Wednesday, March 12, 2014

Madrugada

Porque ela pensou que ele tinha pensado algo ele pensou que ela tinha pensado algo e fez uma cara estranha. Porque ele fez uma cara estranha ela pensou que ele tinha pensado algo e ficou pensando no que tinha dito para ele ficar tão sério assim de repente. Ele ficou sério de repente porque sempre fica com medo de parecer bobalhão nesses momentos, e por ela ser mais velha, pensou que não era o caso de parecer bobalhão. E aí passaram dias sem se falar.
Porque ele há dias não falava nada ela ficou pensando que tinha estragado tudo, como sempre fazia, na vida inteira, mas era assim mesmo, fazer o que, não ia mudar seu jeito assim de uma hora pra outra e talvez nem valesse a pena, ou até valesse, mas ela não estava tão disposta assim a fazer as coisas valerem a pena e andava tão ocupada que não tinha tempo pra ficar se martirizando por “ter estragado tudo, como sempre fazia, na vida inteira”. Aí resolveu ficar off-line. Aí ficou pensando que ele ia pensar que ela tinha ficado off-line pra ele não ir falar com ela. Aí pensou em ficar online de novo. Aí pensou que ele ia pensar que ela tinha ficado off-line pra ele não ir falar com ela, mas que depois desistiu.
Porque ela há dias não falava nada ele ficou pensando que havia passado dos limites nas bobagens e olha só ela acabou de compartilhar um link supercabeça, será que “supercabeça” se escreve assim ou se escreve com hífen?  Essa nova ortografia complica demais uma língua que antes era deliciosamente complicada, que absurdo. Pensou em puxar assunto falando sobre nova ortografia, mas lembrou que eles já tinham falado sobre isso, e na verdade ele pensava que os dois já tinham conversado sobre todos os assuntos do mundo, até que ela sem querer falou (diz ele que em outras palavras) que ele era meio fútil e desde então ele tem pensado cinquenta vezes antes de puxar qualquer assunto.
E já passava das 4 da manhã. Ele achava legal ela ficar online às 4 da manhã.
E aí ela ficou off-line. E ele pensou que era um cagão mesmo.
Aí passou mais um tempo.
E durante esse tempo ela postou um link com livros do Foucault.
E ele postou um vídeo besta de Friends e ficou se sentindo idiota, porque resolveu conversar com outra nesse meio tempo e essa outra achava Friends besta.
E se passou mais um tempo.
Aí ele se embebedou no aniversário de 76 anos da avó e resolveu mandar mensagem. Ela estava estudando e não entendeu nada, mas resolveu responder qualquer coisa pra não parecer grossa. Ele falou que queria que ela fosse namorada dele pra poder morder a bochecha dela sem ser preso por isso. Ela falou que provavelmente o mandaria preso mesmo que eles fossem namorados. Ele disse que então ela enxergava a possibilidade do ajuntamento. Ela disse que não foi isso que disse. Ele disse que mas, porém, todavia, entretanto ela disse. Ela quis desconversar e perguntou como estava a festa. Ele pensou que ela estava mudando de assunto porque não estava mais interessada e ficou sério o resto do aniversário inteiro. Aí chegou em casa e viu que ela estava estudando enquanto ele falava merda. Aí botou a mão na testa.
Porque ele não respondeu mais nada, ela ficou pensando que mais uma vez tinha sido insensível, mas não dá pra ficar o tempo todo pisando em ovos, tenho que dizer o que eu penso, que coisa mais chata, uma hora me irrito e nem respondo mais, que cara chato e que se ofende com umas coisas sem sentido, tenho paciência não.
E se passou mais um tempo.
E durante esse tempo ele pensou que ela tinha desistido de vez, tinha visto que na verdade ele não era tão legal quanto parecia naquelas conversas de, sei lá, três horas, e que talvez até tenha voltado para algum ex mais interessante. Isso sempre acontecia, não era novidade alguma e ele não estava surpreso. Essa era a sua sina. As mulheres o achavam interessante no início, o papo é bom, mas depois ele sempre estraga tudo. A culpa é da ex. A culpa é da família, que nunca lhe deu carinho o suficiente. Que nada, a culpa é minha mesmo.
E se encontraram na mesma festa onde, há dois anos, ele gostou do movimento dela. E ele falou pra ela que eles estavam na mesma festa onde, há dois anos, ele gostou do movimento dela. Ela riu e pediu pra ele atualizar a ordem cronológica dos fatos porque não lembrava mais, mas na verdade ela gostava de ouvir ele contando. Ele contou que viu ela primeira vez na fila de uma festa, depois em outra e só depois num show resolveu puxar assunto. Ela riu e pediu pra ele contar pra uma amiga que tinha voltado do bar. Ele contou de novo, porque também gostava de contar e porque achava que essa amiga não gostava muito dele, então também tentou engatar algumas piadinhas sem graça, mas que a amiga acabou gostando e deu tudo certo. Ele chamou uns amigos pra entrarem na roda. Os amigos dele foram embora, um estava com pneumonia e o outro desfilaria num evento militar na manhã do dia seguinte, mas ele resolveu que ficaria e ela não queria deixá-lo sozinho, então o chamou pra ficar junto no grupo. E ele ficou no grupo.
Porque ele não tinha como voltar, ela ofereceu carona. Eles moravam muito longe um do outro, então ele disse que não precisava, mas já abrindo a porta do carro.
E aí ele olhou nos olhos dela.
E aí ela não entendeu muito bem a reação dele.
E aí ele a beijou.
E aí ela quase atravessou uma preferencial aonde vinha uma van.
E ele falou que seria uma morte muito triste se eles morressem agora.
E ela falou que seria uma morte muito besta, isso sim.
E aí ele fez uma cara estranha.

Porque ele fez uma cara estranha ela pensou que ele tinha pensado algo e ficou pensando no que tinha dito para ele ficar tão sério assim de repente

Monday, January 20, 2014

Os minutos que faltam para eu comer a pizza que sobrou do almoço

Eu devia ter comido toda a pizza no almoço.
Mas aí eu não teria pizza pra comer quando chegar em casa às 7. Eu teria que ir na fruteira da esquina, que tem um cheiro muito bom e salgados de peito de peru extraordinários.

Felizmente eu não comi a pizza inteira no almoço, felizmente eu estava atrasado e não deu tempo de comer a pizza inteira no almoço, me dando a oportunidade de comer o resto quando chegar em casa às 7. Felizmente também eu fiquei com fome por não ter comido a pizza inteira no almoço, me dando a oportunidade de satisfazer um desejo enorme que é comer o resto quando chegar em casa às 7.
Quem não concorda com essa felicidade é o dono da fruteira da esquina, que tem um cheiro muito bom, não o dono, ele eu nunca cheirei, mas a fruteira, que tem um cheiro de uva delicioso e ainda tem salgados de peito de peru extraordinários, não o peru, quer dizer, talvez o peru fosse extraordinário e essa seja a real causa do salgado feito dele ser tão bom.

Eu poderia também ter lembrado de trazer dinheiro, que aí dava para ir no Cruz de Malta e comer dois croquetes com muito treme-treme enquanto tomo uma coca, porque hoje é só segunda e o todo mundo sabe que o dia de tomar chopp no Cruz de Malta depois do trabalho é sexta.

O ruim é que agora já são quase sete e meia, até eu chegar em casa são oito, aí oito horas não é um bom horário pra comer, porque fica muito perto da janta e aí não vou ter fome na janta, e se eu não jantar vou ter fome de manhã e, ou vou ter que acordar dez minutos antes pra tomar café, e aí não vou ter fome no almoço, deixando pra ter fome no meio da tarde, quando não dá pra comer, aí só vou consegui às oito, que não é um bom horário pra comer porque fica muito perto da janta e aí não vou ter fome na janta e se eu não jantar vou ter fome de manhã e, ou vou ter que acordar dez minutos antes pra tomar café ou não vou comer até o almoço, quando vou estar com tanta fome que vou comer rápido e quando eu como rápido acabo não comendo nada e se eu não comer nada no almoço vai chegar perto das seis e eu vou estar definhando e seis horas já não dá pra sair pra comer, aí vou esperar até a hora de ir embora e aí já são oito e oito horas não é um bom horário pra comer por que

Tuesday, January 14, 2014

O falso 9

Apesar da suposta facilidade com que trabalha o jogador centroavante – necessita às vezes apenas que a bola encoste nele e entre –, muito embora hoje se tenha conhecimento de um gene extremamente recessivo que condiciona o ser humano a ter maior facilidade em botar a bola pra dentro, há atletas que preferem não se ater apenas a essa função. São os falsos 9.
O falso 9 está lá, na marca do pênalti. Ele veste a camisa do centroavante.
Faz, de fato, muitos gols.
Mas não queira ver o falso 9 como uma referência.
Falsos 9 não admitem essa possibilidade.
Falsos 9 não se prendem a esquemas táticos pré-determinados que o coloquem com a função única e exclusiva de fazer o gol.
Mas o falso 9 faz, de fato, muitos gols.
O falso 9 precisa constantemente sair da área para respirar.
E não tente prender o falso 9 dentro da área.
O falso 9 não funciona preso à área.
Há quem pense que o falso 9 surgiu no Barcelona de 2011, com Messi.
Ou no Arsenal, anteriormente, com Fàbregas.
Que no meu time da Master League já jogou até de lateral.
Direito e esquerdo.
Mas o primeiro falso 9 – que se tem conhecimento – surgiu muito antes, na Hungria dos anos 50.
Enquanto Puskas vestia a 10, Hidegkuti usava a 9.
A diferença é que o húngaro se movimentava apenas para dentro ou fora da área, sempre centralizado.
Messi transita tridimensionalmente pelo campo.
Por isso, além de falso 9, é gênio.
Mas também não pense que o falso 9 é falso.
Que está ali para ludibriar o adversário.
Aproveitar-se da fragilidade tática dele.
O falso 9 é honestíssimo.
Ou pelo menos tem de ser para funcionar.
Se cai na tentação de ser falso apenas pelo adjetivo, não engana a ninguém.
A não ser a si mesmo.
Há muitos centroavantes que se passam por falso 9.
Erro.
É o falso falso 9.
Qualquer definição que tenha um adjetivo negando outro é um erro.
Mas há quem tenha maior poder de adaptação e consiga funcionar tanto como centroavante, quanto meia e falso 9.
Dependendo da situação.
Se o jogo é em casa ou fora.
Mas é raríssimo encontrar um jogador dessa qualidade.
Ou então se torna um atleta como Jorge Henrique.
Apenas polivalente.
Adaptar-se mantendo o padrão de qualidade e satisfação é muito difícil.


Thursday, December 26, 2013



Você aparece e aí tem muito você. Tem você líquida, tem você sólida, tem você na televisão, tem você de repente, tem você o tempo todo, tem você no que faço, tem você no que não faço e esse tanto de você é tanta gente que se transforma em nós e aí somos nós líquidos, nós sólidos, somos nós de repente, nós o tempo todo e tudo parece uma tarde de sol na Secult.
Mas você é leve, é incrível como você é leve, nos movimentos, na maneira de pensar, em como me olha, mas você é leve e como venta aqui na Secult, eu fico toda hora pensando que o vento vai levar para longe tudo o que a gente demorou pra construir e não me seguro e convido você para vir aqui e você vem, mas você é leve, é incrível como você é leve e o vento leva você de novo e aí você desaparece, mas segue tendo muito você.

Thursday, December 05, 2013

Quando

Quando eu chego na Secult começa o vento e as folhas se mexem uniformemente. Quando amei São Paulo o amor estava em Pelotas. Quando amei Pelotas o amor estava no avião. Quando amei no céu o amor estava dentro de casa. Quando a casa era em casa a minha casa era na rua. Quando a rua era a casa a minha rua era dentro de casa.  Quando fui dormir cedo ela ficou online até mais tarde. Quando fui dormir tarde ela estava com outro. Quando criei asas caí. Quando caí criei asas. Quando criei queda caíram asas. Quando danço enrosco as pernas. Quando enrosco as pernas as pessoas riem. Quando as pessoas riem eu danço. Quando abri os olhos claridão. Quando claridão assustei. Quando assustei escuro. Quando escuro claridão. Quando claridão me assusto.  Quando eu estava pra besteira ela conversou sério. Quando eu estava triste ela conversou besteira. Quando eu sério besteira ela estava. Quando na Lua flutuei. Quando flutuei fechei os olhos. Quando fechei os olhos acordei. Quando acordei voltei à Terra. Quando voltei à Terra sumi. Quando sumi fui à Lua.  Quando o telefone tocou estava no silencioso. Quando não tocou era preciso tocar. Quando precisava gastar dinheiro com carteira de motorista gastei com viagem. Quando na viagem era pra ter ido de táxi resolvi ir de ônibus. Quando no ônibus resolvi descer um ponto depois do lugar porque parecia mais perto no GPS. Quando no GPS tive de recalcular rota. Quando recalcular rota sempre pegar o caminho mais curto. Quando caminho mais curto sempre ir mais devagar. Quando ir mais devagar cuidado para não parar. Quando parar pare.


Quando tudo era certo tudo deu certo.

Tuesday, November 19, 2013

Isabel

isabel, você foi a primeira coisa que eu vi ao adentrar o largo das artes que eu encontrei por um grande acaso pois já tinha desistido de ir ao evento da bolha por ter preferido ver uma peça que parecia interessante e tinha uma atriz bonita, mas saiba você que não deu tempo de ver a peça porque um amigo meu de pelotas estava no rio também e me chamou pra ir à praia jogar conversa fora e procurar mulheres de mochila e quando eu fui ver já eram quase três e quinze e a peça começava às dezesseis e eu estava em ipanema e a peça era no centro cultural banco do brasil aí resolvi pegar um taxi e, ai meu deus, aquele táxi andou cento e quarenta quilômetros por hora, não, não tô exagerando, eu olhei e fingi apertar o freio com meus pés como que dando uma indireta pro taxista diminuir um pouco, mas ele não entendeu, muito pelo contrário, começou a buzinar para os ônibus querendo se atravessar na frente deles, eu pensei que talvez pudesse morrer ali e a minha vida melhoraria muito se eu morresse, mas mesmo assim eu ficaria muito triste caso isso acontecesse e então cheguei ao lugar da peça, paguei o taxista e nem dei tchau em sinal de protesto ao fato de ele quase ter tirado a minha vida umas dez vezes, aí eu fui correndo pra bilheteria porque, embora tenha quase me matado, o taxista me deu uma leve esperança de que eu ainda poderia pegar a peça, mas a atendente disse que já eram dezesseis e vinte e não dava pra entrar atrasado, eu nem insisti pois estava errado mesmo, aí fiquei sentado ali nas escadas do centro cultural banco do brasil comendo um salgado e tomando uma coca e vendo as pessoas passarem, aí resolvi dar uma volta pra passar o tempo, entrei num lugar aonde um cara estava colocando uns sons estranhos para umas pessoas estranhas dormirem em pufes espalhados pelo chão, eu estava meio cansado e então resolvi sentar em um dos pufes, mas logo me enchi o saco daqueles sons e fui dar mais uma volta e aí eu vi a atriz bonita que fazia a peça, ela estava com uma rosa na mão e era mais bonita em fotos do que pessoalmente, mas também era bonita pessoalmente, aí fiquei uns cinco minutos olhando pra ela de longe, sabe deus por que, até que cansei, peguei meu celular e fiz uma rota no GPS para chegar no hotel, comecei a seguir a rota e achei o largo das artes por um grande acaso como contei anteriormente e você foi a primeira coisa que eu vi lá dentro como contei anteriormente e vi você mais umas vinte vezes que era pro caso de nunca mais ver, ter visto todas as vezes que fossem possíveis e você estava com outros dois caras que eu torci para que nenhum fosse seu namorado, aí deixei você um pouco de lado e fui curtir a exposição e comprei várias coisas lindas como um cartaz que diz que pessoas descansam sob as árvores e aí por um grande acaso do universo nós dois paramos juntos para ver a mesma obra e a artista deu a explicação para nós dois e eu fiquei feliz e aí fui para o outro lado ver mais coisas e aí vi você indo embora e assinando seu nome na lista de presenças do evento e não resisti, tive que olhar e anotar seu nome para procurar na internet mais tarde e eu anotei seu sobrenome errado, ao invés de scarla eu anotei scorla, mas o facebook anda muito inteligente ultimamente e você foi o primeiro resultado e tudo isso faz uma semana, apenas ontem eu tive coragem de te adicionar, perguntei pra vários amigos e a enquete ficou apertada, mas resolvi adicionar mesmo assim e você aceitou, mas não respondeu ao texto que eu coloquei explicando, aí coloquei uma carinha feliz para mostrar que estava feliz por você ter me aceito, mas você também não respondeu a isso, o que está tudo bem, eu não esperava nem ao menos ser aceito, estou no lucro, já posso pegar outro táxi da morte e morrer.

Monday, November 18, 2013



de repente o mar de repente uma grande criatura de repente tanto mar de repente tanto tempo de repente tanta coisa de repente pouco tempo de repente pouca coisa de repente pouco mar de repente navegar de repente de olhos fechados de repente ou de corpo aberto de repente voar de repente o cinza de repente a cor de repente os dois de repente um só de repente mais de repente o nada de repente correr de repente se virar de repente esperar de repente esperar de repente esperar de repente esperar de repente esperar de repente esperar de repente esperar de repente esperar de repente esperar de repente esperar de repente esperar



os passos de gato
os passos de gato dados
os passos de gato dados um de cada vez
pintados de leve de um vermelho
gritante
os passos de gato
os passos de gato em cima da árvore
os passos de gato em cima da árvore alta
os passos de gato dados um de cada vez
os passos de gato
os passos de gato ouvidos
os passos de gato ouvidos ao longe
por quem espera dar passos de gato


Wednesday, November 13, 2013

Ingrid

eu sentei ao seu lado no ônibus mesmo havendo espaços maiores vagos, ingrid, eu conversaria com você mesmo se você não estivesse com um livro do galeano debaixo dos braços, ingrid, eu chamei outros dois 433 antes e eles não pararam para mim, ingrid, eu devia estar estudando mas estava ao seu lado, ingrid, eu devia estar estudando mas estou procurando no facebook todas as mulheres chamadas ingrid que moram no rio de janeiro, ingrid, você vestia laranja e tinha dentes brancos, ingrid, eu não peguei seu sobrenome, ingrid, você pegou o meu quando eu lhe dei meu livro, ingrid, por favor me procure, ingrid, você pega o mesmo ônibus todos os dias, ingrid? na verdade tanto faz, ingrid, estou indo embora amanhã, ingrid, eu esqueci de lhe dizer isso, ingrid, talvez eu não volte nunca mais, ingrid, eu preciso estudar, mas a internet do hotel não está funcionando direito, ingrid, onde você estava antes? tomara que você não seja essa que parece um pouco no avatar e está casada, ingrid, ou ainda essa que posta apenas coisas relacionadas a academia e perder peso, ingrid, muito menos essa ingrid que trabalha na empresa vasp - vagabundos anônimos sustentados pelos pais, ingrid, eu ia tirar foto com o ney matogrosso mas não consegui e fui embora, ingrid, e você estava no mesmo ônibus, ingrid, você tem muita cara de carioca, ingrid, isso é um elogio, ingrid, quero lhe ver de novo,  ingrid, eu não entendi direito o nome do selo literário em que a sua amiga trabalha mas fiquei com vergonha de pedir pra você repetir, ingrid, por fim, ingrid, foi uma das cenas mais tristes da minha vida, ingrid, ver você desaparecer da janela do ônibus para um provável nunca mais.

Tuesday, October 29, 2013

Tic Tac

acho que funciona mais ou menos como bala. não, não bala de revólver, talvez mais próximo da droga, mas também não. é a bala tipo o doce. mas aí também pode ser confundida com a droga. acho que a essa altura todo mundo já entendeu. enfim, também acho que é importante deixar claro que não é a bala chiclete, aquela que não pode nunca engolir porque senão mata de uma forma muitíssimo horrível, que é trancar tudo dentro do corpo.  é a bala tipo halls mesmo. tic tac. freegells de cereja, aquela que há muito tempo era vendida com uma charada do show do milhão dentro. uma das minhas principais lembranças da infância. o que eu quero dizer, e digo agora antes que esqueça, coisa muito provável de acontecer, é que a vida funciona mais ou menos como bala. não, o tamanho da bala não importa. você por favor me deixe falar caso contrário eu vou esquecer e já comi quase o pacote inteiro e tenho medo de perder a inspiração assim que o pacote terminar de vez. a vida funciona mais ou menos como bala porque a gente pode até tentar economizar pra durar mais tempo, a bala ir diminuindo, diminuindo, até não sobrar mais nada, mas é muito difícil fazer isso. muito difícil. o mais comum é você não resistir e morder a bala no meio do caminho. e aí a bala perde totalmente a graça. é engolir e comer outra. mas o pacote vai terminando, daqui a pouco se foi todo e você desperdiçou tudo sem a menor graça. pelo simples prazer de menos de um segundo que é morder a bala. não tô dizendo que todo mundo é impulsivo e morde a bala por ser fraco e não conseguir se segurar e ter que morder a bala caso contrário sabe-se-lá o que pode acontecer, que tipo de monstro pode vir cobrar a mordida. não é isso, embora comigo seja e tenho quase certeza de que com quase todo mundo também, uns tendo mais força de vontade que os outros e mordam depois. não, eu já disse que o tamanho da bala não importa. tudo bem que o tic tac dura menos então a tentação é teoricamente menor que a de um halls, mas você já mordeu os dois, não é? sabe que o gosto maior do tic tac tá dentro dele, coisa que a pessoa só tem acesso caso morda, quer dizer, eu acho, nunca consegui chegar até o final do tic tac, quando vê lá no final tem um gosto esplendido de redenção, não sei. não tô dizendo que todo mundo é impulsivo e morde a bala por ser fraco e não conseguir se segurar e ter que morder a bala caso contrário sabe-se-lá o que pode acontecer. mas, vamos ser honestos, às vezes a gente nem repara, tá lá tranquilo, tá tudo bem, a bala tá sob controle , mas quando vê  ela tá lá, partida ao meio, com a vida dividida em dois. e esse é o maior problema em a vida funcionar mais ou menos como bala. quando algo incomoda, como é o caso do que acontece comigo, que não consigo ficar sem morder a bala, há toda a dor da agonia que é morder ou não. e aí quando você morde a bala vem toda aquela sensação de prazer oriunda do alívio que é se livrar da agonia. mas quando não há dor é tudo muito triste em a vida funcionar como bala. pois a pessoa não percebe a mordida e não aproveita o gosto do tic tac mordido. e aí a pessoa fica tentando voltar o filme, desde o momento em que colocou a bala na boca, procurando em vão o momento em que a coisa foi pro espaço. pode vasculhar o cérebro à vontade que não vai achar. também pode acontecer de você estar indo bem, mantém a bala sob controle, tá concentrado em manter a bala inteira, já está chegando no final, vai conseguir, vai conseguir e de repente a bala se quebra, pois já está muito frágil, não foi culpa sua, nem mesmo da bala, não há um culpado, simplesmente aconteceu, parte pra outra e... ah, não! a minha gata empurrou o pacote de bala no chão e esparramou tudo! 

Friday, July 05, 2013

Momento


- O que você vai querer comer?
- Você está perguntando, no nosso jantar de aniversário de vinte e sete anos de casados, o que eu vou querer comer?
- Sim, eu estou perguntando, no nosso jantar de aniversário de vinte e sete anos de casados, o que você vai querer comer porque em vinte e sete anos de casados, somados a mais três de namoro e mais um e meio em que eu te observava por aí você sempre iniciou um jantar perguntando “o que eu vou querer?”.
- Então nesse tempo todo você já deveria ter percebido que eu pergunto para mim o que eu vou querer comer.
- Você e esse seu feminismo.
- Você e essa sua ideia errada de feminismo.
- A gente vai passar o nosso jantar de aniversário de vinte e sete anos de casados brigando? Tudo bem que isso aconteceu no jantar de vinte e três e depois o amor de um pelo outro cresceu como não crescia há quinze, mas agora, quatro anos depois, nossos filhos já estão formados na faculdade. Não temos mais esse gás todo para brigar e fazer as pazes em questão de horas.
- Concordo.
- Por falar em filhos, você tem falado com a Mariana? Assim, depois da demissão.
- Não. Eu liguei várias vezes, mas nada. Falei com a menina que divide o apartamento e ela disse que a Mariana não forma uma frase de cinco palavras há duas semanas.
- Bom, normal. Quando a Mariana fala pouco, ou não fala, é porque já passou de fase no sofrimento. O problema sempre foi quando ela ficava falando sobre o assunto por três horas consecutivas.
- Você sempre entendeu a Mariana muito melhor do que eu. A minha relação com ela sempre foi tão... Distante, não sei.
- Não é uma relação distante. Com certeza é uma relação diferente da que eu tenho com ela, mas isso vai de pessoa pra pessoa. Você pode ver isso como ela precisando falar mais para se comunicar comigo e com você ser tudo mais simples.
- Mais superficial...
- Talvez. Mas essa ideia de “superficial” e “profundo” é tão subjetiva. O fato de você estar preocupada com a forma com que ela está levando essa fase difícil já não significa que a relação de vocês duas é profunda? Vai ver é só uma questão de jeito. O seu é de analisar as coisas com distanciamento, para formar uma opinião mais sensata sobre as coisas, enquanto o meu é mais próximo.
- Então eu sou mais distante mesmo.
- Você não é mais distante. É como se eu fosse pai e você anjo da guarda.
- Mas eu não quero ser anjo da guarda, eu quero ser mãe. Às vezes eu acho que a nossa filha me vê mais como uma amiga distante do que como uma mãe!
- Eu acho que você está viajando na maionese. É claro que ela vê você como mãe dela. Você só é um tipo diferente, mas diferente do que você mesma espera ser, e não do que ela espera que você seja. Então, o que você vai querer comer?
- Eu não sou “um tipo diferente” de mãe. O que é “um tipo comum” de mãe? Ficar o dia todo em casa fazendo comida e passando roupa? Se for, eu realmente prefiro ser um tipo diferente.
- E tenho certeza de que a Mariana tem o maior orgulho de você ser do jeito que você é. Eu acho que vou pedir esse salmão.
- Olha aqui...
- Meu bem, hoje é o nosso aniversário de vinte e sete anos de casados. A nossa filha já está bem crescida e superando muito bem um problema. Vamos tentar ser namoradinhos só por hoje?
- A gente nunca foi muito “namoradinhos”, né? Acho que por a gente ser muito amigo, não sei. Mas a gente nunca foi um casal desses que têm apelidos e coisa e tal.
- Não, mas quando estamos só os dois a gente é bem namoradinho.
- :) Será que nós estaríamos aqui os dois, trinta e sete anos de casados, somados a mais três de namoro e mais um e meio em que você me observava por aí, se fôssemos “namoradinhos”?
- Eu acho que não, porque a gente estaria sendo pessoas que não somos. A gente está aqui, trinta e sete anos de casados, somados a mais três de namoro e mais um e meio em que eu te observava por aí porque se encontrou. E não por aquela história de “alma gêmea”, que eu acho uma besteira e você também. A gente se encontrou, viu que ali na frente estava uma pessoa que dava pra passar a vida toda e foi lutando pra fazer dar certo.
- Você sempre lutou mais do que eu...
- Mais uma vez é viagem sua nessa maionese doida que é a sua cabeça. Você só foi sempre mais calada, mais introspectiva. A sua luta sempre foi com você mesma.  
- Eu sempre tive medo que a gente se separasse em algum momento. Não separar no sentido de divórcio, porque isso é coisa que acontece. Separar no sentido de se desligar.
- Eu também, embora sempre dissesse ter uma segurança imensa do que a gente tinha. Mas agora estamos aqui os dois nesse diálogo escrito por você.
- Mas que poderia muito bem estar sendo escrito por você. Eu acho que vou escrever que você me beija agora.
- Escreve antes aí que o meu salmão chegou, porque a fome está quase maior do que a nossa história. 

Monday, May 27, 2013

Casa


 Para Helene Sacco
Casa-movente, de Helene Sacco

Nesse mundo cheio de caraminholas, dor de cabeça e corrupção na saúde existem as casas. E são muitos os seus tipos.
Tem a primeira casa de morar junto, que é um sonho e quando se realiza depois de muito esforço não dá vontade de sair nunca mais. Mas manter uma primeira casa de morar junto – que também pode ser a do meio, podendo inclusive ser a do fim, podendo inclusive ser a primeira de todas – é uma tarefa das mais árduas. Normalmente esse tipo de casa é habitado por jovens, novinhos na vida, que ainda não sabem muito bem o que fazer depois que já estão ali morando juntos, será que vai dar certo, será que não vai, se não der quem vai ficar com a casa, e esse mundaréu de dúvidas se soma às dívidas que chegam tanto quanto e o pobre casalzinho, novo na vida, que ainda não sabe muito bem o que fazer depois que já está ali morando junto, ainda não tem a base necessária para uma casa de tanta importância e o imóvel, que não tem nada a ver com isso, acaba simbolizando esse tsunami todo. A primeira casa de morar junto – que também pode ser a do meio, podendo inclusive ser a do fim, podendo inclusive ser a primeira de todas – requer muita coragem e muito empenho. E um pouquinho de amor também.
Tem a casa de morar sozinho. Essa tem que ser muito amiga da pessoa que for lhe acompanhar, porque pessoas tendem a gostar de solidão só por um tempo e, quando esse tempo passa, a casa tem que ser quente para não desandar tudo.  O fato de ser uma casa de se morar sozinho também aperta quando a pessoa precisa de alguma coisa que só outra pode fazer, como por exemplo, anotar um recado quando o sozinho não está ou massagem.
Tem casa que é abandonada no meio do caminho porque os seus habitantes precisam de mais espaço ou esperam algo maior que a casa não pode por si só dar e fica ali tentando se explicar, tentando achar uma solução, “quem sabe vocês não me deixam por um tempo para eu me reformar, quem sabe pode dar certo?”, mas os custos não valem a pena, ela já tá ficando velhinha mesmo, melhor se mudar para uma maior.
Tem casa que é movente. Essa casa é tão boa, mas tão boa, que vale a pena levar junto quando se quer – ou se tem que – ir para outro lugar. Apenas as casas que não podem ser destruídas com um sopro do Lobo Mau podem ser moventes.
Tem casa que não é bem casa. São aquelas construídas em série com a finalidade de receber moradores por um espaço curto de tempo determinado. As casas que não são bem casas costumam ser interessantíssimas, há sempre a surpresa de como serão por dentro, mas os lençóis que não são seus, o colchão que é melhor do que o seu, mas não tem o seu formato, as janelas que não abrem, tudo isso contribui para que a estadia dure tanto quanto o sabonete oferecido por elas.
Tem casa que não existe. Tem casa que é carro. Tem casa que é aeroporto. Tem casa que é o escritório porque as coisas não vão bem financeiramente. Tem casa que é dos outros. Tem casa que é várias ao mesmo tempo.
A casa que a tartaruga tem é um caso muito especial. Ter a mesma casa por duzentos anos não é para qualquer ser vivo.
Tem casa que pega fogo. Ou por muito amor ou por um descuido. O incêndio também pode ser causado pelo casamento destes dois fatores. Pessoas quando amam são naturalmente atrapalhadas, mesmo aquelas mais organizadas, centradas e sensatas são atabalhoadas em algum momento ou caso.  Aí, sabe como é, uma faísca perto de uma madeira e a casa vira escombros.
Tem casa que precisa ser desabitada por um tempo. Precisa passar por algumas reformas, o piso do banheiro é muito frio, a sala tá muito pequena e a cozinha muito grande, talvez seja melhor equilibrar isso. Em alguns casos, a casa que precisa ser desabitada por um tempo precisa disso para que não acabe matando seus moradores. Acontece quando há uma infiltração e o teto pode cair, quando há uma infestação de ratos ou quando há risco de desabamento, mas aí o caso é seríssimo e a saída tem de ser imediata.  
Tem, claro, a primeira casa. Essa é aquela onde você deu os primeiros passos, onde ganhou os melhores presentes de natal e onde não havia muitos problemas. Na primeira casa estão o vão da porta do quarto, utilizado para marcar a sua altura no decorrer dos anos, a sua caixa de brinquedos, hoje empoeirados, mas que ainda dão vontade de serem brincados, os cadernos antigos da escola, os caminhos que você já conhece milimetricamente por fazê-los há anos. E a primeira casa também conhece você milimetricamente. A primeira casa é capaz de perceber quando o morador está um pouco borocoxô e fazer nascer uma flor de jasmim no quintal. Acontece também de a primeira casa ser também a do meio ou última ou a do meio e a última, não podendo jamais esse processo ser considerado certeiro.
Tem casa que tem intimidade o suficiente com seus moradores ao ponto de receber um apelido – geralmente Lar. Esse tipo também pode ser a primeira, como pode ser a do meio, ou a do fim, podendo ser a mesma e podendo ser várias ao mesmo tempo.  
Um grande problema acontece quando a primeira casa é vendida após uma pessoa ir para a casa de morar sozinho. Às vezes acontece inclusive de ser de repente, a pessoa já não tem muito contato com ela, até por querer desfazer o vínculo de vez, então não há porque ter o aviso. Mas, ao saber que a casa não lhe pertence mais, como sofre a pessoa da casa de morar sozinho! Dá aquela dorzinha no coração e na garganta, o que funciona como um combustível pra fazer besteira e lá vai a pessoa da casa de morar sozinho tentar invadir a primeira casa. Cresceu lá, muito já subiu naquelas árvores e sabe quais dão acesso. Mas não tem muito o que fazer. Aquela residência, outrora sua, agora é o Lar de outra. Aquele quarto, outrora seu, é o descanso de outra. Aquele pátio, outrora lugar de esconder as coisas mais especiais para serem trazidas de volta no futuro, agora está inatingível. 

Monday, May 20, 2013

Subjetivo

quando você some fica offline não atende celular não atende porta não responde sms meu deus como minha garganta dói dá vontade de te ligar mas você não atende celular não atende porta não responde sms some fica offline e a voz dentro da cabeça fica tentando fazer o caminho mais fácil mas já são anos obviamente o caminho mais fácil não seria o caminho mais fácil ou será que seria que pena se for pois ser o caminho mais fácil significaria que na verdade a história é igual e não há tantas coisas especiais como pareciam há dois minutos aquelas em que eu canto rei leão você ri você conta o dia eu presto atenção você encosta o pé no meu e eu deixo eu encosto o pé no seu você me faz carinho você tem dor de cabeça eu curo eu saio da terra você me cura você pisa os pés no chão eu curo mas aí aparece outra voz dizendo pro coração calma o coração dizendo pra cabeça calma nada a garganta dizendo não aguento mais o pulmão dizendo ai ai ai a perna dizendo meu deus do céu você dizendo não e eu não podendo dizer nada porque você some não atende porta não responde sms não atende celular fica offline e beijo você antes de tirar os sapatos

Wednesday, April 24, 2013

Imaginário


- Oi.
- AH! QUE SUSTO! Quem é você?!
- Você não se lembra de mim? É como se Deus não lembrasse de Adão e Eva.
- Hãn?
- Eu sou o Augusto.
- Augusto...?
- Nem assim? Vamos lá, pensa um pouco.
- Hmmmnão, desculpa. Não me lembro.
- E se eu desaparecer e aparecer de novo assim?
- Como você fez isso??????
- É simples. Eu não existo.
- Não existe?
- Desde dezenove de janeiro de mil novecentos e noventa e sete, data em que você decidiu que estava grande demais para um amigo imaginário.
- Você é o meu amigo imaginário???
- Era, né? Eu não sei se você se lembra, mas você me abandonou.
- E você queria o que? Que eu tivesse um amigo imaginário pela vida inteira?
- Eu teria um amigo real pela vida inteira. Enfim, você deve estar se perguntando por que diabos eu voltei, assim, tanto tempo depois.
- Na verdade, não. Eu ainda estou trabalhando com a hipótese de estar sonhando.
- Me avisaram que isso provavelmente aconteceria...
- Ai!
- Desculpe, mas o beliscão foi necessário. Agora você acredita em mim?
- Não, mas se eu disser isso você vai me beliscar de novo e eu ando numa de evitar dor.
- É por isso que eu voltei. Para falar que você é um idiota.
- Só isso? Não precisava ter saído lá do... da... de onde você vem. Eu sei que sou um idiota.
- Não tem nada mais idiota do que dizer “eu sei que sou um idiota”.
- Sei disso também. Por isso que eu sou um idiota em dobro.
- Você é muito chato. Eu não sei como sigo querendo ser seu amigo.
- Por que você não existe. Você é uma criação minha. É uma criatura que gosta de mim inclusive quando eu sou idiota.
- Você é tão idiota e tão inseguro que me criou apenas para ter a segurança de que alguém gostaria de você na saúde e na doença... Eu vou ter trabalho.
- O seu trabalho já está feito aqui, certo? Por que então não volta pra... SEI LÁ ONDE!
- Eu venho do mundo dos amigos imaginários abandonados.
- Essa coisa existe?
- Mas claro. Está em pauta a criação de um sindicato da categoria. Precisamos nos unir contra pessoas como você. Mas enfim, eu não volto para lá porque você é idiota por muitos motivos, mas um deles em especial. Um que se eu não viesse te salvar hoje, provavelmente você se tornaria um idiota eterno.
- E que motivo é esse?
- O fato de você sempre colocar a carroça na frente dos bois.
- Hãn?
- Ah, desculpa, essa é uma expressão muito usual no mundo dos amigos imaginários abandonados. Significa sofrer por antecedência. Ter uma ejaculação precoce de preocupação.
- Eu não tenho isso! Sou perfeitamente capaz de controlar meu sofrimento!
- Cara, por favor, isso é normal, acontece com todo mundo.
- Comigo nunca!
- Ah, é? E quando eu apareci aqui hoje? Você não se preocupou comigo ao ponto de esquecer totalmente de quem eu era?
- Ah, sim, porque é extremamente normal uma pessoa aparecer de repente, depois desaparecer e aparecer de novo. Na verdade, é até corriqueiro, acontece toda semana. Estava estranhando a demora nessa.
- Idiota. E o que dizer de quando você me abandonou?
- O que tem?
- Você decidiu que “estava muito velho para ter um amigo imaginário”, me jogou no fundo do armário e o que aconteceu? Você passou cinco anos sem ter um amigo sequer. Os cinco anos mais tristes da sua vida. Tudo porque, impulsivamente, decidiu que “estava muito velho para ter um amigo imaginário”.
- E você voltou, mais de dez anos depois, para reclamar disso?
- Idiota. Eu vim salvar você de fazer tudo de novo. Vim salvar você de você mesmo, se você for uma pessoa de clichês.
- Eu já disse que tenho total controle do meu sofrimento.
- Todos dizem isso, mas, na hora H, o fluxo é muito grande e não conseguem segurar. É puro receio de iniciar o tratamento.
- Vamos acabar logo com isso. Me trate logo.
- Isso. Aceitação do problema é o primeiro passo. Sente-se nessa cadeira enquanto eu monto o equipamento.
- Que cadeira?
- Ah, desculpe. Essa.
- Vai logo com isso.
- Tudo pronto. Veja esse powerpoint produzido por mim mesmo para a ocasião.
- “Como curar o sofrimento precoce”?
- Sim. Algum problema? Acho bom. Então, você reconhece essa?
- Sim, é minha namorada.
- Não. Essa é a pessoa que você vai abandonar semana que vem porque pensar que daqui vinte anos vocês pensarão de formas diferentes. Não quero me gabar, mas ela é minha namorada.
- Ela é MINHA namorada!
- Não. Vocês dois vão ser muito diferentes no futuro e isso fará com que você, num futuro um pouco mais próximo, se encha de sofrimento ao ponto de não se segurar e estragar tudo. Eu também não penso da mesma forma que ela, mas tenho meu sofrimento perfeitamente controlado. Consegui manter-me firme, sem querer viver a vida inteira em cinco meses. Se você quiser ela de volta, tem totais condições. Ela te ama e eu sou só um passatempo. Mas acho melhor correr, pois eu sou um ótimo passatempo. Recheado quando ela deseja, simples quando ela precisa.
- Como você pode fazer isso? Eu pensei que nós fossemos amigos. Tudo isso é vingança por algo que eu fiz há mais de dez anos? Olha, você é menor do que o instante em que desapareceu antes de aparecer de novo.
- Eu posso fazer tudo. Eu não existo.
- Como não existe se daqui dez anos irá roubar a minha namorada?
- Eu existo apenas quando você quer que eu exista. Sou uma criação da sua cabeça para frear os seus impulsos. Funciono como um gel retardante. Agora, faça o favor de me deixar em paz no mundo dos amigos imaginários abandonados e se acalmar. Sei lá, fazer uns exercícios, meditar... Pode começar treinando agora. Lá vem ela.
- Você é o melhor amigo que eu já tive na vida. E sou eu mesmo. Eu vou. Mas calmamente. Rápido.

Sunday, April 14, 2013


- se a senhora quiser eu posso fazer uma ronda especial na sua casa
- o senhor não se preocupe que se aparecer alguém aqui eu mato
- mas a senhora não se esqueça de se livrar do corpo

Monday, April 08, 2013

Não adianta insistir


Roberto decidiu: Não viajaria nunca mais. Chega do estresse de achar que o avião vai cair, que o ônibus vai tombar, que está muito estranho o jeito com que esse motorista faz as curvas, ou de não saber se é mais seguro botar o cinto ou não. Certa vez um amigo contara de um amigo que havia morrido por estar usando o cinto. “O ônibus tombou e ele ficou preso”. Tudo bem que na maioria das vezes Roberto não morria e voltava pra casa em segurança, mas toda aquela apreensão, somada à dor no pescoço decorrente do trajeto Pelotas-Porto Alegre não valiam a pena para desbravar novos horizontes e viver experiências magníficas. Roberto não viajaria nunca mais e “não adianta insistir”.
Em sua última viagem, diga-se de passagem uma das em que se encontrava mais animado, Roberto terminou com vômito de bebê no colo e um ligamento de joelho rompido. Ao perceber que a criança estava prestes a fazer aquilo que dali 20 anos fará em demasia por outros motivos, Roberto pulou de seu acento, mas como são pequenos os espaços nos aviões, meu Deus do céu, Roberto bateu com o joelho no acento da frente com força jamais vista.  Após saberem do ocorrido, os amigos, já acostumados com suas desistências de cinco minutos, tentaram argumentar, dizendo-lhe que ele estava exagerando, que era coisa de momento, de calor da hora. “Você está vendo a viagem apenas pelo lado negativo. Não está levando em conta o fato de que viajando se descobre coisas novas, conhece pessoas novas, descobre você mesmo, conhece você mesmo”. De nada adiantou. Não viajaria nunca mais.
Tudo bem, Roberto, você tem todo o direito de não querer mais viajar para evitar o estresse de correr pelo aeroporto inteiro para descobrir que seu vôo mudou de portão, ou correr para comprar a última passagem do ônibus da meia noite para pelotas porque o próximo só sai às sete da manhã. Tudo bem querer evitar se perder em uma cidade desconhecida e andar de um lado para o outro sem saber o que fazer. Tudo bem até não querer fazer uma parada no Grill antes de seguir viagem porque é muito perigoso. Mas, Roberto, assim você perde o prazer que é voltar pra casa. 

Sunday, March 31, 2013

Fundo branco


- Sai.
- O quê?
- Eu não quero você no meu sonho.
- É claro que você quer. Se não quisesse eu não tava aqui, só eu e esse fundo branco.
- Não quero. Por que você não aparece quando a gente tá bem? Você só aparece no meu sonho quando eu já passei uma noite inteira pensando em como não pensar em você. Quando eu quero sonhar com você acabo sonhando com carros, trabalho, comida, campos de girassóis...
- O problema é que você pensa demais em mim. É por isso que eu estou aqui.
- Então você quer que eu pare de pensar em você?
- Não “parar de pensar em mim”. Parar de pensar em mim. Você podia às vezes, só pra variar um pouco, pensar em carros, trabalho, comida, campos de girassóis...
- Eu pensei que fosse bom ter uma pessoa que pensa em você toda hora.
- É bom. Mas você não me dá muita folga, entende? Quando eu tô de pernas pra cima, tomando um suco na frente do mar, aparece um chamado avisando que você vai pensar em mim de novo e lá vou eu tomar banho rápido pra ficar bonita e entrar no seu pensamento.
- Eu não sabia que pensar em você te dava tanto trabalho. Me desculpa.
- Ah, não. Lá vem você ficar encucado com algo que eu falei. Vou ligar pra casa e avisar que hoje a noite vai ser longa e que só vou voltar de manhã.
- Não tô encucado com nada. Tô realmente surpreso com isso tudo. Mas, olha, não é totalmente culpa minha. E quando você aparece de repente na minha mente?
- Aí a culpa é minha. Sou eu cumprindo horário na sua cabeça. Não é algo que eu queira também. Mas sabe como é, tenho que comprar comida pros filhos...
- Você e essa mania de transformar tudo em obrigação. Até parece que não gosta de me ver pensando em você.
- Mas eu gosto. Como eu disse, o problema é a hora extra. Quando você pensa só em mim ao ponto de discutir comigo dentro do seu próprio sonho só para ouvir a minha voz.
- É, eu tenho esse dom de dominar os diálogos dentro dos meus sonhos. Pouca gente consegue.
- Sim. E quem sofre com isso sou eu.
-...
- Ai, tô brincando. Você tem que achar mais graça das minhas piadas.
- Eu acho graça. Na verdade sempre tento achar graça, mas é difícil quando a piada é com você mesmo.
- Talvez você tenha que aprender a rir mais de você mesmo.
- E talvez você tenha que parar de me dizer o que fazer.
- Você com certeza tem que aprender a rir mais de você mesmo.
- Que horas são?
- Quatro e meia.
- A gente tem que ficar conversando aqui até que horas?
- Tá marcado pra você FINALMENTE parar de pensar em mim lá pelas oito.
- E o que a gente faz até lá?
- O de sempre. Você fica tentando conversar comigo tudo o que não consegue falar no mundo real e eu faço as caras que você adora na frente desse fundo branco.
- De novo, mil desculpas por isso.
- De novo, para de ficar me pedindo desculpas por tudo.
- Me diz uma coisa que eu provavelmente vá me arrepender de perguntar. O meu “eu dos sonhos” também tá bolado por ser chamado toda hora por “você do mundo real”?
- Jura. Você vai correndo. 

Thursday, March 07, 2013

"Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha cobardia".

Pessoa

Wednesday, February 20, 2013

A gente ter se mudado pra cá


- Você passou a segunda demão na parede da sala?
- Tu tá falando “você”? Não faz duas semanas que a gente tá no Rio.
- Ai, não enche. Vê se não vai estragar essa parede, pelo amor de Deus, sabe-se lá quando a gente vai ter dinheiro pra pintar de novo.
- Relaxa. Esse é o primeiro momento em duas semanas que a gente sentou pra fazer nada. Aproveita que tá tudo nos conformes. Relaxa.
- Relaxar... Não sei como tu consegue. O mundo inteiro desmoronando e tu nesse clima novela das seis.
- Depois de passar duas semanas de sufoco após vir pra cidade grande sem certeza alguma, conseguir um emprego que vai dar pro gasto nos próximos meses sem atrapalhar nossos estudos, organizar uma casa nova e pintar uma sala inteira, eu me permito viver num clima novela das seis.
- Como se fosse só nesses casos...
- A partir do momento em que essa conversa deixar de ser sobre a parede da sala eu vou começar a dormir.
- Então tu achas que tá tudo perfeito pra gente? Acha que a vida vai ser moleza a partir de agora?
- É claro que não. Eu só tô aproveitando uma horinha de paz antes de me desesperar de novo.
- Não é melhor levantar e fazer tudo logo?
- Não.
- Então tá. Vou ficar sentada aqui também. Totalmente relaxada, esse mundo é uma beleza mesmo, acho que vou pegar uma revista, um pacote de biscoito e tomar um suco.
- Tu tá relaxando do jeito errado. E eu comi o último pacote de bolacha.
- EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ COMEU O ÚLTIMO PACOTE DE BOLACHA.
- Relaxa, eu compro mais amanhã. Deixa eu te ensinar a fazer isso da maneira certa.  Sentar na sacada com vista para uma construção: Sim. Encucar porque eu comi o último pacote de bolacha: Não.
- COM QUE DINHEIRO TU VAIS COMPRAR “MAIS”?
- Relaxa. Vamos fazer assim. A gente se esparrama na cama, liga o ventilador, dorme por uma horinhazinha só e depois senta pra fazer as contas pra conseguir comprar mais bolacha amanhã. Pode ser?
- Que cama?! Tu não percebeu que a gente tá dormindo no colchão de solteiro que o teu amigo emprestou? A gente só vai poder comprar uma cama de verdade semana que vem.
- “Cama” pra mim não é o objeto cama. É um lugar pra descansar. Se fossem folhas de jornal eles seriam “cama” pra mim.  
- Até parece que eu vou conseguir dormir, mas tá.
- Vai, sim. Ninguém resiste ao meu cafuné. É a música da Jigglypuff dos cafunés.
- Tu acha que vai dar certo?
- Eu juro que passei a segunda demão na parede. Dorme, por favor.
- Às vezes só o esforço de fazer tudo certo na hora de pintar a parede não adianta.
- Ok. Tu tá falando “da gente”, do fato de a gente ter se mudado pra cá ou simplesmente da parede?
- Eu tava falando simplesmente da parede. Pensei que tu não querias falar sobre “a gente” ou “a gente ter se mudado pra cá”. Mas já que o assunto foi tocado...
- Sim, talvez e sim.
- O talvez é “a gente”?
- Não, o talvez é “a gente ter se mudado pra cá”.
- Tu tens mais confiança na pintura da parede do que no fato de a gente ter se mudado pra cá?
- Não é questão de ter mais confiança. É mais uma coisa de navegar é preciso, viver não é preciso. Eu li uns tutoriais na internet e saquei como se pinta uma parede. Não existe um tutorial online que ensine a vencer na cidade grande. Quer dizer, existe. Na verdade uns quantos, talvez bem mais do que ensinando a pintar parede. Mas o que eu quero dizer é que existem vários caminhos para o que a gente quer em termos de “a gente ter se mudado pra cá”. Pode ser que a gente tenha vindo pelo certo. Pode ser que a gente precise de uns atalhos. Pode ser que a gente erre o caminho e tenha que recalcular a rota. Pode ser que a gente tenha que recalcular a rota de novo. E de novo. Mas de demão em demão a gente vai levando.
- ZZZZzzzzzZzzZZZZZZZZZZZZZzzzzzZZZZ
- Ok, dormiu. Agora é a hora de passar essa segunda demão.



Monday, February 18, 2013

Um inseto pousou em meu ombro


Não sei direito qual, é um daqueles que entram pela janela do quarto nas madrugadas de verão e quando a gente acorda eles não estão mais lá.  Mas bem maior. Tem grandes olhos pretos e o corpo meio alaranjado na parte de baixo e uma coisa meio cinza em cima.
Passei a mão no ombro para tirá-lo.
O bicho se assustou e saiu voando.
Direto para o ventilador, que friamente o corta ao meio. Uma parte cai no chão e a outra fica presa nas grades.
Morte na hora, penso eu. E fico alguns segundos parado olhando a cena ao mesmo tempo em que tento processá-la. Tudo isso aconteceu em questão de três segundos. Um, vejo o bicho no meu ombro. Dois, tiro. Três, ele é partido ao meio. Como a morte é rápida, meu Deus do céu. Como a vida é curta, meu Deus do céu. De um segundo para outro todo mundo puft, seja humano ou inseto que só especialistas em inseto sabem o nome.
Passados alguns segundos a parte do bicho que caiu no chão começa a se mexer. Felicidade, penso eu. Só abrir a janela, soltá-lo no mundo e ir dormir com o ventilador me refrescando. Mas o bicho não consegue voar. Tenta com todas as suas forças, se debate incessantemente, mas as leis da aerodinâmica o condenaram a não sair mais do chão.  E o ventilador girando.
O inseto ali, me olhando com aqueles olhos pretos e gigantes que se dividem em ter medo e verem em mim uma oportunidade de salvação. Tenho que salvá-lo, penso. Surge a ideia de amarrar o restante que ficou preso nas grades ao pedaço que bate asas, pois parece realmente ser um caso de falta de peso, mas obviamente não sei como proceder, então desisto. E se esgotam as ideias para salvar o bicho que fora cortado ao meio porque deixei a janela aberta por causa do calor. E o bicho aqui, do meu lado, tirando forças das forças das forças para tentar voar, mas começando a cair a ficha de que não conseguirá.
Que morrerá nesse lugar estranho.
Que nunca mais verá os filhos, órfãos e sem ter o que comer a partir de agora.
O mais velho terá de sair da faculdade para trabalhar, até que um dia será cortado ao meio por um objeto cortador não identificado.
Tento descobrir na internet de que inseto se trata para descobrir o quão ligados à família eles são.
Tenta mais uma vez sem sucesso alçar voo.
Começo a pensar em dar-lhe o golpe de misericórdia. Acabar com seu sofrimento e ir para a cama descansar, pois amanhã será um longo e cansativo dia. Porém, lembro que eu sou eu e que nunca teria coragem para tal. Você leitor também não teria. A gente diz que teria, mas na hora dá para trás. Óbvio que é a melhor opção. Mas não é uma opção. Enfiar uma estaca no peito do bicho e dormir como se nada tivesse acontecido não está nos planos. Lembro do recente caso em que minha cadela estava no último estágio de um câncer que iniciou nas mamas e em questão de dias se espalhou para os pulmões. Ela foi levada ao veterinário já com a possibilidade da eutanásia na mesa, mas o próprio doutor via o processo com resistência. Talvez pelo mesmo pensamento que me corrói agora: Sou contra porque sou eu quem irá proceder.  Na verdade, este foi o principal desempate entre seguir a carreira de jornalista e de médico veterinário. Ver bicho sofrendo pelo resto da vida não estava nos meus planos e eu respeito profundamente a profissão muito também por essa frieza necessária que eu, escritor, não tenho e por isso escrevo ao invés de tentar fazer algo pelo inseto.
Já faz duas horas desde que o bicho foi cortado pelo ventilador. Acho que vou dormir e esperar para ver amanhã o que se sucedeu durante o restante da madrugada. Como sempre na vida.
Pensar que meia hora antes do acontecido eu havia cogitado seriamente ir dormir. Fecharia a janela e nada disso teria acontecido. 

Sunday, February 10, 2013

O gato

Você chega em casa cansado do trabalho. O mundo inteiro caiu em suas costas no dia de hoje e só o que você quer é atirar a chave em qualquer canto, se atirar no sofá e ver TV. E quando eu digo “ver TV” é ver TV. Ver novela, ver alguma série qualquer. Você enfim deita no sofá. Decide não comer nada, está cansado demais para sentir fome. É só ver TV e ir deitar.
Aí vem o gato.
O gato vem, pisa em cima de você, procura um lugar fofo em seu peito magro e, quando finalmente acha, deita.
E você fica naquela posição por horas.
Está cansado, não quer mais ver TV, mas como que vai tirar o gato dali? Além de atrapalhar o conforto do bichano, ele está lhe dando calor, querendo ele ou não fazer isso. “Ele vai me odiar se eu sair daqui agora”. Humanos pensam isso de gatos. Acham que vão perdê-los para sempre se decidirem mover-se para maior conforto.  Aí ficam ali engessados. Tentam se mover bruscamente numa tentativa de passar para o gato a responsabilidade do desconforto, mas a verdade é que o gato não está se importando muito. O gato dorme em cima do seu nariz, se for necessário. Ele quer é dormir. “Ele quer dormir junto de mim”, pensa você, ingênuo ser humano lendo essa frase. Pode até ser. Mas também se não fosse essa coisa de o gato querer ficar encostado na gente, a gente nem ia dar bola pro gato. Porque o gato gosta do ser humano. Quer ele ali, paradinho, só com o corpo encostado no seu. Mas aí, se o ser humano, num ato de pura brutalidade resolver trazer o gato mais pra perto de si, aí ferrou. “Aí babaus”, como diria um amigo meu.
O bicho vai embora, você está o sufocando.
Mas isso tudo é só você pensando, enquanto permanece imóvel no sofá para não atrapalhar a equação perfeita do conforto do gato.  Você pensa pensa pensa pensa pensa e, quando volta a si, já está passando o Corujão e a fome venceu o cansaço. Você resolve ir na cozinha fazer um sanduíche, mas, na hora em que iria se levantar, lembra que o gato está ali. E você não consegue tirar o gato dali. O gato é mais forte que a fome, que o cansaço, que você, e que tudo isso junto. E aí já passou Corujão, tá começando Telecurso 2000, você está podre de sono, mas não pode se mover até a cama porque o gato segue lá, torturando você com todo aquele tonemaíismo.
E isso piora quando o gato é daqueles mais ariscos. Daqueles que não costumam aceitar um colo com facilidade. Uma oportunidade de fazer carinho num desses é como pasta de dente: Você aproveita até o final, vai enrolando, enrolando e, se precisar, ainda corta a ponta no final para durar mais.
É claro que, de repente, depois de cinco horas de sono no seu peito, o gato resolve acordar e sai de cima.
Aí cabe a você ficar chorando pela ausência do gato ou correr pra cama antes que ele volte.



Tuesday, February 05, 2013

Maria do Céu




O nariz arrebitado o sinal em cima da boca o timbre rouco carinhoso manhoso e pedindo carinho o ponto. assim. de repente. Dando a. Cadência.
Céus, a cadência.
Céus, o toque nos cabelos.
Céus, a boca.
Céus, o Brasil.
Céus, o Brasil falando francês brasileiro.
Céus, a enrugada no rosto.
Céus, a roda.
Céus, o pra lá e pra cá.
Céus, a mordida na fruta.
Céus, o aAa.

Sunday, January 20, 2013

- ...


Passou duas vezes pela mulher de cabelos negros e batom bem vermelho. Fingiu que não viu, cara forte que tava tentando parecer. Percebeu, ficando até que feliz, não sei, tava escuro, mas acho que sorriu, que ela estava olhando. Meio sem entender muito bem, é verdade, mas ele não entendeu muito bem se o que ela não tinha entendido muito bem era o que diabos essa pessoa tá fazendo dando voltas na festa ou por que diabos ele não lhe deu oi.
Aí resolveu passar uma terceira vez. Só pra confirmar qual do não-entendimento era o caso dela. Tentou só passar, fingir não ver que ela estava ali do lado, não vou dar oi não vou dar oi não vou dar oi, mas quando deu por si já tava cutucando. Cutucando.
- Bu.
- Oi?
- Passei duas vezes aqui, tu fingiu que não m...
- Eu vejo você meio que em todos os lugares que eu vou.
- A gente se viu umas quatro vezes, cinco contando a primeira. Do jeito que tu falou ficou parecendo aquele episódio de Friends que a Phoebe se apaixona por um cara que ia nos mesmos lugares que ela, mas no final ela acaba descobrindo que ele escrevia pornografia pra crianças.
- Mas é meio isso mesmo.
- Tu tá apaixonada por mim?
- Não, mas acho você meio esquisito.
- Esquisito tipo Johnny Depp, tipo Woody Allen, tipo Faustão ou tipo o meu colega, que embora tenha contado o final do Harry Potter pra turma toda é um sujeito adorável?
- Tipo que escreve pornografia pra crianças.
- Que injustiça, tu nem me conhece. Eu escrevo pornografia pra adolescentes, é um público muito mais legal pra isso. Criança que vê pornografia não sabe o que tá fazendo, adolescente tem uma relação muito mais visceral.
- ...
- !!!
- ???
- Tu já parou pra pensar que o fato de a gente se ver em todos os lugares pode ser obra do destino?
- Destino?
- É. Acredita?
- Só quando é alguma coisa boa pra mim.
- Então, nesse caso?
- Não.
- Eu juro que sou legal. Pergunta pra qualquer um. Eu sou um doce.
- Eu nunca disse que você não é legal.
- Mas qual o meu problema então?
- Eu nunca disse que você tinha algum problema.
- Mas então por que essa indiferença toda?
- Nunca ocorreu a você que talvez eu só não esteja interessada? Que “não ter problema” não necessariamente significa uma pessoa interessante?
- Mas eu sou interessante. Tu que não me deixa mostrar isso.
- Você repete isso “eu sou interessante” desde a primeira vez que a gente conversou. Não acha meio pretensioso pra uma pessoa de um metro e setenta, com no máximo cinquenta e cinco quilos e que não sabe nem dançar?
- Não. Se eu não me achar interessante, quem que vai achar? Com toda a minha autoestima já tem mulher que me vê como um boneco Ken daqueles que não têm pênis.
- Vai ver você dá atenção demais.
- Tá, essa conversa está virando um diálogo adolescente e eu acho que o cara que tá escrevendo vai parar de escrever a nossa história se continuar assim.
- Tem um cara escrevendo a “nossa história”? Depois você ainda acha estranho eu te achar esquisito ao invés de estar apaixonada.
- Nunca ouviu falar em Deus? Brincadeira.
- ...
- !!!
-???
- Aquilo de um cara estar escrevendo esse diálogo foi brincadeira também.

...

Tuesday, January 15, 2013

Os alquimistas estão chegando


Um cara está aprendendo a cozinhar e vai à casa da namorada mostrar-lhe isso.
Não.
Um cara está aprendendo a cozinhar e vai à casa da avó mostrar-lhe isso. Com a namorada. Já que criei a criatura não dá pra deixa-la solta assim no universo.
“Só consigo cozinhar escutando música”, fala o cara enquanto coloca o celular no aleatório. Começa a tocar uma música do Jorge Ben. Sei lá, leitor, escolhe aí qualquer uma pra fazer fundo, não vou impor nada. Ele tira a camisa, coloca o avental com os dizeres “sou a melhor vovó do mundo” e parte para cima do frango para cortá-lo. A namorada vai para a sala ver Estrelas com a avó. Sim, o almoço saiu tarde.
Após alguns minutos de silêncio, a avó resolve virar para a namorada.
- Você gosta muito do meu neto, não é?
- S-s-sim, responde a namorada.
- E ele gosta muito de você também, pressuponho...
- É... eu espero que sim. Do jeito dele, mas nesse tempo todo eu já aprendi a ler ele e acho que sou importante.
- Quanto tempo é esse tempo?
- Cinco anos.
- Hm. Escuta, eu estou morrendo e não tenho coragem de contar para ele, ainda mais agora que ele está tão entusiasmado em cozinhar para mim. Você acha que pode fazer isso por mim?
- O-o-o que?
- Estava sentido algumas dores e fiz alguns exames. Contei para ele que era apenas um mal jeito nas costas, mas a verdade é que estou morrendo. Até peço desculpas por te colocar nessa situação, a minha ideia era pedir para a minha filha contar para ele, mas acho que não vai haver tempo, então como já estamos os três aqui...
 - Mas eu não posso fazer isso! Quem sou eu para dar uma notícia dessas? A senhora tem certeza disso? Já pediu outra opinião?
- Minha filha, quando a gente é velho, sabe quando vai morrer. Fiz os exames apenas para que ele não desconfiasse de nada, mas a verdade é que eu já sabia os resultados. E você é a pessoa que o acompanha há cinco anos. Quando vocês começarem a assinalar uma opção diferente no campo “Estado Civil” da conta da NET você vai se tornar, sem o exagero que se usa na adolescência, a pessoa mais importante da vida dele. Se por acaso ele tiver a chance de salvar uma pessoa de assistir ao Caldeirão do Huck será você. Essa relação linda de vocês começa hoje, com essa notícia que você dará.
Lá da cozinha o cara segue cantando a plenos pulmões:
“ZAAAZUEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEIRAAAAAAAAAÁÁÁÁÁ ZAAAAAZUEEEEEEEEEIRAAAAAAAA”
Tudo dando certo no Frango Xadrez, tá douradinho ali na panela junto com os pimentões e o shoyo. Não colocou amendoim, a vó não gosta, faz mal, ouviu dizer. Mexe isso aí, guri, diminui esse fogo aí, vai queimar tudo, lembrou dessas coisas que ela dizia quando ele ainda tava engatinhando nessa coisa de frango. Era um frango no frango. Falta agora só diluir o amido de milho (que, agora sabendo cozinhar, ele compra só Maizena), colocar no todo, misturar e servir.
Tá, ficou tudo pronto, hora de servir, a namorada bota a mesa e a avó só esperando.  Vem, vó, tá na mesa.
Lá pelo meio do almoço, percebendo o clima pesado, o cara, sem vocação alguma para tal, resolve tentar melhorar o ambiente puxando o seguinte assunto:
- Que silêncio. Parece até que alguém aqui está morrendo.
 Eis que a namorada e a avó gelam, será que ele ouviu a conversa da cozinha? Até que não seria mal, pensa a namorada. Que horror pensar assim, pensa de novo. A avó, que já estava quase morrendo, cai durinha ali no chão da sala.
- O que está acontecendo, santo deus todo poderoso????!!!!
- Exatamente aquilo que você ouviu da cozinha! Chama a ambulância. Rápido!
Três dias depois, enquanto o cara havia saído para almoçar, o médico aparece e pede para falar com alguém da família. Ninguém. Só a namorada está. O médico pensa, não pode dar a notícia para algum estranho, mas também não pode deixar a idosa morta na UTI sem ninguém saber. Resolve arriscar.
- Há quanto tempo vocês estão juntos?
- Cinco anos.
- Então a relação de vocês é muito estreita?
- Costumamos dizer que se ele pudesse salvar alguém de ver o Caldeirão do Huck pro resto da vida, esse alguém seria eu.
- Ok... Nós tentamos de tudo, mas a verdade é que ela já estava comprometida antes mesmo do que aconteceu e...
- Eu sei. Eu sei.
- Você acha que consegue contar para ele?
- Não. Mas eu tenho. É como fazer regime.
Quando o cara estava de volta do almoço, a namorada respira fundo e senta ao seu lado. Olha em seus olhos.
- Sabia que existem pouco mais de mil exemplares do Leopardo Persa...
- Você sabe que eu não gosto quando chamam animal de exemplar.
- Sabia que existem pouco mais de mil indivíduos adultos do Leopardo Persa em todo o planeta? Tão tendo que reproduzir eles em cativeiro, porque a dizimação tá pesada. Pensando por esse lado, nem é tão ruim o fato de que existem três mil pandas ao redor do mundo, você não acha?
- Amor, citando a Berta, em um dos seus melhores momentos em Two and a Half Men, todo mundo sabe que depois do Herb ela é a minha personagem predileta, você pode colocar açúcar em cocô que ainda sim não vai ser chocolate. Tudo bem ela ter morrido.
- Não está tudo bem. A pessoa mais importante na sua vida, a que você mais amava, acabou de falecer. Você nunca mais irá cozinhar para ela.
- Olha, eu não sei você, mas antes de aceitar participar desse texto, eu li todos os outros do cara que está escrevendo. Em um deles, ele diz que o universo é muito pequeno e, por conta disso, os seres magníficos, como a minha avó, têm de respeitar uma fila, pois são grandes demais e ocupam muito espaço. Essa fila precisava andar e a minha avó, gentilmente, cedeu o lugar dela para uma nova pessoa ser a que eu mais amo e que mais me cuidará daqui pra frente.
Depois de um tempo, acho que uns dez anos, quando o cara e a namorada já assinalavam outra opção no campo “espaço civil” do contrato da NET, Deus, O Todo Poderoso, desceu dos céus. Foi uma loucura. Pessoas se ajoelhando, pedindo perdão pelos seus pecados, dizendo que fariam qualquer coisa para permanecerem vivos, imaginem que coisa legal deve ser você ser Deus. Enfim, o Supremo, quando finalmente conseguiu com um raio daqueles fazer com que toda a humanidade calasse a boca, disse que tava cansado daquela zona toda. Tomaria uma atitude drástica e definitiva e passaria o resto da eternidade no Rio de Janeiro vendo as moças passarem de bicicleta. Ou os moços jogarem altinha, se você for daqueles que acreditam que Deus é uma mulher. A atitude seria punir toda a humanidade, fazendo com que todos os seres, fora os pandas e os leopardos persas, fossem obrigados a assistir, por toda a eterna eternidade, ao Caldeirão do Huck.
Todos fora um humano, escolhido via sorteio para, junto com outra pessoa a sua escolha, passarem o resto dos tempos junto dele vendendo água-de-coco na praia. 

Tuesday, December 25, 2012

Morte


A morte é a pior coisa que existe. E digo a morte como a do tarô, com vários significados, todos eles arrasadores. As pessoas que dizem considerar a morte algo bonito, ou não estão com ela as rondando ou estão tentando amaciá-la. A morte é feia e malcheirosa. A morte dá vontade de morrer e só ressuscitar quando o mundo for bonito novamente.
Mas a morte também é como um parente chato que inventou estar com saudades apenas para passar uma semana na sua casa de praia. Você não pode negá-la. Não pode ignorá-la. Não pode expulsá-la por ela ser inconveniente. Tem de aguentar o seu cheiro podre. Tem que aguentá-la palitando os dentes após o almoço.
A partir do momento em que você se propôs a ter uma casa na praia, automaticamente se propôs a receber o parente indesejável.
Aí você se prepara psicologicamente para recebê-lo. Tenta relaxar, vou ter que passar por isso mais dia menos dia, que seja agora. Mas lá no fundo (e não tão fundo assim) ainda há a esperança de que ele não venha. O carro pode quebrar no caminho. Mudou de ideia. Tenta amenizar o sofrimento com toda essa preparação, mas na hora que ele chega é tudo inútil.
Você desaba. 

Tuesday, December 11, 2012

Uma manhã sem luz


Faltou luz aqui no trabalho. Oh, olha só, uma caneta, vamos tentar escrever alguma coisa.
Essa falta de luz veio em um bom momento, como quando no Orkut por uma bela surpresa o amor da sua vida visualizava o seu perfil e aquilo dava uma alegria inesperada capaz de durar umas duas semanas. Como na única vez em que aquela menina bonita, dona de uma cor de pele que autoriza o bom uso do batom, me respondeu no Facebook,  uma pena agora ela apenas visualizar minhas mensagens e nem me chamar de chato indiretamente dizendo que ela também é chata.
Por favor, moça bonita, me dê uma luz, ilumina minha vida, já que meu trabalho está numa escuridão só. Ser de luz própria que és, venha nos iluminar, ou melhor, não venha, que é para eu poder continuar a escrever minhas bobagens sobre ti só pelo prazer de ver a caneta deslizando, poucas esperanças que tenho de te convencer a sorrir pra mim como sorriu no dia em que nos conhecemos, de pegar tua mão macia e fingir dançar, como no dia em que nos conhecemos.
Ah, mocinha, me ensina das coisas de Goiás, me explica a diferença entre o sotaque de lá e o de Minas, me explica o porquê de JK não ter transformado Goiânia em capital do país ao invés de gastar aquela nota toda construindo uma cidade do nada ali do lado e colocando o breguíssimo nome de “Brasília”, me explica o porquê de os goianos formarem tantas duplas sertanejas se em Goiás nem ao menos tem sertão. Me explica como o Atlético Goianiense conseguiu subir meteoricamente para a primeira divisão, me explica o caso Carlinhos Cachoeira na visão dos goianos, que elegem a direita há tanto tempo e, finalmente, me explica o porquê de não gostar de mim, se temos tanto em comum de acordo com as coisas que curtimos no Facebook.
Acabaram de ligar para o chefe, que no momento está em Porto Alegre. Ele disse que não, não podemos ir para casa, que temos que continuar “trabalhando” coisa e tal. Acho que os outros funcionários irão organizar uma espécie de motim, algo como dormir durante toda a tarde. Acho que vou convencê-los a fazerem o mesmo para acabar com essa tua indiferença em relação a mim. Com a falta de luz que assola minha manhã e minhas pretensões de passar uma tarde inteirinha te fazendo cafuné, as pessoas aqui do lugar onde eu trabalho começaram a fofocar loucamente. Em questão de meia hora eu já sei desde as incompetências de uma tal de Marli até o nome do próximo Secretário de Educação da cidade. Parece um pouco piada, mas agora eles começaram a falar sobre  Sessão da Tarde. Não que seja ruim, eu adoro Sessão da Tarde. Passar aquela uma hora e meia vendo filme ruim e comendo besteira está entre as minhas 15 melhores coisas do mundo, logo atrás de usar pela primeira vez uma meia que acabei de comprar.
Vamos um dia, moreninha, passar a tarde toda vendo filme ruim e comendo besteira? “O Amor é Cego” e bolacha Maria com margarina. “Lagoa Azul” e marshmallows. Qualquer filme com o Eddie Murphy e Doritos. “Esqueceram de mim” e dois potes de pipoca com manteiga. Vamos fazer um filme ruim nós mesmos e não mostrar a ninguém . Um filme sobre uma mulher iluminada que aparece de repente e ilumina uma cidade inteira, sem luz há muito tempo. “A Moreninha Iluminada”, e aí assim, não mais que de repente, surja “A Moreninha Iluminada – O Retorno”.
Estão me avisando aqui que, finalmente, chegou a minha hora de ir embora. Ainda bem, pois estou louco de fome. Mas mesmo assim uma pena, logo agora que eu forçaria uma poesia fazendo uma metáfora entre a luz do sol que me aquece e me ilumina nessa manhã escura e o momento em que aceitaste minha tentativa e me deste a mão, blablablá, nada que eu já não tenha dito umas cem vezes durante esse texto construído durante uma manhã inteira. Vou me embora, prenda minha. Vou para a casa.
Espero que lá tenha luz.
Espero um dia “dançar” contigo novamente.
E a luz se fará assim.
Ponto Final.

Friday, December 07, 2012

Para a moça que me acha um pé no saco


Te conheci esses dias, moça lá do estado que eu não tinha muita simpatia, mas que agora por tua causa eu até que gosto. Parecia legal, parecia bonita, eu já estava meio bêbado mesmo, fui lá falar. Riste das besteiras que eu falei, respondeste algumas outras, mas deu pra ver claramente uma coisa muito triste: Me achaste um pé no saco. Para a tua sorte, já que é uma glória me ter como conhecido, pessoa futuramente muito rica e dona de uma capacidade intelectual invejável que serei, eu não me dou por vencido de primeira, como tu podes ver por esse outro texto que eu fiz em uma situação bem semelhante e que, se interessa saber, foi revertida pela minha graça, minha fofura e acho que devo um pouco ao meu perfume também.

Na bem verdade, se tivesses me ignorado completamente (tá, como fez no facebook esses dias), recusado minha solicitação de casamento no facebook ou ainda não dado risadas lindas do meu besteirol, eu teria desistido fáci fácil. Porque não seria o caso de tu me achares chato. Seria o caso de tu quereres a minha morte e eu realmente espero que essa não seja a verdade. Tu queres que eu morra? Se tivesses um pedido a fazer seria que eu caísse ali, durinho, no salão da festa? Irias ao meu enterro? Levarias flores? Acho que vou simular a minha própria morte para ver se tu te importarias.

Dançar realmente é uma arte muito complicada. Tem que fazer vários movimentos ao mesmo tempo, com várias partes do corpo e ainda tem que olhar para a outra pessoa. Realmente, tens razão. Eu mesmo sou um cara inteligentíssimo, cheio de talentos e não sei dançar. Sou meio duro. Um amigo, grande pé-de-valsa, certa vez tentou ensinar a mim e a outro amigo essa grande arte que é se mexer e isso ser aclamado pelas outras pessoas.  Era ensino médio, a gente era meio feio e precisava de alguma coisa pras guriazinhas gostarem da gente. Como pudeste perceber no dia em que te conheci, não deu muito certo.

Mas eu tentei. Eu sempre tento. Mais ou menos como a última coisa que eu te disse no facebook e que obtive resposta: O homem não sabia ler, não sabia escrever, não sabia fazer batata frita, mas em determinado ponto da sua história pensou: Cara, dá pra tentar isso aí.
Eu vou tentando.

Tuesday, November 27, 2012

Encomendas do Solstício

Olá!

Talvez vocês não saibam, porque eu não tenho muito senso de marketing, mas eu escrevi um livro com as coisas que eu publiquei aqui ao longo dos anos e mais algumas outras. Ele se chama Solstício, tem ilustrações da Patrícia Lindoso e foi lançado na Feira do Livro de Pelotas desse ano. Se tu, que estás lendo essa palavra agora, tiveres interesse em encomendar um (ou cem) exemplares, é só mandar e-mail pra queremossolsticio@gmail.com.

Obrigado!

Tuesday, October 16, 2012

Palhetas


Quando um quarto está todo bagunçado, com roupas espalhadas, cadernos revirados, gavetas abertas, gavetas que não abrem, é difícil achar algo que é ou era importante. É difícil achar no meio de tanta coisa bagunçada. Será que deixei no armário? Não foi debaixo da cama? Aí a gente esquece, nem que seja por um tempo. Depois aparece, assim de repente, quando eu não estiver mais procurando.
Acontece muito com palhetas. A verdade é que não existe um universo paralelo para onde elas – e também as borrachas – vão para serem felizes aproveitando a liberdade que lhes foi concedida após ultrapassarem a fina barreira que separa o mundo real do mundo das palhetas e das borrachas. A verdade é que elas ficam sempre lá. Escondidas no meio de um sofá, escondidas dentro de gavetas, esperando o momento em que alguém decide tomar a frente da situação e limpar tudo até, assim de repente, encontrá-las. Elas ficam lá, pedindo socorro antes que aconteça a tragédia de outro alguém varrê-las e, aí sim, elas sumirem para sempre.
Também pode acontecer de elas padecerem a essa espera. Pode acontecer de uma pessoa sentar em cima da palheta perdida e aí, depois da arrumação que se faz no quarto, ela ser achada quebrada no meio, tornando-se totalmente inutilizável. Nesse ponto da história das palhetas pode ser que exista outro mundo. Uma espécie de céu das palhetas, onde aquelas que se cansaram demais durante a vida, ou simplesmente caíram no esquecimento, descansam eternamente. Mortinhas da silva, mas descansando.

Wednesday, September 19, 2012

Dona Cecília



Talvez Deus, um pouco cansado de escrever a história de tanta gente, tenha resolvido dar para Fernando Sabino a tarefa de roteirizar o 80º ano de Cecília Giménez. 

Em uma bela, ensolarada e provavelmente muito inspirada tarde espanhola, a devota senhora resolveu restaurar a pintura Ecce Commo, retrato de Jesus Cristo feito na década de 30 por Elías García Martínez.  Confiando em seu talento, ela já pintava vasos de flores em casa, não tinha como dar muito errado, os responsáveis pela obra autorizaram. Vai lá, dona Cecília. Dona Cecília foi.

Quando toco violão em casa, preparo uma apresentação em casa, falo comigo mesmo em casa, sou incrível. Não tem quem seja melhor do que eu. Quando faço todas essas tarefas em público sou mais tosco que Sérgio Mallandro. Acho que foi isso que aconteceu. Seus vasos de flor, cestas de frutas, casas e ruas eram incríveis, mas, quando caiu a ficha da responsabilidade que seria restaurar uma obra tão importante como o Ecce Commo, a aposentada espanhola gelou. Católica, tentou rezar, mas Deus estava um pouco cansado de escrever a história de tanta gente, “agora não dá, dona Cecília”. 


Dona Cecília começou. Mão pesada. Braço trêmulo. Coração gelado. Até que não ficou ruim, dá pra continuar. Engole seco e vai, o tempo tá passando. Foi pintando e até ficou um pouco mais confiante, embora ainda gélida. O desenho do pergaminho ficou bom, nada mais pode dar errado, eu consigo. Mas, em um ato de puro impulso de alguém que está nervoso e erra até a pergunta de 5 mil no Show do Milhão, cometeu um erro gravíssimo. Apaixonada desde pequena pelos olhos ternos de Jesus Cristo, seu pastor e nada lhe faltará, resolveu desenhá-los antes de tudo. Qualquer pessoa que tenha uma pequena noção de desenho sabe que olhos, ainda mais que mãos, são a parte mais complicada na hora de desenhar. É preciso muita pesquisa prévia, é preciso muito cálculo e é preciso muito braço firme para um olho ficar perfeito. Por ser tão apaixonada pelos olhos de Cristo, dona Cecília se dedicou demais e, como acontece comigo, toda essa dedicação pressionou a senhora. Mas e se não ficar bom? E se Deus meu Senhor não gostar? Errou a mão.


Quando viu que não havia mais como consertar, dona Cecília passou por alguns estágios. O primeiro: Desespero. Não irei mais pro céu, ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus. Segundo: Raiva. Quer saber? Não quero mais pintar isso não significa nada sem os olhos lindos de meu Senhor vou me embora para a minha casa fazer um bolo e ficar com meus netos! Terceiro: Tristeza (daí o borrão na boca, dona Cecília chorou muito). Como pude fazer isso? Nunca faço nada direito mesmo, minha vida não serve pra nada. Viu sua história toda passar pela mente. 80 anos em um minuto. No meio daquela agonia toda surge uma luz. É Jesus Cristo, mas seus olhos já não parecem tão ternos. O Rei dos Reis se aproxima da espanhola e fala:

- Dona Cecília, o que foi que a senhora fez?
- F...F...Foi s...sem querer..er.
- Foi sem querer que Eu descobri o dom de caminhar sobre as águas. A senhora por acaso caminhou sobre as águas nesta pintura?
- N..Não, senhor.
- A senhora nem ao menos nadou sobre as águas.
- Mil perdões, meu Senhor, mil perdões.
- Pensarei em teu caso.

E dali Jesus Cristo se foi novamente em direção à luz. Dona Cecília resolveu ir pra casa descansar um pouco.


Quando acordou, rezou, tomou seu café e foi ver televisão. Se viu. Se desesperou. O mundo inteiro já estava sabendo daquela idiossincrasia que cometera. Resolveu que não sairia de casa nunca mais, esperaria o juízo final sentada em seu sofá rezando pela redenção de seu Senhor Jesus Cristo. Botaria até um vasinho de flor em cima da mesa para esperá-lo.


Um dia, então, sua vizinha veio trazer-lhe a informação: As visitas na igreja onde está o Ecce Commo restaurado aumentaram em uma proporção que só Deus sabe fazer a conta. Antes recebendo média de 400 visitantes durante todos os verões passados, depois da restauração de dona Cecília foram cerca de 30 mil. A igreja inclusive já planeja ganhar dinheiro, ou como estão chamando, "donativos" com o sucesso da sua restauração. Aí atacou os nervos. Mão Pesada. Braço Trêmulo. Coração gelado.