Wednesday, March 12, 2014

Madrugada

Porque ela pensou que ele tinha pensado algo ele pensou que ela tinha pensado algo e fez uma cara estranha. Porque ele fez uma cara estranha ela pensou que ele tinha pensado algo e ficou pensando no que tinha dito para ele ficar tão sério assim de repente. Ele ficou sério de repente porque sempre fica com medo de parecer bobalhão nesses momentos, e por ela ser mais velha, pensou que não era o caso de parecer bobalhão. E aí passaram dias sem se falar.
Porque ele há dias não falava nada ela ficou pensando que tinha estragado tudo, como sempre fazia, na vida inteira, mas era assim mesmo, fazer o que, não ia mudar seu jeito assim de uma hora pra outra e talvez nem valesse a pena, ou até valesse, mas ela não estava tão disposta assim a fazer as coisas valerem a pena e andava tão ocupada que não tinha tempo pra ficar se martirizando por “ter estragado tudo, como sempre fazia, na vida inteira”. Aí resolveu ficar off-line. Aí ficou pensando que ele ia pensar que ela tinha ficado off-line pra ele não ir falar com ela. Aí pensou em ficar online de novo. Aí pensou que ele ia pensar que ela tinha ficado off-line pra ele não ir falar com ela, mas que depois desistiu.
Porque ela há dias não falava nada ele ficou pensando que havia passado dos limites nas bobagens e olha só ela acabou de compartilhar um link supercabeça, será que “supercabeça” se escreve assim ou se escreve com hífen?  Essa nova ortografia complica demais uma língua que antes era deliciosamente complicada, que absurdo. Pensou em puxar assunto falando sobre nova ortografia, mas lembrou que eles já tinham falado sobre isso, e na verdade ele pensava que os dois já tinham conversado sobre todos os assuntos do mundo, até que ela sem querer falou (diz ele que em outras palavras) que ele era meio fútil e desde então ele tem pensado cinquenta vezes antes de puxar qualquer assunto.
E já passava das 4 da manhã. Ele achava legal ela ficar online às 4 da manhã.
E aí ela ficou off-line. E ele pensou que era um cagão mesmo.
Aí passou mais um tempo.
E durante esse tempo ela postou um link com livros do Foucault.
E ele postou um vídeo besta de Friends e ficou se sentindo idiota, porque resolveu conversar com outra nesse meio tempo e essa outra achava Friends besta.
E se passou mais um tempo.
Aí ele se embebedou no aniversário de 76 anos da avó e resolveu mandar mensagem. Ela estava estudando e não entendeu nada, mas resolveu responder qualquer coisa pra não parecer grossa. Ele falou que queria que ela fosse namorada dele pra poder morder a bochecha dela sem ser preso por isso. Ela falou que provavelmente o mandaria preso mesmo que eles fossem namorados. Ele disse que então ela enxergava a possibilidade do ajuntamento. Ela disse que não foi isso que disse. Ele disse que mas, porém, todavia, entretanto ela disse. Ela quis desconversar e perguntou como estava a festa. Ele pensou que ela estava mudando de assunto porque não estava mais interessada e ficou sério o resto do aniversário inteiro. Aí chegou em casa e viu que ela estava estudando enquanto ele falava merda. Aí botou a mão na testa.
Porque ele não respondeu mais nada, ela ficou pensando que mais uma vez tinha sido insensível, mas não dá pra ficar o tempo todo pisando em ovos, tenho que dizer o que eu penso, que coisa mais chata, uma hora me irrito e nem respondo mais, que cara chato e que se ofende com umas coisas sem sentido, tenho paciência não.
E se passou mais um tempo.
E durante esse tempo ele pensou que ela tinha desistido de vez, tinha visto que na verdade ele não era tão legal quanto parecia naquelas conversas de, sei lá, três horas, e que talvez até tenha voltado para algum ex mais interessante. Isso sempre acontecia, não era novidade alguma e ele não estava surpreso. Essa era a sua sina. As mulheres o achavam interessante no início, o papo é bom, mas depois ele sempre estraga tudo. A culpa é da ex. A culpa é da família, que nunca lhe deu carinho o suficiente. Que nada, a culpa é minha mesmo.
E se encontraram na mesma festa onde, há dois anos, ele gostou do movimento dela. E ele falou pra ela que eles estavam na mesma festa onde, há dois anos, ele gostou do movimento dela. Ela riu e pediu pra ele atualizar a ordem cronológica dos fatos porque não lembrava mais, mas na verdade ela gostava de ouvir ele contando. Ele contou que viu ela primeira vez na fila de uma festa, depois em outra e só depois num show resolveu puxar assunto. Ela riu e pediu pra ele contar pra uma amiga que tinha voltado do bar. Ele contou de novo, porque também gostava de contar e porque achava que essa amiga não gostava muito dele, então também tentou engatar algumas piadinhas sem graça, mas que a amiga acabou gostando e deu tudo certo. Ele chamou uns amigos pra entrarem na roda. Os amigos dele foram embora, um estava com pneumonia e o outro desfilaria num evento militar na manhã do dia seguinte, mas ele resolveu que ficaria e ela não queria deixá-lo sozinho, então o chamou pra ficar junto no grupo. E ele ficou no grupo.
Porque ele não tinha como voltar, ela ofereceu carona. Eles moravam muito longe um do outro, então ele disse que não precisava, mas já abrindo a porta do carro.
E aí ele olhou nos olhos dela.
E aí ela não entendeu muito bem a reação dele.
E aí ele a beijou.
E aí ela quase atravessou uma preferencial aonde vinha uma van.
E ele falou que seria uma morte muito triste se eles morressem agora.
E ela falou que seria uma morte muito besta, isso sim.
E aí ele fez uma cara estranha.

Porque ele fez uma cara estranha ela pensou que ele tinha pensado algo e ficou pensando no que tinha dito para ele ficar tão sério assim de repente

Friday, March 07, 2014

Dia para lembrar as lutas

O dia 8 de março é marcado por ser o Dia Internacional da Mulher. Ao contrário daquilo que determina o senso comum graças a décadas de distorção em torno do assunto, a data representa algo muito maior do que o cafuné, a flor, o perfume ou o estojo de maquiagem recebidos por elas com o objetivo de mantê-las no lugar designado pelos homens. Também não é exatamente um momento de celebração. É uma data marcada pela lembrança. A lembrança da luta das mulheres por um status de pesadíssima leveza e simplicidade: o de igualdade. Essa inferiorização também é notada no que tange o espaço para o sexo feminino na produção cultural brasileira.
Coadjuvantes
Há cerca de 70 anos a escritora britânica Virginia Woolf publicou dois artigos, A nota feminina na literatura e Mulheres romancistas. Neles, a autora buscou debater e criticar as dificuldades que as mulheres encontravam para alcançar o sucesso com seus escritos, além de rebater afirmações à época de que a literatura feita por elas era inferior. Recente estudo da professora da Universidade de Brasília (UnB), Regina Dalcastagnè, aponta que pouca coisa mudou em nossa sociedade neste aspecto. Segundo a pesquisa, 72,7% dos romances lançados entre 1990 e 2004 no Brasil foram escritos por homens.
Outro dado da pesquisa: 62,1% das personagens consideradas importantes nas produções são do sexo masculino, contra 37,8% de personagens femininas. Através destes dados, Regina conclui que, ao contrário da forma como fomos condicionados a pensar com o passar dos séculos, a voz masculina tem, sim, um gênero, o que acabou por criar duas categorias: literatura e literatura feminina. Esse ponto de vista é acompanhado pela escritora Luisa Geisler, natural de Canoas. “A recepção ainda é um problema: existe um preconceito de que uma mulher escreve pra mulheres, de que uma mulher escreve de uma maneira específica, de que mulheres ‘falam muito de sentimentos’, enquanto homens atingem os dois gêneros.” Para a escritora pelotense Angélica Freitas a mudança tem de partir por quem lê. “Acho que no Brasil as editoras, os prêmios literários, os leitores estão apaixonados por senhores. A situação não vai mudar enquanto não decidirmos comprar mais livros de autoras brasileiras.”
Cinema feminista
O cinema é responsável pela formação da opinião pública acerca de questões sociais até então pouco debatidas. Caso do mais recente vencedor do Oscar de Melhor Filme, 12 anos de escravidão. O longa de Steve McQueen, além de importante relato da era escrava nos Estados Unidos, reacende a discussão sobre o quão extinta a escravidão realmente está.
Sendo assim, o cinema também se transforma em importante ferramenta para a propagação dos ideais de luta pelos direitos das mulheres. E são muitos os exemplos de filmes que abordam a temática feminista de forma responsável, enfática e até mesmo didática (pois tudo tem de começar cedo). Mas este espaço que teoricamente as mulheres teriam para propagação de seus ideais parece esbarrar, mais uma vez, na inferiorização. “No cinema, os lugares que as mulheres ocupam, na maioria das vezes, são os que são ‘destinados’ pra elas em outros âmbitos: ou elas trabalham com os figurinos ou são as atrizes. Papéis de direção são raramente tomados pelas mulheres”, afirma a professora do Centro de Artes da UFPel Ana Paula Penkala, que critica os papéis exercidos. “Ou elas exercem os papéis tipicamente femininos ou estão servindo, como no caso das atrizes, muitas vezes como um espelho de como a mulher é vista ainda na cultura.”
Frente feminista
A importância do cinema para propagação do debate acerca da opressão a que são submetidas as mulheres também é ressaltada por Daniele Rehling, membro da Frente Feminista Giamarê, em Pelotas. “É mais didático e facilita na luta”, afirma, lembrando de cine-debates promovidos pelo grupo para passar adiante a ideia.
A Frente Feminista Giamarê nasceu durante a articulação da Marcha das Vadias, em novembro de 2013, da necessidade de se fazer eventos como este durante o ano inteiro. Daniele conta que, para este 8 de março, serão realizadas diversas oficinas em escolas sobre a data e as mais variadas violências contra a mulher. No sábado, às 10h, haverá panfletagem convidando para uma exposição de vídeos feministas mais tarde, às 20h, na frente do Mercado Central.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Thursday, February 13, 2014

Cinema ao Sul do mundo

O momento é de destaque. Apesar de haver muito ainda o que se construir, há de se concordar que a América Latina está na vitrine do mundo, embora ainda tenha de ser discutido o quanto isso é positivo e muda de fato a vida das pessoas daqui. Com leis progressistas decretadas por um presidente que dirige um fusca, o Uruguai foi considerado o país do ano passado pela revista britânica Economist. Com a Copa do Mundo, as Olimpíadas de 2016 e os protestos contra a vinda destes eventos para cá, o Brasil estampou capas de jornais do planeta inteiro em 2013.
Esse protagonismo parece refletir-se no cinema produzido pelo Sul da América, que conquistou seu segundo Oscar em 2010 com o argentino O segredo de seus olhos e dois consecutivos prêmios Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim, com o brasileiro Tropa de elite, em 2008, e o peruano La teta asustada um ano depois. Em 1998, o Brasil já havia vencido com Central do Brasil.
Um panorama sobre esse atual momento passa por análise de suas características. Historicamente, o cinema latino-americano fora qualificado como uma escola mais realista que as demais. Enquanto Hollywood, por exemplo, canta o mundo inteiro e assim o conquista, as produções feitas mais ao Sul prezam por histórias sobre a sua gente, sendo cases com este objetivo os de maior sucesso.
Da América Latina para a América Latina
Em mesa de debates do Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente intitulada Nuevos Caminos del Cine Latinoamericano, a colombiana Mónika Wagenberg, diretora do Festival de Cine de Cartagena e idealizadora da Cinema Tropical (distribuidora de cinema latino-americano nos Estados Unidos) propôs explicações para essa excitação criativa, acompanhada de renovação, e credita exatamente a esse viés mais realista o êxito: “O que vemos é uma preocupação, um compromisso com o que é real”, afirmou. Mónika ainda disse considerar um momento de produções extremamente autorais. “Também filmes intimistas, pessoais, que não querem julgar. São filmes de personagens, que tratam espaços interiores, o mundo dos sentimentos e famílias comuns e disfuncionais”.
Porém, o fato de o cinema latino-americano estar alcançando novo patamar de reconhecimento não é, para todos, o principal triunfo. César Charlone, diretor uruguaio de O banheiro do papa e responsável pela fotografia de filmes como Cidade de Deus, acredita que o maior contato do próprio público latino com suas produções é o que mais conta. “O importante primeiro é a gente se ver. Ver filme equatoriano num festival do Equador, como vi. Filme peruano no Peru”, afirmou em entrevista ao Diário Popular. Charlone também vê com destaque o firmamento de acordos de coprodução cinematográfica entre países latinos. “Tem recentemente assinado um entre Brasil e Uruguai, já havia um entre Brasil e Argentina. São fundamentais. É assim no cinema europeu. Você não vê um filme que não seja uma coprodução de vários países. Isso abre salas, abre público”, disse.
A seguir o leitor encontra exemplos atuais e clássicos desta característica latina de se produzir filmes: contando histórias a partir de sua própria história. A partir de seu próprio povo.
Brasil
Tropa de Elite (2007)
Vencedor do Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim, o mais recente sucesso brasileiro de público e crítica surgiu em 2007 antes mesmo de chegar às telonas. Foi o primeiro filme produzido no Brasil a vazar, meses antes, para o mercado pirata e a internet. O longa, dirigido por José Padilha, gerou interpretações mistas. Capitão Nascimento, o protagonista vivido por Wagner Moura, chegou a ser considerado um herói nacional, ideia fortemente rechaçada por Padilha, que afirmou ter sido exatamente contrária à mensagem a ser passada. Capitão Nascimento não era herói, mas sim vilão e o próprio endeusamento do personagem tinha o objetivo de servir de alerta. Veio então o segundo filme, com o intuito de desconstruir a imagem que a opinião pública brasileira havia erroneamente construído a seu respeito.
Terra em transe (1967)
Exatos 40 anos antes estava a pleno vapor no Brasil o Cinema Novo. O movimento, composto por nomes como Cacá Diegues, Gustavo Dahl e Glauber Rocha, surgiu em meados dos anos 1950 como uma antropofagia do neorrealismo italiano e da nouvelle vague francesa. O resultado esperado era um cinema que refletisse mais a realidade brasileira, com mais conteúdo e menos custo, e que fosse contra à alienação cultural causada pelas chanchadas.
Terra em transe, de Glauber Rocha, venceu o Festival de Cannes e pertence à segunda fase do movimento, prolongada de 1964 a 1972 e com o objetivo de refletir sobre o momento de Ditadura Militar e suas consequências no Brasil. Por caracterizar-se como um grupo de confronto à política de desenvolvimentismo imposta pelos militares, o Cinema Novo, aos poucos, dissolveu-se, porém se renovando com a criação do cinema marginal.
Argentina
O segredo dos seus olhos (2009)
Em 2010 O segredo dos seus olhos foi o segundo filme latino-americano a vencer o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (o primeiro você saberá logo abaixo). Baseado no livro La pergunta de sus ojos, o longa conta a história de Benjamín Espósito, um ex-servidor da justiça penal argentina que, recém-aposentado, procura aproveitar o tempo livre para escrever um livro. Para tal, inspira-se em um caso real ocorrido 25 anos antes e que sempre o comoveu: o brutal estupro seguido de assassinato de uma bela jovem, Liliana Colotto.
O segredo dos seus olhos foi o responsável por trazer ao conhecimento do grande público o provável principal personagem da nova fase do cinema argentino. Ricardo Darín parece onipresente nas produções hermanas atuais, mas talvez a verdade seja que apenas chegue até nós aqueles longas alavancados por sua presença.

A história oficial (1985)
Primeiro longa latino-americano a vencer o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, A história oficial, de 1985, também surge, assim como Terra em transe, como forma de reflexão sobre um período de ditadura, nesse caso a Revolução Argentina, como ficou conhecido o período em que os militares governaram o país vizinho.
O longa conta a história de Alicia, uma conservadora professora de História que parece estar alheia à realidade do país e acreditar nas informações transmitidas pelo governo. Em decorrência disso, a protagonista começa a ser confrontada pelos alunos. Com a chegada de uma amiga que havia sido torturada e exilada pelo regime, Alicia começa a abrir os olhos para a verdadeira história argentina da época.
Uruguai
A Casa (2010)
Quatro dias foi a duração das filmagens do terror uruguaio A Casa, de 2010. Dirigido por Gustavo Hernández, o filme tem outro dado incrível, tendo em vista os altíssimos orçamentos cinematográficos atuais: Foi rodado com apenas US$ 6 mil. Filmado com uma câmera dessas que eu e você temos em casa, o longa foi exibido em Cannes, entre outros festivais internacionais.
Equador
A que distância (2006)
A produção cinematográfica no Equador vive grande momento. Um dos grandes exemplos disso é a diretora Tania Hemida, que lançou em 2011 Em nome da filha e já havia dirigido, em 2006, A que distância, filme rodado em montanhas e praias de oito províncias do país, Pichincha, Cotopaxi, Tungurahua, Chimborazo, Cañar, Azuay, Manabí e Guayas.
Peru
A teta assustada (2009)
Após a vitória do argentino O segredo dos seus olhos no Festival de Berlim de 2008, no ano seguinte foi a vez de outro sul-americano: A teta assustada, peruano dirigido por Claudia Llosa garantiu a dobradinha.
O filme, que também venceu o Festival de Cinema de Havana, é baseado no mito andino de que as mulheres estupradas passam uma doença rara, chamada teta assustada, para os filhos provenientes do crime, através do leite materno. A protagonista, Fausta, tem a síndrome, pois a mãe fora estuprada durante a década de 1980. Ela então resolve fugir do mundo para evitar que o mesmo a ocorra.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Thursday, February 06, 2014

Marcado pela insatisfação

“Somos a bola da vez”. Assim César Charlone, diretor e fotógrafo uruguaio responsável pela direção de O banheiro do papa (2007) e pela fotografia de filmes como Ensaio sobre a cegueira(2008), O jardineiro fiel (2005) e Cidade de Deus(2002), define o momento vivido pela América latina, tanto no cenário cultural, como no cenário econômico e social. Enquanto seu filme La redota - Histórias de Artigas era exibido na semana acadêmica dos cursos de Cinema da UFPel, o cineasta conversou com o Diário Popular sobre estas e outras questões.
Charlone pertence a uma geração marcada por uma insatisfação com o sistema capitalista e seus traços na sociedade, o que, segundo ele, se refletiu na escolha das profissões. Enquanto alguns colegas partiram para o jornalismo investigativo e a advocacia voltada para a defesa de presos políticos, sua vocação se mostrava mais artística. Resolveu então contribuir através do Cinema de denúncia. “E me interessei por isso, comecei a frequentar um cineclube no Uruguai que tinha essa preocupação de mostrar documentários e filmes políticos, como de Santiago Álvarez”.
Atual momento do Cinema
Vive-se duas revoluções no mundo cinematográfico atual, segundo Charlone. A primeira, maior, é de nível mundial e abrange outras áreas que não somente a Sétima Arte. É o surgimento da plataforma digital, aliado à democratização dos meios. “Olha como eu fazia filmes no início: eu tinha uma colega cujo pai era encarregado de resolver a final das corridas de cavalo. Tinha câmeras de 16mm apontadas para a linha de chegada e, quando acontecia um possível empate, eles usavam um reversível. Ele levava num laboratório lá mesmo no jóquei, revelava e fixava o quadro para ver quem tinha ganho. A gente revelava nossos filmes lá”. Muito diferente do cenário atual, em que um filme gravado com uma câmera fotográfica digital tem a chance de ser exibido em Cannes, como foi o caso do uruguaio A casa, de 2010, com exibição neste e em outros festivais internacionais.
A isso soma-se a maior facilidade de divulgação trazida pela democratização dos novos meios. “Hoje você produz e coloca no Vimeo, no Youtube, tem grande qualidade e muita gente vê. A revolução é oPorta dos fundos. Daqui a uns anos, quando olharmos a história do Cinema, isso será o principal”, afirma.
Charlone também destaca o maior reconhecimento e repercussão do Cinema latino-americano, mas ressalta que a principal conquista é o fato de os latino-americanos estarem se assistindo. “Pegamos carona com a Argentina e o México, com o próprio Cinema Novo que já tinha começado. Mas o importante primeiro é a gente se ver. Filme equatoriano num festival do Equador, como vi”.
Essa vitrine cinematográfica em que se encontra a América Latina parece passar pela sociedade como um todo. “Estamos bem. Tem muito para fazer, mas estamos governados por um projeto social. Não é uma pessoa, um partido. Não é o Pepe (Mujica) ou a Dilma. São várias pessoas que lutam por um lugar melhor e que agora estão conseguindo que os uruguaios pelo menos comam e se eduquem. Acho que estamos indo bem”, afirma o diretor.
Lei da TV paga
Com o objetivo de aumentar a produção e a circulação de conteúdo audiovisual brasileiro diversificado e de qualidade, o governo Federal sancionou, em 2011, a Lei da TV Paga, que obriga canais predominantemente exibidores de filmes, séries, animações e documentários à veicularem produções brasileiras por três horas e trinta minutos semanais de seu horário nobre - das 11h às 14h e das 17h às 21h nos canais direcionados para as crianças e de 18h à 0h para os demais. Charlone, que trabalha no seriado Destino: São Paulo, da HBO, mostra entusiasmo com a iniciativa. “Isso é conquista de espaço. Lamentavelmente o estímulo ao Cinema de tela não está voltando pro contribuinte que paga imposto. Essa grana que sai do nosso bolso vai pra produção de um filme que é visto por três mil pessoas. Uma minissérie que fala sobre assunto nacional, que é escrita por roteiristas nacionais e vista por milhões, acaba sendo bem mais interessante pro contribuinte”.
Falta de recursos como estímulo à criatividade
Não é segredo a dificuldade em produzir Cinema quando o assunto é a captação de recursos. Principalmente na América Latina, longe ainda de receber a repercussão de público e os investimentos financeiros oriundos dela que as produções norte-americanas e europeias têm. Uma explicação para as constantemente melhores histórias contadas no Terceiro Mundo é dada por Charlone: “Acho que a falta de recursos é uma provocação para inventar. Mas tem que ter dinheiro. Acho que é função do Estado financiar cultura, através da construção de salas de cinema. Tem que ter órgãos que promovam isso, criando salas que exibam filmes bons não porque dará dinheiro, mas porque são educativos e relevantes. Assim como conquistamos o espaço na TV a cabo, temos que conquistar o espaço dos cinemas”, afirma.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Wednesday, January 29, 2014

Hardcore na estrada

Pelotas, 13 de janeiro. Noite. Em meio a um temporal, um grupo de cinco jovens cruza os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina em um carro lotado de parafernálias. Poderia ser a viagem de verão mais furada rumo às praias catarinenses, mas foi o início da turnê da Suburban Stereotype, que passou por Curitiba (PR), Urussanga (SC), Florianópolis (SC) e Canoas (RS).

Curitiba, a capital do rock
Florianópolis, 15 de janeiro. Após realizar ensaio no estúdio Pimenta do Reino, a banda parte por volta das 16h rumo a Curitiba. Com todo cuidado possível para vencerem o congestionamento na saída da cidade e a chuva que refresca o verão da serra catarinense. Hospedam-se na casa de João Machado, da Better Leave Town, que se apresentara em Pelotas em setembro. João é um dos grandes amigos que o hardcore proporciona após festivais do estilo e recebeu os membros da banda pelotense com toda a cordialidade.

Curitiba sempre foi um dos grandes redutos do rock no Brasil. Melhor lugar impossível para começar a turnê da Suburban. Clima de festa no bar Dame Dame. A banda local Josh Making Songs lança EP na noite. Surpresa. Surge o primeiro amigo pelotense: Fabrício Luerce, conhecidíssima figura do “mundo alternativo” pelotense. Chega a hora de subir ao palco - uma espécie de garagem, aumentando o clima underground da ocasião. Show mais curto da turnê, com público sério, mas interessado no som pesado e direto da banda.
Urussanga e um castelo
Curitiba, 17 de janeiro. A banda deixa a capital paranaense rumo à região metropolitana de Criciúma. Ao quase entrar no estado do Rio Grande do Sul, a suspeita de algo errado. O destino fica no Sul de Santa Catarina, mas a banda já está na estrada há mais tempo do que fora imaginado no planejamento. Perdidos, dão meia-volta e chegam à cidade de Urussanga, local do segundo show.

Um grande portão com enorme placa em forma de guitarra os espera. Os músicos são recebidos pelos responsáveis pelo local, chamado Ventuno. Hulk, o proprietário, é um fã de rock que construiu uma casa destinada a receber shows. Deixou para trás duas empresas e apostou todas as fichas no lugar. O resultado foi um castelo com gigantesca estrutura. Vários artistas nacionais, como Raimundos e Ratos de Porão, já passaram por ali e agora é chegada a vez da Suburban Stereotype se aconchegar em uma sala com um balde de cervejas antes de subir no magnificente palco da casa.

Após apresentação para um público pouco menos contido do que o paranaense, o grupo se hospeda em Cocal do Sul, na casa de Rodrigo Zanette, responsável pelas duas datas da Suburban em Santa Catarina.

Florianópolis e o pedido por menos volume
Cocal do Sul, 18 de janeiro. Florianópolis está no caminho inverso feito até então. Serão necessárias algumas horas a mais de viagem. Zanette, então, consegue uma van para fazer o deslocamento até o General Lee, local do terceiro show da turnê.

É uma casa de rock também, mas com formato mais clássico - qualquer uma seria comum após Ventuno - com mesas lotando o bar. A apresentação fora organizada pelo coletivo O Clube, que promove a festa Conexão. Tendo em vista o ambiente mais voltado para apresentações menos enérgicas, cresce a preocupação com a aceitação do público em relação ao som pesado da Suburban. Surge então o pedido para que os rapazes “tirem o pé”. O que é sumariamente ignorado. Com a energia de sempre, o quinteto hardcore conquista a plateia. Mais um sucesso.

Canoas e a perfeição
Canoas, 19 de janeiro. A banda chega ao destino do último show da turnê no fim da tarde. Clima de confraternização com as demais bandas que dividirão o palco mais tarde.

O show acontecerá no estúdio Black Bird em evento organizado pelos já conhecidos Guilherme Gonçalves e Wender Zanon, agitadores culturais locais e amigos.

No momento de subir no palco, a consagração: bons equipamentos, espaço lotado, amigos e bandas quebrando tudo. A melhor celebração para encerrar este capítulo da breve história da Suburban Stereotype. Estão quase em casa.

Cristal e a volta
Cristal, 20 de janeiro. A banda decide encostar no Paradouro 6 para jantar. Muito movimento. Adentram o restaurante e são recebidos com muita cordialidade: 
- Só estamos servindo com reservas, podem ir embora! Não vamos servir vocês, vão embora!
Só restava ir para casa.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Tuesday, January 28, 2014

Procura-se espaço

O poeta Rogério Nascente, conhecido pelo blogCertas palavras, lançou este mês, com distribuição gratuita, fascículo homônimo não apenas com textos seus, mas também produções de outros escritores, compondo sete das oito páginas da publicação - a última foi dedicada à biografia da poeta brasileira Cora Coralina e crônica escrita por ela. O lançamento coloca os olhares literários focados nas produções coletivas, feitas por pessoas que, além de terem algo em comum a dizer, encontram as mesmas vocações, sonhos e dificuldades.

Esse não é o primeiro trabalho de Nascente acerca da publicação literária feita de forma comunitária. Em 1997 ele produziu o Mural do Sul, jornal que tinha como objetivo colaborar para a fomentação da literatura por aqui. O parceiro Paulo Cezar Lisboa das Neves, que diagrama a versão impressa do Certas palavras, o acompanhou também na parte gráfica do projeto anterior.
A primeira edição do fascículo, lançada este mês, ainda é composta à base de convites feitos por Rogério a escritores amigos do país inteiro. A partir de fevereiro, porém, a ideia é que interessados procurem o poeta para terem seus textos publicados. Caso aconteça de o número de textos enviados ser maior do que o de páginas, os últimos a serem enviados serão guardados para o próximo mês. Não haverá uma seleção, pois, segundo Rogério Nascente, este não é o objetivo. “Ficar analisando se tal texto é bom o suficiente para entrar não me parece justo. A ideia é a divulgação. O leitor que acaba fazendo isso. Gosta mais de um autor e passa a acompanhá-lo”, diz, destacando ainda a característica de continuidade trazida pelo formato. “Será uma publicação mensal. Assim dá pra ir guardando até formar uma espécie de livro.”
O exemplo
Curitiba parece ser um bom espelho quando o assunto é produção literária comunitária. A cidade tem, pelo menos, seis publicações em atividades voltadas para a fomentação da literatura e a criação de espaços para a produção literária: RascunhoArte & Letra: EstóriasJandiqueCândidoMapa e o jornal RelevO.
O editor Daniel Zanella, que também escreve para o jornal, destaca a maior facilidade de impressão hoje em dia, se compararmos com 20 anos atrás. “Há mais gráficas e os custos são estáveis”, diz.
RelevO chegará em breve à 50ª edição com média de 50 escritos recebidos por mês. Sua “montagem” é feita em conjunto. Zanella faz o processo final de escolha dos textos a serem publicados. O editor-assistente, Ricardo Pozzo, sugere textos de autores de seu gosto ou que lhe tenham sido enviados, trabalho que também é feito pelo revisor Mateus Ribeirete.
Convergências
Assim como o Certas palavras do pelotense Rogério Nascente, não há um fim lucrativo. “Todos trabalham em regime de gratuidade. Eu mesmo nunca me remunerei através do jornal. E não aceitamos financiamento público, todos os nossos recursos advêm de pequenos empresários e anunciantes”, comenta Zanella. O fato de não ser focado no lucro, porém, traz dificuldades para o jornal, como a mensal tensão de não saber se ele conseguirá ser rodado. Por isso, o trabalho em conjunto dos envolvidos é ainda mais importante. “Os autores auxiliam muito na divulgação”, afirma o editor, que vê no feedback diverso recebido através da circulação mensal - três mil exemplares - a grande recompensa.
Também há semelhanças no objetivo. RelevO surgiu em agosto de 2010 como jornal destinado a dar espaço a cronistas e acabou se tornando um espaço para múltiplas vozes - contistas, poetas, romancistas, fotógrafos e ilustradores - de Curitiba e região. Porém, Zanella ressalta que o potencial de expansão trazido pelos meios digitais possibilita que a publicação chegue a lugares inimagináveis. “Nos últimos três meses, por exemplo, publicamos cinco autores de Manaus, um que foi indicando o outro.”
Rogério Nascente diz: “É uma satisfação ter o trabalho publicado”. E as oportunidades surgem. Os escribas interessados podem mandar suas produções para os dois projetos: para o Certas palavrasatravés do e-mail blogcertaspalavras@gmail.com e jornalrelevo@gmail.com para o RelevO.

Monday, January 20, 2014

Os minutos que faltam para eu comer a pizza que sobrou do almoço

Eu devia ter comido toda a pizza no almoço.
Mas aí eu não teria pizza pra comer quando chegar em casa às 7. Eu teria que ir na fruteira da esquina, que tem um cheiro muito bom e salgados de peito de peru extraordinários.

Felizmente eu não comi a pizza inteira no almoço, felizmente eu estava atrasado e não deu tempo de comer a pizza inteira no almoço, me dando a oportunidade de comer o resto quando chegar em casa às 7. Felizmente também eu fiquei com fome por não ter comido a pizza inteira no almoço, me dando a oportunidade de satisfazer um desejo enorme que é comer o resto quando chegar em casa às 7.
Quem não concorda com essa felicidade é o dono da fruteira da esquina, que tem um cheiro muito bom, não o dono, ele eu nunca cheirei, mas a fruteira, que tem um cheiro de uva delicioso e ainda tem salgados de peito de peru extraordinários, não o peru, quer dizer, talvez o peru fosse extraordinário e essa seja a real causa do salgado feito dele ser tão bom.

Eu poderia também ter lembrado de trazer dinheiro, que aí dava para ir no Cruz de Malta e comer dois croquetes com muito treme-treme enquanto tomo uma coca, porque hoje é só segunda e o todo mundo sabe que o dia de tomar chopp no Cruz de Malta depois do trabalho é sexta.

O ruim é que agora já são quase sete e meia, até eu chegar em casa são oito, aí oito horas não é um bom horário pra comer, porque fica muito perto da janta e aí não vou ter fome na janta, e se eu não jantar vou ter fome de manhã e, ou vou ter que acordar dez minutos antes pra tomar café, e aí não vou ter fome no almoço, deixando pra ter fome no meio da tarde, quando não dá pra comer, aí só vou consegui às oito, que não é um bom horário pra comer porque fica muito perto da janta e aí não vou ter fome na janta e se eu não jantar vou ter fome de manhã e, ou vou ter que acordar dez minutos antes pra tomar café ou não vou comer até o almoço, quando vou estar com tanta fome que vou comer rápido e quando eu como rápido acabo não comendo nada e se eu não comer nada no almoço vai chegar perto das seis e eu vou estar definhando e seis horas já não dá pra sair pra comer, aí vou esperar até a hora de ir embora e aí já são oito e oito horas não é um bom horário pra comer por que

Tuesday, January 14, 2014

O falso 9

Apesar da suposta facilidade com que trabalha o jogador centroavante – necessita às vezes apenas que a bola encoste nele e entre –, muito embora hoje se tenha conhecimento de um gene extremamente recessivo que condiciona o ser humano a ter maior facilidade em botar a bola pra dentro, há atletas que preferem não se ater apenas a essa função. São os falsos 9.
O falso 9 está lá, na marca do pênalti. Ele veste a camisa do centroavante.
Faz, de fato, muitos gols.
Mas não queira ver o falso 9 como uma referência.
Falsos 9 não admitem essa possibilidade.
Falsos 9 não se prendem a esquemas táticos pré-determinados que o coloquem com a função única e exclusiva de fazer o gol.
Mas o falso 9 faz, de fato, muitos gols.
O falso 9 precisa constantemente sair da área para respirar.
E não tente prender o falso 9 dentro da área.
O falso 9 não funciona preso à área.
Há quem pense que o falso 9 surgiu no Barcelona de 2011, com Messi.
Ou no Arsenal, anteriormente, com Fàbregas.
Que no meu time da Master League já jogou até de lateral.
Direito e esquerdo.
Mas o primeiro falso 9 – que se tem conhecimento – surgiu muito antes, na Hungria dos anos 50.
Enquanto Puskas vestia a 10, Hidegkuti usava a 9.
A diferença é que o húngaro se movimentava apenas para dentro ou fora da área, sempre centralizado.
Messi transita tridimensionalmente pelo campo.
Por isso, além de falso 9, é gênio.
Mas também não pense que o falso 9 é falso.
Que está ali para ludibriar o adversário.
Aproveitar-se da fragilidade tática dele.
O falso 9 é honestíssimo.
Ou pelo menos tem de ser para funcionar.
Se cai na tentação de ser falso apenas pelo adjetivo, não engana a ninguém.
A não ser a si mesmo.
Há muitos centroavantes que se passam por falso 9.
Erro.
É o falso falso 9.
Qualquer definição que tenha um adjetivo negando outro é um erro.
Mas há quem tenha maior poder de adaptação e consiga funcionar tanto como centroavante, quanto meia e falso 9.
Dependendo da situação.
Se o jogo é em casa ou fora.
Mas é raríssimo encontrar um jogador dessa qualidade.
Ou então se torna um atleta como Jorge Henrique.
Apenas polivalente.
Adaptar-se mantendo o padrão de qualidade e satisfação é muito difícil.


Wednesday, January 01, 2014

Freak Brotherz e Suburban Stereotype fortalecem a cena hardcore

Nos anos 90 a grande indústria fonográfica concentrou suas forças em bandas de pagode, sendo bons exemplos o Art Popular e o Só pra Contrariar, e duplas como Leandro e Leonardo. Algo como acontece hoje em dia com o sertanejo universitário e a música gospel, linha de frente da Som Livre, principal gravadora ligada aos grandes meios de comunicação televisivos e radiofônicos. Era preciso então caminhar com os próprios pés, talvez de forma literal, para almejar o próprio espaço. Essa filosofia sempre permeou o hardcore, estilo musical marcado pela contracultura, por bater quando se espera o carinho. Em 1998 surgiu em Pelotas uma das bandas com maior sucesso na tradução destes conceitos. A Freak Brotherz colocava o hardcore em evidência na cidade.
Solano Ferreira, baixista, conta como o grupo conseguiu tamanha façanha. “Já no início tivemos uma boa exposição ao ganhar o Skol Rock, concorrendo com mais de 4,5 mil bandas. Isso deu um gás. Depois gravamos um disco em 2007 com quase todas as músicas participando de festivais. De 13, nove participaram e foram premiadas.” Tudo isso conquistado com os próprios gritos, incluindo as excursões, as Freaktour, que a banda organizava quando havia um show marcado fora de Pelotas. “Quando falava em Freaktour a galera já ficava maluca”, lembra.
Veja, eles ainda acreditam
Quatorze anos depois do surgimento da Freak e da colocação do hardcore em outro patamar de reconhecimento na cidade, outra banda apareceu por aqui seguindo os mesmos ideais. A Suburban Stereotype, liderada por Diego Gularte, foi formada em 2012 de forma natural, compondo em seus primeiros ensaios, mais tarde reunidos em Carnaval, primeiro EP do grupo. “No início já tinha música própria e surgiu a vontade de criar um trampo. Era pra ser um CD, mas, o Solano sabe, é difícil a correria de conciliar o tempo de todo mundo pra gravar”, diz Diego.
Após o lançamento digital, Carnaval agora está disponível em versão física, vendido a R$ 15,00 por encomendas e R$ 10,00 nos shows, como forma de agradecimento àqueles que fortalecem o trabalho sem a barreira da internet. Além disso, o EP também ganhará tour, nos moldes daquelas feitas há anos pela Freak Brotherz. Será pelos três estados da região sul, com sete datas confirmadas e uma pendente, a serem vencidas em uma semana e meia.
Não foram assim tão fáceis
Solano Ferreira rechaça a ideia de que a união da cena hardocre é algo recente. “Sempre foi junta. A grande verdade é que tá crescendo”, afirma. Para ele, a diferença está, primeiro, nas oportunidades. Há dez anos as chances para as bandas underground tocarem se restringiam a bares quase falidos que, já pouco preocupados com o prejuízo, apostavam as últimas fichas na realização de diversos festivais. “Como eram sempre as mesmas bandas, sempre o mesmo público, a coisa acabava morrendo. Mas a gente sempre procurou o nosso espaço”, diz o baixista da Freak Brotherz, lembrando mais uma vez das freaktour. Solano também lembra a questão dos equipamentos das casas de shows. “Hoje tem vários lugares que já tem ou outros que dá pra tocar com o da própria banda. Isso facilita.”
Unir, lutar, ganhar poder
Como acontece em diversas áreas da arte em Pelotas, a cena hardcore precisou se unir para sobreviver. É assim que Diego Gularte explica o surgimento do coletivo Hardcore Pride, em 2011. “Nós achamos que a coisa tinha ficado morna. Juntamos vários amigos e criamos o primeiro festival. Lotou. Assim como o segundo, o terceiro.” Era chegado, então, o momento de dar o grande passo. Dar uma resposta pesada àqueles que reclamam da falta de bandas reconhecidas nacionalmente tocando em Pelotas.
Ao invés de engrossar o coro, os membros do Hardcore Pride resolveram trazer por eles mesmos. E começaram com o pé na porta, trazendo logo o maior expoente do estilo no país. Em setembro de 2012 o Dead Fish subiu no palco do Galpão, com abertura não menos potente da Freak Brotherz. “Noite apoteótica”, lembra Diego, que meses depois viveria a emoção de abrir para o DF, com a Suburban Stereotype, em novo show dos capixabas na cidade. “É meio difícil de descrever. Inclusive trocamos ideia com os caras depois. Demos moletom da banda. Os guris deram o moletom que tavam vestindo pra eles!”, lembra, emocionado.
Após dois anos de suma importância como catalisador para as bandas do gênero em Pelotas, a Hardcore Pride tenta agora fomentar outro braço da produção. Virou gravadora. O primeiro projeto, o EP Carnaval, da Suburban, já é sucesso. Para o ano que vem, o objetivo é finalizar o segundo disco da Freak Brotherz.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Thursday, December 26, 2013



Você aparece e aí tem muito você. Tem você líquida, tem você sólida, tem você na televisão, tem você de repente, tem você o tempo todo, tem você no que faço, tem você no que não faço e esse tanto de você é tanta gente que se transforma em nós e aí somos nós líquidos, nós sólidos, somos nós de repente, nós o tempo todo e tudo parece uma tarde de sol na Secult.
Mas você é leve, é incrível como você é leve, nos movimentos, na maneira de pensar, em como me olha, mas você é leve e como venta aqui na Secult, eu fico toda hora pensando que o vento vai levar para longe tudo o que a gente demorou pra construir e não me seguro e convido você para vir aqui e você vem, mas você é leve, é incrível como você é leve e o vento leva você de novo e aí você desaparece, mas segue tendo muito você.

Thursday, December 05, 2013

Quando

Quando eu chego na Secult começa o vento e as folhas se mexem uniformemente. Quando amei São Paulo o amor estava em Pelotas. Quando amei Pelotas o amor estava no avião. Quando amei no céu o amor estava dentro de casa. Quando a casa era em casa a minha casa era na rua. Quando a rua era a casa a minha rua era dentro de casa.  Quando fui dormir cedo ela ficou online até mais tarde. Quando fui dormir tarde ela estava com outro. Quando criei asas caí. Quando caí criei asas. Quando criei queda caíram asas. Quando danço enrosco as pernas. Quando enrosco as pernas as pessoas riem. Quando as pessoas riem eu danço. Quando abri os olhos claridão. Quando claridão assustei. Quando assustei escuro. Quando escuro claridão. Quando claridão me assusto.  Quando eu estava pra besteira ela conversou sério. Quando eu estava triste ela conversou besteira. Quando eu sério besteira ela estava. Quando na Lua flutuei. Quando flutuei fechei os olhos. Quando fechei os olhos acordei. Quando acordei voltei à Terra. Quando voltei à Terra sumi. Quando sumi fui à Lua.  Quando o telefone tocou estava no silencioso. Quando não tocou era preciso tocar. Quando precisava gastar dinheiro com carteira de motorista gastei com viagem. Quando na viagem era pra ter ido de táxi resolvi ir de ônibus. Quando no ônibus resolvi descer um ponto depois do lugar porque parecia mais perto no GPS. Quando no GPS tive de recalcular rota. Quando recalcular rota sempre pegar o caminho mais curto. Quando caminho mais curto sempre ir mais devagar. Quando ir mais devagar cuidado para não parar. Quando parar pare.


Quando tudo era certo tudo deu certo.

Tuesday, November 19, 2013

Isabel

isabel, você foi a primeira coisa que eu vi ao adentrar o largo das artes que eu encontrei por um grande acaso pois já tinha desistido de ir ao evento da bolha por ter preferido ver uma peça que parecia interessante e tinha uma atriz bonita, mas saiba você que não deu tempo de ver a peça porque um amigo meu de pelotas estava no rio também e me chamou pra ir à praia jogar conversa fora e procurar mulheres de mochila e quando eu fui ver já eram quase três e quinze e a peça começava às dezesseis e eu estava em ipanema e a peça era no centro cultural banco do brasil aí resolvi pegar um taxi e, ai meu deus, aquele táxi andou cento e quarenta quilômetros por hora, não, não tô exagerando, eu olhei e fingi apertar o freio com meus pés como que dando uma indireta pro taxista diminuir um pouco, mas ele não entendeu, muito pelo contrário, começou a buzinar para os ônibus querendo se atravessar na frente deles, eu pensei que talvez pudesse morrer ali e a minha vida melhoraria muito se eu morresse, mas mesmo assim eu ficaria muito triste caso isso acontecesse e então cheguei ao lugar da peça, paguei o taxista e nem dei tchau em sinal de protesto ao fato de ele quase ter tirado a minha vida umas dez vezes, aí eu fui correndo pra bilheteria porque, embora tenha quase me matado, o taxista me deu uma leve esperança de que eu ainda poderia pegar a peça, mas a atendente disse que já eram dezesseis e vinte e não dava pra entrar atrasado, eu nem insisti pois estava errado mesmo, aí fiquei sentado ali nas escadas do centro cultural banco do brasil comendo um salgado e tomando uma coca e vendo as pessoas passarem, aí resolvi dar uma volta pra passar o tempo, entrei num lugar aonde um cara estava colocando uns sons estranhos para umas pessoas estranhas dormirem em pufes espalhados pelo chão, eu estava meio cansado e então resolvi sentar em um dos pufes, mas logo me enchi o saco daqueles sons e fui dar mais uma volta e aí eu vi a atriz bonita que fazia a peça, ela estava com uma rosa na mão e era mais bonita em fotos do que pessoalmente, mas também era bonita pessoalmente, aí fiquei uns cinco minutos olhando pra ela de longe, sabe deus por que, até que cansei, peguei meu celular e fiz uma rota no GPS para chegar no hotel, comecei a seguir a rota e achei o largo das artes por um grande acaso como contei anteriormente e você foi a primeira coisa que eu vi lá dentro como contei anteriormente e vi você mais umas vinte vezes que era pro caso de nunca mais ver, ter visto todas as vezes que fossem possíveis e você estava com outros dois caras que eu torci para que nenhum fosse seu namorado, aí deixei você um pouco de lado e fui curtir a exposição e comprei várias coisas lindas como um cartaz que diz que pessoas descansam sob as árvores e aí por um grande acaso do universo nós dois paramos juntos para ver a mesma obra e a artista deu a explicação para nós dois e eu fiquei feliz e aí fui para o outro lado ver mais coisas e aí vi você indo embora e assinando seu nome na lista de presenças do evento e não resisti, tive que olhar e anotar seu nome para procurar na internet mais tarde e eu anotei seu sobrenome errado, ao invés de scarla eu anotei scorla, mas o facebook anda muito inteligente ultimamente e você foi o primeiro resultado e tudo isso faz uma semana, apenas ontem eu tive coragem de te adicionar, perguntei pra vários amigos e a enquete ficou apertada, mas resolvi adicionar mesmo assim e você aceitou, mas não respondeu ao texto que eu coloquei explicando, aí coloquei uma carinha feliz para mostrar que estava feliz por você ter me aceito, mas você também não respondeu a isso, o que está tudo bem, eu não esperava nem ao menos ser aceito, estou no lucro, já posso pegar outro táxi da morte e morrer.

Monday, November 18, 2013



de repente o mar de repente uma grande criatura de repente tanto mar de repente tanto tempo de repente tanta coisa de repente pouco tempo de repente pouca coisa de repente pouco mar de repente navegar de repente de olhos fechados de repente ou de corpo aberto de repente voar de repente o cinza de repente a cor de repente os dois de repente um só de repente mais de repente o nada de repente correr de repente se virar de repente esperar de repente esperar de repente esperar de repente esperar de repente esperar de repente esperar de repente esperar de repente esperar de repente esperar de repente esperar de repente esperar



os passos de gato
os passos de gato dados
os passos de gato dados um de cada vez
pintados de leve de um vermelho
gritante
os passos de gato
os passos de gato em cima da árvore
os passos de gato em cima da árvore alta
os passos de gato dados um de cada vez
os passos de gato
os passos de gato ouvidos
os passos de gato ouvidos ao longe
por quem espera dar passos de gato


Wednesday, November 13, 2013

Ingrid

eu sentei ao seu lado no ônibus mesmo havendo espaços maiores vagos, ingrid, eu conversaria com você mesmo se você não estivesse com um livro do galeano debaixo dos braços, ingrid, eu chamei outros dois 433 antes e eles não pararam para mim, ingrid, eu devia estar estudando mas estava ao seu lado, ingrid, eu devia estar estudando mas estou procurando no facebook todas as mulheres chamadas ingrid que moram no rio de janeiro, ingrid, você vestia laranja e tinha dentes brancos, ingrid, eu não peguei seu sobrenome, ingrid, você pegou o meu quando eu lhe dei meu livro, ingrid, por favor me procure, ingrid, você pega o mesmo ônibus todos os dias, ingrid? na verdade tanto faz, ingrid, estou indo embora amanhã, ingrid, eu esqueci de lhe dizer isso, ingrid, talvez eu não volte nunca mais, ingrid, eu preciso estudar, mas a internet do hotel não está funcionando direito, ingrid, onde você estava antes? tomara que você não seja essa que parece um pouco no avatar e está casada, ingrid, ou ainda essa que posta apenas coisas relacionadas a academia e perder peso, ingrid, muito menos essa ingrid que trabalha na empresa vasp - vagabundos anônimos sustentados pelos pais, ingrid, eu ia tirar foto com o ney matogrosso mas não consegui e fui embora, ingrid, e você estava no mesmo ônibus, ingrid, você tem muita cara de carioca, ingrid, isso é um elogio, ingrid, quero lhe ver de novo,  ingrid, eu não entendi direito o nome do selo literário em que a sua amiga trabalha mas fiquei com vergonha de pedir pra você repetir, ingrid, por fim, ingrid, foi uma das cenas mais tristes da minha vida, ingrid, ver você desaparecer da janela do ônibus para um provável nunca mais.

Tuesday, October 29, 2013

Tic Tac

acho que funciona mais ou menos como bala. não, não bala de revólver, talvez mais próximo da droga, mas também não. é a bala tipo o doce. mas aí também pode ser confundida com a droga. acho que a essa altura todo mundo já entendeu. enfim, também acho que é importante deixar claro que não é a bala chiclete, aquela que não pode nunca engolir porque senão mata de uma forma muitíssimo horrível, que é trancar tudo dentro do corpo.  é a bala tipo halls mesmo. tic tac. freegells de cereja, aquela que há muito tempo era vendida com uma charada do show do milhão dentro. uma das minhas principais lembranças da infância. o que eu quero dizer, e digo agora antes que esqueça, coisa muito provável de acontecer, é que a vida funciona mais ou menos como bala. não, o tamanho da bala não importa. você por favor me deixe falar caso contrário eu vou esquecer e já comi quase o pacote inteiro e tenho medo de perder a inspiração assim que o pacote terminar de vez. a vida funciona mais ou menos como bala porque a gente pode até tentar economizar pra durar mais tempo, a bala ir diminuindo, diminuindo, até não sobrar mais nada, mas é muito difícil fazer isso. muito difícil. o mais comum é você não resistir e morder a bala no meio do caminho. e aí a bala perde totalmente a graça. é engolir e comer outra. mas o pacote vai terminando, daqui a pouco se foi todo e você desperdiçou tudo sem a menor graça. pelo simples prazer de menos de um segundo que é morder a bala. não tô dizendo que todo mundo é impulsivo e morde a bala por ser fraco e não conseguir se segurar e ter que morder a bala caso contrário sabe-se-lá o que pode acontecer, que tipo de monstro pode vir cobrar a mordida. não é isso, embora comigo seja e tenho quase certeza de que com quase todo mundo também, uns tendo mais força de vontade que os outros e mordam depois. não, eu já disse que o tamanho da bala não importa. tudo bem que o tic tac dura menos então a tentação é teoricamente menor que a de um halls, mas você já mordeu os dois, não é? sabe que o gosto maior do tic tac tá dentro dele, coisa que a pessoa só tem acesso caso morda, quer dizer, eu acho, nunca consegui chegar até o final do tic tac, quando vê lá no final tem um gosto esplendido de redenção, não sei. não tô dizendo que todo mundo é impulsivo e morde a bala por ser fraco e não conseguir se segurar e ter que morder a bala caso contrário sabe-se-lá o que pode acontecer. mas, vamos ser honestos, às vezes a gente nem repara, tá lá tranquilo, tá tudo bem, a bala tá sob controle , mas quando vê  ela tá lá, partida ao meio, com a vida dividida em dois. e esse é o maior problema em a vida funcionar mais ou menos como bala. quando algo incomoda, como é o caso do que acontece comigo, que não consigo ficar sem morder a bala, há toda a dor da agonia que é morder ou não. e aí quando você morde a bala vem toda aquela sensação de prazer oriunda do alívio que é se livrar da agonia. mas quando não há dor é tudo muito triste em a vida funcionar como bala. pois a pessoa não percebe a mordida e não aproveita o gosto do tic tac mordido. e aí a pessoa fica tentando voltar o filme, desde o momento em que colocou a bala na boca, procurando em vão o momento em que a coisa foi pro espaço. pode vasculhar o cérebro à vontade que não vai achar. também pode acontecer de você estar indo bem, mantém a bala sob controle, tá concentrado em manter a bala inteira, já está chegando no final, vai conseguir, vai conseguir e de repente a bala se quebra, pois já está muito frágil, não foi culpa sua, nem mesmo da bala, não há um culpado, simplesmente aconteceu, parte pra outra e... ah, não! a minha gata empurrou o pacote de bala no chão e esparramou tudo! 

Friday, July 05, 2013

Momento


- O que você vai querer comer?
- Você está perguntando, no nosso jantar de aniversário de vinte e sete anos de casados, o que eu vou querer comer?
- Sim, eu estou perguntando, no nosso jantar de aniversário de vinte e sete anos de casados, o que você vai querer comer porque em vinte e sete anos de casados, somados a mais três de namoro e mais um e meio em que eu te observava por aí você sempre iniciou um jantar perguntando “o que eu vou querer?”.
- Então nesse tempo todo você já deveria ter percebido que eu pergunto para mim o que eu vou querer comer.
- Você e esse seu feminismo.
- Você e essa sua ideia errada de feminismo.
- A gente vai passar o nosso jantar de aniversário de vinte e sete anos de casados brigando? Tudo bem que isso aconteceu no jantar de vinte e três e depois o amor de um pelo outro cresceu como não crescia há quinze, mas agora, quatro anos depois, nossos filhos já estão formados na faculdade. Não temos mais esse gás todo para brigar e fazer as pazes em questão de horas.
- Concordo.
- Por falar em filhos, você tem falado com a Mariana? Assim, depois da demissão.
- Não. Eu liguei várias vezes, mas nada. Falei com a menina que divide o apartamento e ela disse que a Mariana não forma uma frase de cinco palavras há duas semanas.
- Bom, normal. Quando a Mariana fala pouco, ou não fala, é porque já passou de fase no sofrimento. O problema sempre foi quando ela ficava falando sobre o assunto por três horas consecutivas.
- Você sempre entendeu a Mariana muito melhor do que eu. A minha relação com ela sempre foi tão... Distante, não sei.
- Não é uma relação distante. Com certeza é uma relação diferente da que eu tenho com ela, mas isso vai de pessoa pra pessoa. Você pode ver isso como ela precisando falar mais para se comunicar comigo e com você ser tudo mais simples.
- Mais superficial...
- Talvez. Mas essa ideia de “superficial” e “profundo” é tão subjetiva. O fato de você estar preocupada com a forma com que ela está levando essa fase difícil já não significa que a relação de vocês duas é profunda? Vai ver é só uma questão de jeito. O seu é de analisar as coisas com distanciamento, para formar uma opinião mais sensata sobre as coisas, enquanto o meu é mais próximo.
- Então eu sou mais distante mesmo.
- Você não é mais distante. É como se eu fosse pai e você anjo da guarda.
- Mas eu não quero ser anjo da guarda, eu quero ser mãe. Às vezes eu acho que a nossa filha me vê mais como uma amiga distante do que como uma mãe!
- Eu acho que você está viajando na maionese. É claro que ela vê você como mãe dela. Você só é um tipo diferente, mas diferente do que você mesma espera ser, e não do que ela espera que você seja. Então, o que você vai querer comer?
- Eu não sou “um tipo diferente” de mãe. O que é “um tipo comum” de mãe? Ficar o dia todo em casa fazendo comida e passando roupa? Se for, eu realmente prefiro ser um tipo diferente.
- E tenho certeza de que a Mariana tem o maior orgulho de você ser do jeito que você é. Eu acho que vou pedir esse salmão.
- Olha aqui...
- Meu bem, hoje é o nosso aniversário de vinte e sete anos de casados. A nossa filha já está bem crescida e superando muito bem um problema. Vamos tentar ser namoradinhos só por hoje?
- A gente nunca foi muito “namoradinhos”, né? Acho que por a gente ser muito amigo, não sei. Mas a gente nunca foi um casal desses que têm apelidos e coisa e tal.
- Não, mas quando estamos só os dois a gente é bem namoradinho.
- :) Será que nós estaríamos aqui os dois, trinta e sete anos de casados, somados a mais três de namoro e mais um e meio em que você me observava por aí, se fôssemos “namoradinhos”?
- Eu acho que não, porque a gente estaria sendo pessoas que não somos. A gente está aqui, trinta e sete anos de casados, somados a mais três de namoro e mais um e meio em que eu te observava por aí porque se encontrou. E não por aquela história de “alma gêmea”, que eu acho uma besteira e você também. A gente se encontrou, viu que ali na frente estava uma pessoa que dava pra passar a vida toda e foi lutando pra fazer dar certo.
- Você sempre lutou mais do que eu...
- Mais uma vez é viagem sua nessa maionese doida que é a sua cabeça. Você só foi sempre mais calada, mais introspectiva. A sua luta sempre foi com você mesma.  
- Eu sempre tive medo que a gente se separasse em algum momento. Não separar no sentido de divórcio, porque isso é coisa que acontece. Separar no sentido de se desligar.
- Eu também, embora sempre dissesse ter uma segurança imensa do que a gente tinha. Mas agora estamos aqui os dois nesse diálogo escrito por você.
- Mas que poderia muito bem estar sendo escrito por você. Eu acho que vou escrever que você me beija agora.
- Escreve antes aí que o meu salmão chegou, porque a fome está quase maior do que a nossa história. 

Monday, May 27, 2013

Casa


 Para Helene Sacco
Casa-movente, de Helene Sacco

Nesse mundo cheio de caraminholas, dor de cabeça e corrupção na saúde existem as casas. E são muitos os seus tipos.
Tem a primeira casa de morar junto, que é um sonho e quando se realiza depois de muito esforço não dá vontade de sair nunca mais. Mas manter uma primeira casa de morar junto – que também pode ser a do meio, podendo inclusive ser a do fim, podendo inclusive ser a primeira de todas – é uma tarefa das mais árduas. Normalmente esse tipo de casa é habitado por jovens, novinhos na vida, que ainda não sabem muito bem o que fazer depois que já estão ali morando juntos, será que vai dar certo, será que não vai, se não der quem vai ficar com a casa, e esse mundaréu de dúvidas se soma às dívidas que chegam tanto quanto e o pobre casalzinho, novo na vida, que ainda não sabe muito bem o que fazer depois que já está ali morando junto, ainda não tem a base necessária para uma casa de tanta importância e o imóvel, que não tem nada a ver com isso, acaba simbolizando esse tsunami todo. A primeira casa de morar junto – que também pode ser a do meio, podendo inclusive ser a do fim, podendo inclusive ser a primeira de todas – requer muita coragem e muito empenho. E um pouquinho de amor também.
Tem a casa de morar sozinho. Essa tem que ser muito amiga da pessoa que for lhe acompanhar, porque pessoas tendem a gostar de solidão só por um tempo e, quando esse tempo passa, a casa tem que ser quente para não desandar tudo.  O fato de ser uma casa de se morar sozinho também aperta quando a pessoa precisa de alguma coisa que só outra pode fazer, como por exemplo, anotar um recado quando o sozinho não está ou massagem.
Tem casa que é abandonada no meio do caminho porque os seus habitantes precisam de mais espaço ou esperam algo maior que a casa não pode por si só dar e fica ali tentando se explicar, tentando achar uma solução, “quem sabe vocês não me deixam por um tempo para eu me reformar, quem sabe pode dar certo?”, mas os custos não valem a pena, ela já tá ficando velhinha mesmo, melhor se mudar para uma maior.
Tem casa que é movente. Essa casa é tão boa, mas tão boa, que vale a pena levar junto quando se quer – ou se tem que – ir para outro lugar. Apenas as casas que não podem ser destruídas com um sopro do Lobo Mau podem ser moventes.
Tem casa que não é bem casa. São aquelas construídas em série com a finalidade de receber moradores por um espaço curto de tempo determinado. As casas que não são bem casas costumam ser interessantíssimas, há sempre a surpresa de como serão por dentro, mas os lençóis que não são seus, o colchão que é melhor do que o seu, mas não tem o seu formato, as janelas que não abrem, tudo isso contribui para que a estadia dure tanto quanto o sabonete oferecido por elas.
Tem casa que não existe. Tem casa que é carro. Tem casa que é aeroporto. Tem casa que é o escritório porque as coisas não vão bem financeiramente. Tem casa que é dos outros. Tem casa que é várias ao mesmo tempo.
A casa que a tartaruga tem é um caso muito especial. Ter a mesma casa por duzentos anos não é para qualquer ser vivo.
Tem casa que pega fogo. Ou por muito amor ou por um descuido. O incêndio também pode ser causado pelo casamento destes dois fatores. Pessoas quando amam são naturalmente atrapalhadas, mesmo aquelas mais organizadas, centradas e sensatas são atabalhoadas em algum momento ou caso.  Aí, sabe como é, uma faísca perto de uma madeira e a casa vira escombros.
Tem casa que precisa ser desabitada por um tempo. Precisa passar por algumas reformas, o piso do banheiro é muito frio, a sala tá muito pequena e a cozinha muito grande, talvez seja melhor equilibrar isso. Em alguns casos, a casa que precisa ser desabitada por um tempo precisa disso para que não acabe matando seus moradores. Acontece quando há uma infiltração e o teto pode cair, quando há uma infestação de ratos ou quando há risco de desabamento, mas aí o caso é seríssimo e a saída tem de ser imediata.  
Tem, claro, a primeira casa. Essa é aquela onde você deu os primeiros passos, onde ganhou os melhores presentes de natal e onde não havia muitos problemas. Na primeira casa estão o vão da porta do quarto, utilizado para marcar a sua altura no decorrer dos anos, a sua caixa de brinquedos, hoje empoeirados, mas que ainda dão vontade de serem brincados, os cadernos antigos da escola, os caminhos que você já conhece milimetricamente por fazê-los há anos. E a primeira casa também conhece você milimetricamente. A primeira casa é capaz de perceber quando o morador está um pouco borocoxô e fazer nascer uma flor de jasmim no quintal. Acontece também de a primeira casa ser também a do meio ou última ou a do meio e a última, não podendo jamais esse processo ser considerado certeiro.
Tem casa que tem intimidade o suficiente com seus moradores ao ponto de receber um apelido – geralmente Lar. Esse tipo também pode ser a primeira, como pode ser a do meio, ou a do fim, podendo ser a mesma e podendo ser várias ao mesmo tempo.  
Um grande problema acontece quando a primeira casa é vendida após uma pessoa ir para a casa de morar sozinho. Às vezes acontece inclusive de ser de repente, a pessoa já não tem muito contato com ela, até por querer desfazer o vínculo de vez, então não há porque ter o aviso. Mas, ao saber que a casa não lhe pertence mais, como sofre a pessoa da casa de morar sozinho! Dá aquela dorzinha no coração e na garganta, o que funciona como um combustível pra fazer besteira e lá vai a pessoa da casa de morar sozinho tentar invadir a primeira casa. Cresceu lá, muito já subiu naquelas árvores e sabe quais dão acesso. Mas não tem muito o que fazer. Aquela residência, outrora sua, agora é o Lar de outra. Aquele quarto, outrora seu, é o descanso de outra. Aquele pátio, outrora lugar de esconder as coisas mais especiais para serem trazidas de volta no futuro, agora está inatingível. 

Monday, May 20, 2013

Subjetivo

quando você some fica offline não atende celular não atende porta não responde sms meu deus como minha garganta dói dá vontade de te ligar mas você não atende celular não atende porta não responde sms some fica offline e a voz dentro da cabeça fica tentando fazer o caminho mais fácil mas já são anos obviamente o caminho mais fácil não seria o caminho mais fácil ou será que seria que pena se for pois ser o caminho mais fácil significaria que na verdade a história é igual e não há tantas coisas especiais como pareciam há dois minutos aquelas em que eu canto rei leão você ri você conta o dia eu presto atenção você encosta o pé no meu e eu deixo eu encosto o pé no seu você me faz carinho você tem dor de cabeça eu curo eu saio da terra você me cura você pisa os pés no chão eu curo mas aí aparece outra voz dizendo pro coração calma o coração dizendo pra cabeça calma nada a garganta dizendo não aguento mais o pulmão dizendo ai ai ai a perna dizendo meu deus do céu você dizendo não e eu não podendo dizer nada porque você some não atende porta não responde sms não atende celular fica offline e beijo você antes de tirar os sapatos

Wednesday, April 24, 2013

Imaginário


- Oi.
- AH! QUE SUSTO! Quem é você?!
- Você não se lembra de mim? É como se Deus não lembrasse de Adão e Eva.
- Hãn?
- Eu sou o Augusto.
- Augusto...?
- Nem assim? Vamos lá, pensa um pouco.
- Hmmmnão, desculpa. Não me lembro.
- E se eu desaparecer e aparecer de novo assim?
- Como você fez isso??????
- É simples. Eu não existo.
- Não existe?
- Desde dezenove de janeiro de mil novecentos e noventa e sete, data em que você decidiu que estava grande demais para um amigo imaginário.
- Você é o meu amigo imaginário???
- Era, né? Eu não sei se você se lembra, mas você me abandonou.
- E você queria o que? Que eu tivesse um amigo imaginário pela vida inteira?
- Eu teria um amigo real pela vida inteira. Enfim, você deve estar se perguntando por que diabos eu voltei, assim, tanto tempo depois.
- Na verdade, não. Eu ainda estou trabalhando com a hipótese de estar sonhando.
- Me avisaram que isso provavelmente aconteceria...
- Ai!
- Desculpe, mas o beliscão foi necessário. Agora você acredita em mim?
- Não, mas se eu disser isso você vai me beliscar de novo e eu ando numa de evitar dor.
- É por isso que eu voltei. Para falar que você é um idiota.
- Só isso? Não precisava ter saído lá do... da... de onde você vem. Eu sei que sou um idiota.
- Não tem nada mais idiota do que dizer “eu sei que sou um idiota”.
- Sei disso também. Por isso que eu sou um idiota em dobro.
- Você é muito chato. Eu não sei como sigo querendo ser seu amigo.
- Por que você não existe. Você é uma criação minha. É uma criatura que gosta de mim inclusive quando eu sou idiota.
- Você é tão idiota e tão inseguro que me criou apenas para ter a segurança de que alguém gostaria de você na saúde e na doença... Eu vou ter trabalho.
- O seu trabalho já está feito aqui, certo? Por que então não volta pra... SEI LÁ ONDE!
- Eu venho do mundo dos amigos imaginários abandonados.
- Essa coisa existe?
- Mas claro. Está em pauta a criação de um sindicato da categoria. Precisamos nos unir contra pessoas como você. Mas enfim, eu não volto para lá porque você é idiota por muitos motivos, mas um deles em especial. Um que se eu não viesse te salvar hoje, provavelmente você se tornaria um idiota eterno.
- E que motivo é esse?
- O fato de você sempre colocar a carroça na frente dos bois.
- Hãn?
- Ah, desculpa, essa é uma expressão muito usual no mundo dos amigos imaginários abandonados. Significa sofrer por antecedência. Ter uma ejaculação precoce de preocupação.
- Eu não tenho isso! Sou perfeitamente capaz de controlar meu sofrimento!
- Cara, por favor, isso é normal, acontece com todo mundo.
- Comigo nunca!
- Ah, é? E quando eu apareci aqui hoje? Você não se preocupou comigo ao ponto de esquecer totalmente de quem eu era?
- Ah, sim, porque é extremamente normal uma pessoa aparecer de repente, depois desaparecer e aparecer de novo. Na verdade, é até corriqueiro, acontece toda semana. Estava estranhando a demora nessa.
- Idiota. E o que dizer de quando você me abandonou?
- O que tem?
- Você decidiu que “estava muito velho para ter um amigo imaginário”, me jogou no fundo do armário e o que aconteceu? Você passou cinco anos sem ter um amigo sequer. Os cinco anos mais tristes da sua vida. Tudo porque, impulsivamente, decidiu que “estava muito velho para ter um amigo imaginário”.
- E você voltou, mais de dez anos depois, para reclamar disso?
- Idiota. Eu vim salvar você de fazer tudo de novo. Vim salvar você de você mesmo, se você for uma pessoa de clichês.
- Eu já disse que tenho total controle do meu sofrimento.
- Todos dizem isso, mas, na hora H, o fluxo é muito grande e não conseguem segurar. É puro receio de iniciar o tratamento.
- Vamos acabar logo com isso. Me trate logo.
- Isso. Aceitação do problema é o primeiro passo. Sente-se nessa cadeira enquanto eu monto o equipamento.
- Que cadeira?
- Ah, desculpe. Essa.
- Vai logo com isso.
- Tudo pronto. Veja esse powerpoint produzido por mim mesmo para a ocasião.
- “Como curar o sofrimento precoce”?
- Sim. Algum problema? Acho bom. Então, você reconhece essa?
- Sim, é minha namorada.
- Não. Essa é a pessoa que você vai abandonar semana que vem porque pensar que daqui vinte anos vocês pensarão de formas diferentes. Não quero me gabar, mas ela é minha namorada.
- Ela é MINHA namorada!
- Não. Vocês dois vão ser muito diferentes no futuro e isso fará com que você, num futuro um pouco mais próximo, se encha de sofrimento ao ponto de não se segurar e estragar tudo. Eu também não penso da mesma forma que ela, mas tenho meu sofrimento perfeitamente controlado. Consegui manter-me firme, sem querer viver a vida inteira em cinco meses. Se você quiser ela de volta, tem totais condições. Ela te ama e eu sou só um passatempo. Mas acho melhor correr, pois eu sou um ótimo passatempo. Recheado quando ela deseja, simples quando ela precisa.
- Como você pode fazer isso? Eu pensei que nós fossemos amigos. Tudo isso é vingança por algo que eu fiz há mais de dez anos? Olha, você é menor do que o instante em que desapareceu antes de aparecer de novo.
- Eu posso fazer tudo. Eu não existo.
- Como não existe se daqui dez anos irá roubar a minha namorada?
- Eu existo apenas quando você quer que eu exista. Sou uma criação da sua cabeça para frear os seus impulsos. Funciono como um gel retardante. Agora, faça o favor de me deixar em paz no mundo dos amigos imaginários abandonados e se acalmar. Sei lá, fazer uns exercícios, meditar... Pode começar treinando agora. Lá vem ela.
- Você é o melhor amigo que eu já tive na vida. E sou eu mesmo. Eu vou. Mas calmamente. Rápido.