Monday, October 27, 2014

Rap de quem não se rende

Muito bom momento vive o rap em Pelotas.Principalmente no que diz respeito à produção: a nova safra tem se preocupado bastante com o profissionalismo de seus trabalhos, através de batidas próprias e letras com conteúdo. Um dos grandes exemplos para esta geração, pois, a Família IDV (Ideologia de Vida) lançou na semana passada um disco após quase dez anos sem lançar nada físico. É IDV, que sucede Alforria, de 2005, com faixas produzidas de 2006 para cá.
São 17 músicas que mostram uma das principais evoluções desenvolvidas no rap da Zona Sul: todas elas são feitas por beatmakers daqui em estúdios situados na região. Segundo o rapper Gagui IDV, o objetivo do lançamento é agrupar todas essas composições, disponibilizadas soltas durante os anos. Organizar o material de forma física para o apresentar.
Gagui afirma que o lançamento também partiu pela cobrança do público. "O pessoal nos cobrava nas ruas também. Então às vezes a gente ia lá, gravava uma mp3. Até que decidimos juntar tudo mesmo."
Sempre social
Sobre a proposta do novo trabalho, Gagui diz que nada mudou. "Comecei a cantar rap em 98. Sempre tive cuidado com a proposta social. Fazer o rap com conteúdo, com protesto. Nunca me influenciei por modismos, tratar outros temas. Sempre tratei o rap como coisa séria. Aconselhando", afirma, argumentando que conheceu o estilo nos anos 90, auge de artistas como os Racionais MC's, Thaíde e Sistema Negro. "Trago bastante isso na minha concepção de rap. Dele ser um instrumento de transformação. Ser algo voltado ao lado social, à crítica. Curto e respeito quem vai por outra vertente, mas a minha ideia é a postura de protesto", completa.
Todavia, Gagui vê essa variação no discurso do rap como uma transformação. Mudou e ele teve de acompanhar essa mudança. É outra geração, outros problemas e outros protestos. "Às vezes nem protesto. Acho válido. Muita gente fala que o rap se perdeu, mas eu não vejo dessa forma. É adaptação. O mundo não é mais o dos anos 90. Os guris que fazem rap na cidade, nunca vi tão forte, com tanta gente boa e preocupada com o profissionalismo, em ter uma apresentação boa, com boa produção."
Na cidade
Ainda sobre a cidade, Gagui destaca a Semana Hip Hop de Pelotas, reivindicação sua à Câmara de Vereadores quando trabalhava com o deputado Catarina Paladini (PSB) a questão no Estado. A partir daí, várias cidades, como Rio Grande, Esteio e Pelotas aprovaram lei que incluiu o evento no calendário oficial do município. "Acho superimportante uma semana voltada a uma cultura de transformação. Muitas vezes o governo falha em não proporcionar cultura e lazer para a periferia, então o hip hop faz esse papel que não é o simples protesto", comenta, destacando que a iniciativa surgiu por, diz, haver um abandono dos bairros. "Conseguimos mostrar que o rap vem fazendo um trabalho de resgate e de socialização nas periferias."
Gagui fala também sobre a força da cena atual do rap pelotense. Ele concorda com o rapper F.I.L.L., autor de Três pintas em minha mente quando este afirma serem as rimas daqui mais talentosas do que as da capital gaúcha. Conta que, quando começou, a referência eram os grupos de Porto Alegre, como o Da Guedes. Ao que estes terminaram suas atividades em paralelo com o crescimento da cena pelotense. "Então o foco veio pra cá. O próprio pessoal de lá reconhece isso. A gente tem Pok Sombra, Guido, F.I.L.L., uma safra que Porto Alegre não tem."
O rapper diz crer, inclusive, que a cena pelotense só não cresce mais exatamente pelo fato de não estar em uma capital. "Se fossem os mesmos caras em São Paulo com certeza estariam trabalhando e vivendo do rap." Ele critica certa postura de colonização por parte dos artistas portoalegrenses em relação aos de Pelotas. "Nos perguntavam quando que a gente ia trazê-los para tocar aqui. Era uma visão meio colonizadora, porque nunca nos levavam para tocar lá. Fomos fortalecendo a nossa cena aqui, a deles foi enfraquecendo lá e os caras tiveram que abrir as portas pra gente."
Poder Público também deve
Outro ponto, acredita, é a falta de políticas públicas voltadas para a cultura - não apenas do rap. Cita a dificuldade em se poder viver da arte em Pelotas. "Eu mesmo trabalho no comércio, o rap acaba ficando em segundo plano. Falta uma estrutura que nos dê cachê e a gente possa sustentar a família com esse trabalho."
Vai além: no hip hop a situação é ainda mais complicada, levando em conta seu viés político e de conscientização. "Isso não é viável, eles não querem que o pobre do gueto pense. Querem ele anestesiado, entregue à criminalidade. A gente vem com a proposta de fazer o cara pensar no porquê de não ter tido oportunidades na vida. Aí jogamos em cima do governo. Não tive acesso porque a minha vida foi diferente de quem veio de outra classe social", afirma, acrescentando que participa de conselhos de cultura há dez anos e nunca viu políticas voltadas à cultura da periferia ou que busquem a descentralização.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Sunday, October 19, 2014

Cultura que vem das ruas em debate

O barulho da lata de tinta é praticamente uma extensão do sample. Dita o ritmo da dança e é semelhante ao quique da bola. Pudera. O hip hop, lido como manifestação cultural dos guetos, é mais do que a soma de elementos como o grafite, o rap, o break dance e o basquete. Utilizando as ruas como cenário em comum. Juntar todas essas manifestações e valorizá-las é o objetivo da Semana do Hip Hop, que invadiráPelotas a partir desta segunda-feira (20).
A iniciativa surgiu através da reivindicação do rapper Gagui Idv, que a levou para a Câmara de Vereadores através do vereador Ivan Duarte em 2011. Na ocasião foi criada a lei 5.845, voltada à criação da Semana Hip Hop de Pelotas.
Desde então a associação, surgida pouco antes, toca o projeto e faz trabalhos de resgate de artista e de pessoas que estão afundadas nas drogas, através de oficinas e workshops em escolas e entidades comunitárias - às vezes nas próprias ruas dos bairros. "É um trabalho de formiguinha. A gente faz e através disso vai resgatando essas pessoas, trazendo elas para a volta e em seguida as instrumentalizando. É tornar visível uma pessoa que estava na invisibilidade", comenta o coordenador da associação, Vagner Matos.
Segundo ele, o hip hop tem o poder de modificar totalmente a vida de uma pessoa - é um mecanismo de transformação. Qualquer um dos elementos, música, dança, esporte e grafite, é definitivo. "É a transformação através da cultura. Não é só cantar, fazer o grafite, dançar. Existe toda uma metodologia, uma narrativa, uma discussão político-social que o hip hop leva. Denuncia as políticas públicas, sociais, a criminalidade e a violência. É uma ferramenta que, além de transformar, informa."
É arte e é mensagem
O muro está em branco. O motivo, a pouca utilização do espaço - ou a utilização de modo que, acredita, não é da melhor forma. É um desperdício mantê-lo assim, virgem. Uma cor não só não faz mal como fará bem. Não só para si, mas para quem passar por ali.
Gabriel Alves, ou Gas, começou a grafitar aos 12 anos. Tem no antebraço tatuagem com o rosto do rapper Notorious B.I.G. Natural de Rio Grande, agora mora em Pelotas e busca se inserir em um mercado que vê ainda restrito por aqui. Segundo ele, grande parte dos grafiteiros se vê obrigada a praticar outra atividade para se sustentar. "Tenho uma subvida que é o que me traz comida e isso aqui serve para me fazer feliz", afirma.. Ele diz inclusive que alguns colegas viraram tatuadores para seguir fazendo o que gostam de maneira mais rentável. Gas conta que até consegue ganhar algum dinheiro com o grafite, mas gasta tudo com o material, de custo elevado.
Gas atualmente ministra oficina de grafite em uma escola. Lá, lida com a questão histórica e prática da arte, bem como o modo com que ela se inseriu na sociedade, "o jeito com que a população lidava com ele de forma criminosa, a ponto de prefeituras criarem projetos para limpá-los", afirma, referindo-se à imagem que o grafite luta para se afastar, de se limitar à sujeira de uma cidade.
Tentar discutir o papel dele hoje em dia é o objetivo de uma das palestras da Semana do Hip Hop, baseada na questão do grafite e da pichação. Quem a ministrará é a professora Celia Constenla. "Abordaremos as diferentes formas de intervenção urbana, como elas surgiram, quais as diferenças entre elas e a importância da educação ambiental e do cuidado com o patrimônio público de nossa cidade", conta.
Diferenças e semelhanças
Segundo ela, a diferença está em a pichação ser uma provocação para as autoridades e demarcação de território "sem qualquer pretensão artística, caracterizada pelo ato de escrever frases ou assinaturas em muros, prédios, monumentos e vias públicas, sendo um ato de vandalismo", enquanto o grafite "se caracteriza pela qualidade técnica que envolve planejamento detalhado, frases poéticas e desenhos mais elaborados, feitos com estêncil ou a mão livre, sendo realizado com o objetivo de valorizar o patrimônio."
Já Gas não vê exatamente uma diferença entre os dois em relação à estética: está mais relacionada à permissão ou não da manifestação. "Grande parte dos grafites está bastante relacionada com a pichação. Normalmente o que a gente vê de pichação são discursos de ordem. O grafite começou assim também. É a mesma coisa só que foi permitido", diz, salientando que usa como regra não grafitar - sem autorização - casas de pessoas de classe baixa. "Este local aqui (um terreno composto por grama alta, algumas paredes, diversos pacotes de preservativo abertos e variados utensílios para uso de drogas), por exemplo. É abandonado, ninguém habita. É usado pro mal, inclusive. Se fossem me cobrar por pintar aqui, teriam que cobrar os outros que vêm aqui e se drogam também."
Célia lembra que, até 2011, grafite e pichação eram a mesma coisa aos olhos da lei: criminalizados da mesma forma. Segundo ela, há preconceito em relação ao primeiro e a solução passa pela conscientização nas escolas de que pichação trata-se de um crime ambiental e contra o patrimônio.
Das quadras para o céu aberto
Os movimentos confundem - e que bom que seja assim: é dança ou é esporte? Por que não os dois? Esse é o conceito do basquete de rua, braço mais esportivo do hip hop. Nessa modalidade são deixadas de lado características essenciais da versão de quadra. Se vai a importância principal em relação aos pontos e entra a brincadeira através de manobras. Chega a ser mais artístico do que de fato um esporte, comenta Guilherme Tavares. "Em jogos tu vês muita técnica. Na modalidade street isso é um pouco abandonado pelo fato de passar mais a ideia de brincadeira. A moral é enganar o outro na quadra até fazer ponto", explica.
Michel Knuth lembra a semelhança com o break dance. "Os movimentos em quadra são parecidos e quem dança tem bem mais facilidade para jogar." Eles exemplificam com uma oficina que ministraram em 2009 ligada a Central Única das Favelas (Cufa). O objetivo era realizar malabarismos com a bola. Porém, um participante resolveu utilizar o break junto e colocou uma música. "Mostrou a ligação entre a música hip hop, break dance e basquete", comenta Tavares. Ele lembra também que o basquete de rua nasceu do fato de a população das periferias não ter acesso a quadras bem equipadas para o desempenho do esporte.
Nas rimas
"Tem que trabalhar bastante ainda." Com certeza na voz, assim fala Filipe Fontoura, o F.I.L.L., rapper pelotense que recentemente lançou Três pintas em minha mente, disco que aborda sua "tripolaridade". Sua fala tem a ver com o momento vivido pelo rap na cidade: frutífero, com boa aceitação da população, mas em momento algum permitindo baixar a guarda. "Tem que trabalhar a imagem ainda. Se profissionalizar, buscar a autogestão.
F.I.L.L. afirma que, apesar de estar ouvindo bastante, Pelotas já ouviu mais sua própria cena, a qual considera mais forte e talentosa do que a de Porto Alegre. Cita outros rappers como Zudizilla (Luz), Pok Sombra (Aonde vou chegar) e Garcez DL (NaturezAÇÃO). "A cidade já ouviu mais, mas tem reconhecido bastante nosso trabalho. Já lá em cima estão nos escutando", afirma. Recentemente, KL Jay, membro dos Racionais Mc'S citou Zudizilla como um dos principais nomes da nova geração do rap.
Representante de outra leva - faz rap desde 1990 - , Ligado Branco Radical começou com seu grupo Mc'S Radicais, na Guabiroba. "Sou de uma época em que o rap falava das quebradas, da periferia, influenciava o jovem a se informar e não fazer parte do sistema. Meu rap é de resgate, de transformação", diz, afirmando acreditar na revolução que o rap fez em sua vida, o deixando longe do álcool e das drogas.
No passo da dança
A dança, quando o assunto é hip hop, não foge à regra: é nas ruas que se desenvolve de forma mais natural, livre. É com técnica aliada à liberdade e à brincadeira nos passos. É o break dance e a dança de rua, que através do Trem do Sul, tem em Pelotas grande força.
O grupo formou-se em 2006, quando Paulo Monteiro resolveu levar para a sua escola, a Nossa Senhora dos Navegantes, a proposta do Piratas de Rua, que representava o break dance na cidade à época. A iniciativa cresceu e Monteiro tornou-se o coreógrafo oficial de um grupo que passou a batalhar de igual para igual com as principais companhias do estilo por títulos em campeonatos sul-americanos, sempre com o objetivo principal de mostrar ser possível vencer na periferia através do talento.
A mais recente vitória foi a participação no Campeonato Mundial de Hip Hop, em Las Vegas, onde representaram o Brasil. Após intensa luta para conseguir apoio para viajarem, os membros lá estiveram e receberam elogios. Tagner Mattos, que ministrará na Semana do Hip Hop uma oficina de locking, foi elogiado pelo criador do estilo e tornou-se o primeiro brasileiro a avançar para as quartas de final na categoria.
Um zine do gueto
Do final dos anos 1990 até o início dos 2000, todas estas vertentes do Hip Hop, principalmente suas versões pelotenses, estiveram presentes e encontraram espaço para divulgação e debate em uma publicação feita por quem vive a manifestação cultural diariamente. Foi em 1998 que Jair Brown criou o zine Batida de rua, com o objetivo de espraiar para outros lugares o que se fazia em relação ao hip hop na cidade.
Pegou então outros fanzines para se basear, chamou Elio Stolz e decidiu lançar o seu. O início foi complicado, como toda produção independente: Brown não sabia muito bem como imprimir e o custo era muito elevado para uma iniciativa sem muitos apoios. "O primeiro fui eu que escrevi inteiro, mas depois fui agregando pessoas que se identificassem com a proposta para darem sua contribuição", conta.
Brown explica que Batida de rua foi criado com a intenção de destacar Pelotas. "Tínhamos um monte de grupos de rap, dança e grafite, mas muita gente achava que na cidade só tinha gaudério", diz, contando que passou a mandá-lo para outros lugares através de trocas com outras pessoas do país inteiro. "Até hoje tem gente que ainda me pede", conta.
E ele pretende voltar: a ideia era retornar com o Batida de rua já este ano, mas outros projetos impediram. Para 2015 deve acontecer. "Sinto que está fazendo falta pro pessoal do hip hop, tem muita gente hoje consumindo a 'cultura bunda', que não ensina nada. A molecada podia estar aprendendo algo cultural e se perde", comenta.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Friday, October 17, 2014

Musa Híbrida no Galpão nesse sábado

A nova fase do Galpão Satolep já recebeu eventos voltados ao rock, ao funk, ao hip hop e a todos estes juntos. Receberá em novembro o punk da Ratos de Porão. Neste final de semana será a vez do lirismo eletrônico e engajado da Musa Híbrida, que se apresenta na casa neste sábado (18), às 23h59min, em festa organizada pela banda e batizada de Felicidade Clandestina, mesmo nome de música do trio e de um dos livros mais sensíveis da escritora Clarice Lispector.
A Musa nasceu em 2012 juntando dois ex-Canastra Suja, Alércio Pereira e Vini Albernaz com a voz docemente sensual de Camila Cuqui e apresenta proposta que une as tendências eletrônicas da música atual (acrescidas aqui da suavidade de Albernaz) com uma pitada essencial de Brasil. O primeiro disco, homônimo e lançado final de 2012, decretou o trio como principal queridinho da juventude tida como alternativa em Pelotas. Não só pelas músicas: as letras tocam diretamente o universitário pelotense, oriundo dos mais diversos pontos do Brasil. Tocam por abordar temas atuais e que lhe diz respeito, como as liberdades individuais e o mundo on-line, caso da irônica Hashtag.
O primeiro show, diga-se, foi no próprio Galpão, ainda em 2013. Albernaz afirma que é o lugar mais importante da cena musical da cidade. "É ali que muita banda nasceu e circulou", diz.
Mais eletrônico
A fórmula, aprovada pelo público e pela banda, foi reforçada no segundo trabalho: Verde fosco roxo cinza investe ainda mais no eletrônico, se aproximando da estética de bandas como o The XX e Chvrches.
Segundo Albernaz, não há um rompimento de fato com o anterior, mas um resgate de elementos trabalhados pelo trio em seu princípio. "Essa coisa do eletrônico e de usar instrumentos não tão familiares ainda é novidade, mas acredito que conseguimos encontrar uma sonoridade mais nossa, mesmo que ela seja mutante - flertando com samba, groove, trip hop, rock, jazz e o que mais possa ser, mesmo não sendo isso de fato", diz, afirmando que talvez a maior diferença entre os dois trabalhos se dê ao vivo.
Serviço
O quê: festa Felicidade Clandestina, com show da banda Musa Híbrida
Quando: neste sábado (18), às 23h59min
Onde: no Galpão Satolep. Fica na José do Patrocínio, 8
Ingresso: antecipados custam R$ 10 na Studio CDs e na Vida Quadrada

Friday, August 22, 2014

A subjetividade anárquica em quadrinhos

“Esse aqui, por exemplo. Eu não quis dizer nada”, diz Rafael Sica. E tem explicação: “Percebi com as tiras sem palavras que as pessoas faziam seu próprio sentido, entendiam do jeito que elas queriam. Então não adiantava eu propor alguma lógica se todo mundo buscava o seu sentido.” Com sua produção sem exatamente uma lógica de narrativa, Sica, nascido em Pelotas, está de volta à cidade e expõe uma mostra na Casa Paralela com inauguração nesta sexta-feira (22).
A exposição é uma versão estendida do trabalho que o quadrinista apresentou em Porto Alegre um tempo antes. Lá, contou que estava de partida para Pelotas e queria expor por aqui. Contatos o levaram ao sócio da Casa Paralela Chico Machado e o local recebe agora mais de mil tiras, além de quadrinhos, fanzines e boa parte do trabalho de Sica a partir de 2008 voltado à publicação.
Ajuda a formar o acervo a série Fim, que exemplifica a proposta tão enigmática quanto anárquica da produção do artista. “É um quadrinho depois do outro sem uma lógica linear. Completamente aberta e a busca pelo entendimento de quem lê acaba montando uma sequência lógica. Ainda sim é quadrinhos.”
A independênciaJá são 20 anos trabalhando na área - a primeira tira foi publicada no jornal Dando o Troco, com 15 anos, do Sindicato dos Bancários de Pelotas, e retratava o trabalhador dos bancos. Sica diz que desenha bastante, “na verdade”. Não necessariamente por demanda, mas sim pela vontade de desenhar, o que lhe obriga a estar sempre criando, por exemplo, séries para publicar em um fanzine ou vender a quem se interesse. “Desenho muito no impulso.” Tiras em jornal, por exemplo, ele continua publicando mesmo após certa perda de espaço por parte dos quadrinhos e charges nos veículos impressos. “Eu parei de publicar em jornal há mais de cinco anos, mas é um formato que seguiu dando certo na internet. Costumo publicar lá”, afirma.
A maior parte de sua produção, porém, é na área da ilustração, onde consegue mais dinheiro, embora a sua publicação autoral se espalhe por todos os segmentos do desenho. Sem nunca, e ele faz questão de ressaltar, se aproximar da publicidade. “É uma coisa que eu evito por uma questão de não querer e ser um trabalho difícil. Pessoas avaliando teu trabalho e querendo mudar o que tu tá fazendo. Eles dizem que querem teu traço, mas no fim querem outra coisa. Não vale a pena.”
Manter-se independente, aliás, é uma bandeira e ele aponta esse como sendo um caminho a ser traçado pelos quadrinistas hoje em dia, tendo em vista uma maior facilidade de se autopublicar. “Qualidade de conteúdo sempre teve, mas hoje tá mais fácil e tem surgido mais coisas.”
Chico Machado, que além de sócio da Casa Paralela é “ex”-quadrinista membro da antológica revista pelotense Kamikaze, dos anos 80, entra na conversa e concorda, fazendo uma abordagem histórica: “Era direto do original que se tiravam as cópias. Não tinha recurso de ampliação, era caro. A revolução tecnológica tá aí. Animação por exemplo, quem fazia naquela época era o Otto Guerra, hoje em dia qualquer um com um softwarezinho mete bala e tu vê uma produção muito legal, que naquela época ficava bloqueada porque não era acessível”. Segue Sica: “Essa coisa colaborativa é massa. Hoje em dia tu publica com gente do Rio, de Brasília por processo independente e simplesmente manda por e-mail a página. Antigamente tinha que mandar o original por fax, por correio, demorava um baita tempo pra chegar”. Finaliza Machado: “Se tem acesso ao que se produz no mundo inteiro. Nas décadas de 80, 70 era muito difícil chegar em produções de contracultura. A maioria achava que quadrinismo era super-herói, Pato Donald e Cebolinha. Isso abriu a cabeça da galera”.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Thursday, August 14, 2014

Em Las Vegas, grupo de dança Trem do Sul descobriu sua apoteose

Após pequena temporada nos Estados Unidos, mais precisamente em Las Vegas e com rápida passagem por Miami, o grupo de dança hip hop Trem do Sul está de volta a Pelotas. O principal foi a participação no Campeonato Mundial de Hip Hop e a classificação até as quartas de final de um dos participantes na categoria de batalhas de locking, mas a experiência se expandiu para muito além.
“Ficamos muito emocionados porque era tudo muito diferente. Acima de tudo, participar do evento foi a coisa mais emocionante da minha vida”, começa Paulo Monteiro, coreógrafo. O grupo foi eliminado na etapa preliminar - muito pela falta de treinos, abdicados para que conseguissem o dinheiro para a viagem. Mas os comentários do júri, que considerou o Trem do Sul um dos melhores grupos de locking do Brasil, parecem ter recompensado. “Isso pra nós foi muito satisfatório. Além do primeiro lugar. Só estarmos lá já era ser campeões, porque a luta era essa. Tivemos de abdicar de várias coisas da nossa vida para correr atrás do dinheiro e representar o país e a cidade”, comenta Monteiro. Ele destaca que os apoios que receberam foram de suma importância. “A prefeitura de Pelotas, com as secretarias de Justiça Social e de Cultura, foi crucial. Entenderam que já estávamos há quase oito anos batalhando pra isso. Lojas Martins e Dana, Marcos Amir que fez a parte da papelada, o Antônio Rodrigues que cortou o cabelo do pessoal, o pedágio onde as pessoas nos ajudavam todos os dias. São varias coisas que nos deixaram emocionados”, cita.
Estrondando e bem recebidos nos EUA
O apoio e o respeito ao grupo continuou quando o Trem do Sul chegou aos Estados Unidos. Partindo da própria população. Monteiro lembra de um grande parceiro que surgiu de repente na viagem. Uma rapaz, que trabalhava com aluguel de carros particulares, passou por eles na rua. “Com um carro que eu pensei que só ia andar em outra vida”, comenta Monteiro. “Nos olhou uniformizados e perguntou o que estávamos fazendo lá. Falamos que estávamos participando do campeonato e ele nos deu uma carona de boa vontade até o hotel.” A partir daí, transporte não foi mais problema. O novo amigo se ofereceu para transportá-los para a competição e para outros lugares por um preço muito menor do que esperavam pagar de táxi.
No hotel onde se hospedaram, só alegria. Maiander Prestes, ainda com cara de guri, destaca, além da participação no campeonato, a estadia em Las Vegas. “Gostei muito principalmente por causa do calor. A gente tomava banho de piscina quase todos os dias, treinava no sol. Muito bom.”
No campeonato nada mudou. Nunca foram tratados de forma tão profissional, comenta Monteiro. “Nos valorizaram muito. Era uma organização, um luxo. Tudo o que a gente nunca teria se não tivesse batalhado para isso.” Preconceito? Nunca. “Independentemente da classe social todo mundo era tratado como um profissional da dança que estava lá competindo. Tinha todo um respeito.”
Elogios de quem sabe
Otávio Xavier, além de dançarino, desempenhou outra importante função na viagem: fluente em inglês, foi o responsável pela tradução daquilo que era falado aos demais e daquilo que os demais queriam dizer.
Foi ele quem contou a Tagner Mattos que o criador do locking o havia considerado muito bom. “Disse que ele nasceu pra isso”, conta. “Ele disse que éramos um dos grupos de locking preferidos dele. Pra nós, ter tirado primeiro ou segundo lugar não teria sido tão importante. Lutamos pra isso mesmo”, conta Xavier.
Mattos tem muito do que se orgulhar, além, claro, da participação e dos elogios: foi o primeiro brasileiro a avançar para as quartas de final do torneio na categoria batalha de locking, onde um dançarino disputa com outro. Da preliminar, com 28 participantes, apenas 16 passavam. “Só de ter entrado nesses já foi demais. Os melhores para que a competição ficasse em alto nível. Pra mim já foi uma coisa forte. Quando eles falaram aquelas coisas foi emocionante.” Ele ressalta também que nos Estados Unidos há uma valorização maior do hip hop. “Lá a dança de rua já tem seu espaço. É considerada arte.”
Representando os bairros
Nas camisetas vermelhas que os membros vestiram na apresentação estavam estampados os nomes de alguns dos bairros da periferia de Pelotas - além do Movimento Sem Terra. “Navega”, Getúlio Vargas, Pestano, entre outros além de uma dezena que eles também gostariam de ter homenageado. “Eu moro no Navegantes. Eu frequento o Dunas. Tem pessoas que trabalham no dia a dia e fazem com que a nossa cidade cresça, fique limpa. Os nomes dos bairros eram para essas pessoas”, explica Monteiro.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Thursday, July 31, 2014

Agora é seleção brasileira de Hip Hop

O verde-e-amarelo da camisa que os membros do grupo de dança Trem do Sul usam não é por acaso. Desde 2006 na batalha, agora eles representarão o Brasil no Campeonato Mundial de Hip Hop, que acontece a partir de 3 de agosto em Las Vegas, nos Estados Unidos. Através do talento, disputarão o título com seleções de mais de 40 países.
O projeto começou em 2006 quando o então aluno Paulo Monteiro resolveu levar a proposta do grupo Piratas de Rua para a escola onde estudava, a Nossa Senhora dos Navegantes. A iniciativa cresceu, começou a ganhar prêmios e transformou-se no Trem do Sul. “Chegou num nível de dança que não era mais reconhecido como o projeto dos meninos carentes, aquela coisa da pena. Já estava sendo reconhecido pelo talento”, afirma ele, agora professor e coreógrafo do grupo.
Falta apoio
Essa é a terceira vez que o Trem do Sul tem a oportunidade de representar o país na competição - em todas se creditou após vencer o Sul-americano de Hip Hop, duas vezes na categoria versátil e uma na infantil. Porém, é a primeira vez que de fato farão essa representação. Isso porque nas duas chances anteriores a expectativa de ter o talento visto no mundo inteiro barrou na falta de apoio.
Monteiro conta que em ambas ocasiões o Trem do Sul se esvaziou. “As crianças pensam que não adianta dançar, aprender algo que não pode ser usado. Acham que a gente só quer manter elas enclausuradas dentro da aula. E na rua tem um monte de gente oferecendo o outro lado. Dizendo que ser do bem não tem apoio, que eles sim apoiam.”
Segundo ele, Pelotas ainda não acordou para a realidade de ter um grupo bicampeão sul-americano e que representará a Seleção Brasileira de hip hop. Monteiro diz que boa parte dos patrocínios que o Trem do Sul recebe é oriunda de empresas de outras cidades. “A gente conta também com a boa colaboração das pessoas da avenida Bento Gonçalves, onde o pessoal fica na sinaleira pedindo. Temos muitas empresas em Pelotas e poucas apoiam. Mas na hora de reclamar que o crime tá aumentando na cidade aí todo mundo reclama. Quando tem alguém decidido a não ir para esse lado, a fazer coisas boas, aí ninguém apoia”, afirma.
Monteiro diz que a falta de apoio também prejudica os treinamentos. “Ou tu treina, ou tu fica na sinaleira pedindo ou correndo atrás de empresas que patrocinem. As equipes dos outros países não precisam fazer isso, podem se dedicar só aos treinos.” Atualmente, o Trem do Sul conta, além do dinheiro que arrecada no sinal, com patrocínio da loja Danna, da Open Extreme de Santa Cruz do Sul e das lojas Martins, além da Secretaria de Cultura e da Secretaria de Igualdade Social. A prefeitura apoiou indicando possíveis patrocinadores.
Terceira geração
Ele lembra que o legado do grupo vai além dos dançarinos que lá estarão. “Daqui eles vão para o Estados Unidos e quando voltarem vão divulgar nos projetos sociais e vai incentivar a gurizada mais nova a dançar também” - vale lembrar que essa é a terceira geração de meninos campeã sul-americana pelo Trem do Sul. O coreógrafo, porém, rejeita o rótulo de “coitadinho”. Enfatiza que o grupo irá para Las Vegas por seus próprios méritos e talento. Porque são campeões.
Ítalo Santana, 17, faz parte da geração que conseguirá viajar. Ele enfatiza a importância de disputar uma competição mundial - e que tem transmissão ao vivo da MTV americana. Sobre o que espera, ele não consegue destacar algo em especial, tamanha a expectativa. “Só de estar participando já é uma coisa sensacional. É a realização do nosso sonho e a dança pode mudar totalmente as nossas vidas.”
Já Tagner Mattos, 22, começou como dançarino do Trem do Sul e agora é treinador. Assistente do coreógrafo Paulo Monteiro. Quando dançava, não teve a oportunidade de participar, mas se sente igualmente ou ainda mais satisfeito vendo os mais novos alcançarem o objetivo. “É uma batalha que a gente vem há anos correndo atrás. Sempre no final a gente acaba sendo barrado porque não tem apoio. Dessa vez falta quase nada e estaremos lá. Pra mim é ainda mais incrível porque eu tô vendo. O que eles tão fazendo hoje, que é ir lá e dançar eu tentei e não consegui. O fato de ver eles conseguirem isso é muito mais importante porque não consegui, mas vi alguém conseguir. É ver que não é impossível.” Mattos estará lá. Não para dançar, mas para dar apoiar à equipe. “Vou para gritar a incentivar a galera”, conta.
A coreografia
O campeonato tem uma fase prévia, de 1º a 3 de agosto onde será escolhido o grupo que representará os Estados Unidos. O Trem do Sul (Seleção Brasileira) desembarca em Las Vegas no dia 3, quando se inicia a etapa mundial. O pelotenses focarão a coreografia no locking, estilo da década de 1970, mas sem se desvencilhar do hip hop atual. “Tu tens que apresentar na coreografia três estilos. Vamos com o break dance, o locking e o hip hop dance”, explica o coreógrafo Paulo Monteiro.
Serão dois minutos de apresentação, onde o grupo mostrará o dia a dia do trabalhador. “Muitas vezes a gente tá andando na rua e vê o pessoal que trabalha no caminhão do lixo. Eles escutam uma música e, mesmo no sufoco de tentar deixar a cidade limpa, ainda dançam, brincam. Muitas vezes a gente passa por uma empregada doméstica que está ouvindo uma música e tá dançando mesmo tendo aquele serviço difícil.”

>As empresas que desejarem patrocinar o Trem do Sul - a viagem está garantida, mas falta verba para manterem-se em Las Vegas - podem entrar em contato pelo número (53) 8378-5906 ou pelo e-mail tremdosulfreestyle@yahoo.com.br<

*Matéria escrita para o Diário Popular

Monday, June 30, 2014

Coletivo Artcidade Criativa incentiva a cultura em Pelotas

Se Marco Polo contasse ao jovem Kublain Khan acerca de uma cidade que tinha difusa em sua população a ideia de uma forma alternativa de economia, relacionada diretamente com a cultura, dando poder à sociedade civil para que esta pudesse intervir nas lógicas de produção do local, o personagem do livro As cidades invisíveis, do escritor italiano/cubano Ítalo Calvino, das duas uma: ou aumentaria e muito sua curiosidade acerca das missões diplomáticas do navegador ou deixaria de prestar atenção, por acreditar ser impossível. Entretanto, novas cidades são de fato possíveis, de acordo com o que pensam e tentam agir os membros do coletivo Artcidade Criativa, que realiza oficinas, intervenções artísticas e rodas de conversa na cidade.
“Somos uma desorganização organizada”, conta um dos membros, Cássia Cavalheiro, estudante de Relações Internacionais na UFPel. “Fugimos desse padrão institucional”, completa. O Artcidade Criativa começou há cerca de dois anos realizando oficinas teóricas de cidades criativas e economia criativa, incentivado por uma crise teórica de Cássia quando, durante o curso, o tema cidades virou tópico principal, mas não da forma com que ela pensava. “Estava muito longe de Pelotas e daquilo que a gente fazia”, afirma.
Surgiu então a oportunidade de se inscrever no Procultura. “Era para artista, então associamos os malabares de rua e o origami como atividade lúdica para trabalhar a criatividade, conta a estudante. O coletivo surge como uma forma de fomentar a criatividade e fazer com que esta seja trabalhada na cidade de forma mais democrática, com maior responsabilidade social, civil e cultural”, explica. O grupo ressalta: as oficinas que trabalham, como malabares, origami, parkour, entre outras, são lúdicas, porém, não no sentido de formação e sim para dar acesso.
As oficinas, já foram em pontos específicos da cidade como as praças Coronel Pedro Osório e da Alfândega e em escolas pelotenses. Sempre com o objetivo de ressignificar. Exemplifica Cássia: “Ali na Conde de Porto Alegre tem um espaço que a comunidade usa como uma pracinha. A gente descobriu que não é um espaço público, mas sim privado, é um terreno abandonado. As pessoas jogam lixo lá, a prefeitura não pode limpar, mas ao mesmo tempo as pessoas usam aquele espaço como lazer. Tivemos a iniciativa de fazer algumas oficinas, entrar em contato com essa comunidade e refletir sobre esse lugar que também é nosso.”
As oficinas também estarão em breve na internet, através de vídeos. O objetivo, segundo Cássia, é fomentar a inclusão social e acostumar as pessoas - principalmente os jovens - a não verem o computador apenas pelo lado das redes sociais, mas também como um instrumento de formação.
Uma casa na cidade
Seguindo a ideia de coletivo, os membros do Artcidade Criativa moram juntos, em casa na região do porto. Colorida desde sua fachada, suas paredes são ressignificadas com intervenções artísticas visuais e papéis com as letras da banda Musa Híbrida, que tem como vocalista Camila Cuqui, também membro do coletivo.
Sobre morarem todos sob o mesmo teto, Cássia conta que foi uma consequência. Ela e Guilherme Lucas, que também faz parte do Artcidade Criativa, já eram amigos e decidiram morar juntos “e aproveitar para otimizar a casa para que não fosse só um lugar de morada, mas que dialogasse com a cidade”, conta. Abriram então as portas e janelas e começaram a realizar atividades para além das propostas financiadas pelo Procultura. O dinheiro do programa municipal reverte para os materiais das oficinas, no deslocamento destas, na divulgação e em um valor simbólico para cada oficineiro de R$ 70,00 por oficina.
Essas atividades são rodas de conversa aos sábados (quase todos) para possibilitar a integração entre as pessoas e fomentar ideias com potencial de contribuir no futuro, sempre dentro da responsabilidade social, cultural e econômica “mais real” que o grupo propõe.
Economia solidária diferente
Essa proposta diferenciada referente a essas questões é trabalhada de forma diferente até mesmo dentro da economia criativa, onde parte-se do pressuposto de que existem classes criativas que produziriam a partir da sua criatividade produtos com valor agregado que geraria uma nova indústria, a indústria cultural. “Nós vamos por outro viés, que seria acreditar na criatividade inata de todas as pessoas e que ela não deve ser alvo de privilégio de alguns grupos ou classes, por isso, então trabalhamos com oficinas abertas e itinerantes”, explica Cássia.
Crescimento pessoal
Bruna Fortes, membro do coletivo, responsável pela realização dos vídeos on-line das oficinas, ressalta outro ponto interessante da proposta: a troca de culturas. “É uma reflexão sobre as pessoas, o que elas vivem, o que elas são, o que elas estão fazendo naquela rua e o que desejam para a cidade. É lindo ver o crescimento dos próprios membros do grupo com o contato, como mudamos muito através do contato com as pessoas. Vejo uma troca, uma circulação cultural e de informação”, diz. Acompanha a colega Suéllen Cortes, afirmando acreditar que o pelotense se limita a vivenciar apenas as regiões do Centro e do Porto da cidade. “O Artcidade proporciona essa vivência de estudantes que somos de uma integração e uma extensão real para além dos muros da universidade. Estamos indo para o empírico mesmo, nos jogando no meio da sociedade.”

*Matéria escrita para o Diário Popular

Tuesday, April 08, 2014

O espaço construído pelo metal

Existe em Pelotas uma cena musical extremamente particular. Trabalhando essencialmente através da contracultura dounderground, o metal construiu um dos maiores e mais fiéis públicos da cidade. Sempre trabalhando por si, seja na produção das músicas ou dos festivais, sempre lotados. Um dos exemplos dessa luta que tem dado certo do estilo por aqui é a banda Postmortem, que lançou recentemente o EP/disco Within the carcass

O grupo surgiu em 2004, quando os irmãos Bruno e Daniel Añaña chegaram a Pelotas oriundos de Bagé. Loucos para tocar, saíram atrás de outros músicos a fim de formar uma banda de metal. Encontraram Douglas Veiga, baterista, e Willian Knuth, vocalista. Ali iniciaram os primeiros barulhos, denominados Wargot. Após o primeiro show e muitas mudanças, um guitarrista que já acompanhava os shows se juntou à banda: Mou Machado, até hoje no grupo.

Este acréscimo trouxe à Postmortem muito mais peso e em 2007 veio então o primeiro demo. Out of tomb foi gravado no finado estúdio pelotense Eletric, contou com quatro faixas, rendeu shows em várias cidades do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina e teve distribuição da França à Malásia. Ao mesmo tempo, o baixista Matheus Heres dá lugar a Juliano Pacheco, formando enfim o quarteto que até hoje propaga o death metal pela cidade: Pacheco no baixo, Douglas Veiga na bateria, Bruno Añaña nos vocais e dividindo as guitarras com Mou Machado. 

Maturidade
Após o lançamento em 2013 de um já bem produzido Atra mors (Añanã acumulara a função de produtor da banda um ano antes), agora a Postmortem lança Within the carcass, de forma física. O EP/disco conta com canções inéditas como Chains of Hypocrisy e Deny The Cross, além de Decomposition on High Degree, também presente no primeiro demo. 

Sobre essa trajetória e as diferenças que Within the carcass pode ter em relação aos trabalhos anteriores, os músicos usam a palavra maturidade. “Dá bem pra notar que nesse ponto crescemos”, comenta Añaña. “A gente teve mais recursos, mais tempo para fazer ele. O Bruno teve mais tempo de produzir e a gente de gravar. O resultado ficou num nível muito alto, além do que a gente esperava”, completa Veiga. 

A banda se mostra madura também na hora de apontar as referências. Claro, primeiramente surge o suprassumo do death metal, o Cannibal Corpse, além dos estadunidenses do Nile - “e Nile de novo”, comenta Pacheco -, mas os músicos fazem questão de frisar que passam longe daquele estereótipo do metaleiro que só ouve metal. “É importante não ter a cabeça fechada”, comenta Añaña.

Uma cena sustentada pelos músicos
Veiga, inclusive, cita a música gauchesca como tendo muitas coisas boas, “parecidas com o metal”. O baterista cita o tradicionalismo, também, para tentar explicar o porquê de o metal não ter tanto espaço no mercado fonográfico brasileiro. “A música folclórica na Finlândia é o rock. Aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, é como se fosse a música nativista.” 

Tendo em vista essa difícil recepção do mercado brasileiro ao metal, ele afirma que há espaço para o estilo por aqui. Mas ele é construído pelas próprias bandas. “A gente não depende de que outras pessoas abram espaço, porque a gente mesmo faz isso.” Segundo ele, a questão vai além da música propriamente dita. Na própria mídia tem se tornado necessário criar novas possibilidades de divulgação. “A cultura underground, da contracultura, se faz pelo faça você mesmo. As bandas usam a internet, usam a mídia impressa criando jornais e zines. O underground gera a si mesmo”, afirma. 

Em Pelotas
Quando o assunto é trazido até Pelotas, o espaço recebe um sentido mais físico. Os músicos lamentam a falta de uma casa com tradição na produção de eventos voltados ao rock e ao metal. Quando perguntados se algum local funciona desta forma, são categóricos: “Não tem. A gente tem que ir em alguma casa que abra algum espaço. E esse abrir espaço o que é: não é eles criarem um evento. É dizerem que tem uma data disponível e aí vem de nós”, afirma Veiga, que é seguido por Añaña: “Um aluga e começa a função. Fazer contato com as bandas daqui, batalhar pra trazer uma banda de Porto Alegre. E aí garimpa o equipamento, a gente mesmo faz o cartaz, bola tudo, faz divulgação. É fazer por ti mesmo”.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Wednesday, March 12, 2014

Madrugada

Porque ela pensou que ele tinha pensado algo ele pensou que ela tinha pensado algo e fez uma cara estranha. Porque ele fez uma cara estranha ela pensou que ele tinha pensado algo e ficou pensando no que tinha dito para ele ficar tão sério assim de repente. Ele ficou sério de repente porque sempre fica com medo de parecer bobalhão nesses momentos, e por ela ser mais velha, pensou que não era o caso de parecer bobalhão. E aí passaram dias sem se falar.
Porque ele há dias não falava nada ela ficou pensando que tinha estragado tudo, como sempre fazia, na vida inteira, mas era assim mesmo, fazer o que, não ia mudar seu jeito assim de uma hora pra outra e talvez nem valesse a pena, ou até valesse, mas ela não estava tão disposta assim a fazer as coisas valerem a pena e andava tão ocupada que não tinha tempo pra ficar se martirizando por “ter estragado tudo, como sempre fazia, na vida inteira”. Aí resolveu ficar off-line. Aí ficou pensando que ele ia pensar que ela tinha ficado off-line pra ele não ir falar com ela. Aí pensou em ficar online de novo. Aí pensou que ele ia pensar que ela tinha ficado off-line pra ele não ir falar com ela, mas que depois desistiu.
Porque ela há dias não falava nada ele ficou pensando que havia passado dos limites nas bobagens e olha só ela acabou de compartilhar um link supercabeça, será que “supercabeça” se escreve assim ou se escreve com hífen?  Essa nova ortografia complica demais uma língua que antes era deliciosamente complicada, que absurdo. Pensou em puxar assunto falando sobre nova ortografia, mas lembrou que eles já tinham falado sobre isso, e na verdade ele pensava que os dois já tinham conversado sobre todos os assuntos do mundo, até que ela sem querer falou (diz ele que em outras palavras) que ele era meio fútil e desde então ele tem pensado cinquenta vezes antes de puxar qualquer assunto.
E já passava das 4 da manhã. Ele achava legal ela ficar online às 4 da manhã.
E aí ela ficou off-line. E ele pensou que era um cagão mesmo.
Aí passou mais um tempo.
E durante esse tempo ela postou um link com livros do Foucault.
E ele postou um vídeo besta de Friends e ficou se sentindo idiota, porque resolveu conversar com outra nesse meio tempo e essa outra achava Friends besta.
E se passou mais um tempo.
Aí ele se embebedou no aniversário de 76 anos da avó e resolveu mandar mensagem. Ela estava estudando e não entendeu nada, mas resolveu responder qualquer coisa pra não parecer grossa. Ele falou que queria que ela fosse namorada dele pra poder morder a bochecha dela sem ser preso por isso. Ela falou que provavelmente o mandaria preso mesmo que eles fossem namorados. Ele disse que então ela enxergava a possibilidade do ajuntamento. Ela disse que não foi isso que disse. Ele disse que mas, porém, todavia, entretanto ela disse. Ela quis desconversar e perguntou como estava a festa. Ele pensou que ela estava mudando de assunto porque não estava mais interessada e ficou sério o resto do aniversário inteiro. Aí chegou em casa e viu que ela estava estudando enquanto ele falava merda. Aí botou a mão na testa.
Porque ele não respondeu mais nada, ela ficou pensando que mais uma vez tinha sido insensível, mas não dá pra ficar o tempo todo pisando em ovos, tenho que dizer o que eu penso, que coisa mais chata, uma hora me irrito e nem respondo mais, que cara chato e que se ofende com umas coisas sem sentido, tenho paciência não.
E se passou mais um tempo.
E durante esse tempo ele pensou que ela tinha desistido de vez, tinha visto que na verdade ele não era tão legal quanto parecia naquelas conversas de, sei lá, três horas, e que talvez até tenha voltado para algum ex mais interessante. Isso sempre acontecia, não era novidade alguma e ele não estava surpreso. Essa era a sua sina. As mulheres o achavam interessante no início, o papo é bom, mas depois ele sempre estraga tudo. A culpa é da ex. A culpa é da família, que nunca lhe deu carinho o suficiente. Que nada, a culpa é minha mesmo.
E se encontraram na mesma festa onde, há dois anos, ele gostou do movimento dela. E ele falou pra ela que eles estavam na mesma festa onde, há dois anos, ele gostou do movimento dela. Ela riu e pediu pra ele atualizar a ordem cronológica dos fatos porque não lembrava mais, mas na verdade ela gostava de ouvir ele contando. Ele contou que viu ela primeira vez na fila de uma festa, depois em outra e só depois num show resolveu puxar assunto. Ela riu e pediu pra ele contar pra uma amiga que tinha voltado do bar. Ele contou de novo, porque também gostava de contar e porque achava que essa amiga não gostava muito dele, então também tentou engatar algumas piadinhas sem graça, mas que a amiga acabou gostando e deu tudo certo. Ele chamou uns amigos pra entrarem na roda. Os amigos dele foram embora, um estava com pneumonia e o outro desfilaria num evento militar na manhã do dia seguinte, mas ele resolveu que ficaria e ela não queria deixá-lo sozinho, então o chamou pra ficar junto no grupo. E ele ficou no grupo.
Porque ele não tinha como voltar, ela ofereceu carona. Eles moravam muito longe um do outro, então ele disse que não precisava, mas já abrindo a porta do carro.
E aí ele olhou nos olhos dela.
E aí ela não entendeu muito bem a reação dele.
E aí ele a beijou.
E aí ela quase atravessou uma preferencial aonde vinha uma van.
E ele falou que seria uma morte muito triste se eles morressem agora.
E ela falou que seria uma morte muito besta, isso sim.
E aí ele fez uma cara estranha.

Porque ele fez uma cara estranha ela pensou que ele tinha pensado algo e ficou pensando no que tinha dito para ele ficar tão sério assim de repente

Friday, March 07, 2014

Dia para lembrar as lutas

O dia 8 de março é marcado por ser o Dia Internacional da Mulher. Ao contrário daquilo que determina o senso comum graças a décadas de distorção em torno do assunto, a data representa algo muito maior do que o cafuné, a flor, o perfume ou o estojo de maquiagem recebidos por elas com o objetivo de mantê-las no lugar designado pelos homens. Também não é exatamente um momento de celebração. É uma data marcada pela lembrança. A lembrança da luta das mulheres por um status de pesadíssima leveza e simplicidade: o de igualdade. Essa inferiorização também é notada no que tange o espaço para o sexo feminino na produção cultural brasileira.
Coadjuvantes
Há cerca de 70 anos a escritora britânica Virginia Woolf publicou dois artigos, A nota feminina na literatura e Mulheres romancistas. Neles, a autora buscou debater e criticar as dificuldades que as mulheres encontravam para alcançar o sucesso com seus escritos, além de rebater afirmações à época de que a literatura feita por elas era inferior. Recente estudo da professora da Universidade de Brasília (UnB), Regina Dalcastagnè, aponta que pouca coisa mudou em nossa sociedade neste aspecto. Segundo a pesquisa, 72,7% dos romances lançados entre 1990 e 2004 no Brasil foram escritos por homens.
Outro dado da pesquisa: 62,1% das personagens consideradas importantes nas produções são do sexo masculino, contra 37,8% de personagens femininas. Através destes dados, Regina conclui que, ao contrário da forma como fomos condicionados a pensar com o passar dos séculos, a voz masculina tem, sim, um gênero, o que acabou por criar duas categorias: literatura e literatura feminina. Esse ponto de vista é acompanhado pela escritora Luisa Geisler, natural de Canoas. “A recepção ainda é um problema: existe um preconceito de que uma mulher escreve pra mulheres, de que uma mulher escreve de uma maneira específica, de que mulheres ‘falam muito de sentimentos’, enquanto homens atingem os dois gêneros.” Para a escritora pelotense Angélica Freitas a mudança tem de partir por quem lê. “Acho que no Brasil as editoras, os prêmios literários, os leitores estão apaixonados por senhores. A situação não vai mudar enquanto não decidirmos comprar mais livros de autoras brasileiras.”
Cinema feminista
O cinema é responsável pela formação da opinião pública acerca de questões sociais até então pouco debatidas. Caso do mais recente vencedor do Oscar de Melhor Filme, 12 anos de escravidão. O longa de Steve McQueen, além de importante relato da era escrava nos Estados Unidos, reacende a discussão sobre o quão extinta a escravidão realmente está.
Sendo assim, o cinema também se transforma em importante ferramenta para a propagação dos ideais de luta pelos direitos das mulheres. E são muitos os exemplos de filmes que abordam a temática feminista de forma responsável, enfática e até mesmo didática (pois tudo tem de começar cedo). Mas este espaço que teoricamente as mulheres teriam para propagação de seus ideais parece esbarrar, mais uma vez, na inferiorização. “No cinema, os lugares que as mulheres ocupam, na maioria das vezes, são os que são ‘destinados’ pra elas em outros âmbitos: ou elas trabalham com os figurinos ou são as atrizes. Papéis de direção são raramente tomados pelas mulheres”, afirma a professora do Centro de Artes da UFPel Ana Paula Penkala, que critica os papéis exercidos. “Ou elas exercem os papéis tipicamente femininos ou estão servindo, como no caso das atrizes, muitas vezes como um espelho de como a mulher é vista ainda na cultura.”
Frente feminista
A importância do cinema para propagação do debate acerca da opressão a que são submetidas as mulheres também é ressaltada por Daniele Rehling, membro da Frente Feminista Giamarê, em Pelotas. “É mais didático e facilita na luta”, afirma, lembrando de cine-debates promovidos pelo grupo para passar adiante a ideia.
A Frente Feminista Giamarê nasceu durante a articulação da Marcha das Vadias, em novembro de 2013, da necessidade de se fazer eventos como este durante o ano inteiro. Daniele conta que, para este 8 de março, serão realizadas diversas oficinas em escolas sobre a data e as mais variadas violências contra a mulher. No sábado, às 10h, haverá panfletagem convidando para uma exposição de vídeos feministas mais tarde, às 20h, na frente do Mercado Central.

*Matéria escrita para o Diário Popular

Thursday, February 13, 2014

Cinema ao Sul do mundo

O momento é de destaque. Apesar de haver muito ainda o que se construir, há de se concordar que a América Latina está na vitrine do mundo, embora ainda tenha de ser discutido o quanto isso é positivo e muda de fato a vida das pessoas daqui. Com leis progressistas decretadas por um presidente que dirige um fusca, o Uruguai foi considerado o país do ano passado pela revista britânica Economist. Com a Copa do Mundo, as Olimpíadas de 2016 e os protestos contra a vinda destes eventos para cá, o Brasil estampou capas de jornais do planeta inteiro em 2013.
Esse protagonismo parece refletir-se no cinema produzido pelo Sul da América, que conquistou seu segundo Oscar em 2010 com o argentino O segredo de seus olhos e dois consecutivos prêmios Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim, com o brasileiro Tropa de elite, em 2008, e o peruano La teta asustada um ano depois. Em 1998, o Brasil já havia vencido com Central do Brasil.
Um panorama sobre esse atual momento passa por análise de suas características. Historicamente, o cinema latino-americano fora qualificado como uma escola mais realista que as demais. Enquanto Hollywood, por exemplo, canta o mundo inteiro e assim o conquista, as produções feitas mais ao Sul prezam por histórias sobre a sua gente, sendo cases com este objetivo os de maior sucesso.
Da América Latina para a América Latina
Em mesa de debates do Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente intitulada Nuevos Caminos del Cine Latinoamericano, a colombiana Mónika Wagenberg, diretora do Festival de Cine de Cartagena e idealizadora da Cinema Tropical (distribuidora de cinema latino-americano nos Estados Unidos) propôs explicações para essa excitação criativa, acompanhada de renovação, e credita exatamente a esse viés mais realista o êxito: “O que vemos é uma preocupação, um compromisso com o que é real”, afirmou. Mónika ainda disse considerar um momento de produções extremamente autorais. “Também filmes intimistas, pessoais, que não querem julgar. São filmes de personagens, que tratam espaços interiores, o mundo dos sentimentos e famílias comuns e disfuncionais”.
Porém, o fato de o cinema latino-americano estar alcançando novo patamar de reconhecimento não é, para todos, o principal triunfo. César Charlone, diretor uruguaio de O banheiro do papa e responsável pela fotografia de filmes como Cidade de Deus, acredita que o maior contato do próprio público latino com suas produções é o que mais conta. “O importante primeiro é a gente se ver. Ver filme equatoriano num festival do Equador, como vi. Filme peruano no Peru”, afirmou em entrevista ao Diário Popular. Charlone também vê com destaque o firmamento de acordos de coprodução cinematográfica entre países latinos. “Tem recentemente assinado um entre Brasil e Uruguai, já havia um entre Brasil e Argentina. São fundamentais. É assim no cinema europeu. Você não vê um filme que não seja uma coprodução de vários países. Isso abre salas, abre público”, disse.
A seguir o leitor encontra exemplos atuais e clássicos desta característica latina de se produzir filmes: contando histórias a partir de sua própria história. A partir de seu próprio povo.
Brasil
Tropa de Elite (2007)
Vencedor do Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim, o mais recente sucesso brasileiro de público e crítica surgiu em 2007 antes mesmo de chegar às telonas. Foi o primeiro filme produzido no Brasil a vazar, meses antes, para o mercado pirata e a internet. O longa, dirigido por José Padilha, gerou interpretações mistas. Capitão Nascimento, o protagonista vivido por Wagner Moura, chegou a ser considerado um herói nacional, ideia fortemente rechaçada por Padilha, que afirmou ter sido exatamente contrária à mensagem a ser passada. Capitão Nascimento não era herói, mas sim vilão e o próprio endeusamento do personagem tinha o objetivo de servir de alerta. Veio então o segundo filme, com o intuito de desconstruir a imagem que a opinião pública brasileira havia erroneamente construído a seu respeito.
Terra em transe (1967)
Exatos 40 anos antes estava a pleno vapor no Brasil o Cinema Novo. O movimento, composto por nomes como Cacá Diegues, Gustavo Dahl e Glauber Rocha, surgiu em meados dos anos 1950 como uma antropofagia do neorrealismo italiano e da nouvelle vague francesa. O resultado esperado era um cinema que refletisse mais a realidade brasileira, com mais conteúdo e menos custo, e que fosse contra à alienação cultural causada pelas chanchadas.
Terra em transe, de Glauber Rocha, venceu o Festival de Cannes e pertence à segunda fase do movimento, prolongada de 1964 a 1972 e com o objetivo de refletir sobre o momento de Ditadura Militar e suas consequências no Brasil. Por caracterizar-se como um grupo de confronto à política de desenvolvimentismo imposta pelos militares, o Cinema Novo, aos poucos, dissolveu-se, porém se renovando com a criação do cinema marginal.
Argentina
O segredo dos seus olhos (2009)
Em 2010 O segredo dos seus olhos foi o segundo filme latino-americano a vencer o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (o primeiro você saberá logo abaixo). Baseado no livro La pergunta de sus ojos, o longa conta a história de Benjamín Espósito, um ex-servidor da justiça penal argentina que, recém-aposentado, procura aproveitar o tempo livre para escrever um livro. Para tal, inspira-se em um caso real ocorrido 25 anos antes e que sempre o comoveu: o brutal estupro seguido de assassinato de uma bela jovem, Liliana Colotto.
O segredo dos seus olhos foi o responsável por trazer ao conhecimento do grande público o provável principal personagem da nova fase do cinema argentino. Ricardo Darín parece onipresente nas produções hermanas atuais, mas talvez a verdade seja que apenas chegue até nós aqueles longas alavancados por sua presença.

A história oficial (1985)
Primeiro longa latino-americano a vencer o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, A história oficial, de 1985, também surge, assim como Terra em transe, como forma de reflexão sobre um período de ditadura, nesse caso a Revolução Argentina, como ficou conhecido o período em que os militares governaram o país vizinho.
O longa conta a história de Alicia, uma conservadora professora de História que parece estar alheia à realidade do país e acreditar nas informações transmitidas pelo governo. Em decorrência disso, a protagonista começa a ser confrontada pelos alunos. Com a chegada de uma amiga que havia sido torturada e exilada pelo regime, Alicia começa a abrir os olhos para a verdadeira história argentina da época.
Uruguai
A Casa (2010)
Quatro dias foi a duração das filmagens do terror uruguaio A Casa, de 2010. Dirigido por Gustavo Hernández, o filme tem outro dado incrível, tendo em vista os altíssimos orçamentos cinematográficos atuais: Foi rodado com apenas US$ 6 mil. Filmado com uma câmera dessas que eu e você temos em casa, o longa foi exibido em Cannes, entre outros festivais internacionais.
Equador
A que distância (2006)
A produção cinematográfica no Equador vive grande momento. Um dos grandes exemplos disso é a diretora Tania Hemida, que lançou em 2011 Em nome da filha e já havia dirigido, em 2006, A que distância, filme rodado em montanhas e praias de oito províncias do país, Pichincha, Cotopaxi, Tungurahua, Chimborazo, Cañar, Azuay, Manabí e Guayas.
Peru
A teta assustada (2009)
Após a vitória do argentino O segredo dos seus olhos no Festival de Berlim de 2008, no ano seguinte foi a vez de outro sul-americano: A teta assustada, peruano dirigido por Claudia Llosa garantiu a dobradinha.
O filme, que também venceu o Festival de Cinema de Havana, é baseado no mito andino de que as mulheres estupradas passam uma doença rara, chamada teta assustada, para os filhos provenientes do crime, através do leite materno. A protagonista, Fausta, tem a síndrome, pois a mãe fora estuprada durante a década de 1980. Ela então resolve fugir do mundo para evitar que o mesmo a ocorra.

*Matéria escrita para o Diário Popular