Wednesday, February 20, 2013

A gente ter se mudado pra cá


- Você passou a segunda demão na parede da sala?
- Tu tá falando “você”? Não faz duas semanas que a gente tá no Rio.
- Ai, não enche. Vê se não vai estragar essa parede, pelo amor de Deus, sabe-se lá quando a gente vai ter dinheiro pra pintar de novo.
- Relaxa. Esse é o primeiro momento em duas semanas que a gente sentou pra fazer nada. Aproveita que tá tudo nos conformes. Relaxa.
- Relaxar... Não sei como tu consegue. O mundo inteiro desmoronando e tu nesse clima novela das seis.
- Depois de passar duas semanas de sufoco após vir pra cidade grande sem certeza alguma, conseguir um emprego que vai dar pro gasto nos próximos meses sem atrapalhar nossos estudos, organizar uma casa nova e pintar uma sala inteira, eu me permito viver num clima novela das seis.
- Como se fosse só nesses casos...
- A partir do momento em que essa conversa deixar de ser sobre a parede da sala eu vou começar a dormir.
- Então tu achas que tá tudo perfeito pra gente? Acha que a vida vai ser moleza a partir de agora?
- É claro que não. Eu só tô aproveitando uma horinha de paz antes de me desesperar de novo.
- Não é melhor levantar e fazer tudo logo?
- Não.
- Então tá. Vou ficar sentada aqui também. Totalmente relaxada, esse mundo é uma beleza mesmo, acho que vou pegar uma revista, um pacote de biscoito e tomar um suco.
- Tu tá relaxando do jeito errado. E eu comi o último pacote de bolacha.
- EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ COMEU O ÚLTIMO PACOTE DE BOLACHA.
- Relaxa, eu compro mais amanhã. Deixa eu te ensinar a fazer isso da maneira certa.  Sentar na sacada com vista para uma construção: Sim. Encucar porque eu comi o último pacote de bolacha: Não.
- COM QUE DINHEIRO TU VAIS COMPRAR “MAIS”?
- Relaxa. Vamos fazer assim. A gente se esparrama na cama, liga o ventilador, dorme por uma horinhazinha só e depois senta pra fazer as contas pra conseguir comprar mais bolacha amanhã. Pode ser?
- Que cama?! Tu não percebeu que a gente tá dormindo no colchão de solteiro que o teu amigo emprestou? A gente só vai poder comprar uma cama de verdade semana que vem.
- “Cama” pra mim não é o objeto cama. É um lugar pra descansar. Se fossem folhas de jornal eles seriam “cama” pra mim.  
- Até parece que eu vou conseguir dormir, mas tá.
- Vai, sim. Ninguém resiste ao meu cafuné. É a música da Jigglypuff dos cafunés.
- Tu acha que vai dar certo?
- Eu juro que passei a segunda demão na parede. Dorme, por favor.
- Às vezes só o esforço de fazer tudo certo na hora de pintar a parede não adianta.
- Ok. Tu tá falando “da gente”, do fato de a gente ter se mudado pra cá ou simplesmente da parede?
- Eu tava falando simplesmente da parede. Pensei que tu não querias falar sobre “a gente” ou “a gente ter se mudado pra cá”. Mas já que o assunto foi tocado...
- Sim, talvez e sim.
- O talvez é “a gente”?
- Não, o talvez é “a gente ter se mudado pra cá”.
- Tu tens mais confiança na pintura da parede do que no fato de a gente ter se mudado pra cá?
- Não é questão de ter mais confiança. É mais uma coisa de navegar é preciso, viver não é preciso. Eu li uns tutoriais na internet e saquei como se pinta uma parede. Não existe um tutorial online que ensine a vencer na cidade grande. Quer dizer, existe. Na verdade uns quantos, talvez bem mais do que ensinando a pintar parede. Mas o que eu quero dizer é que existem vários caminhos para o que a gente quer em termos de “a gente ter se mudado pra cá”. Pode ser que a gente tenha vindo pelo certo. Pode ser que a gente precise de uns atalhos. Pode ser que a gente erre o caminho e tenha que recalcular a rota. Pode ser que a gente tenha que recalcular a rota de novo. E de novo. Mas de demão em demão a gente vai levando.
- ZZZZzzzzzZzzZZZZZZZZZZZZZzzzzzZZZZ
- Ok, dormiu. Agora é a hora de passar essa segunda demão.



Monday, February 18, 2013

Um inseto pousou em meu ombro


Não sei direito qual, é um daqueles que entram pela janela do quarto nas madrugadas de verão e quando a gente acorda eles não estão mais lá.  Mas bem maior. Tem grandes olhos pretos e o corpo meio alaranjado na parte de baixo e uma coisa meio cinza em cima.
Passei a mão no ombro para tirá-lo.
O bicho se assustou e saiu voando.
Direto para o ventilador, que friamente o corta ao meio. Uma parte cai no chão e a outra fica presa nas grades.
Morte na hora, penso eu. E fico alguns segundos parado olhando a cena ao mesmo tempo em que tento processá-la. Tudo isso aconteceu em questão de três segundos. Um, vejo o bicho no meu ombro. Dois, tiro. Três, ele é partido ao meio. Como a morte é rápida, meu Deus do céu. Como a vida é curta, meu Deus do céu. De um segundo para outro todo mundo puft, seja humano ou inseto que só especialistas em inseto sabem o nome.
Passados alguns segundos a parte do bicho que caiu no chão começa a se mexer. Felicidade, penso eu. Só abrir a janela, soltá-lo no mundo e ir dormir com o ventilador me refrescando. Mas o bicho não consegue voar. Tenta com todas as suas forças, se debate incessantemente, mas as leis da aerodinâmica o condenaram a não sair mais do chão.  E o ventilador girando.
O inseto ali, me olhando com aqueles olhos pretos e gigantes que se dividem em ter medo e verem em mim uma oportunidade de salvação. Tenho que salvá-lo, penso. Surge a ideia de amarrar o restante que ficou preso nas grades ao pedaço que bate asas, pois parece realmente ser um caso de falta de peso, mas obviamente não sei como proceder, então desisto. E se esgotam as ideias para salvar o bicho que fora cortado ao meio porque deixei a janela aberta por causa do calor. E o bicho aqui, do meu lado, tirando forças das forças das forças para tentar voar, mas começando a cair a ficha de que não conseguirá.
Que morrerá nesse lugar estranho.
Que nunca mais verá os filhos, órfãos e sem ter o que comer a partir de agora.
O mais velho terá de sair da faculdade para trabalhar, até que um dia será cortado ao meio por um objeto cortador não identificado.
Tento descobrir na internet de que inseto se trata para descobrir o quão ligados à família eles são.
Tenta mais uma vez sem sucesso alçar voo.
Começo a pensar em dar-lhe o golpe de misericórdia. Acabar com seu sofrimento e ir para a cama descansar, pois amanhã será um longo e cansativo dia. Porém, lembro que eu sou eu e que nunca teria coragem para tal. Você leitor também não teria. A gente diz que teria, mas na hora dá para trás. Óbvio que é a melhor opção. Mas não é uma opção. Enfiar uma estaca no peito do bicho e dormir como se nada tivesse acontecido não está nos planos. Lembro do recente caso em que minha cadela estava no último estágio de um câncer que iniciou nas mamas e em questão de dias se espalhou para os pulmões. Ela foi levada ao veterinário já com a possibilidade da eutanásia na mesa, mas o próprio doutor via o processo com resistência. Talvez pelo mesmo pensamento que me corrói agora: Sou contra porque sou eu quem irá proceder.  Na verdade, este foi o principal desempate entre seguir a carreira de jornalista e de médico veterinário. Ver bicho sofrendo pelo resto da vida não estava nos meus planos e eu respeito profundamente a profissão muito também por essa frieza necessária que eu, escritor, não tenho e por isso escrevo ao invés de tentar fazer algo pelo inseto.
Já faz duas horas desde que o bicho foi cortado pelo ventilador. Acho que vou dormir e esperar para ver amanhã o que se sucedeu durante o restante da madrugada. Como sempre na vida.
Pensar que meia hora antes do acontecido eu havia cogitado seriamente ir dormir. Fecharia a janela e nada disso teria acontecido. 

Sunday, February 10, 2013

O gato

Você chega em casa cansado do trabalho. O mundo inteiro caiu em suas costas no dia de hoje e só o que você quer é atirar a chave em qualquer canto, se atirar no sofá e ver TV. E quando eu digo “ver TV” é ver TV. Ver novela, ver alguma série qualquer. Você enfim deita no sofá. Decide não comer nada, está cansado demais para sentir fome. É só ver TV e ir deitar.
Aí vem o gato.
O gato vem, pisa em cima de você, procura um lugar fofo em seu peito magro e, quando finalmente acha, deita.
E você fica naquela posição por horas.
Está cansado, não quer mais ver TV, mas como que vai tirar o gato dali? Além de atrapalhar o conforto do bichano, ele está lhe dando calor, querendo ele ou não fazer isso. “Ele vai me odiar se eu sair daqui agora”. Humanos pensam isso de gatos. Acham que vão perdê-los para sempre se decidirem mover-se para maior conforto.  Aí ficam ali engessados. Tentam se mover bruscamente numa tentativa de passar para o gato a responsabilidade do desconforto, mas a verdade é que o gato não está se importando muito. O gato dorme em cima do seu nariz, se for necessário. Ele quer é dormir. “Ele quer dormir junto de mim”, pensa você, ingênuo ser humano lendo essa frase. Pode até ser. Mas também se não fosse essa coisa de o gato querer ficar encostado na gente, a gente nem ia dar bola pro gato. Porque o gato gosta do ser humano. Quer ele ali, paradinho, só com o corpo encostado no seu. Mas aí, se o ser humano, num ato de pura brutalidade resolver trazer o gato mais pra perto de si, aí ferrou. “Aí babaus”, como diria um amigo meu.
O bicho vai embora, você está o sufocando.
Mas isso tudo é só você pensando, enquanto permanece imóvel no sofá para não atrapalhar a equação perfeita do conforto do gato.  Você pensa pensa pensa pensa pensa e, quando volta a si, já está passando o Corujão e a fome venceu o cansaço. Você resolve ir na cozinha fazer um sanduíche, mas, na hora em que iria se levantar, lembra que o gato está ali. E você não consegue tirar o gato dali. O gato é mais forte que a fome, que o cansaço, que você, e que tudo isso junto. E aí já passou Corujão, tá começando Telecurso 2000, você está podre de sono, mas não pode se mover até a cama porque o gato segue lá, torturando você com todo aquele tonemaíismo.
E isso piora quando o gato é daqueles mais ariscos. Daqueles que não costumam aceitar um colo com facilidade. Uma oportunidade de fazer carinho num desses é como pasta de dente: Você aproveita até o final, vai enrolando, enrolando e, se precisar, ainda corta a ponta no final para durar mais.
É claro que, de repente, depois de cinco horas de sono no seu peito, o gato resolve acordar e sai de cima.
Aí cabe a você ficar chorando pela ausência do gato ou correr pra cama antes que ele volte.



Tuesday, February 05, 2013

Maria do Céu




O nariz arrebitado o sinal em cima da boca o timbre rouco carinhoso manhoso e pedindo carinho o ponto. assim. de repente. Dando a. Cadência.
Céus, a cadência.
Céus, o toque nos cabelos.
Céus, a boca.
Céus, o Brasil.
Céus, o Brasil falando francês brasileiro.
Céus, a enrugada no rosto.
Céus, a roda.
Céus, o pra lá e pra cá.
Céus, a mordida na fruta.
Céus, o aAa.

Sunday, January 20, 2013

- ...


Passou duas vezes pela mulher de cabelos negros e batom bem vermelho. Fingiu que não viu, cara forte que tava tentando parecer. Percebeu, ficando até que feliz, não sei, tava escuro, mas acho que sorriu, que ela estava olhando. Meio sem entender muito bem, é verdade, mas ele não entendeu muito bem se o que ela não tinha entendido muito bem era o que diabos essa pessoa tá fazendo dando voltas na festa ou por que diabos ele não lhe deu oi.
Aí resolveu passar uma terceira vez. Só pra confirmar qual do não-entendimento era o caso dela. Tentou só passar, fingir não ver que ela estava ali do lado, não vou dar oi não vou dar oi não vou dar oi, mas quando deu por si já tava cutucando. Cutucando.
- Bu.
- Oi?
- Passei duas vezes aqui, tu fingiu que não m...
- Eu vejo você meio que em todos os lugares que eu vou.
- A gente se viu umas quatro vezes, cinco contando a primeira. Do jeito que tu falou ficou parecendo aquele episódio de Friends que a Phoebe se apaixona por um cara que ia nos mesmos lugares que ela, mas no final ela acaba descobrindo que ele escrevia pornografia pra crianças.
- Mas é meio isso mesmo.
- Tu tá apaixonada por mim?
- Não, mas acho você meio esquisito.
- Esquisito tipo Johnny Depp, tipo Woody Allen, tipo Faustão ou tipo o meu colega, que embora tenha contado o final do Harry Potter pra turma toda é um sujeito adorável?
- Tipo que escreve pornografia pra crianças.
- Que injustiça, tu nem me conhece. Eu escrevo pornografia pra adolescentes, é um público muito mais legal pra isso. Criança que vê pornografia não sabe o que tá fazendo, adolescente tem uma relação muito mais visceral.
- ...
- !!!
- ???
- Tu já parou pra pensar que o fato de a gente se ver em todos os lugares pode ser obra do destino?
- Destino?
- É. Acredita?
- Só quando é alguma coisa boa pra mim.
- Então, nesse caso?
- Não.
- Eu juro que sou legal. Pergunta pra qualquer um. Eu sou um doce.
- Eu nunca disse que você não é legal.
- Mas qual o meu problema então?
- Eu nunca disse que você tinha algum problema.
- Mas então por que essa indiferença toda?
- Nunca ocorreu a você que talvez eu só não esteja interessada? Que “não ter problema” não necessariamente significa uma pessoa interessante?
- Mas eu sou interessante. Tu que não me deixa mostrar isso.
- Você repete isso “eu sou interessante” desde a primeira vez que a gente conversou. Não acha meio pretensioso pra uma pessoa de um metro e setenta, com no máximo cinquenta e cinco quilos e que não sabe nem dançar?
- Não. Se eu não me achar interessante, quem que vai achar? Com toda a minha autoestima já tem mulher que me vê como um boneco Ken daqueles que não têm pênis.
- Vai ver você dá atenção demais.
- Tá, essa conversa está virando um diálogo adolescente e eu acho que o cara que tá escrevendo vai parar de escrever a nossa história se continuar assim.
- Tem um cara escrevendo a “nossa história”? Depois você ainda acha estranho eu te achar esquisito ao invés de estar apaixonada.
- Nunca ouviu falar em Deus? Brincadeira.
- ...
- !!!
-???
- Aquilo de um cara estar escrevendo esse diálogo foi brincadeira também.

...

Tuesday, January 15, 2013

Os alquimistas estão chegando


Um cara está aprendendo a cozinhar e vai à casa da namorada mostrar-lhe isso.
Não.
Um cara está aprendendo a cozinhar e vai à casa da avó mostrar-lhe isso. Com a namorada. Já que criei a criatura não dá pra deixa-la solta assim no universo.
“Só consigo cozinhar escutando música”, fala o cara enquanto coloca o celular no aleatório. Começa a tocar uma música do Jorge Ben. Sei lá, leitor, escolhe aí qualquer uma pra fazer fundo, não vou impor nada. Ele tira a camisa, coloca o avental com os dizeres “sou a melhor vovó do mundo” e parte para cima do frango para cortá-lo. A namorada vai para a sala ver Estrelas com a avó. Sim, o almoço saiu tarde.
Após alguns minutos de silêncio, a avó resolve virar para a namorada.
- Você gosta muito do meu neto, não é?
- S-s-sim, responde a namorada.
- E ele gosta muito de você também, pressuponho...
- É... eu espero que sim. Do jeito dele, mas nesse tempo todo eu já aprendi a ler ele e acho que sou importante.
- Quanto tempo é esse tempo?
- Cinco anos.
- Hm. Escuta, eu estou morrendo e não tenho coragem de contar para ele, ainda mais agora que ele está tão entusiasmado em cozinhar para mim. Você acha que pode fazer isso por mim?
- O-o-o que?
- Estava sentido algumas dores e fiz alguns exames. Contei para ele que era apenas um mal jeito nas costas, mas a verdade é que estou morrendo. Até peço desculpas por te colocar nessa situação, a minha ideia era pedir para a minha filha contar para ele, mas acho que não vai haver tempo, então como já estamos os três aqui...
 - Mas eu não posso fazer isso! Quem sou eu para dar uma notícia dessas? A senhora tem certeza disso? Já pediu outra opinião?
- Minha filha, quando a gente é velho, sabe quando vai morrer. Fiz os exames apenas para que ele não desconfiasse de nada, mas a verdade é que eu já sabia os resultados. E você é a pessoa que o acompanha há cinco anos. Quando vocês começarem a assinalar uma opção diferente no campo “Estado Civil” da conta da NET você vai se tornar, sem o exagero que se usa na adolescência, a pessoa mais importante da vida dele. Se por acaso ele tiver a chance de salvar uma pessoa de assistir ao Caldeirão do Huck será você. Essa relação linda de vocês começa hoje, com essa notícia que você dará.
Lá da cozinha o cara segue cantando a plenos pulmões:
“ZAAAZUEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEIRAAAAAAAAAÁÁÁÁÁ ZAAAAAZUEEEEEEEEEIRAAAAAAAA”
Tudo dando certo no Frango Xadrez, tá douradinho ali na panela junto com os pimentões e o shoyo. Não colocou amendoim, a vó não gosta, faz mal, ouviu dizer. Mexe isso aí, guri, diminui esse fogo aí, vai queimar tudo, lembrou dessas coisas que ela dizia quando ele ainda tava engatinhando nessa coisa de frango. Era um frango no frango. Falta agora só diluir o amido de milho (que, agora sabendo cozinhar, ele compra só Maizena), colocar no todo, misturar e servir.
Tá, ficou tudo pronto, hora de servir, a namorada bota a mesa e a avó só esperando.  Vem, vó, tá na mesa.
Lá pelo meio do almoço, percebendo o clima pesado, o cara, sem vocação alguma para tal, resolve tentar melhorar o ambiente puxando o seguinte assunto:
- Que silêncio. Parece até que alguém aqui está morrendo.
 Eis que a namorada e a avó gelam, será que ele ouviu a conversa da cozinha? Até que não seria mal, pensa a namorada. Que horror pensar assim, pensa de novo. A avó, que já estava quase morrendo, cai durinha ali no chão da sala.
- O que está acontecendo, santo deus todo poderoso????!!!!
- Exatamente aquilo que você ouviu da cozinha! Chama a ambulância. Rápido!
Três dias depois, enquanto o cara havia saído para almoçar, o médico aparece e pede para falar com alguém da família. Ninguém. Só a namorada está. O médico pensa, não pode dar a notícia para algum estranho, mas também não pode deixar a idosa morta na UTI sem ninguém saber. Resolve arriscar.
- Há quanto tempo vocês estão juntos?
- Cinco anos.
- Então a relação de vocês é muito estreita?
- Costumamos dizer que se ele pudesse salvar alguém de ver o Caldeirão do Huck pro resto da vida, esse alguém seria eu.
- Ok... Nós tentamos de tudo, mas a verdade é que ela já estava comprometida antes mesmo do que aconteceu e...
- Eu sei. Eu sei.
- Você acha que consegue contar para ele?
- Não. Mas eu tenho. É como fazer regime.
Quando o cara estava de volta do almoço, a namorada respira fundo e senta ao seu lado. Olha em seus olhos.
- Sabia que existem pouco mais de mil exemplares do Leopardo Persa...
- Você sabe que eu não gosto quando chamam animal de exemplar.
- Sabia que existem pouco mais de mil indivíduos adultos do Leopardo Persa em todo o planeta? Tão tendo que reproduzir eles em cativeiro, porque a dizimação tá pesada. Pensando por esse lado, nem é tão ruim o fato de que existem três mil pandas ao redor do mundo, você não acha?
- Amor, citando a Berta, em um dos seus melhores momentos em Two and a Half Men, todo mundo sabe que depois do Herb ela é a minha personagem predileta, você pode colocar açúcar em cocô que ainda sim não vai ser chocolate. Tudo bem ela ter morrido.
- Não está tudo bem. A pessoa mais importante na sua vida, a que você mais amava, acabou de falecer. Você nunca mais irá cozinhar para ela.
- Olha, eu não sei você, mas antes de aceitar participar desse texto, eu li todos os outros do cara que está escrevendo. Em um deles, ele diz que o universo é muito pequeno e, por conta disso, os seres magníficos, como a minha avó, têm de respeitar uma fila, pois são grandes demais e ocupam muito espaço. Essa fila precisava andar e a minha avó, gentilmente, cedeu o lugar dela para uma nova pessoa ser a que eu mais amo e que mais me cuidará daqui pra frente.
Depois de um tempo, acho que uns dez anos, quando o cara e a namorada já assinalavam outra opção no campo “espaço civil” do contrato da NET, Deus, O Todo Poderoso, desceu dos céus. Foi uma loucura. Pessoas se ajoelhando, pedindo perdão pelos seus pecados, dizendo que fariam qualquer coisa para permanecerem vivos, imaginem que coisa legal deve ser você ser Deus. Enfim, o Supremo, quando finalmente conseguiu com um raio daqueles fazer com que toda a humanidade calasse a boca, disse que tava cansado daquela zona toda. Tomaria uma atitude drástica e definitiva e passaria o resto da eternidade no Rio de Janeiro vendo as moças passarem de bicicleta. Ou os moços jogarem altinha, se você for daqueles que acreditam que Deus é uma mulher. A atitude seria punir toda a humanidade, fazendo com que todos os seres, fora os pandas e os leopardos persas, fossem obrigados a assistir, por toda a eterna eternidade, ao Caldeirão do Huck.
Todos fora um humano, escolhido via sorteio para, junto com outra pessoa a sua escolha, passarem o resto dos tempos junto dele vendendo água-de-coco na praia. 

Tuesday, December 25, 2012

Morte


A morte é a pior coisa que existe. E digo a morte como a do tarô, com vários significados, todos eles arrasadores. As pessoas que dizem considerar a morte algo bonito, ou não estão com ela as rondando ou estão tentando amaciá-la. A morte é feia e malcheirosa. A morte dá vontade de morrer e só ressuscitar quando o mundo for bonito novamente.
Mas a morte também é como um parente chato que inventou estar com saudades apenas para passar uma semana na sua casa de praia. Você não pode negá-la. Não pode ignorá-la. Não pode expulsá-la por ela ser inconveniente. Tem de aguentar o seu cheiro podre. Tem que aguentá-la palitando os dentes após o almoço.
A partir do momento em que você se propôs a ter uma casa na praia, automaticamente se propôs a receber o parente indesejável.
Aí você se prepara psicologicamente para recebê-lo. Tenta relaxar, vou ter que passar por isso mais dia menos dia, que seja agora. Mas lá no fundo (e não tão fundo assim) ainda há a esperança de que ele não venha. O carro pode quebrar no caminho. Mudou de ideia. Tenta amenizar o sofrimento com toda essa preparação, mas na hora que ele chega é tudo inútil.
Você desaba. 

Tuesday, December 11, 2012

Uma manhã sem luz


Faltou luz aqui no trabalho. Oh, olha só, uma caneta, vamos tentar escrever alguma coisa.
Essa falta de luz veio em um bom momento, como quando no Orkut por uma bela surpresa o amor da sua vida visualizava o seu perfil e aquilo dava uma alegria inesperada capaz de durar umas duas semanas. Como na única vez em que aquela menina bonita, dona de uma cor de pele que autoriza o bom uso do batom, me respondeu no Facebook,  uma pena agora ela apenas visualizar minhas mensagens e nem me chamar de chato indiretamente dizendo que ela também é chata.
Por favor, moça bonita, me dê uma luz, ilumina minha vida, já que meu trabalho está numa escuridão só. Ser de luz própria que és, venha nos iluminar, ou melhor, não venha, que é para eu poder continuar a escrever minhas bobagens sobre ti só pelo prazer de ver a caneta deslizando, poucas esperanças que tenho de te convencer a sorrir pra mim como sorriu no dia em que nos conhecemos, de pegar tua mão macia e fingir dançar, como no dia em que nos conhecemos.
Ah, mocinha, me ensina das coisas de Goiás, me explica a diferença entre o sotaque de lá e o de Minas, me explica o porquê de JK não ter transformado Goiânia em capital do país ao invés de gastar aquela nota toda construindo uma cidade do nada ali do lado e colocando o breguíssimo nome de “Brasília”, me explica o porquê de os goianos formarem tantas duplas sertanejas se em Goiás nem ao menos tem sertão. Me explica como o Atlético Goianiense conseguiu subir meteoricamente para a primeira divisão, me explica o caso Carlinhos Cachoeira na visão dos goianos, que elegem a direita há tanto tempo e, finalmente, me explica o porquê de não gostar de mim, se temos tanto em comum de acordo com as coisas que curtimos no Facebook.
Acabaram de ligar para o chefe, que no momento está em Porto Alegre. Ele disse que não, não podemos ir para casa, que temos que continuar “trabalhando” coisa e tal. Acho que os outros funcionários irão organizar uma espécie de motim, algo como dormir durante toda a tarde. Acho que vou convencê-los a fazerem o mesmo para acabar com essa tua indiferença em relação a mim. Com a falta de luz que assola minha manhã e minhas pretensões de passar uma tarde inteirinha te fazendo cafuné, as pessoas aqui do lugar onde eu trabalho começaram a fofocar loucamente. Em questão de meia hora eu já sei desde as incompetências de uma tal de Marli até o nome do próximo Secretário de Educação da cidade. Parece um pouco piada, mas agora eles começaram a falar sobre  Sessão da Tarde. Não que seja ruim, eu adoro Sessão da Tarde. Passar aquela uma hora e meia vendo filme ruim e comendo besteira está entre as minhas 15 melhores coisas do mundo, logo atrás de usar pela primeira vez uma meia que acabei de comprar.
Vamos um dia, moreninha, passar a tarde toda vendo filme ruim e comendo besteira? “O Amor é Cego” e bolacha Maria com margarina. “Lagoa Azul” e marshmallows. Qualquer filme com o Eddie Murphy e Doritos. “Esqueceram de mim” e dois potes de pipoca com manteiga. Vamos fazer um filme ruim nós mesmos e não mostrar a ninguém . Um filme sobre uma mulher iluminada que aparece de repente e ilumina uma cidade inteira, sem luz há muito tempo. “A Moreninha Iluminada”, e aí assim, não mais que de repente, surja “A Moreninha Iluminada – O Retorno”.
Estão me avisando aqui que, finalmente, chegou a minha hora de ir embora. Ainda bem, pois estou louco de fome. Mas mesmo assim uma pena, logo agora que eu forçaria uma poesia fazendo uma metáfora entre a luz do sol que me aquece e me ilumina nessa manhã escura e o momento em que aceitaste minha tentativa e me deste a mão, blablablá, nada que eu já não tenha dito umas cem vezes durante esse texto construído durante uma manhã inteira. Vou me embora, prenda minha. Vou para a casa.
Espero que lá tenha luz.
Espero um dia “dançar” contigo novamente.
E a luz se fará assim.
Ponto Final.

Friday, December 07, 2012

Para a moça que me acha um pé no saco


Te conheci esses dias, moça lá do estado que eu não tinha muita simpatia, mas que agora por tua causa eu até que gosto. Parecia legal, parecia bonita, eu já estava meio bêbado mesmo, fui lá falar. Riste das besteiras que eu falei, respondeste algumas outras, mas deu pra ver claramente uma coisa muito triste: Me achaste um pé no saco. Para a tua sorte, já que é uma glória me ter como conhecido, pessoa futuramente muito rica e dona de uma capacidade intelectual invejável que serei, eu não me dou por vencido de primeira, como tu podes ver por esse outro texto que eu fiz em uma situação bem semelhante e que, se interessa saber, foi revertida pela minha graça, minha fofura e acho que devo um pouco ao meu perfume também.

Na bem verdade, se tivesses me ignorado completamente (tá, como fez no facebook esses dias), recusado minha solicitação de casamento no facebook ou ainda não dado risadas lindas do meu besteirol, eu teria desistido fáci fácil. Porque não seria o caso de tu me achares chato. Seria o caso de tu quereres a minha morte e eu realmente espero que essa não seja a verdade. Tu queres que eu morra? Se tivesses um pedido a fazer seria que eu caísse ali, durinho, no salão da festa? Irias ao meu enterro? Levarias flores? Acho que vou simular a minha própria morte para ver se tu te importarias.

Dançar realmente é uma arte muito complicada. Tem que fazer vários movimentos ao mesmo tempo, com várias partes do corpo e ainda tem que olhar para a outra pessoa. Realmente, tens razão. Eu mesmo sou um cara inteligentíssimo, cheio de talentos e não sei dançar. Sou meio duro. Um amigo, grande pé-de-valsa, certa vez tentou ensinar a mim e a outro amigo essa grande arte que é se mexer e isso ser aclamado pelas outras pessoas.  Era ensino médio, a gente era meio feio e precisava de alguma coisa pras guriazinhas gostarem da gente. Como pudeste perceber no dia em que te conheci, não deu muito certo.

Mas eu tentei. Eu sempre tento. Mais ou menos como a última coisa que eu te disse no facebook e que obtive resposta: O homem não sabia ler, não sabia escrever, não sabia fazer batata frita, mas em determinado ponto da sua história pensou: Cara, dá pra tentar isso aí.
Eu vou tentando.

Tuesday, November 27, 2012

Encomendas do Solstício

Olá!

Talvez vocês não saibam, porque eu não tenho muito senso de marketing, mas eu escrevi um livro com as coisas que eu publiquei aqui ao longo dos anos e mais algumas outras. Ele se chama Solstício, tem ilustrações da Patrícia Lindoso e foi lançado na Feira do Livro de Pelotas desse ano. Se tu, que estás lendo essa palavra agora, tiveres interesse em encomendar um (ou cem) exemplares, é só mandar e-mail pra queremossolsticio@gmail.com.

Obrigado!

Tuesday, October 16, 2012

Palhetas


Quando um quarto está todo bagunçado, com roupas espalhadas, cadernos revirados, gavetas abertas, gavetas que não abrem, é difícil achar algo que é ou era importante. É difícil achar no meio de tanta coisa bagunçada. Será que deixei no armário? Não foi debaixo da cama? Aí a gente esquece, nem que seja por um tempo. Depois aparece, assim de repente, quando eu não estiver mais procurando.
Acontece muito com palhetas. A verdade é que não existe um universo paralelo para onde elas – e também as borrachas – vão para serem felizes aproveitando a liberdade que lhes foi concedida após ultrapassarem a fina barreira que separa o mundo real do mundo das palhetas e das borrachas. A verdade é que elas ficam sempre lá. Escondidas no meio de um sofá, escondidas dentro de gavetas, esperando o momento em que alguém decide tomar a frente da situação e limpar tudo até, assim de repente, encontrá-las. Elas ficam lá, pedindo socorro antes que aconteça a tragédia de outro alguém varrê-las e, aí sim, elas sumirem para sempre.
Também pode acontecer de elas padecerem a essa espera. Pode acontecer de uma pessoa sentar em cima da palheta perdida e aí, depois da arrumação que se faz no quarto, ela ser achada quebrada no meio, tornando-se totalmente inutilizável. Nesse ponto da história das palhetas pode ser que exista outro mundo. Uma espécie de céu das palhetas, onde aquelas que se cansaram demais durante a vida, ou simplesmente caíram no esquecimento, descansam eternamente. Mortinhas da silva, mas descansando.

Wednesday, September 19, 2012

Dona Cecília



Talvez Deus, um pouco cansado de escrever a história de tanta gente, tenha resolvido dar para Fernando Sabino a tarefa de roteirizar o 80º ano de Cecília Giménez. 

Em uma bela, ensolarada e provavelmente muito inspirada tarde espanhola, a devota senhora resolveu restaurar a pintura Ecce Commo, retrato de Jesus Cristo feito na década de 30 por Elías García Martínez.  Confiando em seu talento, ela já pintava vasos de flores em casa, não tinha como dar muito errado, os responsáveis pela obra autorizaram. Vai lá, dona Cecília. Dona Cecília foi.

Quando toco violão em casa, preparo uma apresentação em casa, falo comigo mesmo em casa, sou incrível. Não tem quem seja melhor do que eu. Quando faço todas essas tarefas em público sou mais tosco que Sérgio Mallandro. Acho que foi isso que aconteceu. Seus vasos de flor, cestas de frutas, casas e ruas eram incríveis, mas, quando caiu a ficha da responsabilidade que seria restaurar uma obra tão importante como o Ecce Commo, a aposentada espanhola gelou. Católica, tentou rezar, mas Deus estava um pouco cansado de escrever a história de tanta gente, “agora não dá, dona Cecília”. 


Dona Cecília começou. Mão pesada. Braço trêmulo. Coração gelado. Até que não ficou ruim, dá pra continuar. Engole seco e vai, o tempo tá passando. Foi pintando e até ficou um pouco mais confiante, embora ainda gélida. O desenho do pergaminho ficou bom, nada mais pode dar errado, eu consigo. Mas, em um ato de puro impulso de alguém que está nervoso e erra até a pergunta de 5 mil no Show do Milhão, cometeu um erro gravíssimo. Apaixonada desde pequena pelos olhos ternos de Jesus Cristo, seu pastor e nada lhe faltará, resolveu desenhá-los antes de tudo. Qualquer pessoa que tenha uma pequena noção de desenho sabe que olhos, ainda mais que mãos, são a parte mais complicada na hora de desenhar. É preciso muita pesquisa prévia, é preciso muito cálculo e é preciso muito braço firme para um olho ficar perfeito. Por ser tão apaixonada pelos olhos de Cristo, dona Cecília se dedicou demais e, como acontece comigo, toda essa dedicação pressionou a senhora. Mas e se não ficar bom? E se Deus meu Senhor não gostar? Errou a mão.


Quando viu que não havia mais como consertar, dona Cecília passou por alguns estágios. O primeiro: Desespero. Não irei mais pro céu, ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus. Segundo: Raiva. Quer saber? Não quero mais pintar isso não significa nada sem os olhos lindos de meu Senhor vou me embora para a minha casa fazer um bolo e ficar com meus netos! Terceiro: Tristeza (daí o borrão na boca, dona Cecília chorou muito). Como pude fazer isso? Nunca faço nada direito mesmo, minha vida não serve pra nada. Viu sua história toda passar pela mente. 80 anos em um minuto. No meio daquela agonia toda surge uma luz. É Jesus Cristo, mas seus olhos já não parecem tão ternos. O Rei dos Reis se aproxima da espanhola e fala:

- Dona Cecília, o que foi que a senhora fez?
- F...F...Foi s...sem querer..er.
- Foi sem querer que Eu descobri o dom de caminhar sobre as águas. A senhora por acaso caminhou sobre as águas nesta pintura?
- N..Não, senhor.
- A senhora nem ao menos nadou sobre as águas.
- Mil perdões, meu Senhor, mil perdões.
- Pensarei em teu caso.

E dali Jesus Cristo se foi novamente em direção à luz. Dona Cecília resolveu ir pra casa descansar um pouco.


Quando acordou, rezou, tomou seu café e foi ver televisão. Se viu. Se desesperou. O mundo inteiro já estava sabendo daquela idiossincrasia que cometera. Resolveu que não sairia de casa nunca mais, esperaria o juízo final sentada em seu sofá rezando pela redenção de seu Senhor Jesus Cristo. Botaria até um vasinho de flor em cima da mesa para esperá-lo.


Um dia, então, sua vizinha veio trazer-lhe a informação: As visitas na igreja onde está o Ecce Commo restaurado aumentaram em uma proporção que só Deus sabe fazer a conta. Antes recebendo média de 400 visitantes durante todos os verões passados, depois da restauração de dona Cecília foram cerca de 30 mil. A igreja inclusive já planeja ganhar dinheiro, ou como estão chamando, "donativos" com o sucesso da sua restauração. Aí atacou os nervos. Mão Pesada. Braço Trêmulo. Coração gelado.

Sunday, August 12, 2012

Gentileza



O universo deve mesmo ser algo muito pequeno. Isso porque é preciso achar uma maneira de entender porque até os melhores seres, aqueles que facilmente teriam cargo vitalício por aqui, um dia partem. Partem porque o universo, além de muito pequeno, deve ser muito democrático e por, infelizmente, ter estas duas características, precisa constantemente ser renovado. Partem porque – ainda bem – a fila dos melhores seres que querem fazer parte do universo é gigante. Partem porque são gigantes e ocupam muito espaço em um algo que deve mesmo ser muito pequeno. E aí, gentilmente, cedem seus lugares para maravilhas novas fazerem cafuné na gente.  

Tuesday, July 31, 2012

Superpoder


Era uma vez um menino. Era uma vez um menino que sabia voar. Não necessariamente era um menino que queria voar. Ele só sabia. Também não era um voar estilo Super-Homem, com uma capa imponente, tampouco estilo anjo, com asas. Ele só sabia.
O menino usava esse “superpoder” quando julgava necessário – dentro do seu entendimento de necessário, coisa que vai de pessoa pra pessoa, de cachorro pra cachorro, de margarida pra margarida. Ele julgava necessário voar quando se sentia ameaçado. O que não acontecia lá muito, criança tranquila que era. Veja você que era exatamente essa tranquilidade que o fazia ser considerado ameaça e, por consequência, se sentir ameaçado. Os demais meninos, ao o verem daquela forma, não entendiam. Como alguém conseguia segurar tanta paz nas costas? O menino jogava bolinha de gude, claro, mas caso perdia – e isto acontecia bastante – não se importava lá muito. Também não tentava tirar proveito dos meninos menos habilidosos, chamando-os para duelos apenas para ganhar suas bolinhas. “Para que irei excluí-los da brincadeira?”, dizia. E era aí que os meninos partiam para cima. E era aí que o menino voava. Voava direto para a padaria ao lado do colégio e lá ficava, comendo bomba de chocolate.
Mais pra frente, quando o menino já amava as meninas, a sua tranquilidade continuava a lhe trazer problemas. Não que vivesse sempre em banho-maria. Era um menino de bastante atitude e borogodó. O que incomodava as meninas era a tranquilidade dele perante a sociedade. Certa vez perdeu uma namorada por ter lhe tascado um beijo apaixonado dentro de um elevador lotado. Outra por não ter lhe tascado um beijo apaixonado dentro de um elevador lotado. Mas não se importava muito. Quando um relacionamento começava a não valer mais a pena o menino simplesmente levantava voo. Voava pra casa e lá ficava até que desse vontade de sair de novo.
Não apenas no que dizia respeito ao lado afetivo, o menino cumpria este ritual em tudo na vida. De conversas triviais, onde para os amigos sempre foi uma grande dúvida se era a embriaguez que já estava alta ou se um amigo havia levantado voo ali diante de seus olhos, até no âmbito profissional. Não conseguia parar em emprego algum, pois assim que as tarefas não lhe eram mais interessantes ele levantava voo. Ali, de terno mesmo.
Até que ficou velho. E aí ficou mais velho, até que, tranquilamente,  levantou voo em direção a... Na verdade desta última vez não sei para onde o menino foi. Sei que foi. Mas eu também podia estar embriagado.

Thursday, July 12, 2012

Eu só queria dar umas risadas


Esse texto tem spoiler da 7ª temporada de How I Met Your Mother. Ou eu Inventei tudo.

Vocês não odeiam quando se preparam para uma coisa esperando só dar risada e ela acaba emocionando? Sei lá, como quando eu baixo um episódio de How I Met Your Mother e ele é sobre a Robin não poder ter filhos. Minha internet anda meio lenta, então eu espero mais ou menos uma hora para um episódio em 720p terminar de baixar. Depois que essa parte se conclui, eu vasculho a casa inteira atrás de um pen-drive para passar o arquivo pra TV da sala, onde me sento, me tapo, pego comida e a minha gata sobe pra tentar pegar a comida de mim.

Enfim dou o play, já exercitando a mandíbula para as risadas. Quando desligo a TV vem nó na garganta. Pô, não era isso que eu queria. Fiz essa burocracia toda porque às 02:14 da manhã eu queria dar umas risadas. Se fosse um domingo às 21h eu ia querer sofrer vendo Melancholia ou algo do gênero, mas hoje, às 02:14, eu queria dar umas risadas. Nada contra colocarem esse drama na série, acho que enriqueceu a personagem, blablabla. Até o Chaplin colocava pitadas de drama nos seus filmes, a questão não é nessa. Sei que drama embonifica as coisas, mas, com o perdão do egoísmo, às 02:14 da manhã eu queria dar umas risadas! Saca quando a tua alma tá com o (insira aqui o nome do músculo entre a bochecha e a boca) dolorido de tanto rir, mas tu queres colocar isso pra fora? Então, era mais ou menos isso. Eu queria usar o How I Met Your Mother como um meio para transferir as risadas da minha alma para o meu corpo. Não queria passar horas e horas pensando o quão triste deve ser para as mulheres reais passarem por essa situação, se também tem amigos tão gente fina quanto os da Robin, às 02:14 da manhã eu queria dar umas risadas!

Me crucifiquem, me chamem de simplório, inventem adjetivos pejorativos para mim, mas, principalmente nestes últimos meses, em que meu coraçãozinho tá descansando numa rede, a diversão é o que tem sustentado a minha graça. Não é que eu esteja cheio de nãometoques emocionais. É que, cara, às 02:14 da manhã o que eu quero mesmo é dar umas risadas.

Tuesday, July 10, 2012

Por um mundo com os olhos de Alison Brie

Eu tenho uma teoria. 




Sei que acaba ficando monótono escrever um texto inteirinho só sobre uma única pessoa, mas acredito que se todo mundo tivesse acesso aos olhos de Alison Brie os problemas do universo todos se extinguiriam. Não digo só os problemas que surgiram depois que ela nasceu.



Acho que se realmente existisse um Deus, esses olhos teriam sido as primeiras coisas a serem inventadas. Eva seria Alison Brie. Imagina se Caim, vendo os olhos azuis de sua mãe, teria a ideia cruel e seca de matar o próprio irmão. Daí por diante. Sei lá, vamos pegar ali a Idade Média. Quem precisaria da Igreja? Ou, se por um desvio da humanidade ela tivesse sido criada, quem contestaria a teoria da Igreja de que aquilo só poderia ter sido criado por um ser superior? Dois olhos lindos daquele jeito, formados assim, ao acaso? Não, impossível. Avancemos. Por que Hitler teria todo aquele ódio todo no coração se Alison Brie franze a testa fazendo uma cara de séria que dá vontade de rir e apertar? O Capitalismo seria baseado em pessoas querendo ter mais Alison Brie para si, mas para que mais Alison Brie para si? Aqueles olhos são como açúcar. Na dose certa é a perfeição. Não tem motivo para ter mais. Pensem em quantos problemas isso evitaria. Muro de Berlin, fome na África, Terrorismo (ori e ocidental). Por que diabos políticos haveriam de roubar dinheiro, se já teriam os olhos de Alison Brie? 

E os países se invadindo em busca de petróleo? Imaginem que incrível seria o mundo se tivéssemos Alison Brie e não petróleo!

Tuesday, April 17, 2012

Beterraba




Quando a gente é criança é muito difícil gostar de coisa ruim. É complicado aceitar o fato de que beterraba tem gosto de terra, porém é rica em proteínas vitaminas potássio sódio fósforo cálcio zinco ferro manganês, mas, depois que o tempo passa – e a gente cresce – esquece-se do gosto ruim da beterraba, porque, afinal, a beterraba não existe pra ser saborosa. Ela tá ali pra fazer bem. Só que aí nós, os eternos insatisfeitos, dizemos que “fazer bem” é um lance relativo. E se importar com o que é relativo não tá aí pra fazer bem.


Wednesday, March 28, 2012

Millôr



A primeira vez que li Millôr Fernandes foi no banheiro. Me sentei, vi um livro fininho e resolvi que ele me acompanharia naquela jornada. E ali fiquei por um longo tempo após tê-la cumprido.

Millôr escrevia em 3D. E lá no tempo do guaraná com rolha. Escrevia verticalmente, característica sua, mas não se contentava; ia lá e colocava um desenhinho que deixava tudo 150%.

Aí todo mundo entendia. Todo mundo ria. Todo mundo ria porque Millôr foi o melhor humorista brasileiro. Todo mundo ria porque Millôr escrevia do jeito que queria e do jeito que todo mundo queria. Não dava para – e nem precisava – e que história é essa de passado? - não dá para – e nem é preciso – saber se Millôr diz “entendeu ou quer que eu desenhe?” ou “entendeu ou quer que eu escreva?”.

Em uma época em que se discute tanto a liberdade do humor, vemos Millôr, o velho Millôr, ser tão livre que perfura sem perfurar. Bater, esconder a mão, mas deixar o cotovelo de fora. Muito maior do que correto ou incorreto, o humor millorista é natural. Agora ele vai lá encontrar outros seres tão livres quanto. Vai encontrar o grande mentecapto, Stanislaw e quem mais ele quiser.

Tuesday, March 20, 2012

nos

quando me deixaste, quis eu morrer de um jeito bem Tomás Antônio Gonzaga, mas pior ainda, porque sou um cara da cidade e não sei tirar leite de vaca, depois te deixei, quis eu morrer de nervosismo, sem saber direito se estava fazendo o certo, como quando se escolhe tomar leite com Nescau ao invés de Coca e na hora não há Nescau o suficiente, só pra um golinho e me deixaste de novo, ficando eu inconsolável, querendo eu morrer por ter escolhido o leite ao invés do refrigerante, mas agora tentei eu pegar tua mão tentaste tu fugir não conseguimos nós ficarmos juntos tentaram outras pessoas nos conquistar conseguiu ela o meu apreço e agora quer o mundo deixar tudo em paz e quer a paz nos deixar.

Monday, February 20, 2012

Cílios

O mundo, infelizmente, é um troço muito grande. E, para o enriquecimento das ironias do universo, quando um cílio, infinitamente menor do que a Terra, cai em um olho, Deus do céu, o ser humano não consegue ficar quieto – no seu canto. Eu, que tenho olhos grandes, já sofri com muitos cílios-sorrisos. Com muitos cílios-corpos. Cílios-olhos. Coça daqui, assopra dali, pede ajuda pra qualquer estranho que aparece pela frente, mas, mesmo que o assopro funcione, mesmo que cavoucar o globo ocular traga bons resultados, o olho ainda dói. E dói mais do que a coceira causada pelo cílio rebelde. Mas incomoda menos.