez Deus, um pouco cansado de escrever a história de tanta gente, tenha resolvido dar para Fernando Sabino a tarefa de roteirizar o 80º ano de Cecília Giménez. 

Em uma bela, ensolarada e provavelmente muito inspirada tarde espanhola, a devota senhora resolveu restaurar a pintura Ecce Commo, retrato de Jesus Cristo feito na década de 30 por Elías García Martínez.  Confiando em seu talento, ela já pintava vasos de flores em casa, não tinha como dar muito errado, os responsáveis pela obra autorizaram. Vai lá, dona Cecília. Dona Cecília foi.

Quando toco violão em casa, preparo uma apresentação em casa, falo comigo mesmo em casa, sou incrível. Não tem quem seja melhor do que eu. Quando faço todas essas tarefas em público sou mais tosco que Sérgio Mallandro. Acho que foi isso que aconteceu. Seus vasos de flor, cestas de frutas, casas e ruas eram incríveis, mas, quando caiu a ficha da responsabilidade que seria restaurar uma obra tão importante como o Ecce Commo, a aposentada espanhola gelou. Católica, tentou rezar, mas Deus estava um pouco cansado de escrever a história de tanta gente, “agora não dá, dona Cecília”. 


Dona Cecília começou. Mão pesada. Braço trêmulo. Coração gelado. Até que não ficou ruim, dá pra continuar. Engole seco e vai, o tempo tá passando. Foi pintando e até ficou um pouco mais confiante, embora ainda gélida. O desenho do pergaminho ficou bom, nada mais pode dar errado, eu consigo. Mas, em um ato de puro impulso de alguém que está nervoso e erra até a pergunta de 5 mil no Show do Milhão, cometeu um erro gravíssimo. Apaixonada desde pequena pelos olhos ternos de Jesus Cristo, seu pastor e nada lhe faltará, resolveu desenhá-los antes de tudo. Qualquer pessoa que tenha uma pequena noção de desenho sabe que olhos, ainda mais que mãos, são a parte mais complicada na hora de desenhar. É preciso muita pesquisa prévia, é preciso muito cálculo e é preciso muito braço firme para um olho ficar perfeito. Por ser tão apaixonada pelos olhos de Cristo, dona Cecília se dedicou demais e, como acontece comigo, toda essa dedicação pressionou a senhora. Mas e se não ficar bom? E se Deus meu Senhor não gostar? Errou a mão.


Quando viu que não havia mais como consertar, dona Cecília passou por alguns estágios. O primeiro: Desespero. Não irei mais pro céu, ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus. Segundo: Raiva. Quer saber? Não quero mais pintar isso não significa nada sem os olhos lindos de meu Senhor vou me embora para a minha casa fazer um bolo e ficar com meus netos! Terceiro: Tristeza (daí o borrão na boca, dona Cecília chorou muito). Como pude fazer isso? Nunca faço nada direito mesmo, minha vida não serve pra nada. Viu sua história toda passar pela mente. 80 anos em um minuto. No meio daquela agonia toda surge uma luz. É Jesus Cristo, mas seus olhos já não parecem tão ternos. O Rei dos Reis se aproxima da espanhola e fala:

- Dona Cecília, o que foi que a senhora fez?
- F...F...Foi s...sem querer..er.
- Foi sem querer que Eu descobri o dom de caminhar sobre as águas. A senhora por acaso caminhou sobre as águas nesta pintura?
- N..Não, senhor.
- A senhora nem ao menos nadou sobre as águas.
- Mil perdões, meu Senhor, mil perdões.
- Pensarei em teu caso.

E dali Jesus Cristo se foi novamente em direção à luz. Dona Cecília resolveu ir pra casa descansar um pouco.


Quando acordou, rezou, tomou seu café e foi ver televisão. Se viu. Se desesperou. O mundo inteiro já estava sabendo daquela idiossincrasia que cometera. Resolveu que não sairia de casa nunca mais, esperaria o juízo final sentada em seu sofá rezando pela redenção de seu Senhor Jesus Cristo. Botaria até um vasinho de flor em cima da mesa para esperá-lo.


Um dia, então, sua vizinha veio trazer-lhe a informação: As visitas na igreja onde está o Ecce Commo restaurado aumentaram em uma proporção que só Deus sabe fazer a conta. Antes recebendo média de 400 visitantes durante todos os verões passados, depois da restauração de dona Cecília foram cerca de 30 mil. A igreja inclusive já planeja ganhar dinheiro, ou como estão chamando, "donativos" com o sucesso da sua restauração. Aí atacou os nervos. Mão Pesada. Braço Trêmulo. Coração gelado.

Sunday, August 12, 2012

Gentileza



O universo deve mesmo ser algo muito pequeno. Isso porque é preciso achar uma maneira de entender porque até os melhores seres, aqueles que facilmente teriam cargo vitalício por aqui, um dia partem. Partem porque o universo, além de muito pequeno, deve ser muito democrático e por, infelizmente, ter estas duas características, precisa constantemente ser renovado. Partem porque – ainda bem – a fila dos melhores seres que querem fazer parte do universo é gigante. Partem porque são gigantes e ocupam muito espaço em um algo que deve mesmo ser muito pequeno. E aí, gentilmente, cedem seus lugares para maravilhas novas fazerem cafuné na gente.  

Tuesday, July 31, 2012

Superpoder


Era uma vez um menino. Era uma vez um menino que sabia voar. Não necessariamente era um menino que queria voar. Ele só sabia. Também não era um voar estilo Super-Homem, com uma capa imponente, tampouco estilo anjo, com asas. Ele só sabia.
O menino usava esse “superpoder” quando julgava necessário – dentro do seu entendimento de necessário, coisa que vai de pessoa pra pessoa, de cachorro pra cachorro, de margarida pra margarida. Ele julgava necessário voar quando se sentia ameaçado. O que não acontecia lá muito, criança tranquila que era. Veja você que era exatamente essa tranquilidade que o fazia ser considerado ameaça e, por consequência, se sentir ameaçado. Os demais meninos, ao o verem daquela forma, não entendiam. Como alguém conseguia segurar tanta paz nas costas? O menino jogava bolinha de gude, claro, mas caso perdia – e isto acontecia bastante – não se importava lá muito. Também não tentava tirar proveito dos meninos menos habilidosos, chamando-os para duelos apenas para ganhar suas bolinhas. “Para que irei excluí-los da brincadeira?”, dizia. E era aí que os meninos partiam para cima. E era aí que o menino voava. Voava direto para a padaria ao lado do colégio e lá ficava, comendo bomba de chocolate.
Mais pra frente, quando o menino já amava as meninas, a sua tranquilidade continuava a lhe trazer problemas. Não que vivesse sempre em banho-maria. Era um menino de bastante atitude e borogodó. O que incomodava as meninas era a tranquilidade dele perante a sociedade. Certa vez perdeu uma namorada por ter lhe tascado um beijo apaixonado dentro de um elevador lotado. Outra por não ter lhe tascado um beijo apaixonado dentro de um elevador lotado. Mas não se importava muito. Quando um relacionamento começava a não valer mais a pena o menino simplesmente levantava voo. Voava pra casa e lá ficava até que desse vontade de sair de novo.
Não apenas no que dizia respeito ao lado afetivo, o menino cumpria este ritual em tudo na vida. De conversas triviais, onde para os amigos sempre foi uma grande dúvida se era a embriaguez que já estava alta ou se um amigo havia levantado voo ali diante de seus olhos, até no âmbito profissional. Não conseguia parar em emprego algum, pois assim que as tarefas não lhe eram mais interessantes ele levantava voo. Ali, de terno mesmo.
Até que ficou velho. E aí ficou mais velho, até que, tranquilamente,  levantou voo em direção a... Na verdade desta última vez não sei para onde o menino foi. Sei que foi. Mas eu também podia estar embriagado.

Thursday, July 12, 2012

Eu só queria dar umas risadas


Esse texto tem spoiler da 7ª temporada de How I Met Your Mother. Ou eu Inventei tudo.

Vocês não odeiam quando se preparam para uma coisa esperando só dar risada e ela acaba emocionando? Sei lá, como quando eu baixo um episódio de How I Met Your Mother e ele é sobre a Robin não poder ter filhos. Minha internet anda meio lenta, então eu espero mais ou menos uma hora para um episódio em 720p terminar de baixar. Depois que essa parte se conclui, eu vasculho a casa inteira atrás de um pen-drive para passar o arquivo pra TV da sala, onde me sento, me tapo, pego comida e a minha gata sobe pra tentar pegar a comida de mim.

Enfim dou o play, já exercitando a mandíbula para as risadas. Quando desligo a TV vem nó na garganta. Pô, não era isso que eu queria. Fiz essa burocracia toda porque às 02:14 da manhã eu queria dar umas risadas. Se fosse um domingo às 21h eu ia querer sofrer vendo Melancholia ou algo do gênero, mas hoje, às 02:14, eu queria dar umas risadas. Nada contra colocarem esse drama na série, acho que enriqueceu a personagem, blablabla. Até o Chaplin colocava pitadas de drama nos seus filmes, a questão não é nessa. Sei que drama embonifica as coisas, mas, com o perdão do egoísmo, às 02:14 da manhã eu queria dar umas risadas! Saca quando a tua alma tá com o (insira aqui o nome do músculo entre a bochecha e a boca) dolorido de tanto rir, mas tu queres colocar isso pra fora? Então, era mais ou menos isso. Eu queria usar o How I Met Your Mother como um meio para transferir as risadas da minha alma para o meu corpo. Não queria passar horas e horas pensando o quão triste deve ser para as mulheres reais passarem por essa situação, se também tem amigos tão gente fina quanto os da Robin, às 02:14 da manhã eu queria dar umas risadas!

Me crucifiquem, me chamem de simplório, inventem adjetivos pejorativos para mim, mas, principalmente nestes últimos meses, em que meu coraçãozinho tá descansando numa rede, a diversão é o que tem sustentado a minha graça. Não é que eu esteja cheio de nãometoques emocionais. É que, cara, às 02:14 da manhã o que eu quero mesmo é dar umas risadas.

Tuesday, July 10, 2012

Por um mundo com os olhos de Alison Brie

Eu tenho uma teoria. 




Sei que acaba ficando monótono escrever um texto inteirinho só sobre uma única pessoa, mas acredito que se todo mundo tivesse acesso aos olhos de Alison Brie os problemas do universo todos se extinguiriam. Não digo só os problemas que surgiram depois que ela nasceu.



Acho que se realmente existisse um Deus, esses olhos teriam sido as primeiras coisas a serem inventadas. Eva seria Alison Brie. Imagina se Caim, vendo os olhos azuis de sua mãe, teria a ideia cruel e seca de matar o próprio irmão. Daí por diante. Sei lá, vamos pegar ali a Idade Média. Quem precisaria da Igreja? Ou, se por um desvio da humanidade ela tivesse sido criada, quem contestaria a teoria da Igreja de que aquilo só poderia ter sido criado por um ser superior? Dois olhos lindos daquele jeito, formados assim, ao acaso? Não, impossível. Avancemos. Por que Hitler teria todo aquele ódio todo no coração se Alison Brie franze a testa fazendo uma cara de séria que dá vontade de rir e apertar? O Capitalismo seria baseado em pessoas querendo ter mais Alison Brie para si, mas para que mais Alison Brie para si? Aqueles olhos são como açúcar. Na dose certa é a perfeição. Não tem motivo para ter mais. Pensem em quantos problemas isso evitaria. Muro de Berlin, fome na África, Terrorismo (ori e ocidental). Por que diabos políticos haveriam de roubar dinheiro, se já teriam os olhos de Alison Brie? 

E os países se invadindo em busca de petróleo? Imaginem que incrível seria o mundo se tivéssemos Alison Brie e não petróleo!

Tuesday, April 17, 2012

Beterraba




Quando a gente é criança é muito difícil gostar de coisa ruim. É complicado aceitar o fato de que beterraba tem gosto de terra, porém é rica em proteínas vitaminas potássio sódio fósforo cálcio zinco ferro manganês, mas, depois que o tempo passa – e a gente cresce – esquece-se do gosto ruim da beterraba, porque, afinal, a beterraba não existe pra ser saborosa. Ela tá ali pra fazer bem. Só que aí nós, os eternos insatisfeitos, dizemos que “fazer bem” é um lance relativo. E se importar com o que é relativo não tá aí pra fazer bem.


Wednesday, March 28, 2012

Millôr



A primeira vez que li Millôr Fernandes foi no banheiro. Me sentei, vi um livro fininho e resolvi que ele me acompanharia naquela jornada. E ali fiquei por um longo tempo após tê-la cumprido.

Millôr escrevia em 3D. E lá no tempo do guaraná com rolha. Escrevia verticalmente, característica sua, mas não se contentava; ia lá e colocava um desenhinho que deixava tudo 150%.

Aí todo mundo entendia. Todo mundo ria. Todo mundo ria porque Millôr foi o melhor humorista brasileiro. Todo mundo ria porque Millôr escrevia do jeito que queria e do jeito que todo mundo queria. Não dava para – e nem precisava – e que história é essa de passado? - não dá para – e nem é preciso – saber se Millôr diz “entendeu ou quer que eu desenhe?” ou “entendeu ou quer que eu escreva?”.

Em uma época em que se discute tanto a liberdade do humor, vemos Millôr, o velho Millôr, ser tão livre que perfura sem perfurar. Bater, esconder a mão, mas deixar o cotovelo de fora. Muito maior do que correto ou incorreto, o humor millorista é natural. Agora ele vai lá encontrar outros seres tão livres quanto. Vai encontrar o grande mentecapto, Stanislaw e quem mais ele quiser.

Tuesday, March 20, 2012

nos

quando me deixaste, quis eu morrer de um jeito bem Tomás Antônio Gonzaga, mas pior ainda, porque sou um cara da cidade e não sei tirar leite de vaca, depois te deixei, quis eu morrer de nervosismo, sem saber direito se estava fazendo o certo, como quando se escolhe tomar leite com Nescau ao invés de Coca e na hora não há Nescau o suficiente, só pra um golinho e me deixaste de novo, ficando eu inconsolável, querendo eu morrer por ter escolhido o leite ao invés do refrigerante, mas agora tentei eu pegar tua mão tentaste tu fugir não conseguimos nós ficarmos juntos tentaram outras pessoas nos conquistar conseguiu ela o meu apreço e agora quer o mundo deixar tudo em paz e quer a paz nos deixar.

Monday, February 20, 2012

Cílios

O mundo, infelizmente, é um troço muito grande. E, para o enriquecimento das ironias do universo, quando um cílio, infinitamente menor do que a Terra, cai em um olho, Deus do céu, o ser humano não consegue ficar quieto – no seu canto. Eu, que tenho olhos grandes, já sofri com muitos cílios-sorrisos. Com muitos cílios-corpos. Cílios-olhos. Coça daqui, assopra dali, pede ajuda pra qualquer estranho que aparece pela frente, mas, mesmo que o assopro funcione, mesmo que cavoucar o globo ocular traga bons resultados, o olho ainda dói. E dói mais do que a coceira causada pelo cílio rebelde. Mas incomoda menos.

Wednesday, February 08, 2012

Verão

cara, como eu amo o verão. depois de toda a função de correr pra organizar tudo, correr pra comprar passagem e correr pra pegar o ônibus, eu finalmente estou sentado na poltrona do Embaixador Pelotas-Cassino.

de repente adentra o carro aquilo que melhor traduz essa estação: uma morena com vestidinho largo e lilás. ah, quando uma morena de vestidinho largo e lilás adentra um ônibus que ruma à praia, olha, eu esqueço do suor, do mosquito, da dificuldade de dormir, da preguiça e até da dor de cabeça. até do calor periga eu esquecer. quando uma morena de vestidinho largo e lilás adentra um ônibus que ruma à praia, olha, eu só quero que alguma força sobrenatural faça com que ela deite comigo numa rede amarela e fique para-lá-para-cá ouvindo Novos Baianos. eu até aprendo a sambar mais direitinho, se uma moça dessas me pedir. essa moça de vestidinho largo e lilás, que eu nem conheço, pode me pedir pra comprar milho que eu compro. pode me pedir pra descascar inteirinho no sol que eu descasco. pode me pedir para surfar que eu... bem, eu aprendo. tudo isso porque ela é esse ventinho refrescante que chega de repente e transforma o verão por segundos.

agora eu desci do ônibus, ela também e eu vou seguí-la para descobrir onde está veraniando essa moça. será que ela está mais perto da praia ou da avenida? da Iemanjá ou do Navio? Mais tarde vou caminhar pela praia procurando por ela e pelas outras morenas de vestidinho largo e lilás.

Wednesday, January 11, 2012

Cais

À primeira vez em que fui ao Rio de Janeiro, decidi: A carioca é a mulher que eu quero ter e que eu quero que me tenha. Não é... Talvez seja pela tal graça que os poetas dizem que elas têm, mas prefiro dizer que é pela leveza que elas vestem. É como se a água gelada das praias de lá servisse como um ritual que separa as meninas das mulheres e só a carioca, por conviver com aquele gelo todo, fosse mulher de verdade.

A mulher do Rio quando fala Vasco, cais do porto, ou simplesmente cais, ou simplesmente porto, ou simplesmente Rio é como uma cuíca: É um lance que tu não descansas até entender como funciona, mas a cuíca, quando desvendada, é apenas um esfrega-esfrega danado que faz um barulhinho bacana. As cariocas são um esfrega-esfrega danado que faz um barulhinho bacana também, mas eu nunca me atrevo a dizer que elas são "apenas" algo.
Elas são sempre o algo incrementado.

Tuesday, January 03, 2012

Horóscopo

Morena dos olhos azuis azuis, saibas que eu não acredito em horóscopo. Acho uma besteira a gente viver nossas vidas de acordo com a posição de umas coisas, mas, depois que descobri que somos nós dois do mesmo signo, olha, eu não consigo ficar um dia sem ler aquelas baboseiras que escrevem nos jornais.

Nessa semana teremos influências da Lua crescente no signo de Áries e Mercúrio em quadratura com Marte, ambos trazendo impulsividade e muita agitação nas comunicações e eu não tenho ideia de o que isso significa, mas acho que quer dizer que ficaremos juntos para sempre. Se bem que numa dessas imagens que compartilham no Facebook diz que Peixes com Peixes não dá certo, porque é um signo muito intimista e bláblá. Ora, quem eles pensam que são para darem uma definição na lata dessas? Eu acho que nós dois, um do lado do outro, daria certo e, se tu achares também, pode haver um milhão de compartilhamentos que nenhuma imagem de rede social vai nos separar. Tu achas? Voltemos às previsões para a semana. Diz aqui que na sexta possivelmente haverá indisposições entre as pessoas e clima de individualismo nos grupos de trabalho. Bem, eu estou de férias, então toma cuidado por aí! Deixa eu ver aqui... Ah! Sábado terá Mercúrio em sextil com Saturno e Netuno e parece que isso, aliado a aspectos da lua no signo de Gêmeos, significa que o fim de semana será bom para encontros amorosos. Uma pena não estarmos perto!

Mas olha, morena dos olhos azuis azuis, se por acaso algum dia lermos no jornal que o horóscopo diz para nos separarmos, deixemos essa coisa de zodíaco para os cavaleiros. Façamos nós mesmos o nosso próprio mapa astral. Leste, oeste, norte, sul, felicidade em qualquer ponto. Leste, oeste, norte, sul, amor em qualquer ponto. Glub, glub, glub, glub dois peixinhos nadando tranquilamente em qualquer ponto.

Desce o mapa astral e geográfico, vem logo pra perto.

Thursday, December 01, 2011

Desligando o aparelho da NET

Gato é um troço 8 ou 80. É ame ou odeie. Quando a Bruxa foi lá pra casa eu era bem pequeno, então não lembro de como era a minha vida antes dela. Sempre que alguém me visitava, era a mesma coisa: “Nossa, eu queria ter uma gata igual a essa”. Pois é. Todo mundo queria. A Bruxinha era a mesmo a melhor.

Só que aí lá por 2008 começaram a surgir uns caroços. No início eu não me preocupei, uma vez um cachorro meu tava com um desses e o veterinário disse que era só uma entorse no músculo (?), que era normal e nem doía. Achei que era a mesma coisa, visto que a Bruxa vivia em apartamento, mas tava sempre pulando de galho em galho. Ela vivia correndo pela sala, brincando com as coisas, mesmo tendo 17 anos e, por tudo isso, eu achava que era bom sinal. Bem, não era. Ao contrário de cachorro, que quanto tá doente fica na dele, dengoso e com o nariz quente, gato fica agitado quando sente dor. Que idiota, eu só me dei por conta que isso era um indício de problema depois de muito tempo.

Enfim, os caroços foram crescendo e aí então eu levei ela no veterinário. Incrivelmente ainda era cedo, não tinha rolado metástase e o lance era totalmente tratável. Fui tratando durante algum tempo. Depois de muitos medicamentos testados veio a primeira cirurgia. Levei a minha gatinha no cobertor predileto dela, olhei nos olhos azuis e disse “te vejo na volta, velhinha”, quase como uma pergunta pra mim mesmo. Vi. Fui lá buscar e ela estava com a barriga toda cortada, com o pelo raspado e com uma mama a menos. Mas sem merda nenhuma.

Como um amor maldito, a doença dela voltou depois de um tempo. O veterinário disse que isso aconteceria, mas eu fui tentando esquecer aos poucos e consegui fazê-lo. Bem maior, aquela droga de um dia para o outro já tava quase abrindo. Liguei pra clínica e corri pra lá. Metástase. Já tava atingindo outros órgãos. Voltei pra casa e xinguei a porra toda. Me isolei do mundo por um tempo, mas percebi que aquilo só tava fazendo mal pra Bruxinha e voltei pras minhas atividades. Marquei a segunda cirurgia e fiz questão de levar ela lá. A recepcionista já me conhecia e, óbvio, já tinha se apegado ao melhor animal doméstico do mundo. Pela primeira vez havia a possibilidade real dela não voltar pra casa. Não dormi pelos três dias que ela ficou longe e, quando o telefone enfim tocou, meu coração quase saltou pela boca. O veterinário queria ele mesmo falar comigo. Fiquei mais tenso ainda. Ela tinha sobrevivido e eu lá fui eu extremamente feliz buscar a minha gatinha. Sem mamas em um dos lados. Praticamente sem recheio. Tentei nem olhar porque eu sabia que ia doer pra caralho ver aquele bicho que lambia meu nariz antes de eu dormir naquele estado.

Teve uma vez que eu fui pro Uruguai passar o fim de semana e ela ficou sozinha no apartamento. A Bruxa sempre teve problemas com isso, uns cinco, seis anos antes a minha família resolveu alugar um apartamento na cidade pra reformar a casa do Laranjal, ela se irritou porque nunca tinha ninguém em casa e sumiu por uns dois meses. Enfim, nesse fim de semana que ela ficou em casa, tentou fazer o mesmo. Só que ela não só não era mais uma gata jovem, mas uma gata velha e doente. Não conseguiu pular o muro do prédio e caiu no pátio da casa ao lado. Passou sábado e domingo na chuva, doente e sem comida. Sobreviveu, óbvio, ela era a Bruxa.

Bem, com o tempo ficou tudo bem, ela voltou ao “normal”, dormia nas minhas costas no sofá e me pedia comida quando eu acordava de madrugada. Só que é óbvio que depois de um tempo voltou tudo. Aquela merda já tinha atingido o fígado e a cirurgia já tinha ultrapassado o 50/50 de chances. Minha família fez uma reunião. Em pauta, decidir se mandávamos a Bruxa para a cirurgia pra prolongar a vida dela, mesmo que a gata vivesse dali pra sempre com muita, muita dor, ou se sacrificávamos. Ninguém teve coragem suficiente pra segunda opção e lá fui eu com a Bruxinha e o cobertor predileto dela para a clínica. Já éramos de casa. Mesma função, a recepcionista me ligou, fui lá buscar o meu animal de borracha. Nem olhei pra ela no caminho. Quando cheguei em casa, vi um bicho que não era pele e osso. Era só pele. Ela não tinha forças pra miar, pra comer. Não tinha forçar pra subir a escada. A Bruxa não conseguia subir as escadas! Como eu ia me acostumar a ver a minha gatinha que pulava de prédio em prédio sem conseguir subir a droga de um degrau? Ela não conseguia nem deitar no meu peito porque as feridas do peito dela doíam quando ela tentava. Mas ela tentava.

Passou uns dois meses. Eu tava trabalhando na Vanguarda, mas odiava aquilo tudo. Certo dia eu cansei de fazer um trabalho que não me acrescentava em nada e ainda me deixava no sol a tarde toda e resolvi que na semana seguinte eu pediria demissão. Voltei feliz pra casa ouvindo “Here Comes the Sun”, do Harrison, pensando “tudo vai ficar bem a partir da semana que vem”. Cheguei em casa e tinha uma vela ali em cima do aparelho da NET, lugar preferido dela na casa. Minha irmã me deu a notícia e eu tranquei o choro. Subi pro meu quarto e fui jogar vídeo game. Levei 3x0. A minha mãe veio falar comigo e eu não dei nem bola. Não falei uma palavra, eu só queria jogar vídeo game, ficar sozinho e tentar não lembrar dos 18 anos que a Bruxa fez parte da minha vida. Quando foi todo mundo embora e eu finalmente fiquei alone em casa, chorei pra cacete. Chorei porque ali caiu a ficha. Chorei porque pela primeira vez em 18 anos – já falei que não lembro de como era antes – eu tava REALMENTE sozinho em casa.

E isso tudo foi escrito pra eu não ter que ficar explicando toda hora pra TODO MUNDO o porquê de eu não querer outro gato na minha casa. Não sei quanto tempo vai ser assim, mas ainda é. Tchau.

Tuesday, November 22, 2011

Bloco de Notas

olha, eu gosto tanto de você, mas tanto gosto de você, que resolvi escrever o quanto gosto de você no bloco de notas. é diferente escrever aqui porque, a medida que eu vou escrevendo aqui, as coisas vão sumindo ali do lado e quando esse texto terminar provavelmente eu já vou ter esquecido o que eu escrevi no início. que coisa estranha tudo numa linha única, como o bloco de notas deixa, imagina que chata seria a vida se ela fosse só uma linha e as coisas sumissem ali assim como acontece aqui no bloco de notas. eu gosto tanto de você, mas tanto gosto de você que periga eu lembrar da primeira vezinha que cê me curtiu no Facebook, eu lembro era de uma música que anunciava o fim do mundo, mas pra mim aquilo foi como sentir o gosto de uma coisa que eu nem imaginava que gosto teria.eu gosto tanto de você, mas tanto eu gosto de você que se você não me curtir mais no Facebook eu vou dizer que não fiquei triste porque a minha amiga disse que eu tenho que parecer fortão e não ligar pra essas coisas, mas eu quero te ligar agora e perguntar o porquê de você não me curtir mais.

Wednesday, November 02, 2011

Cuba Livre*

Esses dias eu li uma pesquisa onde era provado por A+B que ver uma mulher bonita é equivalente a usar algum tipo de droga. É um lance de a mesma área do cérebro ser estimulada e em mesma quantidade. Enquanto lia aquilo, eu pensava que ali estava a resposta do porquê de eu gostar tanto dessa moça. Não por aquele papo de eu ser viciado nela, não poder viver sem ela, essas coisas. Eu simplesmente me sinto extremamente feliz quando a vejo, faz muito bem pra essa tal área do meu cérebro quando ela passa com aquele ar de quem gosta de ir pra Cuba.

Desde que eu a vi em uma festa qualquer por essas bandas, procuro saber sempre onde ela está. Não por ser apaixonado por ela, querê-la para sempre, ter filhos, eu simplesmente gosto de estar no mesmo ambiente que ela, vê-la passar por onde estou e admirar a sua beleza descolada – sem forçar uma descolagem – por alguns segundos. Depois disso, eu vou embora e sigo a minha vida, sem que ela saiba quem eu sou. Ou pelo menos era assim.

Tem vezes em que o ser humano, talvez por instinto, faz umas coisas engraçadas. Mesmo sabendo que uma panela está – muito – quente, a gente toca. Se queima, óbvio, o universo não está nem aí para a nossa idiotice. Mas o que eu quero dizer é o seguinte: Tem vezes em que a gente sabe que algo vai dar errado, mas segue em frente, sei lá porque diabos. Foi exatamente o que eu fiz com essa moça. Eu estava parado no bar. Ela também. Eu estava bêbado. Ela eu não sei. Por uns dois minutos eu matutei se de fato deveria fazê-lo, mas o fiz, virei pro lado e falei com ela. Eu falei com ela, caro leitor! E por quê? Ela é até do meu tamanho, a gente nunca poderia ficar juntos. Mas falei, falou tá falado, então não tinha pra onde correr. Contei toda a história de eu admirá-la de longe e ela disse que até sabia quem eu era (!), mas que não me seguiu de volta no Twitter porque não me conhecia. Totalmente perdoada.

Após de fato conhecê-la, agora vivo um dilema parecido com aquele que antecede o vício em drogas. Não sei se experimento ou se permaneço com a minha vida inalterada. Até o momento, eu tive contato apenas com aquilo que é bom nessa moça, mas, infelizmente, quando o mundo foi criado e, após algum tempo, as relações humanas, não houve uma mutação que fizesse a gente saber a hora de parar. Algo que dissesse “não, Leon, agora tu foste longe demais. Volta”. Se essa mutação tivesse ocorrido, eu viveria feliz com as coisas boas que sei sobre essa garota e usuários de drogas não se viciariam nestas. Ainda há tempo para correções.

Agora eu estou aqui, escrevendo essa palavra e mudando os meus objetivos para com essa moça que vem só nos fins de semana para Pelotas. Eu vou achá-la linda três dias por semana e no restante ficar esperando ela voltar para dar descanso ao coração. Por que o que sinto por essa moça é como a cor do cabelo dela: Não é algo definido, mas é bonito. Não é isso que importa?


* Esse texto faz parte do Livro Ainda sem Nome. Não esperem mais spoilers das coisas inéditas presentes nele.

Monday, October 31, 2011

Oxigênio

é um troço subjetivo. a necessidade que as pessoas têm pra viver varia de uma para outra. tem gente que ostenta: trabalho é o meu oxigênio. poeta pega e diz: tristeza é o que eu preciso. românticos consideram o sorriso, o corpo, enfim, a beleza da pessoa amada. com medo algum de parecer simplório, eu digo que o oxigênio é o meu oxigênio. não há nada que me faça sentir mais vivo do que respirar fundo ao pensar em alguém, ou não conseguir puxar o ar por estar cansado no meio de um jogo de futebol no domingo. é nesse momento que a alma conversa com o corpo. deve ser por isso que não há vida no espaço.

Saturday, October 22, 2011

Copa

Ana, eu te amo mais do que eu amava Nesquik quando eu tinha 19 anos. Eu te amo mais do que o momento em que a água gelada da praia de Copacabana toca de surpresa nos meus pés enquanto ando.

Amar-te, Ana, é como viver pra sempre esperando tu passares por mim na rua para sentir o teu perfume.

Thursday, September 08, 2011

100




Um texto sobre o centenário do Brasil de Pelotas tem de ser simples, assim como a sua gente. Porém, um texto sobre o centenário do Brasil de Pelotas tem de ser grandioso, assim como a sua gente.
A primeira lembrança que tenho do Xavante é a de meu pai, revoltado com um resultado negativo, passando com o carro por cima da camisa do clube. A segunda, dele arrependido por não ter uma a sua camisa predileta para comemorar uma vitória. Essa é a diferença do torcedor deste time: Ao contrário dos demais, que sustentam em seus pavilhões o fato de apoiarem os seus clubes incondicionalmente, a gente se irrita, sim. A gente desacredita. Mas volta. Um texto sobre centenário do Brasil de Pelotas, além de simples e grandioso, tem de ser confuso, não pode ter ordem. Porque somos filhos da várzea, não temos uma torcida toda organizada. O torcedor do Xavante não carece de papéis picados, guarda-chuvas, barras, nada dessas coisas. Ele faz de si mesmo a sua festa, cada um cantando e apoiando como quer. Há uma linha tênue entre ser simples e ser simplório. O torcedor do Brasil de Pelotas usa chinelos e os descalça.
E eu vou terminando por aqui, vou lá ajudar a fazer o dia mais perfeito para o meu Xavante. Porque o Brasil de Pelotas é o Oswald de Andrade do futebol. Desorganizado, arteiro, independente. Mas com uma pitada de perfeccionismo.

Tuesday, August 02, 2011

O Livro Ainda Sem Nome

http://olivroaindasemnome.blogspot.com/

Saturday, April 30, 2011

"Quando colegial, como eu gostava do cheiro úmido das raízes dos vegetais! Porém, ao lado desse mundo natural, queriam fazer-me acreditar no mundo seco das raízes quadradas, que para mim tinham algo de incompreensíveis signos de linguagem marciana. Mas a tortura máxima eram as raízes cúbicas. Felizmente agora os robôs tomaram conta disso e de outras coisas parecidas com eles... Felizmente não mais existe o meu velho professor de matemática. Senão ele morreria aos poucos de raiva e frustração por se ver sobrepujado, por me ver continuando a fazer coisas aparentemente insólitas porque não constam de currículos e compêndios, porque agora, meu caro professor, agora o marciano sou eu mesmo.".

Quintana