Monday, May 20, 2013

Subjetivo

quando você some fica offline não atende celular não atende porta não responde sms meu deus como minha garganta dói dá vontade de te ligar mas você não atende celular não atende porta não responde sms some fica offline e a voz dentro da cabeça fica tentando fazer o caminho mais fácil mas já são anos obviamente o caminho mais fácil não seria o caminho mais fácil ou será que seria que pena se for pois ser o caminho mais fácil significaria que na verdade a história é igual e não há tantas coisas especiais como pareciam há dois minutos aquelas em que eu canto rei leão você ri você conta o dia eu presto atenção você encosta o pé no meu e eu deixo eu encosto o pé no seu você me faz carinho você tem dor de cabeça eu curo eu saio da terra você me cura você pisa os pés no chão eu curo mas aí aparece outra voz dizendo pro coração calma o coração dizendo pra cabeça calma nada a garganta dizendo não aguento mais o pulmão dizendo ai ai ai a perna dizendo meu deus do céu você dizendo não e eu não podendo dizer nada porque você some não atende porta não responde sms não atende celular fica offline e beijo você antes de tirar os sapatos

Wednesday, April 24, 2013

Imaginário


- Oi.
- AH! QUE SUSTO! Quem é você?!
- Você não se lembra de mim? É como se Deus não lembrasse de Adão e Eva.
- Hãn?
- Eu sou o Augusto.
- Augusto...?
- Nem assim? Vamos lá, pensa um pouco.
- Hmmmnão, desculpa. Não me lembro.
- E se eu desaparecer e aparecer de novo assim?
- Como você fez isso??????
- É simples. Eu não existo.
- Não existe?
- Desde dezenove de janeiro de mil novecentos e noventa e sete, data em que você decidiu que estava grande demais para um amigo imaginário.
- Você é o meu amigo imaginário???
- Era, né? Eu não sei se você se lembra, mas você me abandonou.
- E você queria o que? Que eu tivesse um amigo imaginário pela vida inteira?
- Eu teria um amigo real pela vida inteira. Enfim, você deve estar se perguntando por que diabos eu voltei, assim, tanto tempo depois.
- Na verdade, não. Eu ainda estou trabalhando com a hipótese de estar sonhando.
- Me avisaram que isso provavelmente aconteceria...
- Ai!
- Desculpe, mas o beliscão foi necessário. Agora você acredita em mim?
- Não, mas se eu disser isso você vai me beliscar de novo e eu ando numa de evitar dor.
- É por isso que eu voltei. Para falar que você é um idiota.
- Só isso? Não precisava ter saído lá do... da... de onde você vem. Eu sei que sou um idiota.
- Não tem nada mais idiota do que dizer “eu sei que sou um idiota”.
- Sei disso também. Por isso que eu sou um idiota em dobro.
- Você é muito chato. Eu não sei como sigo querendo ser seu amigo.
- Por que você não existe. Você é uma criação minha. É uma criatura que gosta de mim inclusive quando eu sou idiota.
- Você é tão idiota e tão inseguro que me criou apenas para ter a segurança de que alguém gostaria de você na saúde e na doença... Eu vou ter trabalho.
- O seu trabalho já está feito aqui, certo? Por que então não volta pra... SEI LÁ ONDE!
- Eu venho do mundo dos amigos imaginários abandonados.
- Essa coisa existe?
- Mas claro. Está em pauta a criação de um sindicato da categoria. Precisamos nos unir contra pessoas como você. Mas enfim, eu não volto para lá porque você é idiota por muitos motivos, mas um deles em especial. Um que se eu não viesse te salvar hoje, provavelmente você se tornaria um idiota eterno.
- E que motivo é esse?
- O fato de você sempre colocar a carroça na frente dos bois.
- Hãn?
- Ah, desculpa, essa é uma expressão muito usual no mundo dos amigos imaginários abandonados. Significa sofrer por antecedência. Ter uma ejaculação precoce de preocupação.
- Eu não tenho isso! Sou perfeitamente capaz de controlar meu sofrimento!
- Cara, por favor, isso é normal, acontece com todo mundo.
- Comigo nunca!
- Ah, é? E quando eu apareci aqui hoje? Você não se preocupou comigo ao ponto de esquecer totalmente de quem eu era?
- Ah, sim, porque é extremamente normal uma pessoa aparecer de repente, depois desaparecer e aparecer de novo. Na verdade, é até corriqueiro, acontece toda semana. Estava estranhando a demora nessa.
- Idiota. E o que dizer de quando você me abandonou?
- O que tem?
- Você decidiu que “estava muito velho para ter um amigo imaginário”, me jogou no fundo do armário e o que aconteceu? Você passou cinco anos sem ter um amigo sequer. Os cinco anos mais tristes da sua vida. Tudo porque, impulsivamente, decidiu que “estava muito velho para ter um amigo imaginário”.
- E você voltou, mais de dez anos depois, para reclamar disso?
- Idiota. Eu vim salvar você de fazer tudo de novo. Vim salvar você de você mesmo, se você for uma pessoa de clichês.
- Eu já disse que tenho total controle do meu sofrimento.
- Todos dizem isso, mas, na hora H, o fluxo é muito grande e não conseguem segurar. É puro receio de iniciar o tratamento.
- Vamos acabar logo com isso. Me trate logo.
- Isso. Aceitação do problema é o primeiro passo. Sente-se nessa cadeira enquanto eu monto o equipamento.
- Que cadeira?
- Ah, desculpe. Essa.
- Vai logo com isso.
- Tudo pronto. Veja esse powerpoint produzido por mim mesmo para a ocasião.
- “Como curar o sofrimento precoce”?
- Sim. Algum problema? Acho bom. Então, você reconhece essa?
- Sim, é minha namorada.
- Não. Essa é a pessoa que você vai abandonar semana que vem porque pensar que daqui vinte anos vocês pensarão de formas diferentes. Não quero me gabar, mas ela é minha namorada.
- Ela é MINHA namorada!
- Não. Vocês dois vão ser muito diferentes no futuro e isso fará com que você, num futuro um pouco mais próximo, se encha de sofrimento ao ponto de não se segurar e estragar tudo. Eu também não penso da mesma forma que ela, mas tenho meu sofrimento perfeitamente controlado. Consegui manter-me firme, sem querer viver a vida inteira em cinco meses. Se você quiser ela de volta, tem totais condições. Ela te ama e eu sou só um passatempo. Mas acho melhor correr, pois eu sou um ótimo passatempo. Recheado quando ela deseja, simples quando ela precisa.
- Como você pode fazer isso? Eu pensei que nós fossemos amigos. Tudo isso é vingança por algo que eu fiz há mais de dez anos? Olha, você é menor do que o instante em que desapareceu antes de aparecer de novo.
- Eu posso fazer tudo. Eu não existo.
- Como não existe se daqui dez anos irá roubar a minha namorada?
- Eu existo apenas quando você quer que eu exista. Sou uma criação da sua cabeça para frear os seus impulsos. Funciono como um gel retardante. Agora, faça o favor de me deixar em paz no mundo dos amigos imaginários abandonados e se acalmar. Sei lá, fazer uns exercícios, meditar... Pode começar treinando agora. Lá vem ela.
- Você é o melhor amigo que eu já tive na vida. E sou eu mesmo. Eu vou. Mas calmamente. Rápido.

Sunday, April 14, 2013


- se a senhora quiser eu posso fazer uma ronda especial na sua casa
- o senhor não se preocupe que se aparecer alguém aqui eu mato
- mas a senhora não se esqueça de se livrar do corpo

Monday, April 08, 2013

Não adianta insistir


Roberto decidiu: Não viajaria nunca mais. Chega do estresse de achar que o avião vai cair, que o ônibus vai tombar, que está muito estranho o jeito com que esse motorista faz as curvas, ou de não saber se é mais seguro botar o cinto ou não. Certa vez um amigo contara de um amigo que havia morrido por estar usando o cinto. “O ônibus tombou e ele ficou preso”. Tudo bem que na maioria das vezes Roberto não morria e voltava pra casa em segurança, mas toda aquela apreensão, somada à dor no pescoço decorrente do trajeto Pelotas-Porto Alegre não valiam a pena para desbravar novos horizontes e viver experiências magníficas. Roberto não viajaria nunca mais e “não adianta insistir”.
Em sua última viagem, diga-se de passagem uma das em que se encontrava mais animado, Roberto terminou com vômito de bebê no colo e um ligamento de joelho rompido. Ao perceber que a criança estava prestes a fazer aquilo que dali 20 anos fará em demasia por outros motivos, Roberto pulou de seu acento, mas como são pequenos os espaços nos aviões, meu Deus do céu, Roberto bateu com o joelho no acento da frente com força jamais vista.  Após saberem do ocorrido, os amigos, já acostumados com suas desistências de cinco minutos, tentaram argumentar, dizendo-lhe que ele estava exagerando, que era coisa de momento, de calor da hora. “Você está vendo a viagem apenas pelo lado negativo. Não está levando em conta o fato de que viajando se descobre coisas novas, conhece pessoas novas, descobre você mesmo, conhece você mesmo”. De nada adiantou. Não viajaria nunca mais.
Tudo bem, Roberto, você tem todo o direito de não querer mais viajar para evitar o estresse de correr pelo aeroporto inteiro para descobrir que seu vôo mudou de portão, ou correr para comprar a última passagem do ônibus da meia noite para pelotas porque o próximo só sai às sete da manhã. Tudo bem querer evitar se perder em uma cidade desconhecida e andar de um lado para o outro sem saber o que fazer. Tudo bem até não querer fazer uma parada no Grill antes de seguir viagem porque é muito perigoso. Mas, Roberto, assim você perde o prazer que é voltar pra casa. 

Sunday, March 31, 2013

Fundo branco


- Sai.
- O quê?
- Eu não quero você no meu sonho.
- É claro que você quer. Se não quisesse eu não tava aqui, só eu e esse fundo branco.
- Não quero. Por que você não aparece quando a gente tá bem? Você só aparece no meu sonho quando eu já passei uma noite inteira pensando em como não pensar em você. Quando eu quero sonhar com você acabo sonhando com carros, trabalho, comida, campos de girassóis...
- O problema é que você pensa demais em mim. É por isso que eu estou aqui.
- Então você quer que eu pare de pensar em você?
- Não “parar de pensar em mim”. Parar de pensar em mim. Você podia às vezes, só pra variar um pouco, pensar em carros, trabalho, comida, campos de girassóis...
- Eu pensei que fosse bom ter uma pessoa que pensa em você toda hora.
- É bom. Mas você não me dá muita folga, entende? Quando eu tô de pernas pra cima, tomando um suco na frente do mar, aparece um chamado avisando que você vai pensar em mim de novo e lá vou eu tomar banho rápido pra ficar bonita e entrar no seu pensamento.
- Eu não sabia que pensar em você te dava tanto trabalho. Me desculpa.
- Ah, não. Lá vem você ficar encucado com algo que eu falei. Vou ligar pra casa e avisar que hoje a noite vai ser longa e que só vou voltar de manhã.
- Não tô encucado com nada. Tô realmente surpreso com isso tudo. Mas, olha, não é totalmente culpa minha. E quando você aparece de repente na minha mente?
- Aí a culpa é minha. Sou eu cumprindo horário na sua cabeça. Não é algo que eu queira também. Mas sabe como é, tenho que comprar comida pros filhos...
- Você e essa mania de transformar tudo em obrigação. Até parece que não gosta de me ver pensando em você.
- Mas eu gosto. Como eu disse, o problema é a hora extra. Quando você pensa só em mim ao ponto de discutir comigo dentro do seu próprio sonho só para ouvir a minha voz.
- É, eu tenho esse dom de dominar os diálogos dentro dos meus sonhos. Pouca gente consegue.
- Sim. E quem sofre com isso sou eu.
-...
- Ai, tô brincando. Você tem que achar mais graça das minhas piadas.
- Eu acho graça. Na verdade sempre tento achar graça, mas é difícil quando a piada é com você mesmo.
- Talvez você tenha que aprender a rir mais de você mesmo.
- E talvez você tenha que parar de me dizer o que fazer.
- Você com certeza tem que aprender a rir mais de você mesmo.
- Que horas são?
- Quatro e meia.
- A gente tem que ficar conversando aqui até que horas?
- Tá marcado pra você FINALMENTE parar de pensar em mim lá pelas oito.
- E o que a gente faz até lá?
- O de sempre. Você fica tentando conversar comigo tudo o que não consegue falar no mundo real e eu faço as caras que você adora na frente desse fundo branco.
- De novo, mil desculpas por isso.
- De novo, para de ficar me pedindo desculpas por tudo.
- Me diz uma coisa que eu provavelmente vá me arrepender de perguntar. O meu “eu dos sonhos” também tá bolado por ser chamado toda hora por “você do mundo real”?
- Jura. Você vai correndo. 

Thursday, March 07, 2013

"Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha cobardia".

Pessoa

Wednesday, February 20, 2013

A gente ter se mudado pra cá


- Você passou a segunda demão na parede da sala?
- Tu tá falando “você”? Não faz duas semanas que a gente tá no Rio.
- Ai, não enche. Vê se não vai estragar essa parede, pelo amor de Deus, sabe-se lá quando a gente vai ter dinheiro pra pintar de novo.
- Relaxa. Esse é o primeiro momento em duas semanas que a gente sentou pra fazer nada. Aproveita que tá tudo nos conformes. Relaxa.
- Relaxar... Não sei como tu consegue. O mundo inteiro desmoronando e tu nesse clima novela das seis.
- Depois de passar duas semanas de sufoco após vir pra cidade grande sem certeza alguma, conseguir um emprego que vai dar pro gasto nos próximos meses sem atrapalhar nossos estudos, organizar uma casa nova e pintar uma sala inteira, eu me permito viver num clima novela das seis.
- Como se fosse só nesses casos...
- A partir do momento em que essa conversa deixar de ser sobre a parede da sala eu vou começar a dormir.
- Então tu achas que tá tudo perfeito pra gente? Acha que a vida vai ser moleza a partir de agora?
- É claro que não. Eu só tô aproveitando uma horinha de paz antes de me desesperar de novo.
- Não é melhor levantar e fazer tudo logo?
- Não.
- Então tá. Vou ficar sentada aqui também. Totalmente relaxada, esse mundo é uma beleza mesmo, acho que vou pegar uma revista, um pacote de biscoito e tomar um suco.
- Tu tá relaxando do jeito errado. E eu comi o último pacote de bolacha.
- EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ COMEU O ÚLTIMO PACOTE DE BOLACHA.
- Relaxa, eu compro mais amanhã. Deixa eu te ensinar a fazer isso da maneira certa.  Sentar na sacada com vista para uma construção: Sim. Encucar porque eu comi o último pacote de bolacha: Não.
- COM QUE DINHEIRO TU VAIS COMPRAR “MAIS”?
- Relaxa. Vamos fazer assim. A gente se esparrama na cama, liga o ventilador, dorme por uma horinhazinha só e depois senta pra fazer as contas pra conseguir comprar mais bolacha amanhã. Pode ser?
- Que cama?! Tu não percebeu que a gente tá dormindo no colchão de solteiro que o teu amigo emprestou? A gente só vai poder comprar uma cama de verdade semana que vem.
- “Cama” pra mim não é o objeto cama. É um lugar pra descansar. Se fossem folhas de jornal eles seriam “cama” pra mim.  
- Até parece que eu vou conseguir dormir, mas tá.
- Vai, sim. Ninguém resiste ao meu cafuné. É a música da Jigglypuff dos cafunés.
- Tu acha que vai dar certo?
- Eu juro que passei a segunda demão na parede. Dorme, por favor.
- Às vezes só o esforço de fazer tudo certo na hora de pintar a parede não adianta.
- Ok. Tu tá falando “da gente”, do fato de a gente ter se mudado pra cá ou simplesmente da parede?
- Eu tava falando simplesmente da parede. Pensei que tu não querias falar sobre “a gente” ou “a gente ter se mudado pra cá”. Mas já que o assunto foi tocado...
- Sim, talvez e sim.
- O talvez é “a gente”?
- Não, o talvez é “a gente ter se mudado pra cá”.
- Tu tens mais confiança na pintura da parede do que no fato de a gente ter se mudado pra cá?
- Não é questão de ter mais confiança. É mais uma coisa de navegar é preciso, viver não é preciso. Eu li uns tutoriais na internet e saquei como se pinta uma parede. Não existe um tutorial online que ensine a vencer na cidade grande. Quer dizer, existe. Na verdade uns quantos, talvez bem mais do que ensinando a pintar parede. Mas o que eu quero dizer é que existem vários caminhos para o que a gente quer em termos de “a gente ter se mudado pra cá”. Pode ser que a gente tenha vindo pelo certo. Pode ser que a gente precise de uns atalhos. Pode ser que a gente erre o caminho e tenha que recalcular a rota. Pode ser que a gente tenha que recalcular a rota de novo. E de novo. Mas de demão em demão a gente vai levando.
- ZZZZzzzzzZzzZZZZZZZZZZZZZzzzzzZZZZ
- Ok, dormiu. Agora é a hora de passar essa segunda demão.



Monday, February 18, 2013

Um inseto pousou em meu ombro


Não sei direito qual, é um daqueles que entram pela janela do quarto nas madrugadas de verão e quando a gente acorda eles não estão mais lá.  Mas bem maior. Tem grandes olhos pretos e o corpo meio alaranjado na parte de baixo e uma coisa meio cinza em cima.
Passei a mão no ombro para tirá-lo.
O bicho se assustou e saiu voando.
Direto para o ventilador, que friamente o corta ao meio. Uma parte cai no chão e a outra fica presa nas grades.
Morte na hora, penso eu. E fico alguns segundos parado olhando a cena ao mesmo tempo em que tento processá-la. Tudo isso aconteceu em questão de três segundos. Um, vejo o bicho no meu ombro. Dois, tiro. Três, ele é partido ao meio. Como a morte é rápida, meu Deus do céu. Como a vida é curta, meu Deus do céu. De um segundo para outro todo mundo puft, seja humano ou inseto que só especialistas em inseto sabem o nome.
Passados alguns segundos a parte do bicho que caiu no chão começa a se mexer. Felicidade, penso eu. Só abrir a janela, soltá-lo no mundo e ir dormir com o ventilador me refrescando. Mas o bicho não consegue voar. Tenta com todas as suas forças, se debate incessantemente, mas as leis da aerodinâmica o condenaram a não sair mais do chão.  E o ventilador girando.
O inseto ali, me olhando com aqueles olhos pretos e gigantes que se dividem em ter medo e verem em mim uma oportunidade de salvação. Tenho que salvá-lo, penso. Surge a ideia de amarrar o restante que ficou preso nas grades ao pedaço que bate asas, pois parece realmente ser um caso de falta de peso, mas obviamente não sei como proceder, então desisto. E se esgotam as ideias para salvar o bicho que fora cortado ao meio porque deixei a janela aberta por causa do calor. E o bicho aqui, do meu lado, tirando forças das forças das forças para tentar voar, mas começando a cair a ficha de que não conseguirá.
Que morrerá nesse lugar estranho.
Que nunca mais verá os filhos, órfãos e sem ter o que comer a partir de agora.
O mais velho terá de sair da faculdade para trabalhar, até que um dia será cortado ao meio por um objeto cortador não identificado.
Tento descobrir na internet de que inseto se trata para descobrir o quão ligados à família eles são.
Tenta mais uma vez sem sucesso alçar voo.
Começo a pensar em dar-lhe o golpe de misericórdia. Acabar com seu sofrimento e ir para a cama descansar, pois amanhã será um longo e cansativo dia. Porém, lembro que eu sou eu e que nunca teria coragem para tal. Você leitor também não teria. A gente diz que teria, mas na hora dá para trás. Óbvio que é a melhor opção. Mas não é uma opção. Enfiar uma estaca no peito do bicho e dormir como se nada tivesse acontecido não está nos planos. Lembro do recente caso em que minha cadela estava no último estágio de um câncer que iniciou nas mamas e em questão de dias se espalhou para os pulmões. Ela foi levada ao veterinário já com a possibilidade da eutanásia na mesa, mas o próprio doutor via o processo com resistência. Talvez pelo mesmo pensamento que me corrói agora: Sou contra porque sou eu quem irá proceder.  Na verdade, este foi o principal desempate entre seguir a carreira de jornalista e de médico veterinário. Ver bicho sofrendo pelo resto da vida não estava nos meus planos e eu respeito profundamente a profissão muito também por essa frieza necessária que eu, escritor, não tenho e por isso escrevo ao invés de tentar fazer algo pelo inseto.
Já faz duas horas desde que o bicho foi cortado pelo ventilador. Acho que vou dormir e esperar para ver amanhã o que se sucedeu durante o restante da madrugada. Como sempre na vida.
Pensar que meia hora antes do acontecido eu havia cogitado seriamente ir dormir. Fecharia a janela e nada disso teria acontecido. 

Sunday, February 10, 2013

O gato

Você chega em casa cansado do trabalho. O mundo inteiro caiu em suas costas no dia de hoje e só o que você quer é atirar a chave em qualquer canto, se atirar no sofá e ver TV. E quando eu digo “ver TV” é ver TV. Ver novela, ver alguma série qualquer. Você enfim deita no sofá. Decide não comer nada, está cansado demais para sentir fome. É só ver TV e ir deitar.
Aí vem o gato.
O gato vem, pisa em cima de você, procura um lugar fofo em seu peito magro e, quando finalmente acha, deita.
E você fica naquela posição por horas.
Está cansado, não quer mais ver TV, mas como que vai tirar o gato dali? Além de atrapalhar o conforto do bichano, ele está lhe dando calor, querendo ele ou não fazer isso. “Ele vai me odiar se eu sair daqui agora”. Humanos pensam isso de gatos. Acham que vão perdê-los para sempre se decidirem mover-se para maior conforto.  Aí ficam ali engessados. Tentam se mover bruscamente numa tentativa de passar para o gato a responsabilidade do desconforto, mas a verdade é que o gato não está se importando muito. O gato dorme em cima do seu nariz, se for necessário. Ele quer é dormir. “Ele quer dormir junto de mim”, pensa você, ingênuo ser humano lendo essa frase. Pode até ser. Mas também se não fosse essa coisa de o gato querer ficar encostado na gente, a gente nem ia dar bola pro gato. Porque o gato gosta do ser humano. Quer ele ali, paradinho, só com o corpo encostado no seu. Mas aí, se o ser humano, num ato de pura brutalidade resolver trazer o gato mais pra perto de si, aí ferrou. “Aí babaus”, como diria um amigo meu.
O bicho vai embora, você está o sufocando.
Mas isso tudo é só você pensando, enquanto permanece imóvel no sofá para não atrapalhar a equação perfeita do conforto do gato.  Você pensa pensa pensa pensa pensa e, quando volta a si, já está passando o Corujão e a fome venceu o cansaço. Você resolve ir na cozinha fazer um sanduíche, mas, na hora em que iria se levantar, lembra que o gato está ali. E você não consegue tirar o gato dali. O gato é mais forte que a fome, que o cansaço, que você, e que tudo isso junto. E aí já passou Corujão, tá começando Telecurso 2000, você está podre de sono, mas não pode se mover até a cama porque o gato segue lá, torturando você com todo aquele tonemaíismo.
E isso piora quando o gato é daqueles mais ariscos. Daqueles que não costumam aceitar um colo com facilidade. Uma oportunidade de fazer carinho num desses é como pasta de dente: Você aproveita até o final, vai enrolando, enrolando e, se precisar, ainda corta a ponta no final para durar mais.
É claro que, de repente, depois de cinco horas de sono no seu peito, o gato resolve acordar e sai de cima.
Aí cabe a você ficar chorando pela ausência do gato ou correr pra cama antes que ele volte.



Tuesday, February 05, 2013

Maria do Céu




O nariz arrebitado o sinal em cima da boca o timbre rouco carinhoso manhoso e pedindo carinho o ponto. assim. de repente. Dando a. Cadência.
Céus, a cadência.
Céus, o toque nos cabelos.
Céus, a boca.
Céus, o Brasil.
Céus, o Brasil falando francês brasileiro.
Céus, a enrugada no rosto.
Céus, a roda.
Céus, o pra lá e pra cá.
Céus, a mordida na fruta.
Céus, o aAa.

Sunday, January 20, 2013

- ...


Passou duas vezes pela mulher de cabelos negros e batom bem vermelho. Fingiu que não viu, cara forte que tava tentando parecer. Percebeu, ficando até que feliz, não sei, tava escuro, mas acho que sorriu, que ela estava olhando. Meio sem entender muito bem, é verdade, mas ele não entendeu muito bem se o que ela não tinha entendido muito bem era o que diabos essa pessoa tá fazendo dando voltas na festa ou por que diabos ele não lhe deu oi.
Aí resolveu passar uma terceira vez. Só pra confirmar qual do não-entendimento era o caso dela. Tentou só passar, fingir não ver que ela estava ali do lado, não vou dar oi não vou dar oi não vou dar oi, mas quando deu por si já tava cutucando. Cutucando.
- Bu.
- Oi?
- Passei duas vezes aqui, tu fingiu que não m...
- Eu vejo você meio que em todos os lugares que eu vou.
- A gente se viu umas quatro vezes, cinco contando a primeira. Do jeito que tu falou ficou parecendo aquele episódio de Friends que a Phoebe se apaixona por um cara que ia nos mesmos lugares que ela, mas no final ela acaba descobrindo que ele escrevia pornografia pra crianças.
- Mas é meio isso mesmo.
- Tu tá apaixonada por mim?
- Não, mas acho você meio esquisito.
- Esquisito tipo Johnny Depp, tipo Woody Allen, tipo Faustão ou tipo o meu colega, que embora tenha contado o final do Harry Potter pra turma toda é um sujeito adorável?
- Tipo que escreve pornografia pra crianças.
- Que injustiça, tu nem me conhece. Eu escrevo pornografia pra adolescentes, é um público muito mais legal pra isso. Criança que vê pornografia não sabe o que tá fazendo, adolescente tem uma relação muito mais visceral.
- ...
- !!!
- ???
- Tu já parou pra pensar que o fato de a gente se ver em todos os lugares pode ser obra do destino?
- Destino?
- É. Acredita?
- Só quando é alguma coisa boa pra mim.
- Então, nesse caso?
- Não.
- Eu juro que sou legal. Pergunta pra qualquer um. Eu sou um doce.
- Eu nunca disse que você não é legal.
- Mas qual o meu problema então?
- Eu nunca disse que você tinha algum problema.
- Mas então por que essa indiferença toda?
- Nunca ocorreu a você que talvez eu só não esteja interessada? Que “não ter problema” não necessariamente significa uma pessoa interessante?
- Mas eu sou interessante. Tu que não me deixa mostrar isso.
- Você repete isso “eu sou interessante” desde a primeira vez que a gente conversou. Não acha meio pretensioso pra uma pessoa de um metro e setenta, com no máximo cinquenta e cinco quilos e que não sabe nem dançar?
- Não. Se eu não me achar interessante, quem que vai achar? Com toda a minha autoestima já tem mulher que me vê como um boneco Ken daqueles que não têm pênis.
- Vai ver você dá atenção demais.
- Tá, essa conversa está virando um diálogo adolescente e eu acho que o cara que tá escrevendo vai parar de escrever a nossa história se continuar assim.
- Tem um cara escrevendo a “nossa história”? Depois você ainda acha estranho eu te achar esquisito ao invés de estar apaixonada.
- Nunca ouviu falar em Deus? Brincadeira.
- ...
- !!!
-???
- Aquilo de um cara estar escrevendo esse diálogo foi brincadeira também.

...

Tuesday, January 15, 2013

Os alquimistas estão chegando


Um cara está aprendendo a cozinhar e vai à casa da namorada mostrar-lhe isso.
Não.
Um cara está aprendendo a cozinhar e vai à casa da avó mostrar-lhe isso. Com a namorada. Já que criei a criatura não dá pra deixa-la solta assim no universo.
“Só consigo cozinhar escutando música”, fala o cara enquanto coloca o celular no aleatório. Começa a tocar uma música do Jorge Ben. Sei lá, leitor, escolhe aí qualquer uma pra fazer fundo, não vou impor nada. Ele tira a camisa, coloca o avental com os dizeres “sou a melhor vovó do mundo” e parte para cima do frango para cortá-lo. A namorada vai para a sala ver Estrelas com a avó. Sim, o almoço saiu tarde.
Após alguns minutos de silêncio, a avó resolve virar para a namorada.
- Você gosta muito do meu neto, não é?
- S-s-sim, responde a namorada.
- E ele gosta muito de você também, pressuponho...
- É... eu espero que sim. Do jeito dele, mas nesse tempo todo eu já aprendi a ler ele e acho que sou importante.
- Quanto tempo é esse tempo?
- Cinco anos.
- Hm. Escuta, eu estou morrendo e não tenho coragem de contar para ele, ainda mais agora que ele está tão entusiasmado em cozinhar para mim. Você acha que pode fazer isso por mim?
- O-o-o que?
- Estava sentido algumas dores e fiz alguns exames. Contei para ele que era apenas um mal jeito nas costas, mas a verdade é que estou morrendo. Até peço desculpas por te colocar nessa situação, a minha ideia era pedir para a minha filha contar para ele, mas acho que não vai haver tempo, então como já estamos os três aqui...
 - Mas eu não posso fazer isso! Quem sou eu para dar uma notícia dessas? A senhora tem certeza disso? Já pediu outra opinião?
- Minha filha, quando a gente é velho, sabe quando vai morrer. Fiz os exames apenas para que ele não desconfiasse de nada, mas a verdade é que eu já sabia os resultados. E você é a pessoa que o acompanha há cinco anos. Quando vocês começarem a assinalar uma opção diferente no campo “Estado Civil” da conta da NET você vai se tornar, sem o exagero que se usa na adolescência, a pessoa mais importante da vida dele. Se por acaso ele tiver a chance de salvar uma pessoa de assistir ao Caldeirão do Huck será você. Essa relação linda de vocês começa hoje, com essa notícia que você dará.
Lá da cozinha o cara segue cantando a plenos pulmões:
“ZAAAZUEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEIRAAAAAAAAAÁÁÁÁÁ ZAAAAAZUEEEEEEEEEIRAAAAAAAA”
Tudo dando certo no Frango Xadrez, tá douradinho ali na panela junto com os pimentões e o shoyo. Não colocou amendoim, a vó não gosta, faz mal, ouviu dizer. Mexe isso aí, guri, diminui esse fogo aí, vai queimar tudo, lembrou dessas coisas que ela dizia quando ele ainda tava engatinhando nessa coisa de frango. Era um frango no frango. Falta agora só diluir o amido de milho (que, agora sabendo cozinhar, ele compra só Maizena), colocar no todo, misturar e servir.
Tá, ficou tudo pronto, hora de servir, a namorada bota a mesa e a avó só esperando.  Vem, vó, tá na mesa.
Lá pelo meio do almoço, percebendo o clima pesado, o cara, sem vocação alguma para tal, resolve tentar melhorar o ambiente puxando o seguinte assunto:
- Que silêncio. Parece até que alguém aqui está morrendo.
 Eis que a namorada e a avó gelam, será que ele ouviu a conversa da cozinha? Até que não seria mal, pensa a namorada. Que horror pensar assim, pensa de novo. A avó, que já estava quase morrendo, cai durinha ali no chão da sala.
- O que está acontecendo, santo deus todo poderoso????!!!!
- Exatamente aquilo que você ouviu da cozinha! Chama a ambulância. Rápido!
Três dias depois, enquanto o cara havia saído para almoçar, o médico aparece e pede para falar com alguém da família. Ninguém. Só a namorada está. O médico pensa, não pode dar a notícia para algum estranho, mas também não pode deixar a idosa morta na UTI sem ninguém saber. Resolve arriscar.
- Há quanto tempo vocês estão juntos?
- Cinco anos.
- Então a relação de vocês é muito estreita?
- Costumamos dizer que se ele pudesse salvar alguém de ver o Caldeirão do Huck pro resto da vida, esse alguém seria eu.
- Ok... Nós tentamos de tudo, mas a verdade é que ela já estava comprometida antes mesmo do que aconteceu e...
- Eu sei. Eu sei.
- Você acha que consegue contar para ele?
- Não. Mas eu tenho. É como fazer regime.
Quando o cara estava de volta do almoço, a namorada respira fundo e senta ao seu lado. Olha em seus olhos.
- Sabia que existem pouco mais de mil exemplares do Leopardo Persa...
- Você sabe que eu não gosto quando chamam animal de exemplar.
- Sabia que existem pouco mais de mil indivíduos adultos do Leopardo Persa em todo o planeta? Tão tendo que reproduzir eles em cativeiro, porque a dizimação tá pesada. Pensando por esse lado, nem é tão ruim o fato de que existem três mil pandas ao redor do mundo, você não acha?
- Amor, citando a Berta, em um dos seus melhores momentos em Two and a Half Men, todo mundo sabe que depois do Herb ela é a minha personagem predileta, você pode colocar açúcar em cocô que ainda sim não vai ser chocolate. Tudo bem ela ter morrido.
- Não está tudo bem. A pessoa mais importante na sua vida, a que você mais amava, acabou de falecer. Você nunca mais irá cozinhar para ela.
- Olha, eu não sei você, mas antes de aceitar participar desse texto, eu li todos os outros do cara que está escrevendo. Em um deles, ele diz que o universo é muito pequeno e, por conta disso, os seres magníficos, como a minha avó, têm de respeitar uma fila, pois são grandes demais e ocupam muito espaço. Essa fila precisava andar e a minha avó, gentilmente, cedeu o lugar dela para uma nova pessoa ser a que eu mais amo e que mais me cuidará daqui pra frente.
Depois de um tempo, acho que uns dez anos, quando o cara e a namorada já assinalavam outra opção no campo “espaço civil” do contrato da NET, Deus, O Todo Poderoso, desceu dos céus. Foi uma loucura. Pessoas se ajoelhando, pedindo perdão pelos seus pecados, dizendo que fariam qualquer coisa para permanecerem vivos, imaginem que coisa legal deve ser você ser Deus. Enfim, o Supremo, quando finalmente conseguiu com um raio daqueles fazer com que toda a humanidade calasse a boca, disse que tava cansado daquela zona toda. Tomaria uma atitude drástica e definitiva e passaria o resto da eternidade no Rio de Janeiro vendo as moças passarem de bicicleta. Ou os moços jogarem altinha, se você for daqueles que acreditam que Deus é uma mulher. A atitude seria punir toda a humanidade, fazendo com que todos os seres, fora os pandas e os leopardos persas, fossem obrigados a assistir, por toda a eterna eternidade, ao Caldeirão do Huck.
Todos fora um humano, escolhido via sorteio para, junto com outra pessoa a sua escolha, passarem o resto dos tempos junto dele vendendo água-de-coco na praia. 

Tuesday, December 25, 2012

Morte


A morte é a pior coisa que existe. E digo a morte como a do tarô, com vários significados, todos eles arrasadores. As pessoas que dizem considerar a morte algo bonito, ou não estão com ela as rondando ou estão tentando amaciá-la. A morte é feia e malcheirosa. A morte dá vontade de morrer e só ressuscitar quando o mundo for bonito novamente.
Mas a morte também é como um parente chato que inventou estar com saudades apenas para passar uma semana na sua casa de praia. Você não pode negá-la. Não pode ignorá-la. Não pode expulsá-la por ela ser inconveniente. Tem de aguentar o seu cheiro podre. Tem que aguentá-la palitando os dentes após o almoço.
A partir do momento em que você se propôs a ter uma casa na praia, automaticamente se propôs a receber o parente indesejável.
Aí você se prepara psicologicamente para recebê-lo. Tenta relaxar, vou ter que passar por isso mais dia menos dia, que seja agora. Mas lá no fundo (e não tão fundo assim) ainda há a esperança de que ele não venha. O carro pode quebrar no caminho. Mudou de ideia. Tenta amenizar o sofrimento com toda essa preparação, mas na hora que ele chega é tudo inútil.
Você desaba. 

Tuesday, December 11, 2012

Uma manhã sem luz


Faltou luz aqui no trabalho. Oh, olha só, uma caneta, vamos tentar escrever alguma coisa.
Essa falta de luz veio em um bom momento, como quando no Orkut por uma bela surpresa o amor da sua vida visualizava o seu perfil e aquilo dava uma alegria inesperada capaz de durar umas duas semanas. Como na única vez em que aquela menina bonita, dona de uma cor de pele que autoriza o bom uso do batom, me respondeu no Facebook,  uma pena agora ela apenas visualizar minhas mensagens e nem me chamar de chato indiretamente dizendo que ela também é chata.
Por favor, moça bonita, me dê uma luz, ilumina minha vida, já que meu trabalho está numa escuridão só. Ser de luz própria que és, venha nos iluminar, ou melhor, não venha, que é para eu poder continuar a escrever minhas bobagens sobre ti só pelo prazer de ver a caneta deslizando, poucas esperanças que tenho de te convencer a sorrir pra mim como sorriu no dia em que nos conhecemos, de pegar tua mão macia e fingir dançar, como no dia em que nos conhecemos.
Ah, mocinha, me ensine as coisas de Goiás, me explique a diferença entre o sotaque de lá e o de Minas, me explique o porquê de JK não ter transformado Goiânia em capital do país ao invés de gastar aquela nota toda construindo uma cidade do nada ali do lado e colocando o breguíssimo nome de “Brasília”, me explique o porquê de os goianos formarem tantas duplas sertanejas se em Goiás nem ao menos tem sertão. Me explique como o Atlético Goianiense conseguiu subir meteoricamente para a primeira divisão, me explique o caso Carlinhos Cachoeira na visão dos goianos, que elegem a direita há tanto tempo e, finalmente, me explique o porquê de não gostar de mim, se temos tanto em comum de acordo com as coisas que curtimos no Facebook.
Acabaram de ligar para o chefe, que no momento está em Porto Alegre. Ele disse que não, não podemos ir para casa, que temos que continuar “trabalhando” coisa e tal. Acho que os outros funcionários irão organizar uma espécie de motim, algo como dormir durante toda a tarde. Acho que vou convencê-los a fazerem o mesmo para acabar com essa tua indiferença em relação a mim. Com a falta de luz que assola minha manhã e minhas pretensões de passar uma tarde inteirinha te fazendo cafuné, as pessoas aqui do lugar onde eu trabalho começaram a fofocar loucamente. Em questão de meia hora eu já sei desde as incompetências de uma tal de Marli até o nome do próximo Secretário de Educação da cidade. Parece um pouco piada, mas agora eles começaram a falar sobre  Sessão da Tarde. Não que seja ruim, eu adoro Sessão da Tarde. Passar aquela uma hora e meia vendo filme ruim e comendo besteira está entre as minhas 15 melhores coisas do mundo, logo atrás de usar pela primeira vez uma meia que acabei de comprar.
Vamos um dia, moreninha, passar a tarde toda vendo filme ruim e comendo besteira? “O Amor é Cego” e bolacha Maria com margarina. “Lagoa Azul” e marshmallows. Qualquer filme com o Eddie Murphy e Doritos. “Esqueceram de mim” e dois potes de pipoca com manteiga. Vamos fazer um filme ruim nós mesmos e não mostrar a ninguém . Um filme sobre uma mulher iluminada que aparece de repente e ilumina uma cidade inteira, sem luz há muito tempo. “A Moreninha Iluminada”, e aí assim, não mais que de repente, surja “A Moreninha Iluminada – O Retorno”.
Estão me avisando aqui que, finalmente, chegou a minha hora de ir embora. Ainda bem, pois estou louco de fome. Mas mesmo assim uma pena, logo agora que eu forçaria uma poesia fazendo uma metáfora entre a luz do sol que me aquece e me ilumina nessa manhã escura e o momento em que aceitaste minha tentativa e me deste a mão, blábláblá, nada que eu já não tenha dito umas cem vezes durante esse texto construído durante uma manhã inteira. Vou me embora, prenda minha. Vou para a casa.
Espero que lá tenha luz.
Espero um dia “dançar” contigo novamente
E a luz se fará assim.
Ponto Final.

Friday, December 07, 2012

Para a moça que me acha um pé no saco


Te conheci esses dias, moça lá do estado que eu não tinha muita simpatia, mas que agora por tua causa eu até que gosto. Parecia legal, parecia bonita, eu já estava meio bêbado mesmo, fui lá falar. Riste das besteiras que eu falei, respondeste algumas outras, mas deu pra ver claramente uma coisa muito triste: Me achaste um pé no saco. Para a tua sorte, já que é uma glória me ter como conhecido, pessoa futuramente muito rica e dona de uma capacidade intelectual invejável que serei, eu não me dou por vencido de primeira, como tu podes ver por esse outro texto que eu fiz em uma situação bem semelhante e que, se interessa saber, foi revertida pela minha graça, minha fofura e acho que devo um pouco ao meu perfume também.

Na bem verdade, se tivesses me ignorado completamente (tá, como fez no facebook esses dias), recusado minha solicitação de casamento no facebook ou ainda não dado risadas lindas do meu besteirol, eu teria desistido fáci fácil. Porque não seria o caso de tu me achares chato. Seria o caso de tu quereres a minha morte e eu realmente espero que essa não seja a verdade. Tu queres que eu morra? Se tivesses um pedido a fazer seria que eu caísse ali, durinho, no salão da festa? Irias ao meu enterro? Levarias flores? Acho que vou simular a minha própria morte para ver se tu te importarias.

Dançar realmente é uma arte muito complicada. Tem que fazer vários movimentos ao mesmo tempo, com várias partes do corpo e ainda tem que olhar para a outra pessoa. Realmente, tens razão. Eu mesmo sou um cara inteligentíssimo, cheio de talentos e não sei dançar. Sou meio duro. Um amigo, grande pé-de-valsa, certa vez tentou ensinar a mim e a outro amigo essa grande arte que é se mexer e isso ser aclamado pelas outras pessoas.  Era ensino médio, a gente era meio feio e precisava de alguma coisa pras guriazinhas gostarem da gente. Como pudeste perceber no dia em que te conheci, não deu muito certo.

Mas eu tentei. Eu sempre tento. Mais ou menos como a última coisa que eu te disse no facebook e que obtive resposta: O homem não sabia ler, não sabia escrever, não sabia fazer batata frita, mas em determinado ponto da sua história pensou: Cara, dá pra tentar isso aí.
Eu vou tentando.

Tuesday, November 27, 2012

Encomendas do Solstício

Olá!

Talvez vocês não saibam, porque eu não tenho muito senso de marketing, mas eu escrevi um livro com as coisas que eu publiquei aqui ao longo dos anos e mais algumas outras. Ele se chama Solstício, tem ilustrações da Patrícia Lindoso e foi lançado na Feira do Livro de Pelotas desse ano. Se tu, que estás lendo essa palavra agora, tiveres interesse em encomendar um (ou cem) exemplares, é só mandar e-mail pra queremossolsticio@gmail.com.

Obrigado!

Tuesday, October 16, 2012

Palhetas


Quando um quarto está todo bagunçado, com roupas espalhadas, cadernos revirados, gavetas abertas, gavetas que não abrem, é difícil achar algo que é ou era importante. É difícil achar no meio de tanta coisa bagunçada. Será que deixei no armário? Não foi debaixo da cama? Aí a gente esquece, nem que seja por um tempo. Depois aparece, assim de repente, quando eu não estiver mais procurando.
Acontece muito com palhetas. A verdade é que não existe um universo paralelo para onde elas – e também as borrachas – vão para serem felizes aproveitando a liberdade que lhes foi concedida após ultrapassarem a fina barreira que separa o mundo real do mundo das palhetas e das borrachas. A verdade é que elas ficam sempre lá. Escondidas no meio de um sofá, escondidas dentro de gavetas, esperando o momento em que alguém decide tomar a frente da situação e limpar tudo até, assim de repente, encontrá-las. Elas ficam lá, pedindo socorro antes que aconteça a tragédia de outro alguém varrê-las e, aí sim, elas sumirem para sempre.
Também pode acontecer de elas padecerem a essa espera. Pode acontecer de uma pessoa sentar em cima da palheta perdida e aí, depois da arrumação que se faz no quarto, ela ser achada quebrada no meio, tornando-se totalmente inutilizável. Nesse ponto da história das palhetas pode ser que exista outro mundo. Uma espécie de céu das palhetas, onde aquelas que se cansaram demais durante a vida, ou simplesmente caíram no esquecimento, descansam eternamente. Mortinhas da silva, mas descansando.

Wednesday, September 19, 2012

Dona Cecília



Talvez Deus, um pouco cansado de escrever a história de tanta gente, tenha resolvido dar para Fernando Sabino a tarefa de roteirizar o 80º ano de Cecília Giménez. 

Em uma bela, ensolarada e provavelmente muito inspirada tarde espanhola, a devota senhora resolveu restaurar a pintura Ecce Commo, retrato de Jesus Cristo feito na década de 30 por Elías García Martínez.  Confiando em seu talento, ela já pintava vasos de flores em casa, não tinha como dar muito errado, os responsáveis pela obra autorizaram. Vai lá, dona Cecília. Dona Cecília foi.

Quando toco violão em casa, preparo uma apresentação em casa, falo comigo mesmo em casa, sou incrível. Não tem quem seja melhor do que eu. Quando faço todas essas tarefas em público sou mais tosco que Sérgio Mallandro. Acho que foi isso que aconteceu. Seus vasos de flor, cestas de frutas, casas e ruas eram incríveis, mas, quando caiu a ficha da responsabilidade que seria restaurar uma obra tão importante como o Ecce Commo, a aposentada espanhola gelou. Católica, tentou rezar, mas Deus estava um pouco cansado de escrever a história de tanta gente, “agora não dá, dona Cecília”. 


Dona Cecília começou. Mão pesada. Braço trêmulo. Coração gelado. Até que não ficou ruim, dá pra continuar. Engole seco e vai, o tempo tá passando. Foi pintando e até ficou um pouco mais confiante, embora ainda gélida. O desenho do pergaminho ficou bom, nada mais pode dar errado, eu consigo. Mas, em um ato de puro impulso de alguém que está nervoso e erra até a pergunta de 5 mil no Show do Milhão, cometeu um erro gravíssimo. Apaixonada desde pequena pelos olhos ternos de Jesus Cristo, seu pastor e nada lhe faltará, resolveu desenhá-los antes de tudo. Qualquer pessoa que tenha uma pequena noção de desenho sabe que olhos, ainda mais que mãos, são a parte mais complicada na hora de desenhar. É preciso muita pesquisa prévia, é preciso muito cálculo e é preciso muito braço firme para um olho ficar perfeito. Por ser tão apaixonada pelos olhos de Cristo, dona Cecília se dedicou demais e, como acontece comigo, toda essa dedicação pressionou a senhora. Mas e se não ficar bom? E se Deus meu Senhor não gostar? Errou a mão.


Quando viu que não havia mais como consertar, dona Cecília passou por alguns estágios. O primeiro: Desespero. Não irei mais pro céu, ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus. Segundo: Raiva. Quer saber? Não quero mais pintar isso não significa nada sem os olhos lindos de meu Senhor vou me embora para a minha casa fazer um bolo e ficar com meus netos! Terceiro: Tristeza (daí o borrão na boca, dona Cecília chorou muito). Como pude fazer isso? Nunca faço nada direito mesmo, minha vida não serve pra nada. Viu sua história toda passar pela mente. 80 anos em um minuto. No meio daquela agonia toda surge uma luz. É Jesus Cristo, mas seus olhos já não parecem tão ternos. O Rei dos Reis se aproxima da espanhola e fala:

- Dona Cecília, o que foi que a senhora fez?
- F...F...Foi s...sem querer..er.
- Foi sem querer que Eu descobri o dom de caminhar sobre as águas. A senhora por acaso caminhou sobre as águas nesta pintura?
- N..Não, senhor.
- A senhora nem ao menos nadou sobre as águas.
- Mil perdões, meu Senhor, mil perdões.
- Pensarei em teu caso.

E dali Jesus Cristo se foi novamente em direção à luz. Dona Cecília resolveu ir pra casa descansar um pouco.


Quando acordou, rezou, tomou seu café e foi ver televisão. Se viu. Se desesperou. O mundo inteiro já estava sabendo daquela idiossincrasia que cometera. Resolveu que não sairia de casa nunca mais, esperaria o juízo final sentada em seu sofá rezando pela redenção de seu Senhor Jesus Cristo. Botaria até um vasinho de flor em cima da mesa para esperá-lo.


Um dia, então, sua vizinha veio trazer-lhe a informação: As visitas na igreja onde está o Ecce Commo restaurado aumentaram em uma proporção que só Deus sabe fazer a conta. Antes recebendo média de 400 visitantes durante todos os verões passados, depois da restauração de dona Cecília foram cerca de 30 mil. A igreja inclusive já planeja ganhar dinheiro, ou como estão chamando, "donativos" com o sucesso da sua restauração. Aí atacou os nervos. Mão Pesada. Braço Trêmulo. Coração gelado.

Sunday, August 12, 2012

Gentileza



O universo deve mesmo ser algo muito pequeno. Isso porque é preciso achar uma maneira de entender porque até os melhores seres, aqueles que facilmente teriam cargo vitalício por aqui, um dia partem. Partem porque o universo, além de muito pequeno, deve ser muito democrático e por, infelizmente, ter estas duas características, precisa constantemente ser renovado. Partem porque – ainda bem – a fila dos melhores seres que querem fazer parte do universo é gigante. Partem porque são gigantes e ocupam muito espaço em um algo que deve mesmo ser muito pequeno. E aí, gentilmente, cedem seus lugares para maravilhas novas fazerem cafuné na gente.  

Tuesday, July 31, 2012

Superpoder


Era uma vez um menino. Era uma vez um menino que sabia voar. Não necessariamente era um menino que queria voar. Ele só sabia. Também não era um voar estilo Super-Homem, com uma capa imponente, tampouco estilo anjo, com asas. Ele só sabia.
O menino usava esse “superpoder” quando julgava necessário – dentro do seu entendimento de necessário, coisa que vai de pessoa pra pessoa, de cachorro pra cachorro, de margarida pra margarida. Ele julgava necessário voar quando se sentia ameaçado. O que não acontecia lá muito, criança tranquila que era. Veja você que era exatamente essa tranquilidade que o fazia ser considerado ameaça e, por consequência, se sentir ameaçado. Os demais meninos, ao o verem daquela forma, não entendiam. Como alguém conseguia segurar tanta paz nas costas? O menino jogava bolinha de gude, claro, mas caso perdia – e isto acontecia bastante – não se importava lá muito. Também não tentava tirar proveito dos meninos menos habilidosos, chamando-os para duelos apenas para ganhar suas bolinhas. “Para que irei excluí-los da brincadeira?”, dizia. E era aí que os meninos partiam para cima. E era aí que o menino voava. Voava direto para a padaria ao lado do colégio e lá ficava, comendo bomba de chocolate.
Mais pra frente, quando o menino já amava as meninas, a sua tranquilidade continuava a lhe trazer problemas. Não que vivesse sempre em banho-maria. Era um menino de bastante atitude e borogodó. O que incomodava as meninas era a tranquilidade dele perante a sociedade. Certa vez perdeu uma namorada por ter lhe tascado um beijo apaixonado dentro de um elevador lotado. Outra por não ter lhe tascado um beijo apaixonado dentro de um elevador lotado. Mas não se importava muito. Quando um relacionamento começava a não valer mais a pena o menino simplesmente levantava voo. Voava pra casa e lá ficava até que desse vontade de sair de novo.
Não apenas no que dizia respeito ao lado afetivo, o menino cumpria este ritual em tudo na vida. De conversas triviais, onde para os amigos sempre foi uma grande dúvida se era a embriaguez que já estava alta ou se um amigo havia levantado voo ali diante de seus olhos, até no âmbito profissional. Não conseguia parar em emprego algum, pois assim que as tarefas não lhe eram mais interessantes ele levantava voo. Ali, de terno mesmo.
Até que ficou velho. E aí ficou mais velho, até que, tranquilamente,  levantou voo em direção a... Na verdade desta última vez não sei para onde o menino foi. Sei que foi. Mas eu também podia estar embriagado.

Thursday, July 12, 2012

Eu só queria dar umas risadas


Esse texto tem spoiler da 7ª temporada de How I Met Your Mother. Ou eu Inventei tudo.

Vocês não odeiam quando se preparam para uma coisa esperando só dar risada e ela acaba emocionando? Sei lá, como quando eu baixo um episódio de How I Met Your Mother e ele é sobre a Robin não poder ter filhos. Minha internet anda meio lenta, então eu espero mais ou menos uma hora para um episódio em 720p terminar de baixar. Depois que essa parte se conclui, eu vasculho a casa inteira atrás de um pen-drive para passar o arquivo pra TV da sala, onde me sento, me tapo, pego comida e a minha gata sobe pra tentar pegar a comida de mim.

Enfim dou o play, já exercitando a mandíbula para as risadas. Quando desligo a TV vem nó na garganta. Pô, não era isso que eu queria. Fiz essa burocracia toda porque às 02:14 da manhã eu queria dar umas risadas. Se fosse um domingo às 21h eu ia querer sofrer vendo Melancholia ou algo do gênero, mas hoje, às 02:14, eu queria dar umas risadas. Nada contra colocarem esse drama na série, acho que enriqueceu a personagem, blablabla. Até o Chaplin colocava pitadas de drama nos seus filmes, a questão não é nessa. Sei que drama embonifica as coisas, mas, com o perdão do egoísmo, às 02:14 da manhã eu queria dar umas risadas! Saca quando a tua alma tá com o (insira aqui o nome do músculo entre a bochecha e a boca) dolorido de tanto rir, mas tu queres colocar isso pra fora? Então, era mais ou menos isso. Eu queria usar o How I Met Your Mother como um meio para transferir as risadas da minha alma para o meu corpo. Não queria passar horas e horas pensando o quão triste deve ser para as mulheres reais passarem por essa situação, se também tem amigos tão gente fina quanto os da Robin, às 02:14 da manhã eu queria dar umas risadas!

Me crucifiquem, me chamem de simplório, inventem adjetivos pejorativos para mim, mas, principalmente nestes últimos meses, em que meu coraçãozinho tá descansando numa rede, a diversão é o que tem sustentado a minha graça. Não é que eu esteja cheio de nãometoques emocionais. É que, cara, às 02:14 da manhã o que eu quero mesmo é dar umas risadas.

Tuesday, July 10, 2012

Por um mundo com os olhos de Alison Brie

Eu tenho uma teoria. 




Sei que acaba ficando monótono escrever um texto inteirinho só sobre uma única pessoa, mas acredito que se todo mundo tivesse acesso aos olhos de Alison Brie os problemas do universo todos se extinguiriam. Não digo só os problemas que surgiram depois que ela nasceu.



Acho que se realmente existisse um Deus, esses olhos teriam sido as primeiras coisas a serem inventadas. Eva seria Alison Brie. Imagina se Caim, vendo os olhos azuis de sua mãe, teria a ideia cruel e seca de matar o próprio irmão. Daí por diante. Sei lá, vamos pegar ali a Idade Média. Quem precisaria da Igreja? Ou, se por um desvio da humanidade ela tivesse sido criada, quem contestaria a teoria da Igreja de que aquilo só poderia ter sido criado por um ser superior? Dois olhos lindos daquele jeito, formados assim, ao acaso? Não, impossível. Avancemos. Por que Hitler teria todo aquele ódio todo no coração se Alison Brie franze a testa fazendo uma cara de séria que dá vontade de rir e apertar? O Capitalismo seria baseado em pessoas querendo ter mais Alison Brie para si, mas para que mais Alison Brie para si? Aqueles olhos são como açúcar. Na dose certa é a perfeição. Não tem motivo para ter mais. Pensem em quantos problemas isso evitaria. Muro de Berlin, fome na África, Terrorismo (ori e ocidental). Por que diabos políticos haveriam de roubar dinheiro, se já teriam os olhos de Alison Brie? 

E os países se invadindo em busca de petróleo? Imaginem que incrível seria o mundo se tivéssemos Alison Brie e não petróleo!

Tuesday, April 17, 2012

Beterraba




Quando a gente é criança é muito difícil gostar de coisa ruim. É complicado aceitar o fato de que beterraba tem gosto de terra, porém é rica em proteínas vitaminas potássio sódio fósforo cálcio zinco ferro manganês, mas, depois que o tempo passa – e a gente cresce – esquece-se do gosto ruim da beterraba, porque, afinal, a beterraba não existe pra ser saborosa. Ela tá ali pra fazer bem. Só que aí nós, os eternos insatisfeitos, dizemos que “fazer bem” é um lance relativo. E se importar com o que é relativo não tá aí pra fazer bem.


Wednesday, March 28, 2012

Millôr



A primeira vez que li Millôr Fernandes foi no banheiro. Me sentei, vi um livro fininho e resolvi que ele me acompanharia naquela jornada. E ali fiquei por um longo tempo após tê-la cumprido.

Millôr escrevia em 3D. E lá no tempo do guaraná com rolha. Escrevia verticalmente, característica sua, mas não se contentava; ia lá e colocava um desenhinho que deixava tudo 150%.

Aí todo mundo entendia. Todo mundo ria. Todo mundo ria porque Millôr foi o melhor humorista brasileiro. Todo mundo ria porque Millôr escrevia do jeito que queria e do jeito que todo mundo queria. Não dava para – e nem precisava – e que história é essa de passado? - não dá para – e nem é preciso – saber se Millôr diz “entendeu ou quer que eu desenhe?” ou “entendeu ou quer que eu escreva?”.

Em uma época em que se discute tanto a liberdade do humor, vemos Millôr, o velho Millôr, ser tão livre que perfura sem perfurar. Bater, esconder a mão, mas deixar o cotovelo de fora. Muito maior do que correto ou incorreto, o humor millorista é natural. Agora ele vai lá encontrar outros seres tão livres quanto. Vai encontrar o grande mentecapto, Stanislaw e quem mais ele quiser.

Tuesday, March 20, 2012

nos

quando me deixaste, quis eu morrer de um jeito bem Tomás Antônio Gonzaga, mas pior ainda, porque sou um cara da cidade e não sei tirar leite de vaca, depois te deixei, quis eu morrer de nervosismo, sem saber direito se estava fazendo o certo, como quando se escolhe tomar leite com Nescau ao invés de Coca e na hora não há Nescau o suficiente, só pra um golinho e me deixaste de novo, ficando eu inconsolável, querendo eu morrer por ter escolhido o leite ao invés do refrigerante, mas agora tentei eu pegar tua mão tentaste tu fugir não conseguimos nós ficarmos juntos tentaram outras pessoas nos conquistar conseguiu ela o meu apreço e agora quer o mundo deixar tudo em paz e quer a paz deixar-nos.

Monday, February 20, 2012

Cílios

O mundo, infelizmente, é um troço muito grande. E, para o enriquecimento das ironias do universo, quando um cílio, infinitamente menor do que a Terra, cai em um olho, Deus do céu, o ser humano não consegue ficar quieto – no seu canto. Eu, que tenho olhos grandes, já sofri com muitos cílios-sorrisos. Com muitos cílios-corpos. Cílios-olhos. Coça daqui, assopra dali, pede ajuda pra qualquer estranho que aparece pela frente, mas, mesmo que o assopro funcione, mesmo que cavoucar o globo ocular traga bons resultados, o olho ainda dói. E dói mais do que a coceira causada pelo cílio rebelde. Mas incomoda menos.

Wednesday, February 08, 2012

Verão

cara, como eu amo o verão. depois de toda a função de correr pra organizar tudo, correr pra comprar passagem e correr pra pegar o ônibus, eu finalmente estou sentado na poltrona do Embaixador Pelotas-Cassino.

de repente adentra o carro aquilo que melhor traduz essa estação: uma morena com vestidinho largo e lilás. ah, quando uma morena de vestidinho largo e lilás adentra um ônibus que ruma à praia, olha, eu esqueço do suor, do mosquito, da dificuldade de dormir, da preguiça e até da dor de cabeça. até do calor periga eu esquecer. quando uma morena de vestidinho largo e lilás adentra um ônibus que ruma à praia, olha, eu só quero que alguma força sobrenatural faça com que ela deite comigo numa rede amarela e fique para-lá-para-cá ouvindo Novos Baianos. eu até aprendo a sambar mais direitinho, se uma moça dessas me pedir. essa moça de vestidinho largo e lilás, que eu nem conheço, pode me pedir pra comprar milho que eu compro. pode me pedir pra descascar inteirinho no sol que eu descasco. pode me pedir para surfar que eu... bem, eu aprendo. tudo isso porque ela é esse ventinho refrescante que chega de repente e transforma o verão por segundos.

agora eu desci do ônibus, ela também e eu vou seguí-la para descobrir onde está veraniando essa moça. será que ela está mais perto da praia ou da avenida? da Iemanjá ou do Navio? Mais tarde vou caminhar pela praia procurando por ela e pelas outras morenas de vestidinho largo e lilás.

Wednesday, January 11, 2012

Cais

À primeira vez em que fui ao Rio de Janeiro, decidi: A carioca é a mulher que eu quero ter e que eu quero que me tenha. Não é... Talvez seja pela tal graça que os poetas dizem que elas têm, mas prefiro dizer que é pela leveza que elas vestem. É como se a água gelada das praias de lá servisse como um ritual que separa as meninas das mulheres e só a carioca, por conviver com aquele gelo todo, fosse mulher de verdade.

A mulher do Rio quando fala Vasco, cais do porto, ou simplesmente cais, ou simplesmente porto, ou simplesmente Rio é como uma cuíca: É um lance que tu não descansas até entender como funciona, mas a cuíca, quando desvendada, é apenas um esfrega-esfrega danado que faz um barulhinho bacana. As cariocas são um esfrega-esfrega danado que faz um barulhinho bacana também, mas eu nunca me atrevo a dizer que elas são "apenas" algo.
Elas são sempre o algo incrementado.

Tuesday, January 03, 2012

Horóscopo

Morena dos olhos azuis azuis, saibas que eu não acredito em horóscopo. Acho uma besteira a gente viver nossas vidas de acordo com a posição de umas coisas, mas, depois que descobri que somos nós dois do mesmo signo, olha, eu não consigo ficar um dia sem ler aquelas baboseiras que escrevem nos jornais.

Nessa semana teremos influências da Lua crescente no signo de Áries e Mercúrio em quadratura com Marte, ambos trazendo impulsividade e muita agitação nas comunicações e eu não tenho ideia de o que isso significa, mas acho que quer dizer que ficaremos juntos para sempre. Se bem que numa dessas imagens que compartilham no Facebook diz que Peixes com Peixes não dá certo, porque é um signo muito intimista e bláblá. Ora, quem eles pensam que são para darem uma definição na lata dessas? Eu acho que nós dois, um do lado do outro, daria certo e, se tu achares também, pode haver um milhão de compartilhamentos que nenhuma imagem de rede social vai nos separar. Tu achas? Voltemos às previsões para a semana. Diz aqui que na sexta possivelmente haverá indisposições entre as pessoas e clima de individualismo nos grupos de trabalho. Bem, eu estou de férias, então toma cuidado por aí! Deixa eu ver aqui... Ah! Sábado terá Mercúrio em sextil com Saturno e Netuno e parece que isso, aliado a aspectos da lua no signo de Gêmeos, significa que o fim de semana será bom para encontros amorosos. Uma pena não estarmos perto!

Mas olha, morena dos olhos azuis azuis, se por acaso algum dia lermos no jornal que o horóscopo diz para nos separarmos, deixemos essa coisa de zodíaco para os cavaleiros. Façamos nós mesmos o nosso próprio mapa astral. Leste, oeste, norte, sul, felicidade em qualquer ponto. Leste, oeste, norte, sul, amor em qualquer ponto. Glub, glub, glub, glub dois peixinhos nadando tranquilamente em qualquer ponto.

Desce o mapa astral e geográfico, vem logo pra perto.

Thursday, December 01, 2011

Desligando o aparelho da NET

Gato é um troço 8 ou 80. É ame ou odeie. Quando a Bruxa foi lá pra casa eu era bem pequeno, então não lembro de como era a minha vida antes dela. Sempre que alguém me visitava, era a mesma coisa: “Nossa, eu queria ter uma gata igual a essa”. Pois é. Todo mundo queria. A Bruxinha era a mesmo a melhor.

Só que aí lá por 2008 começaram a surgir uns caroços. No início eu não me preocupei, uma vez um cachorro meu tava com um desses e o veterinário disse que era só uma entorse no músculo (?), que era normal e nem doía. Achei que era a mesma coisa, visto que a Bruxa vivia em apartamento, mas tava sempre pulando de galho em galho. Ela vivia correndo pela sala, brincando com as coisas, mesmo tendo 17 anos e, por tudo isso, eu achava que era bom sinal. Bem, não era. Ao contrário de cachorro, que quanto tá doente fica na dele, dengoso e com o nariz quente, gato fica agitado quando sente dor. Que idiota, eu só me dei por conta que isso era um indício de problema depois de muito tempo.

Enfim, os caroços foram crescendo e aí então eu levei ela no veterinário. Incrivelmente ainda era cedo, não tinha rolado metástase e o lance era totalmente tratável. Fui tratando durante algum tempo. Depois de muitos medicamentos testados veio a primeira cirurgia. Levei a minha gatinha no cobertor predileto dela, olhei nos olhos azuis e disse “te vejo na volta, velhinha”, quase como uma pergunta pra mim mesmo. Vi. Fui lá buscar e ela estava com a barriga toda cortada, com o pelo raspado e com uma mama a menos. Mas sem merda nenhuma.

Como um amor maldito, a doença dela voltou depois de um tempo. O veterinário disse que isso aconteceria, mas eu fui tentando esquecer aos poucos e consegui fazê-lo. Bem maior, aquela droga de um dia para o outro já tava quase abrindo. Liguei pra clínica e corri pra lá. Metástase. Já tava atingindo outros órgãos. Voltei pra casa e xinguei a porra toda. Me isolei do mundo por um tempo, mas percebi que aquilo só tava fazendo mal pra Bruxinha e voltei pras minhas atividades. Marquei a segunda cirurgia e fiz questão de levar ela lá. A recepcionista já me conhecia e, óbvio, já tinha se apegado ao melhor animal doméstico do mundo. Pela primeira vez havia a possibilidade real dela não voltar pra casa. Não dormi pelos três dias que ela ficou longe e, quando o telefone enfim tocou, meu coração quase saltou pela boca. O veterinário queria ele mesmo falar comigo. Fiquei mais tenso ainda. Ela tinha sobrevivido e eu lá fui eu extremamente feliz buscar a minha gatinha. Sem mamas em um dos lados. Praticamente sem recheio. Tentei nem olhar porque eu sabia que ia doer pra caralho ver aquele bicho que lambia meu nariz antes de eu dormir naquele estado.

Teve uma vez que eu fui pro Uruguai passar o fim de semana e ela ficou sozinha no apartamento. A Bruxa sempre teve problemas com isso, uns cinco, seis anos antes a minha família resolveu alugar um apartamento na cidade pra reformar a casa do Laranjal, ela se irritou porque nunca tinha ninguém em casa e sumiu por uns dois meses. Enfim, nesse fim de semana que ela ficou em casa, tentou fazer o mesmo. Só que ela não só não era mais uma gata jovem, mas uma gata velha e doente. Não conseguiu pular o muro do prédio e caiu no pátio da casa ao lado. Passou sábado e domingo na chuva, doente e sem comida. Sobreviveu, óbvio, ela era a Bruxa.

Bem, com o tempo ficou tudo bem, ela voltou ao “normal”, dormia nas minhas costas no sofá e me pedia comida quando eu acordava de madrugada. Só que é óbvio que depois de um tempo voltou tudo. Aquela merda já tinha atingido o fígado e a cirurgia já tinha ultrapassado o 50/50 de chances. Minha família fez uma reunião. Em pauta, decidir se mandávamos a Bruxa para a cirurgia pra prolongar a vida dela, mesmo que a gata vivesse dali pra sempre com muita, muita dor, ou se sacrificávamos. Ninguém teve coragem suficiente pra segunda opção e lá fui eu com a Bruxinha e o cobertor predileto dela para a clínica. Já éramos de casa. Mesma função, a recepcionista me ligou, fui lá buscar o meu animal de borracha. Nem olhei pra ela no caminho. Quando cheguei em casa, vi um bicho que não era pele e osso. Era só pele. Ela não tinha forças pra miar, pra comer. Não tinha forçar pra subir a escada. A Bruxa não conseguia subir as escadas! Como eu ia me acostumar a ver a minha gatinha que pulava de prédio em prédio sem conseguir subir a droga de um degrau? Ela não conseguia nem deitar no meu peito porque as feridas do peito dela doíam quando ela tentava. Mas ela tentava.

Passou uns dois meses. Eu tava trabalhando na Vanguarda, mas odiava aquilo tudo. Certo dia eu cansei de fazer um trabalho que não me acrescentava em nada e ainda me deixava no sol a tarde toda e resolvi que na semana seguinte eu pediria demissão. Voltei feliz pra casa ouvindo “Here Comes the Sun”, do Harrison, pensando “tudo vai ficar bem a partir da semana que vem”. Cheguei em casa e tinha uma vela ali em cima do aparelho da NET, lugar preferido dela na casa. Minha irmã me deu a notícia e eu tranquei o choro. Subi pro meu quarto e fui jogar vídeo game. Levei 3x0. A minha mãe veio falar comigo e eu não dei nem bola. Não falei uma palavra, eu só queria jogar vídeo game, ficar sozinho e tentar não lembrar dos 18 anos que a Bruxa fez parte da minha vida. Quando foi todo mundo embora e eu finalmente fiquei alone em casa, chorei pra cacete. Chorei porque ali caiu a ficha. Chorei porque pela primeira vez em 18 anos – já falei que não lembro de como era antes – eu tava REALMENTE sozinho em casa.

E isso tudo foi escrito pra eu não ter que ficar explicando toda hora pra TODO MUNDO o porquê de eu não querer outro gato na minha casa. Não sei quanto tempo vai ser assim, mas ainda é. Tchau.

Tuesday, November 22, 2011

Bloco de Notas

olha, eu gosto tanto de você, mas tanto gosto de você, que resolvi escrever o quanto gosto de você no bloco de notas. é diferente escrever aqui porque, a medida que eu vou escrevendo aqui, as coisas vão sumindo ali do lado e quando esse texto terminar provavelmente eu já vou ter esquecido o que eu escrevi no início. que coisa estranha tudo numa linha única, como o bloco de notas deixa, imagina que chata seria a vida se ela fosse só uma linha e as coisas sumissem ali assim como acontece aqui no bloco de notas. eu gosto tanto de você, mas tanto gosto de você que periga eu lembrar da primeira vezinha que cê me curtiu no Facebook, eu lembro era de uma música que anunciava o fim do mundo, mas pra mim aquilo foi como sentir o gosto de uma coisa que eu nem imaginava que gosto teria.eu gosto tanto de você, mas tanto eu gosto de você que se você não me curtir mais no Facebook eu vou dizer que não fiquei triste porque a minha amiga disse que eu tenho que parecer fortão e não ligar pra essas coisas, mas eu quero te ligar agora e perguntar o porquê de você não me curtir mais.

Wednesday, November 02, 2011

Cuba Livre*

Esses dias eu li uma pesquisa onde era provado por A+B que ver uma mulher bonita é equivalente a usar algum tipo de droga. É um lance de a mesma área do cérebro ser estimulada e em mesma quantidade. Enquanto lia aquilo, eu pensava que ali estava a resposta do porquê de eu gostar tanto dessa moça. Não por aquele papo de eu ser viciado nela, não poder viver sem ela, essas coisas. Eu simplesmente me sinto extremamente feliz quando a vejo, faz muito bem pra essa tal área do meu cérebro quando ela passa com aquele ar de quem gosta de ir pra Cuba.

Desde que eu a vi em uma festa qualquer por essas bandas, procuro saber sempre onde ela está. Não por ser apaixonado por ela, querê-la para sempre, ter filhos, eu simplesmente gosto de estar no mesmo ambiente que ela, vê-la passar por onde estou e admirar a sua beleza descolada – sem forçar uma descolagem – por alguns segundos. Depois disso, eu vou embora e sigo a minha vida, sem que ela saiba quem eu sou. Ou pelo menos era assim.

Tem vezes em que o ser humano, talvez por instinto, faz umas coisas engraçadas. Mesmo sabendo que uma panela está – muito – quente, a gente toca. Se queima, óbvio, o universo não está nem aí para a nossa idiotice. Mas o que eu quero dizer é o seguinte: Tem vezes em que a gente sabe que algo vai dar errado, mas segue em frente, sei lá porque diabos. Foi exatamente o que eu fiz com essa moça. Eu estava parado no bar. Ela também. Eu estava bêbado. Ela eu não sei. Por uns dois minutos eu matutei se de fato deveria fazê-lo, mas o fiz, virei pro lado e falei com ela. Eu falei com ela, caro leitor! E por quê? Ela é até do meu tamanho, a gente nunca poderia ficar juntos. Mas falei, falou tá falado, então não tinha pra onde correr. Contei toda a história de eu admirá-la de longe e ela disse que até sabia quem eu era (!), mas que não me seguiu de volta no Twitter porque não me conhecia. Totalmente perdoada.

Após de fato conhecê-la, agora vivo um dilema parecido com aquele que antecede o vício em drogas. Não sei se experimento ou se permaneço com a minha vida inalterada. Até o momento, eu tive contato apenas com aquilo que é bom nessa moça, mas, infelizmente, quando o mundo foi criado e, após algum tempo, as relações humanas, não houve uma mutação que fizesse a gente saber a hora de parar. Algo que dissesse “não, Leon, agora tu foste longe demais. Volta”. Se essa mutação tivesse ocorrido, eu viveria feliz com as coisas boas que sei sobre essa garota e usuários de drogas não se viciariam nestas. Ainda há tempo para correções.

Agora eu estou aqui, escrevendo essa palavra e mudando os meus objetivos para com essa moça que vem só nos fins de semana para Pelotas. Eu vou achá-la linda três dias por semana e no restante ficar esperando ela voltar para dar descanso ao coração. Por que o que sinto por essa moça é como a cor do cabelo dela: Não é algo definido, mas é bonito. Não é isso que importa?


* Esse texto faz parte do Livro Ainda sem Nome. Não esperem mais spoilers das coisas inéditas presentes nele.

Monday, October 31, 2011

Oxigênio

é um troço subjetivo. a necessidade que as pessoas têm pra viver varia de uma para outra. tem gente que ostenta: trabalho é o meu oxigênio. poeta pega e diz: tristeza é o que eu preciso. românticos consideram o sorriso, o corpo, enfim, a beleza da pessoa amada. com medo algum de parecer simplório, eu digo que o oxigênio é o meu oxigênio. não há nada que me faça sentir mais vivo do que respirar fundo ao pensar em alguém, ou não conseguir puxar o ar por estar cansado no meio de um jogo de futebol no domingo. é nesse momento que a alma conversa com o corpo. deve ser por isso que não há vida no espaço.

Saturday, October 22, 2011

Copa

Ana, eu te amo mais do que eu amava Nesquik quando eu tinha 19 anos. Eu te amo mais do que o momento em que a água gelada da praia de Copacabana toca de surpresa nos meus pés enquanto ando.

Amar-te, Ana, é como viver pra sempre esperando tu passares por mim na rua para sentir o teu perfume.

Thursday, September 08, 2011

100




Um texto sobre o centenário do Brasil de Pelotas tem de ser simples, assim como a sua gente. Porém, um texto sobre o centenário do Brasil de Pelotas tem de ser grandioso, assim como a sua gente.
A primeira lembrança que tenho do Xavante é a de meu pai, revoltado com um resultado negativo, passando com o carro por cima da camisa do clube. A segunda, dele arrependido por não ter uma a sua camisa predileta para comemorar uma vitória. Essa é a diferença do torcedor deste time: Ao contrário dos demais, que sustentam em seus pavilhões o fato de apoiarem os seus clubes incondicionalmente, a gente se irrita, sim. A gente desacredita. Mas volta. Um texto sobre centenário do Brasil de Pelotas, além de simples e grandioso, tem de ser confuso, não pode ter ordem. Porque somos filhos da várzea, não temos uma torcida toda organizada. O torcedor do Xavante não carece de papéis picados, guarda-chuvas, barras, nada dessas coisas. Ele faz de si mesmo a sua festa, cada um cantando e apoiando como quer. Há uma linha tênue entre ser simples e ser simplório. O torcedor do Brasil de Pelotas usa chinelos e os descalça.
E eu vou terminando por aqui, vou lá ajudar a fazer o dia mais perfeito para o meu Xavante. Porque o Brasil de Pelotas é o Oswald de Andrade do futebol. Desorganizado, arteiro, independente. Mas com uma pitada de perfeccionismo.

Tuesday, August 02, 2011

O Livro Ainda Sem Nome

http://olivroaindasemnome.blogspot.com/

Saturday, April 30, 2011

"Quando colegial, como eu gostava do cheiro úmido das raízes dos vegetais! Porém, ao lado desse mundo natural, queriam fazer-me acreditar no mundo seco das raízes quadradas, que para mim tinham algo de incompreensíveis signos de linguagem marciana. Mas a tortura máxima eram as raízes cúbicas. Felizmente agora os robôs tomaram conta disso e de outras coisas parecidas com eles... Felizmente não mais existe o meu velho professor de matemática. Senão ele morreria aos poucos de raiva e frustração por se ver sobrepujado, por me ver continuando a fazer coisas aparentemente insólitas porque não constam de currículos e compêndios, porque agora, meu caro professor, agora o marciano sou eu mesmo.".

Quintana

Friday, April 08, 2011

Manifesto em prol dos docinhos

“És o momento amarelo em que o outono sobe pelas trepadeiras e és ainda o pão que a lua fragrante elabora passeando sua farinha pelo céu”. Foi o Neruda quem escreveu isto. Lindo, né? Pois bem, é por essa causa que eu estou aqui hoje. Talvez não tão recente quanto a palavra “ultimamente” se tornaria exata, escrever sobre amor tem se tornado sinônimo de uma escrita clichê ou até – vejam só, criaram até expressão para tanto – piegas.
Nego escreve uma poesia, uma crônica ou uma historinha expressando seus sentimentos e lá vêm os chatos tascarem um carimbo “texto de corno” ou “texto de quem não come ninguém”. Voltando ao Neruda, ele escreveu um livro chamado Cem Sonetos de Amor, no qual os versos citados acima – e mais uma centena de outras pérolas que devem ser lidas - estão presentes. Neruda pegava todo mundo. Talvez mais do que o Paulo Coelho. Com certeza bem mais do que o Augusto Cury.
Escrever sobre amor não quer dizer nem que alguém faça pouco sucesso com as mulheres, nem que faça mais, simplesmente quer dizer que o cara gosta de falar o que acha irresistível em uma mulher. Não há nenhum crime nisso, é bem aquele lance de “eu podia estar matando, roubando, mas to aqui escrevendo umas coisas pra ver se deixo alguém feliz”.
Não é meu objetivo nesse texto fazer com que todos comecem a escrever sobre amor e nem que aqueles porventura escritores de outros gêneros passem para o meu lado da força. Longe disso, cada macaco no seu galho, escrever tem que dar prazer e este só vem quando a gente escreve sobre algo que se sente em casa para falar. O fato é que eu me sinto em casa para falar de amor, fazer o quê? Eu gosto de escrever para alguém e ficar imaginando esse alguém sorrindo branco lendo alguma coisa que o meu coração sorriu pensando nela. É como se fosse uma transmissão de pensamentos, trocando os pensamentos pelos sorrisos.
Para vocês, que julgam aqueles que, como eu, gostam de falar dos seus sentimentos em forma de letras, meu conselho é que sejam mais leves. A leveza é uma forma raríssima e extremamente preciosa de inteligência, dêem uma chance para ela. Àqueles que se sentiram homenageados ou defendidos nesse texto, peço-lhes que continuem. O mundo é mais bonito conosco.
Escrever sobre amor é como entrar na mente da pessoa amada e colocar uma balinha de goma lá dentro. Todo mundo ama balinha de goma.

Thursday, March 24, 2011

Da existência

Esse texto serve também para os torcedores do E.C. Pelotas.

Lembrei-me hoje de um professor do ensino médio. O cara simplesmente não conseguia aceitar o fato de que, em pleno mundo globalizado do século XXI, boa parte da população pelotense fosse torcedora do Brasil de Pelotas. Segundo ele, não havia sentido torcer por um time que, ano após ano, década após década, continuava na mesma situação: Lutava para não cair da série A do Campeonato Gaúcho e, quando enfim caía, começava então a digladiar para voltar à condição anterior, assim, formando um ciclo sem fim.

Na hora não me ocorreu, pois eu estava realmente impressionado com o besteirol que havia sido cuspido, mas agora, revendo a situação, me lembrei de que o tal professor era fumante – e daqueles ferrenhos. Assim como todas as outras pessoas portadoras desse vício, o tal sabia de todos os males que o cigarro poderia trazer à sua saúde. Sabia das chances maiores de um câncer e sabia até que suas mãos fediam. Mas, assim como todas as outras pessoas portadoras desse vício, ele continuava fumando. E por quê? Simples. Mesmo motivo pelo qual eu sou apaixonado pelo Brasil de Pelotas. O cigarro, independente de todos os defeitos, trazia algo de bom, de prazeroso para ele.

O mundo não é perfeito e as pessoas também não são. Se fossem, o Barcelona seria o time com a maior torcida do planeta, ganhando com folga do Flamengo. O clube espanhol ganha todos os títulos, tem os melhores jogadores e passa longe de segundas divisões dos campeonatos que disputa. Porém, para a alegria das agremiações menores e para a graça maior do mundo em que vivemos, a paixão de um torcedor pelo seu clube não está nos feitos e nos canecos conquistados por este. Está no seu vício. E o vício é o primo da paixão que, assim como seu querido parente, não tem e não precisa de explicações maiores para a sua existência. Simplesmente existe. Assim como todos nós.

A propósito, o meu professor torcia para o Palmeiras.