Monday, February 20, 2012

Cílios

O mundo, infelizmente, é um troço muito grande. E, para o enriquecimento das ironias do universo, quando um cílio, infinitamente menor do que a Terra, cai em um olho, Deus do céu, o ser humano não consegue ficar quieto – no seu canto. Eu, que tenho olhos grandes, já sofri com muitos cílios-sorrisos. Com muitos cílios-corpos. Cílios-olhos. Coça daqui, assopra dali, pede ajuda pra qualquer estranho que aparece pela frente, mas, mesmo que o assopro funcione, mesmo que cavoucar o globo ocular traga bons resultados, o olho ainda dói. E dói mais do que a coceira causada pelo cílio rebelde. Mas incomoda menos.

Wednesday, February 08, 2012

Verão

cara, como eu amo o verão. depois de toda a função de correr pra organizar tudo, correr pra comprar passagem e correr pra pegar o ônibus, eu finalmente estou sentado na poltrona do Embaixador Pelotas-Cassino.

de repente adentra o carro aquilo que melhor traduz essa estação: uma morena com vestidinho largo e lilás. ah, quando uma morena de vestidinho largo e lilás adentra um ônibus que ruma à praia, olha, eu esqueço do suor, do mosquito, da dificuldade de dormir, da preguiça e até da dor de cabeça. até do calor periga eu esquecer. quando uma morena de vestidinho largo e lilás adentra um ônibus que ruma à praia, olha, eu só quero que alguma força sobrenatural faça com que ela deite comigo numa rede amarela e fique para-lá-para-cá ouvindo Novos Baianos. eu até aprendo a sambar mais direitinho, se uma moça dessas me pedir. essa moça de vestidinho largo e lilás, que eu nem conheço, pode me pedir pra comprar milho que eu compro. pode me pedir pra descascar inteirinho no sol que eu descasco. pode me pedir para surfar que eu... bem, eu aprendo. tudo isso porque ela é esse ventinho refrescante que chega de repente e transforma o verão por segundos.

agora eu desci do ônibus, ela também e eu vou seguí-la para descobrir onde está veraniando essa moça. será que ela está mais perto da praia ou da avenida? da Iemanjá ou do Navio? Mais tarde vou caminhar pela praia procurando por ela e pelas outras morenas de vestidinho largo e lilás.

Wednesday, January 11, 2012

Cais

À primeira vez em que fui ao Rio de Janeiro, decidi: A carioca é a mulher que eu quero ter e que eu quero que me tenha. Não é... Talvez seja pela tal graça que os poetas dizem que elas têm, mas prefiro dizer que é pela leveza que elas vestem. É como se a água gelada das praias de lá servisse como um ritual que separa as meninas das mulheres e só a carioca, por conviver com aquele gelo todo, fosse mulher de verdade.

A mulher do Rio quando fala Vasco, cais do porto, ou simplesmente cais, ou simplesmente porto, ou simplesmente Rio é como uma cuíca: É um lance que tu não descansas até entender como funciona, mas a cuíca, quando desvendada, é apenas um esfrega-esfrega danado que faz um barulhinho bacana. As cariocas são um esfrega-esfrega danado que faz um barulhinho bacana também, mas eu nunca me atrevo a dizer que elas são "apenas" algo.
Elas são sempre o algo incrementado.

Tuesday, January 03, 2012

Horóscopo

Morena dos olhos azuis azuis, saibas que eu não acredito em horóscopo. Acho uma besteira a gente viver nossas vidas de acordo com a posição de umas coisas, mas, depois que descobri que somos nós dois do mesmo signo, olha, eu não consigo ficar um dia sem ler aquelas baboseiras que escrevem nos jornais.

Nessa semana teremos influências da Lua crescente no signo de Áries e Mercúrio em quadratura com Marte, ambos trazendo impulsividade e muita agitação nas comunicações e eu não tenho ideia de o que isso significa, mas acho que quer dizer que ficaremos juntos para sempre. Se bem que numa dessas imagens que compartilham no Facebook diz que Peixes com Peixes não dá certo, porque é um signo muito intimista e bláblá. Ora, quem eles pensam que são para darem uma definição na lata dessas? Eu acho que nós dois, um do lado do outro, daria certo e, se tu achares também, pode haver um milhão de compartilhamentos que nenhuma imagem de rede social vai nos separar. Tu achas? Voltemos às previsões para a semana. Diz aqui que na sexta possivelmente haverá indisposições entre as pessoas e clima de individualismo nos grupos de trabalho. Bem, eu estou de férias, então toma cuidado por aí! Deixa eu ver aqui... Ah! Sábado terá Mercúrio em sextil com Saturno e Netuno e parece que isso, aliado a aspectos da lua no signo de Gêmeos, significa que o fim de semana será bom para encontros amorosos. Uma pena não estarmos perto!

Mas olha, morena dos olhos azuis azuis, se por acaso algum dia lermos no jornal que o horóscopo diz para nos separarmos, deixemos essa coisa de zodíaco para os cavaleiros. Façamos nós mesmos o nosso próprio mapa astral. Leste, oeste, norte, sul, felicidade em qualquer ponto. Leste, oeste, norte, sul, amor em qualquer ponto. Glub, glub, glub, glub dois peixinhos nadando tranquilamente em qualquer ponto.

Desce o mapa astral e geográfico, vem logo pra perto.

Thursday, December 01, 2011

Desligando o aparelho da NET

Gato é um troço 8 ou 80. É ame ou odeie. Quando a Bruxa foi lá pra casa eu era bem pequeno, então não lembro de como era a minha vida antes dela. Sempre que alguém me visitava, era a mesma coisa: “Nossa, eu queria ter uma gata igual a essa”. Pois é. Todo mundo queria. A Bruxinha era a mesmo a melhor.

Só que aí lá por 2008 começaram a surgir uns caroços. No início eu não me preocupei, uma vez um cachorro meu tava com um desses e o veterinário disse que era só uma entorse no músculo (?), que era normal e nem doía. Achei que era a mesma coisa, visto que a Bruxa vivia em apartamento, mas tava sempre pulando de galho em galho. Ela vivia correndo pela sala, brincando com as coisas, mesmo tendo 17 anos e, por tudo isso, eu achava que era bom sinal. Bem, não era. Ao contrário de cachorro, que quanto tá doente fica na dele, dengoso e com o nariz quente, gato fica agitado quando sente dor. Que idiota, eu só me dei por conta que isso era um indício de problema depois de muito tempo.

Enfim, os caroços foram crescendo e aí então eu levei ela no veterinário. Incrivelmente ainda era cedo, não tinha rolado metástase e o lance era totalmente tratável. Fui tratando durante algum tempo. Depois de muitos medicamentos testados veio a primeira cirurgia. Levei a minha gatinha no cobertor predileto dela, olhei nos olhos azuis e disse “te vejo na volta, velhinha”, quase como uma pergunta pra mim mesmo. Vi. Fui lá buscar e ela estava com a barriga toda cortada, com o pelo raspado e com uma mama a menos. Mas sem merda nenhuma.

Como um amor maldito, a doença dela voltou depois de um tempo. O veterinário disse que isso aconteceria, mas eu fui tentando esquecer aos poucos e consegui fazê-lo. Bem maior, aquela droga de um dia para o outro já tava quase abrindo. Liguei pra clínica e corri pra lá. Metástase. Já tava atingindo outros órgãos. Voltei pra casa e xinguei a porra toda. Me isolei do mundo por um tempo, mas percebi que aquilo só tava fazendo mal pra Bruxinha e voltei pras minhas atividades. Marquei a segunda cirurgia e fiz questão de levar ela lá. A recepcionista já me conhecia e, óbvio, já tinha se apegado ao melhor animal doméstico do mundo. Pela primeira vez havia a possibilidade real dela não voltar pra casa. Não dormi pelos três dias que ela ficou longe e, quando o telefone enfim tocou, meu coração quase saltou pela boca. O veterinário queria ele mesmo falar comigo. Fiquei mais tenso ainda. Ela tinha sobrevivido e eu lá fui eu extremamente feliz buscar a minha gatinha. Sem mamas em um dos lados. Praticamente sem recheio. Tentei nem olhar porque eu sabia que ia doer pra caralho ver aquele bicho que lambia meu nariz antes de eu dormir naquele estado.

Teve uma vez que eu fui pro Uruguai passar o fim de semana e ela ficou sozinha no apartamento. A Bruxa sempre teve problemas com isso, uns cinco, seis anos antes a minha família resolveu alugar um apartamento na cidade pra reformar a casa do Laranjal, ela se irritou porque nunca tinha ninguém em casa e sumiu por uns dois meses. Enfim, nesse fim de semana que ela ficou em casa, tentou fazer o mesmo. Só que ela não só não era mais uma gata jovem, mas uma gata velha e doente. Não conseguiu pular o muro do prédio e caiu no pátio da casa ao lado. Passou sábado e domingo na chuva, doente e sem comida. Sobreviveu, óbvio, ela era a Bruxa.

Bem, com o tempo ficou tudo bem, ela voltou ao “normal”, dormia nas minhas costas no sofá e me pedia comida quando eu acordava de madrugada. Só que é óbvio que depois de um tempo voltou tudo. Aquela merda já tinha atingido o fígado e a cirurgia já tinha ultrapassado o 50/50 de chances. Minha família fez uma reunião. Em pauta, decidir se mandávamos a Bruxa para a cirurgia pra prolongar a vida dela, mesmo que a gata vivesse dali pra sempre com muita, muita dor, ou se sacrificávamos. Ninguém teve coragem suficiente pra segunda opção e lá fui eu com a Bruxinha e o cobertor predileto dela para a clínica. Já éramos de casa. Mesma função, a recepcionista me ligou, fui lá buscar o meu animal de borracha. Nem olhei pra ela no caminho. Quando cheguei em casa, vi um bicho que não era pele e osso. Era só pele. Ela não tinha forças pra miar, pra comer. Não tinha forçar pra subir a escada. A Bruxa não conseguia subir as escadas! Como eu ia me acostumar a ver a minha gatinha que pulava de prédio em prédio sem conseguir subir a droga de um degrau? Ela não conseguia nem deitar no meu peito porque as feridas do peito dela doíam quando ela tentava. Mas ela tentava.

Passou uns dois meses. Eu tava trabalhando na Vanguarda, mas odiava aquilo tudo. Certo dia eu cansei de fazer um trabalho que não me acrescentava em nada e ainda me deixava no sol a tarde toda e resolvi que na semana seguinte eu pediria demissão. Voltei feliz pra casa ouvindo “Here Comes the Sun”, do Harrison, pensando “tudo vai ficar bem a partir da semana que vem”. Cheguei em casa e tinha uma vela ali em cima do aparelho da NET, lugar preferido dela na casa. Minha irmã me deu a notícia e eu tranquei o choro. Subi pro meu quarto e fui jogar vídeo game. Levei 3x0. A minha mãe veio falar comigo e eu não dei nem bola. Não falei uma palavra, eu só queria jogar vídeo game, ficar sozinho e tentar não lembrar dos 18 anos que a Bruxa fez parte da minha vida. Quando foi todo mundo embora e eu finalmente fiquei alone em casa, chorei pra cacete. Chorei porque ali caiu a ficha. Chorei porque pela primeira vez em 18 anos – já falei que não lembro de como era antes – eu tava REALMENTE sozinho em casa.

E isso tudo foi escrito pra eu não ter que ficar explicando toda hora pra TODO MUNDO o porquê de eu não querer outro gato na minha casa. Não sei quanto tempo vai ser assim, mas ainda é. Tchau.

Tuesday, November 22, 2011

Bloco de Notas

olha, eu gosto tanto de você, mas tanto gosto de você, que resolvi escrever o quanto gosto de você no bloco de notas. é diferente escrever aqui porque, a medida que eu vou escrevendo aqui, as coisas vão sumindo ali do lado e quando esse texto terminar provavelmente eu já vou ter esquecido o que eu escrevi no início. que coisa estranha tudo numa linha única, como o bloco de notas deixa, imagina que chata seria a vida se ela fosse só uma linha e as coisas sumissem ali assim como acontece aqui no bloco de notas. eu gosto tanto de você, mas tanto gosto de você que periga eu lembrar da primeira vezinha que cê me curtiu no Facebook, eu lembro era de uma música que anunciava o fim do mundo, mas pra mim aquilo foi como sentir o gosto de uma coisa que eu nem imaginava que gosto teria.eu gosto tanto de você, mas tanto eu gosto de você que se você não me curtir mais no Facebook eu vou dizer que não fiquei triste porque a minha amiga disse que eu tenho que parecer fortão e não ligar pra essas coisas, mas eu quero te ligar agora e perguntar o porquê de você não me curtir mais.

Wednesday, November 02, 2011

Cuba Livre*

Esses dias eu li uma pesquisa onde era provado por A+B que ver uma mulher bonita é equivalente a usar algum tipo de droga. É um lance de a mesma área do cérebro ser estimulada e em mesma quantidade. Enquanto lia aquilo, eu pensava que ali estava a resposta do porquê de eu gostar tanto dessa moça. Não por aquele papo de eu ser viciado nela, não poder viver sem ela, essas coisas. Eu simplesmente me sinto extremamente feliz quando a vejo, faz muito bem pra essa tal área do meu cérebro quando ela passa com aquele ar de quem gosta de ir pra Cuba.

Desde que eu a vi em uma festa qualquer por essas bandas, procuro saber sempre onde ela está. Não por ser apaixonado por ela, querê-la para sempre, ter filhos, eu simplesmente gosto de estar no mesmo ambiente que ela, vê-la passar por onde estou e admirar a sua beleza descolada – sem forçar uma descolagem – por alguns segundos. Depois disso, eu vou embora e sigo a minha vida, sem que ela saiba quem eu sou. Ou pelo menos era assim.

Tem vezes em que o ser humano, talvez por instinto, faz umas coisas engraçadas. Mesmo sabendo que uma panela está – muito – quente, a gente toca. Se queima, óbvio, o universo não está nem aí para a nossa idiotice. Mas o que eu quero dizer é o seguinte: Tem vezes em que a gente sabe que algo vai dar errado, mas segue em frente, sei lá porque diabos. Foi exatamente o que eu fiz com essa moça. Eu estava parado no bar. Ela também. Eu estava bêbado. Ela eu não sei. Por uns dois minutos eu matutei se de fato deveria fazê-lo, mas o fiz, virei pro lado e falei com ela. Eu falei com ela, caro leitor! E por quê? Ela é até do meu tamanho, a gente nunca poderia ficar juntos. Mas falei, falou tá falado, então não tinha pra onde correr. Contei toda a história de eu admirá-la de longe e ela disse que até sabia quem eu era (!), mas que não me seguiu de volta no Twitter porque não me conhecia. Totalmente perdoada.

Após de fato conhecê-la, agora vivo um dilema parecido com aquele que antecede o vício em drogas. Não sei se experimento ou se permaneço com a minha vida inalterada. Até o momento, eu tive contato apenas com aquilo que é bom nessa moça, mas, infelizmente, quando o mundo foi criado e, após algum tempo, as relações humanas, não houve uma mutação que fizesse a gente saber a hora de parar. Algo que dissesse “não, Leon, agora tu foste longe demais. Volta”. Se essa mutação tivesse ocorrido, eu viveria feliz com as coisas boas que sei sobre essa garota e usuários de drogas não se viciariam nestas. Ainda há tempo para correções.

Agora eu estou aqui, escrevendo essa palavra e mudando os meus objetivos para com essa moça que vem só nos fins de semana para Pelotas. Eu vou achá-la linda três dias por semana e no restante ficar esperando ela voltar para dar descanso ao coração. Por que o que sinto por essa moça é como a cor do cabelo dela: Não é algo definido, mas é bonito. Não é isso que importa?


* Esse texto faz parte do Livro Ainda sem Nome. Não esperem mais spoilers das coisas inéditas presentes nele.

Monday, October 31, 2011

Oxigênio

é um troço subjetivo. a necessidade que as pessoas têm pra viver varia de uma para outra. tem gente que ostenta: trabalho é o meu oxigênio. poeta pega e diz: tristeza é o que eu preciso. românticos consideram o sorriso, o corpo, enfim, a beleza da pessoa amada. com medo algum de parecer simplório, eu digo que o oxigênio é o meu oxigênio. não há nada que me faça sentir mais vivo do que respirar fundo ao pensar em alguém, ou não conseguir puxar o ar por estar cansado no meio de um jogo de futebol no domingo. é nesse momento que a alma conversa com o corpo. deve ser por isso que não há vida no espaço.

Saturday, October 22, 2011

Copa

Ana, eu te amo mais do que eu amava Nesquik quando eu tinha 19 anos. Eu te amo mais do que o momento em que a água gelada da praia de Copacabana toca de surpresa nos meus pés enquanto ando.

Amar-te, Ana, é como viver pra sempre esperando tu passares por mim na rua para sentir o teu perfume.

Thursday, September 08, 2011

100




Um texto sobre o centenário do Brasil de Pelotas tem de ser simples, assim como a sua gente. Porém, um texto sobre o centenário do Brasil de Pelotas tem de ser grandioso, assim como a sua gente.

A primeira lembrança que tenho do Xavante é a de meu pai, revoltado com um resultado negativo, passando com o carro por cima da camisa do clube. A segunda, dele arrependido por não ter uma a sua camisa predileta para comemorar uma vitória. Essa é a diferença do torcedor deste time: Ao contrário dos demais, que sustentam em seus pavilhões o fato de apoiarem os seus clubes incondicionalmente, a gente se irrita, sim. A gente desacredita. A gente é humano. Mas voltamos. Um texto sobre centenário do Brasil de Pelotas, além de simples e grandioso, tem de ser confuso, não pode ter ordem. Porque somos filhos da várzea, não temos uma torcida toda organizada. O torcedor do Xavante não carece de papéis picados, guarda-chuvas, barras, nada dessas coisas. Ele faz de si mesmo a sua festa, cada um cantando e apoiando como quer. Há uma linha tênue entre ser simples e ser simplório. O torcedor do Brasil de Pelotas usa chinelos e os descalça.

E eu vou terminando por aqui, vou lá ajudar a fazer o dia mais perfeito para o meu Xavante. Porque o Brasil de Pelotas é o Oswald de Andrade do futebol. Desorganizado, arteiro, independente. Mas com uma pitada de perfeccionismo.

Tuesday, August 02, 2011

O Livro Ainda Sem Nome

http://olivroaindasemnome.blogspot.com/

Saturday, April 30, 2011

"Quando colegial, como eu gostava do cheiro úmido das raízes dos vegetais! Porém, ao lado desse mundo natural, queriam fazer-me acreditar no mundo seco das raízes quadradas, que para mim tinham algo de incompreensíveis signos de linguagem marciana. Mas a tortura máxima eram as raízes cúbicas. Felizmente agora os robôs tomaram conta disso e de outras coisas parecidas com eles... Felizmente não mais existe o meu velho professor de matemática. Senão ele morreria aos poucos de raiva e frustração por se ver sobrepujado, por me ver continuando a fazer coisas aparentemente insólitas porque não constam de currículos e compêndios, porque agora, meu caro professor, agora o marciano sou eu mesmo.".

Quintana

Friday, April 08, 2011

Manifesto em prol dos docinhos

“És o momento amarelo em que o outono sobe pelas trepadeiras e és ainda o pão que a lua fragrante elabora passeando sua farinha pelo céu”. Foi o Neruda quem escreveu isto. Lindo, né? Pois bem, é por essa causa que eu estou aqui hoje. Talvez não tão recente quanto a palavra “ultimamente” se tornaria exata, escrever sobre amor tem se tornado sinônimo de uma escrita clichê ou até – vejam só, criaram até expressão para tanto – piegas.
Nego escreve uma poesia, uma crônica ou uma historinha expressando seus sentimentos e lá vêm os chatos tascarem um carimbo “texto de corno” ou “texto de quem não come ninguém”. Voltando ao Neruda, ele escreveu um livro chamado Cem Sonetos de Amor, no qual os versos citados acima – e mais uma centena de outras pérolas que devem ser lidas - estão presentes. Neruda pegava todo mundo. Talvez mais do que o Paulo Coelho. Com certeza bem mais do que o Augusto Cury.
Escrever sobre amor não quer dizer nem que alguém faça pouco sucesso com as mulheres, nem que faça mais, simplesmente quer dizer que o cara gosta de falar o que acha irresistível em uma mulher. Não há nenhum crime nisso, é bem aquele lance de “eu podia estar matando, roubando, mas to aqui escrevendo umas coisas pra ver se deixo alguém feliz”.
Não é meu objetivo nesse texto fazer com que todos comecem a escrever sobre amor e nem que aqueles porventura escritores de outros gêneros passem para o meu lado da força. Longe disso, cada macaco no seu galho, escrever tem que dar prazer e este só vem quando a gente escreve sobre algo que se sente em casa para falar. O fato é que eu me sinto em casa para falar de amor, fazer o quê? Eu gosto de escrever para alguém e ficar imaginando esse alguém sorrindo branco lendo alguma coisa que o meu coração sorriu pensando nela. É como se fosse uma transmissão de pensamentos, trocando os pensamentos pelos sorrisos.
Para vocês, que julgam aqueles que, como eu, gostam de falar dos seus sentimentos em forma de letras, meu conselho é que sejam mais leves. A leveza é uma forma raríssima e extremamente preciosa de inteligência, dêem uma chance para ela. Àqueles que se sentiram homenageados ou defendidos nesse texto, peço-lhes que continuem. O mundo é mais bonito conosco.
Escrever sobre amor é como entrar na mente da pessoa amada e colocar uma balinha de goma lá dentro. Todo mundo ama balinha de goma.

Thursday, March 24, 2011

Da existência

Esse texto serve também para os torcedores do E.C. Pelotas.

Lembrei-me hoje de um professor do ensino médio. O cara simplesmente não conseguia aceitar o fato de que, em pleno mundo globalizado do século XXI, boa parte da população pelotense fosse torcedora do Brasil de Pelotas. Segundo ele, não havia sentido torcer por um time que, ano após ano, década após década, continuava na mesma situação: Lutava para não cair da série A do Campeonato Gaúcho e, quando enfim caía, começava então a digladiar para voltar à condição anterior, assim, formando um ciclo sem fim.

Na hora não me ocorreu, pois eu estava realmente impressionado com o besteirol que havia sido cuspido, mas agora, revendo a situação, me lembrei de que o tal professor era fumante – e daqueles ferrenhos. Assim como todas as outras pessoas portadoras desse vício, o tal sabia de todos os males que o cigarro poderia trazer à sua saúde. Sabia das chances maiores de um câncer e sabia até que suas mãos fediam. Mas, assim como todas as outras pessoas portadoras desse vício, ele continuava fumando. E por quê? Simples. Mesmo motivo pelo qual eu sou apaixonado pelo Brasil de Pelotas. O cigarro, independente de todos os defeitos, trazia algo de bom, de prazeroso para ele.

O mundo não é perfeito e as pessoas também não são. Se fossem, o Barcelona seria o time com a maior torcida do planeta, ganhando com folga do Flamengo. O clube espanhol ganha todos os títulos, tem os melhores jogadores e passa longe de segundas divisões dos campeonatos que disputa. Porém, para a alegria das agremiações menores e para a graça maior do mundo em que vivemos, a paixão de um torcedor pelo seu clube não está nos feitos e nos canecos conquistados por este. Está no seu vício. E o vício é o primo da paixão que, assim como seu querido parente, não tem e não precisa de explicações maiores para a sua existência. Simplesmente existe. Assim como todos nós.

A propósito, o meu professor torcia para o Palmeiras.

Sunday, February 13, 2011

Ô, companheira

Os teus olhos falam. Gritam. Chamam-me. “Vem, Carlos, vem beijar-nos para fecharmos felizes e descansados”, dizem. E, como se expressassem palavras mágicas, me hipnotizam e é um crime inafiançável quando deixas teu cabelo negro por cima de um deles, querendo que as outras mulheres do mundo tenham alguma chance. Mas elas não têm. A graça toda é tua e ela, assim como eu, não é de mais ninguém. Sendo só teu, não tenho escolha quando me olhas irresistivelmente como um cachorro labrador pidão, que dá a pata e coloca a cabeça entre nossos braços pedindo carinho. Vendo teus olhos assim, nada mais posso fazer do que massagear teu cabelo, ver teus lábios sorrirem docemente até o momento em que deitas em meu colo e, mesmo após teus olhos fechados, sigo te fazendo carinho, porque já não é para te fazer feliz que o faço. É por mim. Enquanto uns alcançam o paraíso com morfina, eu, mero mortal, ando em nuvens quando passo levemente minha mão em tua face lisa. Tão benevolente és que a ONU em breve chegará a tua casa e pedirá para doares teu olhar a fim de ser utilizado como apaziguador de conflitos éticos. Sempre que Israel resolver atacar a Palestina, chamar-te-ão para, com esse olhar irresistível de cão labrador querendo carinho, pedires que parem com essa bobagem de briga. É o amor, é o amor.


P.S.: Texto mais doce que doce de batata doce

Sunday, December 12, 2010

Da loirinha que não gosta de mim

Olha só, menina que não gosta de mim, tu estás fazendo tudo errado. E sabes por quê? Esse ar de “não gosto de muitas pessoas” é só um escudo fracote e que eu vou ter o maior orgulho de furar com a minha espada medieval banhada em simpatia. Eu sei que a tua luta é grande, mas essa tua pele branca e os olhos puxadinhos não te deixam fingir. Podes até abdicar dos óculos às vezes, mas uma vez míope charmosa, pra sempre míope charmosa. Esse teu cabelo loirinho até te dá um ar de patricinha chata, mas eu acho que tu és uma florzinha e eu quero te dar apelidos como se eu fosse o Vinicius e tu a minha dona do Nounouse, que é pra falares pra ele os motivos por não gostar de mim, aí depois ele me contar tudo pra eu melhorar e te impressionar. E essa história não é aquele clichê de frase de MSN “tudo o que eu quero, eu consigo”. Não, eu até mesmo não consigo muita coisa, mas tu és tão chatinha que eu tenho que fazer-te esse favor de juntar teus pés aos meus.

Quanto mais te esquivares de mim, mais perto eu vou querer ficar. E eu sou chato pra cacete.

Sunday, December 05, 2010

Insensato conselho

Baseado na obra de Almir Guineto


Óh, insensato destino, pra que tanta desilusão no meu viver? Eu quero apenas ser feliz ao menos uma vez e conseguir o acalanto da paixão. Fui desprezado e magoado por alguém que abordou meu coração. Fui desprezado e magoado por alguém que abordou meu coração! Destino, porque fazes assim? Tenha pena de mim. Veja bem; não mereço sofrer. Quero apenas um dia poder viver num mar de felicidade.

Com alguém que me ame de verdade.

Deixe de lado esse baixo astral! Erga a cabeça, enfrente o mal que agindo assim será vital para o seu coração. É que em cada experiência se aprende uma lição. Eu já sofri por amar assim: Me dediquei, mas foi tudo em vão. Pra que se lamentar? Se em sua vida pode encontrar quem te ame com toda força e ardor. Assim, sucumbirá a dor. Tem que lutar, não se abater. Só se entregar a quem te merecer. Não estou dando nem vendendo. É como o ditado diz: O meu conselho é pra te ver feliz.

Thursday, November 25, 2010

Something

Olha, eu não quero parecer um exibido, mas, se de fato há muita beleza na tristeza de um apaixonado, eu contribuí um bocado para um mundo com mais passarinhos verdes cantando nesses últimos meses. Sofri, rasguei, corri atrás e, se alguém, depois disso tudo, ousar me chamar de fraco, certamente passou por essa vida e não viveu. Pode até ser mais, mas sabe menos do que eu.

Fui achando que o amor era uma ciência exata e todos esses clichês que vocês vão pensar agora e eu não vou escrever aqui somente pra fazer volume. Eu sabia que estava errado. Mas continuava. Porque, leitores, assim como ela provavelmente não soube como parou de pensar em mim, eu também não sabia como parar de pensar nela. Me atirei assim de trampolim e fui até o fim, um amador. Em todos os sentidos. E agora espero por um novo tempo, de ter uma pedra no meu peito, exigir respeito e não ser mais um sonhador. Talvez, daqui um tempo, eu mude de calçada pra agarrar uma flor. Por enquanto, só quero me embriagar pelas calçadas mesmo sem ter quem venha logo me curar quando chegar de porre da boemia. E, se já não sinto os teus sinais, a vida vai ter de se acostumar com a tua ausência. Porque o meu lutador de Street Fighter ficou com só dois de vida e eu preciso dormir no meu colchão duro.

Fiz uma fotografia dela e guardei no meu pobre coração, que é pra ele bater forte e me deixar vivendo mais. E agora eu vou partir. Para onde? I don’t know, I don’t know, You stick around now it may show.

Wednesday, November 17, 2010

A Menininha

Vou contar uma história: Eu sou muito doce e esperto. Eu amo quando a minha menina sorri depois que eu tiro o tempo dela. Ela fica parecendo uma criancinha, o sol abre em meio à chuva e eu, sem mais opções, tiro o tempo dela mais uma vez que é pra tudo começar de novo. E no fim, eu sorrio também porque os nossos sorrisos são amiguinhos de infância. O que mais? Sim, ela é um amor, uma flor e eu tenho que disfarçar pra não correr e abraçar ela pra sempre. Pra sempre. E, na verdade, eu nem a amo de verdade. Na verdade de verdade, são outros olhos que o meu coração não pode nem ver que dispara. Mas essa menina é bem espertinha também. Sabe que eu gosto quando ela fecha os olhinhos e balança o rosto como rindo ironicamente de uma brincadeira minha. Ela sabe disso. Sabe e faz porque eu gosto. E ela quer me roubar. E a gente não deve resistir a assalto.

Friday, October 15, 2010

Sim

A gente estava de mãos dadas. Sem beijo, nem abraço, eu só peguei a mão pequena e macia dela e fui correspondido. Não olhei para dar uma disfarçada, mas vi que ela me olhou sorrindo com aqueles olhos coloridos. Até os nossos passos sincronizaram-se, porque o mundo era todo nosso e existia apenas pra gente ser feliz. A gente sentou no planeta – mais precisamente na grama verdinha – e fizemos nosso piquenique em cima da toalha (aquela mesma que você, leitor, está imaginando). Sem beijo. A gente ainda era só “amizade coloridinha”, uma coisa bem infantil mesmo, mas a gente sempre foi meio criança. Eu sempre fui meio Miguelito e ela... bem, ela era bem cabeça, mas não era morena o suficiente pra ser Mafalda. A verdade é que a gente era os nossos próprios personagens. Eu comecei a tocar violão porque ela gosta de homens com sobrancelha grande e que tenham uma veia musical. Ela nunca fez nada exatamente por mim, mas, pro piquenique, comprou o doce que eu disse no Twitter que sou fã e tenho certeza que foi pra me agradar. Só quando notei isso é que cheguei perto de seu rosto para beijá-la. Fechei os olhos mais com medo de perdê-la para sempre naquele momento do que por estar emocionado ou por curtir o momento. Mas ela botou a mão – pequenina – no meu rosto e me correspondeu. Aí eu fechei os olhos de vez. O nosso dia foi pintado com lápis de cor aquarela.

Sunday, September 26, 2010

A Ana (Parte 1 de algumas)

I

Ana acordou. Levantou e não calçou nada. Acariciou os cachos do cabelo, mostrou os olhos verdes pro mundo e sorriu. Não, Ana sorriu feliz. Pensou consigo mesma: “Com o perdão do clichê, a maior caixa de surpresas que existe é uma manhã antes da gente abrir a janela”.

II

Ana tomou achocolatado e arregalou os olhos. Deu bom dia pra sua gata, suspirou e levantou-se. “‘Ou se’ é a expressão mais libertadora do mundo”, pensou. Depois de fazer o que queria, foi para o trabalho.

Talvez Ana fosse feliz. Preferiu ser. Olhou para o céu azul que valentemente aparecia na janela do escritório, saiu e bateu ponto na vida. Ponto para Ana, aquela moça bonita do cabelo enrolado meio ruivo meio rubio e dos olhos com cor de embalagem de Guaraná Antártica. Andou e, com o sol abraçando-lhe, não sentiu o clichezão “andando nas nuvens" por estar feliz com alguma coisa. Ana é muito importante para ser "alguma coisa". Ana é especial, Ana anda em travesseiros fofos, porque essa história de nuvem não existe. Andou pelas ruas da cidade grande esbanjando morangos e se sentiu como uma daquelas mulheres de propaganda de absorvente. Neste minuto, Ana atingiu o grau máximo de preocupação nenhuma.

III

Recordação

Ana conhece Valentin, mas na verdade queria mesmo era conhecê-lo. Ele é aquele rapaz que todo mundo já viu por aí. Faz-se de misterioso porque não tem nada de mais interessante para apresentar, então não apresenta nada e recebe essa fama. A Ana sabe disso. Mas, ela também é assim e, ao mesmo tempo em que isto lhes junta, os distancia. Porque um fica tentando adivinhar o que o outro está pensando e, pessimistas que são, ficam cheios de paranóias com sabor de marshmallow. Eles já se encontraram em diversos sonhos de flauta, mas pausaram a música porque era boa demais. E aí ficam quietos.

Mas a Ana não quer pensar nisso. O dia está muito primavera, ela só quer andar em travesseiros fofos e esbanjar morangos por aí. A Ana só quer ser abraçada pelo sol quentinho. E ela se entrega a ele. Abre os braços, sorri e diz “vem cá, meu nego”. E o pensamento e o coração da Ana apostam corrida pra saber quem está mais tranqüilo e mais bala-de-goma. A atmosfera é totalmente “I see trees of green, red roses too I see them bloom for me and you and I think to myself, what a wonderful world”. A Ana está exatamente onde queria estar.

Tuesday, September 07, 2010

Rima

Bala de goma, diploma, pantufa e irmão. Escorregador, lápis de cor, pipa e macarrão. Olho bonito, bolo de milho, pantufa e mão. Tudo isso havia antes de mim e não sei o por quê, não. Só sei por que vieste depois de mim. Foi pra completar meu coração.

Friday, August 20, 2010

A Menina do Espelho

Minha filha agarrou meu dedo. Um gesto tão pequeno, mas capaz de estremecer todo meu corpo de uma maneira que mulher alguma conseguiu. Tem oito meses e já sabe como conquistar o coração duro do pai. Com um sorriso quase tão involuntário quanto o amor que sinto por aquela coisinha, olhei para minha esposa que, em perfeita sintonia, já sabia o quão grandioso fora para mim tal momento. Ao olhá-la e tê-la junto de mim nesta epifania sem precedentes em toda minha existência, senti o mesmo que passou pelo meu coração ao ver seus olhos coloridos pela primeira vez: “Só essa menina pode me dar o melhor presente que posso receber”. Porque não é Deus quem nos dá essa alegria. A felicidade é a gente quem faz e não é possível viver sozinho exatamente por isso: A gente precisa de alguém pra nos presentear. Beijei a testa de minha esposa. Mordi a bochecha de minha filha. Fiz-me cócegas todo por dentro.

Wednesday, July 07, 2010

Fui

Congelei meu coração e dessa vez vai precisar ainda mais calor pra levá-lo para passear. Deixei todo esse lado bala de goma pra trás e vou me manter assim, extremamente gelado. Que não venha Vinicius de Moraes me dizer “Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão”, quem tem que pedir desculpas sou eu, que acelerei meus batimentos cardíacos sem nem me importar com o meu miocárdio. O Vinicius morava no Rio de Janeiro e ia para a praia todos os dias.

Sunday, July 04, 2010

Sunday, May 30, 2010

Tomara

Vou ficar aqui, só te observando ir embora, se não te importas. Ficarei aqui até o momento em que a multidão te tirar da minha vista, mesmo que superficialmente. E quanto mais longe ficas, mais o teu perfume em mim permanece. Sim, isto é ilógico, mas não é assim que sou? Sempre almejando ser diferente, mas fiquei sempre preso aqui. Assim, de costas e partindo, teu lado mais charmoso não me aparece. E isto é bom. Ou pelo menos um dia será. Tomara que não. Tomara que sim. Tomara que não. Tomara que não. Na verdade, agora eu realmente só quero te ver partir. Não pretendo te seguir através da multidão, só quero ficar aqui sentado te olhando, pensando na melancolia de essa ser a última vez que farei isso. Por falar em melancolia, até tentei não parecer assim, mas é assim que tem que ser. É assim que tem que ser. A gente (e falando assim não me refiro a nós, e sim ao geral) não pode mudar uma coisa dessas, decretada a tanto tempo. E nem tem porque mudar, vou apenas te ver partir e me permitir ao luto. Talvez eu nem esteja inspirado agora, mas precisava registrar esse momento. Até parece que ele não ficará registrado na minha memória (para sempre), mas eu sempre gostei de coisas assim concretas e é por isso que estou aqui. Mesmo que um lixo, pelo menos concreto. Talvez este até seja o meu retrato e esse texto se tornará auto-biográfico, mas a minha intenção não é essa, é simplesmente te ver partir.

Clareia minha vida, amor, no olhar.

Friday, April 23, 2010

"Hoje eu tenho apenas
Uma pedra no meu peito
Exijo respeito
Não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira"

Chico

Sunday, April 04, 2010

Verde

Oi, força do Universo. Provavelmente a senhora não exista, mas me disseram que a gente pode pedir. Eu posso até me ajoelhar, se isso der mais embasamento ao meu pedido. É que o tal do destino (também ouvi dizer que é amigo seu) tem sido meio ríspido com esse pobre mortal aqui. Acredita que o danado apresentou-me aos mais belos olhos verdes que existem e teve a frieza de colocar-me distante deles? Não se importou em amarrar meu coração com a corda da saudade e apertar bastante. Resolvi vir até aqui para que a senhora resolva a crueldade feita pelo destino. Diz pra ele que eu exijo todos os dias olhar pro lado e ver os olhos verdes me fitando, assim como também gostaria de segurar a mão macia da dona deles sempre que quiser. Por falar nela, gostaria que a senhora mandasse um recado meu, se não for pedir muito: Diz pra ela não se importar com a distância e com o tempo, porque eles sensibilizar-se-ão com o meu coração apertado e nos colocarão bem juntinhos pra sempre em um dia mais próximo do que a gente pensa. Também diz que sempre que essa moça ficar triste, eu a deixo colocar o meu chapéu pra passar um tantinho a saudade.
Estou pedindo do fundo desse amarrado e dolorido coração, dona força do Universo, se a senhora tivesse visto os olhos verdes, entenderia o quão frio o destino foi. Ele fica aí se escondendo pelos cantos, às vezes aparece só pra botar em prática o que está no roteiro. E o meu roteiro é a mão macia e os olhos verdes.

Sunday, January 03, 2010

Sobre a Graça Dela

Que todas as outras me desculpem, mas essa moça é a mais cheia de graça. Menina morena e minúscula, de vida enche os olhos de quem vê e faz disparar o coração com um sorriso potente ao ponto de não precisar mostrar os dentes para contagiar. Anda deixando o perfume no ar, parecendo não se importar com as partículas que, involuntariamente, deixam de estar junto dela. Assim como eu.

De onde venho esse olhar não é comum. Esse do tipo mandão, ordenando meu coração disparar e minhas mãos suarem a cada vez que vejo. Meu peito está completamente, invariavelmente e incorrigivelmente apaixonado por esses olhos que mais parecem samba em forma de globo ocular. Faço promessas confusas substituindo a fé em Deus que não tenho. Fé eu tenho em um dia te abraçar ao ponto de te fazer fechar os olhos e ficar bochechuda.
Que todas as outras me desculpem, mas essa moça é a mais cheia de graça.

Friday, November 27, 2009

Sobre o preconceito e a não-existência de Deus

Antes de escrever esse texto, eu pensei muito em como me expressar. Tenho certeza que muitos não me entenderão. E não espero a compreensão destes.

É da natureza animal separar os seres em grupos. A sociedade criou o preconceito, o homem criou a sociedade e hoje é impossível existir alguém puro. Se é que algum dia já existiu, pois a natureza humana está englobada na animal. Eu tenho os meus preconceitos e eles são bem extremados. Mas são explícitos e, por isso, me sinto superior àqueles que se dizem puritanos e descansam sua pureza no sofá de casa. O preconceito nunca deixará de existir. Assim como existem pessoas que nascem destinadas ao sucesso e outras para serem inferiores e terem menos importância no mundo. Não estou falando de oportunidades. Até na Suécia existem caixas de supermercado. O que eu falo é de potencial. É fato, para mim, que alguns têm mais que outros. Não fosse assim, jornalistas todos cobririam grandes acontecimentos. Mas alguns escrevem sobre o que Nana Gouvêa fez durante o dia.

Deus não existe. Não há quem me convença do contrário. Como poderia existir alguém tão poderoso ao ponto de criar uma pedra tão pesada que nem ele conseguiria carregar? Isaac Newton disse, certa vez, que o polegar opositor é a simples prova da existência de um ser superior. Charles Darwin chamaria isso de “adaptação ao meio”. Segundo Voltaire, se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo. De fato, a existência de um Deus é um pilar imprescindível para a sociedade. E, exatamente por isso, o homem o inventou.
Jesus existiu. Foi o maior comunicador de todos os tempos, talvez o com a melhor retórica. Foi, também, um grande filósofo Cínico. Não melhor que Diógenes de Sínope.

Sunday, September 13, 2009

Finidade

A gente nunca sabe quando um sonho vai se tornar realidade. Simplesmente sonha com alguma coisa. Sonha com uma casa na praia, com uma mulher e filhos e uma conta bancária bem alimentada. Mas só pensa. Sonhar nunca passou do “só pensar”. A gente pensa em algo. Deseja. Mas, se não se concretizar, a vida continua. A vida continua.
A gente morre, sabe? Um dia a gente “puft”, somos seres infinitamente finitos. A vida talvez seja como o colegial: A gente começa sabendo que um dia vai acabar. Distrai-se tentando não pensar, não gosta de lembrar, mas o fim chega de repente. E talvez não tenhamos feito tudo o que imaginava no início, mas talvez esse seja o preço por notar a própria finidade tarde demais. Tarde demais.
Eu olho pela janela e de repente tu estás lá – reconheço de longe aquela mexida no cabelo e os olhos negros. Tu lá e eu aqui, tu lá e eu aqui. Eu lá e tu aqui. Tu em algum lugar, e eu em lugar nenhum. Nenhum.

Thursday, August 20, 2009

Dos Olhos

Quando vejo teu olhar, meu cérebro imediatamente manda um sinal para meus pulmões: “respirem fundo”. Quando penso no teu jeito, ele diz a meus olhos: “fechem-se por algum tempo”. Parece até querer punir tudo que há de pares em mim, talvez pensando que assim irá me punir por não formar um par com você. E eu não posso fazer nada, ele é movido involuntariamente e pensa em ti noite e dia. “A culpa é tua, cérebro”, penso comigo. Ou será ele se culpando? Já não tenho controle. Entrego-me completamente a teus olhos.
Teu olhar é novo para mim. Novo e salvador. Salvador porque se atirou no precipício em que me joguei, adquiriu mais velocidade e me pegou em seus braços. Como se eu fosse um recém-nascido, me balança confortavelmente me dando segurança. Assim, seguro, olho em teus olhos e eles são tão expressivos e tão cheios de graça que esqueço do cansaço que a vida tem me dado e não durmo, apenas admiro a graça desse par de janelas que, nem tendo vista para uma praia paradisíaca, teria tanta beleza quanto tem na simplicidade dos teus olhos. Então sorrio confortável dando uma indireta, como quem diz “me mostra teu sorriso para minha vida ficar completa” e tu, como quem sempre sabe o que fazer, sorri sem mostrar os dentes, fazendo o sabe de melhor.
Salvou-me, confortou-me e alegrou-me. E tudo isso simplesmente sorrindo e olhando.
Já não tenho escolha. Entrego-me completamente.

Wednesday, July 08, 2009

O Sol e a Lua

Sempre simpatizei mais com a Lua do que com o Sol. Ela é mais sociável, ele não gosta nem que o olhem, já vai soltando um daqueles seus raios. Já ela, gosta de ser admirada. Só olhar que, ao contrário do astro-rei. solta um daqueles seus lindos sorrisos, deve ser coisa de menina moça mesmo. A Lua já permitiu que outros chegassem pertinho dela - coladinhos com ela -, o Sol não os deixa chegar nem perto. Isso tudo deve ser reflexo do isolamento do Sol. A Lua tem todas as estrelas como companheiras, enquanto o coitadinho não tem ninguém para dividir o seu calor imenso.
A Lua parece ter um abraço mais apertado, mais amoroso. O Sol é tão temperamental, tão cabeça quente e difícil de suportar! É preciso até proteção para tentar olhá-lo, o astro da noite é tão mais gentil, dá vontade de morder, não é a toa que algumas flores só se abram à noite!
Até a cor da Lua é mais bonita: O Sol tem aquele vermelho-alaranjado de quem tá sempre bravo, hostil; a Lua é branquinha, como moça nova ou moça mais antiga meigamente maquiada. Como se não bastasse, ela ainda brilha azul em sua volta, como quem coloca um casaco azul para ficar quente e ter um abraço melhor, sempre pensando nos outros, deve ser coisa de menina moça mesmo

PS: Esse texto foi feito, segundo um livro que eu escrevo aqui, "em algum mês de 2008", eu pensava que já tinha postado, então, se alguém pensar que já leu, não tenha ilusões de ter tido um déjà vu, bjs

Sunday, June 21, 2009

Presente

Quando você chegar, a gente vai andar por aí de mãos dadas e apertadas. Elas irão balançar felizes, pra frente e pra trás, pra frente e pra trás. A nossa sincronia será tão perfeita, quando eu te olhar, você me olhará também e sorriremos juntos. O sol olhará para nós e brilhará aquecendo nossos corações, como querendo abraçar o nosso amor infinito. Pintaremos nosso quarto com nossas cores (e ele será demasiado colorido!), pintaremos nossas vidas com nossas cores. Distribuiremos rosas perfumadas para pessoas nas ruas e estas se inspirarão em nossa alegria para serem mais alegres. O brilho nos meus olhos será o seu brilho.
Quando você chegar, a gente vai comprar um sofá daqueles bem pequenos, para ficarmos ainda mais juntos. Eu te acordarei com café na cama dizendo “bom dia, vida” e você me retribuirá meu gesto com aquele sorriso que só você sabe sorrir; aquele sem mostrar os dentes. Ao chegar a noite, você me contará seu dia e eu fingirei estar prestando atenção em tudo, quando na verdade eu estarei com o pensamento em seus olhos e em toda a boa energia que eles me passam. Eu sorrirei e você pensará estar me agradando com sua conversa, mas eu sorrirei por saber que seus olhos só olham a mim e esse meu sorriso é um movimento involuntário do meu corpo. Corpo esse que é seu refém. Meus olhos brilham, minhas mãos suam, meus pulmões se enchem e meu coração acelera só por ti.
Mas aí eu lembro* que tudo está em futuro do presente, me viro e invento outro sonho.
*Licença poética pela mudança de tempo verbal, plz.

Saturday, June 06, 2009

Não é de todo inútil o trabalhoso processo da vida? Deve ser difícil para quem tem o trabalho de fazer a gente. E não só a gente humana. Toda gente, incluindo os mosquitos. Não deve ser fácil colar todos os órgãos em seus devidos lugares, testar para ver se está tudo funcionando conforme as normas. E pra que? A pessoa vem, passa umas férias aqui e volta. Qual o propósito de ter pêlos para aquecer, pulmão para respirar, coração pra bater e sentimento pra sentir, se depois tudo acaba? E depois? E depois a gente morre.

Wednesday, May 27, 2009

Surpresas Européias no Futebol

Manchester United e Barcelona entraram em campo conhecidos como a melhor defesa e o melhor ataque do mundo, respectivamente. Além disso, contavam com os dois melhores jogadores do mundo, C. Ronaldo pelos ingleses e Lionel Messi pelos espanhóis. Tinha tudo pra ser um grande espetáculo desses dois atletas, um tentando demonstrar mais futebol que o outro. Nada disso ocorreu. Os dois jogaram mal e quem roubou a cena foi a dupla de meias do Barcelona: Xavi e Iniesta. No meio de grandes estrelas apontadas como possíveis donas do jogo, esses espanhóis mostraram ser o pulmão do clube catalão. Entre o ouro de Messi e do Ronaldo luso, entre os estrangeiros, quem fez a diferença foram as pratas da casa. Mas não foram apenas os dois pré-protagonistas que tiveram atuações decepcionantes, a partida em si prometia muito mais. Mais uma vez, essa Liga dos Campeões nos reservou surpresa: A principal partida, a mais emocionante, se realizou nas quartas-de-final e foi disputada por dois times que não eram nem mesmo candidatas a título. De fato, Liverpool e Chelsea não conseguiram o que o Barcelona conseguiu, mas, diante de uma final pífia como a desta edição, não há quem duvide que o quatro a quatro do duelo inglês foi a partida dessa Liga Dos Campeões.
Outro ponto é a relevância que essa vitória catalã tem no futebol mundial atual: No duelo de um time de acionistas, movido pelo mercado, contra o time da sua torcida, movido por seus sócios, todos apostariam no primeiro, pela fase do esporte. Hoje em dia as equipes de futebol se transformaram em simples empresas, como a Coca-Cola ou a Nokia, preocupadas apenas no lucro que aqueles onze funcionários irão trazer para seus donos. E, em plena esta época fria do futebol, a taça mais importante da europa e segunda do mundo é conquistada por um time que vive das mensalidades dos sócios e, com essa política, é um dos mais ricos e o melhor do mundo.

Sunday, May 17, 2009

Lá no alto

Foi dormir e quando acordou estava na Lua. Achou estranho o seu quarto agora estar tão leve e com tantos buracos, mas o que mais lhe surpreendeu foi o falta de cores que o quarto estara no momento. Aí que se deu conta do lugar que se encontrara. A falta de cores roubou o lugar da natural dúvida “onde estou” e ela desejou, então, uma grande e recheada caixa de lápis aquarela para colorir adequadamente cada canto e cada contorno de seu novo lar. Rodou toda a lua e não achou um toquinho sequer de lápis de cor. Resolveu sair pelo espaço procurando. Pediu ao sol e ele lhe deu o amarelo e o laranja. Foi a Marte e lá encontrou o vermelho que tanto queria. Faltavam agora apenas o azul, o verde, e o violeta. Veio para a terra; nos rios achou o azul, nas plantações o verde, e o violeta na flor de mesmo nome. Guardou todas as cores em um potinho e partiu de volta para a Lua. Sempre que há sol após um dia de chuva é possível ver a moça com suas cores lá no alto.

Friday, May 08, 2009

Brilha onde estiver

- Olha, eu poderia ser piegas e dizer umas palavras bem clichês, mas tu sabes como escritor tem a péssima mania de tentar o máximo possível escapar disso tudo. Eu era pra te dizer “olha, eu te amo” e voltar para o meu mundinho de açúcar e banho-maria. Mas as palavras parecem sociedades com grande anomia prejudicando as suas consciências coletivas, devido a uma grande falha no controle social (vê só como são as palavras, comecei a falar de sociologia em meio a um discurso romântico, a culpa não é minha, é sua por mexer tanto comigo que me desestabiliza). Enfim, falei tanto que até agora não falei nada. Eu só quero te dizer que o jeito que arrumas o cabelo me faz pensar em como ficaríamos bem, os dois, de mãos dadas andando por aí, não achas? Vou encarar esse olhar como um sim. Aliás, teus olhos regulam meus batimentos cardíacos, sabias? Não? Imaginei. Porque eu sou tímido e disfarço. Quando me olhas me seguro para prender esse sentimento todo que tenho dentro do meu peito, sentimento que se transforma em ar; tentando sair de mim. O sentimento tentando sair, pela necessidade fisiológica de sair, mas eu resistindo. Trancando. Matando. Assassinando. Sufocando o sentimento. Mas hoje, aqui nessa simples parada de ônibus, eu resolvi que preciso respirar, entende? Precisava respirar que é a tua simplicidade que me faz amar o sol e o verão. Tu deves estar te perguntando “não vai falar do meu sorriso?”. Minha querida, nosso tempo é tão curto, se eu for gastá-lo falando do teu sorriso, passaríamos os dois sentados uma eternidade aqui, só comigo falando sobre o teu sorriso. Mas isso não seria bom? Passar a eternidade toda aqui, nesse banco de estação? Sinto-me chato falando tanto, estou sendo chato? Não? Posso continuar? Tudo bem, eu paro por aqui, teu ônibus chegou.

Friday, May 01, 2009

Flor de Lis

Olhar para mim mesmo, não para o passado. Esse aí não é um dos tempos verbais, pois estes servem para nos apressar, mostrar ou lembrar. O passado é um grande pesadelo ininterrupto e que ri das pessoas todos os dias.
(Texto encontrado num caderno do ano passado, se ele não for meu e alguém conhecer o autor, por favor avise - mas acho que é meu)

Tuesday, March 31, 2009

O Calculismo na Era do Sentimental

Ser forte é para os fracos. Os bons e mais resistentes sabem lidar com as emoções de forma diferenciada sem apelar para o calculismo, criam estratégias de defesa e ataque com um roteiro tão bom que o mesmo nem sequer é notado. Vão por mim, caros leitores, deixem se levar, às vezes, pelas emoções. A frieza é um bom refúgio e um péssimo modo de vida, pois esta última é única e é necessário sensibilidade para notar o que de bom existe.
- E aquela estrela lá?
(Acho linda. Nasceu brilhando e vai brilhar seja de onde eu esteja olhando-a. Não é mágico? Nada vai afetá-la, jamais.)
- Ela nem está lá. Na verdade já desapareceu há muito tempo, mas, por estar muito longe, ainda não nos chegou a informação de que ela explodiu.
- Acho linda. Nasceu brilhando e vai brilhar seja de onde eu esteja olhando-a. Não é mágico? Nada vai afetá-la, jamais.
Liberta-te e te libertarás.

Monday, March 23, 2009

Em Diálogos

- Adeus, você. Eu hoje vou pro lado de lá, to levando tudo de mim...
- Que é pra não ter razão pra chorar?
- Vê se te alimenta e não pensa que eu fui por não te amar! Cuida do teu pra que ninguém te jogue no chão, procure dividir-se em alguém.
- Procure-me em qualquer confusão!
- Levante e te sustenta e não pensa que eu fui por não te amar!
- Quero ver você maior, meu bem, pra que minha vida siga adiante!
- Adeus você, não venha mais me negacear!
- Seu choro não me faz desistir...
- Teu riso não me faz reclinar!
- Acalma essa tormenta e se agüenta que eu vou pro meu lugar. É bom às vezes se perder sem ter porque, sem ter razão. É um dom saber envaidecer, por si, saber mudar de tom.
- Quero não saber de cor, também, pra que minha vida siga adiante.

Wednesday, March 18, 2009

O Cobertor e a Mocinha

Era uma vez um cobertor. Adorava o fato daquela menina de mais ou menos onze anos perfumar-se antes de deitar. Tentava, em vão, se aquecer o máximo possível para aquecê-la. Rezava para ter, quem sabe algum dia, calor próprio, sonhava em ser o sol para aquela menina. Mal sabia ele que, para ela, ele era o protetor, a quem ela buscava quando sentia frio. “Mãe, estou com frio e vou me agarram em meu cobertor”, dizia ela. Ele há muito tempo já estava esperando sua vinda, como quem diz “Vem, querida, te aquecerei com meu carinho”.
Mas, como todo caso, há um problema: Nosso cobertorzinho não agüenta o fato de não conseguir comunicar-se com sua menina. Ora, como seria possível um cobertor se declarar para uma garota? Eis que nosso protagonista tem uma idéia: Abraçará sua pequena enquanto ela dorme profundamente. Claro, como não pensara nisso antes?
A noite chega, fria como de costume, e a garotinha se dirige a seu quarto. Perfuma-se, coloca-se debaixo do cobertor e cai no sono. Observando a situação, ele abraça-a fortemente. Para sua surpresa, ela também o abraça. Não sei se era o vento ou aquele cobertor sorriu.

Saturday, March 07, 2009

Carta ao futuro

Caro Futuro,

Desculpe-me pela falta de educação em não perguntar como estás, mas é que não estou muito preocupado com isso agora. Vim só pra bater um papo contigo. É, levar um lero que é mais um pedido: Demora. Não te sintas mal com isso, mas a vida passa tão rápido que eu quero-te bem longe junto do teu amigo tempo. Se tu serás bom ou ruim? Não sei. Viverei sem me preocupar com isso. Viverei a procurar uma forma de não te procurar. Vai arrecadando mais outras almas para aquela outra amiga tua e volta a me procurar só quando eu chamar. Perfuma-te e procura alguém pra passar o tempo, assim como eu procurei. Aceita os conselhos desse velho amigo; vive. E quando chegares, vem manso que é pra não me assustar, vem com rodas de algodão e motor à base de água. Se serás bom ou ruim? Não sei. Viverei.

Atenciosamente,
Passageiro.

Monday, March 02, 2009

Maior Questão

Dois amigos se encontram, após a morte, na frente de São Pedro.
- Fábio! Quanto tempo! Nunca imaginei que fosse te ver só... depois mesmo.
- Fernando! Vimos-nos a última vez no fim do colegial, com todas aquelas promessas de se ver aos sábados. Acho que nunca tivemos tempo depois daquilo.
- É, mas eu nunca esqueci das nossas loucuras em sala de aula.
- Nem eu. Mas, me conta como tu vieste parar... aqui?
- Tristeza, solidão, essas coisas. E tu?
- Morri por falta de doador de alegria.
- Se a gente pelo menos continuasse se vendo aos sábados...
- São Pedro está vindo aí.
- Pois é, temos que causar uma boa impressão.
- Vocês dois são frustrados pela de amizade na vida, passem ao final da fila.

Saturday, February 21, 2009

Em Três

- Eu acho...
- Você acha que já está apaixonada por mim, pode falar.
- Eu já estou apaixonada por você.

Friday, February 13, 2009

Um Milhão

Resolvi criar três personagens e pensar em destinos bem clichês para eles. Primeiro, são dois homens, Luiz Leonardo e Mateus. Depois, claro, uma moça e ela se chama Beatriz. Eles vivem na cidade de Porto Alegre, ela e Luiz em um prédio e Mateus no prédio da frente. Logicamente, Beatriz encontra Mateus na fila da padaria, deixa cair um pacote de biscoitos, ele ajuda-a. Nesse momento estão trocando olhares e imaginando um futuro juntos. Enfim trocam palavras.
- Seu pacote de biscoitos, senhorita.
- Muito obrigada.
- Meu pai está muito doente em um hospital, tenho dívidas, muitas alergias, não gosto de chocolate e sou fracassado no amor.
- Não gosta de chocolate?
- Me desculpe, cara donzela, mas esse seu olhar profundo deu-me confiança e vontade de falar.
- Tudo bem, seus olhos já mostram tudo isso.
Ela deixa o local sabendo que Mateus a está observando. Ela sorri.
Luiz Leonardo percebe que sua companheira está de volta e vai recepcioná-la.
- Trouxe meus biscoitos?
- Me apaixonei por um par de mãos na padaria, preciso te deixar.
Ele ameaça se matar, chora e não a vê partir.
Beatriz procura o par de mãos na padaria, mas não o acha, pergunta aos atendentes por onde mora um rapaz moreno, de óculos e cabelo bagunçado. Ninguém soube responder. Ela fala das mãos e uma atendente, que também era apaixonada pelo rapaz, diz-lhe o endereço. A moça chega entusiasmada ao local, arruma o cabelo procurando o charme especial, respira fundo e, enfim, toca a campainha. Quem abre é Taninha Furacão, prostituta conhecida na região, inclusive pela jovem Beatriz, que sente-se decepcionada com as mãos, “Como aquelas mãos tocaram nela? Pareciam mãos tão gentis e confiáveis”. O que ela não sabe é que a atendente da padaria mentiu. Mentiu por também ser apaixonada por Mateus e não querer que uma mulher tão atraente como aquela que esteve na padaria chegue perto de seu grande amor. Mentiu por insegurança. Mentiu para proteger seu macho.
Chove na rua e Beatriz está nela. Molhada, com vergonha de Luiz Leonardo e nojo de Mateus, ela sente a água como o menor mal e dorme ali mesmo. Amanhece e tudo continua do jeito como terminou, provando como cíclicas são as coisas do Amor.
A moça apaixonada por mãos resolve pegar um ônibus e recomeçar sua vida em uma cidade vizinha. Sem sucesso, volta a morar na casa da mãe. Luiz Leonardo não agüenta uma semana sem o amor de seu amor e se mata com um tiro na boca. Mateus se muda para perto do hospital onde seu pai depois de certo tempo morreria, conhece Marina, uma atendente da padaria perto de sua casa antiga e tem uma filha com ela chamada Beatriz.

Monday, January 26, 2009

Pais e Filhos

Se tem uma coisa que eu gosto de ver é família feliz. Pode ser clichê, mas uma das coisas que mais me fazem brilhar os olhos é um pai e uma mãe com um filho pequeno. Nessas horas, a gente vê que tudo passa tão rápido, num momento o casal se apaixona em uma lanchonete, começam a se encontrar mais vezes e enfim se casam. Passados uns cinco anos do matrimônio, a notícia boa chega: Terão um menino, ele será saudável, inteligente e torcerá pelo time de futebol o qual o pai é fanático. Quando o garoto tiver seus seis anos, ganhará uma irmãzinha e a família, enfim, estará completa. Os pais se sacrificarão para dar a eles todas as oportunidades na vida. Os filhos, enquanto isso, crescerão sempre gratos e orgulhosos por todo o esforço feito por aqueles que os trouxeram a esse mundo. Entrarão em uma faculdade e, nesse momento, temerão não estarem preparados para esse novo desafio, se acharão fracos e, mais uma vez, quem os sustentará são os pais. Talvez chegue o dia em que a situação irá se inverter e, quem se sacrificará para dar o melhor serão os filhos e, quem receberá o apoio pelo esforço de uma vida inteira, serão os pais. Isso é o mais lindo na vida, ela sempre se renovará, mas sempre dará um jeitinho de deixar quem a gente gosta por perto. Valeu, vida.

Wednesday, January 14, 2009

Nervosismo

Encontro-me nesse momento sentado na mesa de um bar sem nome. Perto de mim, um bêbado se afunda ainda mais na cachaça. O dono do bar, sem ao menos ter pena do indivíduo, atualiza o copo do mesmo com mais bebida. Será mesmo que o dono do estabelecimento não percebe que contribuirá, assim, para o fim de uma vida? Mas isso não é o que mais me atrai no local. Três mesas da minha uma moça de mais ou menos vinte e um anos possui um olhar extremamente marcante e ele mostra certo nervosismo. A garota parece estar esperando alguém e, quando esse alguém finalmente chega, percebo algo maravilhoso: Não é o seu olhar o mais fascinante, e sim o sorriso; totalmente natural e despreocupado. O rapaz a cumprimenta de maneira preocupada e fria. Pelo pouco que aprendi de leitura labial, tento reproduzir o diálogo. Ele olha no fundo dos olhos lindos e marcantes da menina e diz que os dois têm de conversar. Ela olha-o como quem não entende nada. Sim, o garoto está traindo-a com outra e prefere contar-lhe tudo antes que ela descubra por outro. Ele termina o namoro, dá-lhe um beijo na testa e despede-se.
Penso eu: Como alguém abandona um olhar desses? E um sorriso desses? Imagino-me de mãos dadas com a moça, ela lançando-me olhares e sorrisos sem iguais. Pago minha conta e vou pra casa.

Wednesday, December 17, 2008

Da Janela

Duca está olhando a vista da janela de seu apartamento. Abraça fortemente seu travesseiro, gosta de fazer isso todas as noites. Sente uma paz de espírito sem igual quando olha, no prédio em frente, uma janela com luzes acesas. É como se pensasse “não estou sozinho”. Tenta adivinhar o que aquelas pessoas estão pensando e gosta de inventar histórias envolvendo-as. Dona Vitória, como chamou a moradora do 4º andar, perdera o marido dois anos atrás e até hoje os filhos a culpam pela morte do pai. Vê seriados de drama, procurando sempre achar alguém em uma situação pior que a sua. Passa a noite na frente da televisão. Marina, do 3º andar, está nessa noite montando delicadamente sua árvore de Natal. Cada detalhe é organizado meticulosamente. Faz isso para ocupar no coração o espaço deixado por um amor não correspondido. Gosta de comer tortas de pêssego e de ler livros os quais Duca nunca consegue descobrir quais.
Enquanto abraça fortemente seu travesseiro, o jovem também gosta de ver carros passando pela sua rua. Tão forte é sua imaginação, que tenta descobrir para que lugar os veículos se dirigem. Carlos Roberto dirige um Ford Fiesta de cor preta. É um promotor de justiça e está, nesse momento, se dirigindo para a casa de sua amante e, em casa, deixa uma mulher e quatro filhos. Como se fosse um castigo divino, o homem temseu carro e sua vida acabadas naquele segundo.
Carlos Eduardo, mais conhecido como Duca, mora em um prédio em frente ao meu. Gosta de abraçar fortemente seu travesseiro. Sente uma paz de espírito sem igual quando olha, no prédio em frente, uma janela com luzes acesas. É como se pensasse “não estou sozinho”. Quem sou eu? Gabriela, moro no 3º andar, gosto de comer tortas de pêssego e ler livros os quais ele nunca conseguiu identificar quais são. Tenho uma vizinha idosa chamada Vitória que não me deixa dormir com o barulho de sua televisão até altas horas. Já que, pelo visto, ela não irá desligar o aparelho tão cedo, acho que vou montar minha árvore de Natal.

Wednesday, December 10, 2008

Ponto Final

Ler ao som de Elephant Gun, do Beirut.


Antônio Luiz da Silveira Gonçalves tem oitenta e nove anos, três filhos e sete netos e está nesse momento sentado à frente de seu aparelho televisor quarenta e duas polegadas. Bebe cerveja e come amendoim. Troca de canal algumas vezes, até parar no canal cinqüenta e um de sua companhia de TV a cabo. São três horas da tarde de uma terça-feira, horário específico de programas antigos. Antônio tem, então, sua última crise existencial de sua existência. Dá alguns passos até seu quarto e, primeiramente, segura o retrato de sua falecida esposa, dona Rosinha, uma simpática senhora que teve sua vida dedicada à confecção de tortas. As primeiras lágrimas ganham liberdade no momento em que ele deixa o retrato sob o criado mudo. O senhor se dirige ao guarda-roupa, abre uma gaveta e pega uma pequena caixa antiga, feita de metal. Balança-a como se quisesse conferir se o que procura está mesmo ali. Sorri ao saber que sim, abre-a e começa a vasculhar: Era a caixa de recordações de sua infância. Antônio chora ao pensar que a morte se aproxima e a vida passa diante de seus olhos; desde o momento em que ganhou seu primeiro carrinho, o dia em que perdeu o mesmo em uma aposta e teve de pedir para seu pai resgatá-lo, passando pelo primeiro beijo, a primeira noite de amor, a entrada na faculdade, o dia em que conheceu Rosa Garcia Rodrigues, o ano em que perdeu o pai, o nascimento de seus três filhos e dos cinco netos. “Não fui útil em nada nesse mundo”, resmunga para si mesmo. De repente, sente a presença de algo. É a morte e ele sabe. Antônio pensa e morre sorrindo.
Vamos aos fatos:
Em 1930, Antônio Luiz da Silveira Gonçalves estava convencido a seguir a carreira de médico. Anda tranqüilamente pela Rua Dois quando, por acaso, olha em um poste a propaganda do curso de Medicina Veterinária. Naquele instante, nem o próprio Antônio conseguiu descrever a sensação de estar fazendo o certo. Conheceu Rosa Garcia na faculdade e teve um filho chamado Francisco Gonçalves Rodrigues, que depois veio a se casar com Antonieta Magalhães, cuja vontade era criar uma instituição de caridade. Os dois criaram a APV, Associação Pela Vida, responsável por achar a cura para o vírus da AIDS. Depois de muito trabalho, conseguiram a façanha desejada e muitas pessoas foram salvas pela descoberta do casal.
Por isso que Antônio Luiz da Silveira Gonçalves sorriu em seu leito de morte: Se não tivesse desistido da Medicina, não entraria no curso de Veterinária, logo, não conheceria dona Rosinha, por conseqüência, não seria pai de Francisco, que não teria conhecido a bela Antonieta, não nascendo, por tal, a APV, cujo objetivo não teria sido alcançado e milhares de pessoas ainda morreriam de AIDS no mundo.
É, seu Antônio, o essencial é invisível aos olhos.

Sunday, October 05, 2008

Canção de Ninar

Mal posso esperar o momento chegar. Sonho todos os dias (sem faltar nenhum) com teu nascimento, com a chegada tua e da minha alegria. Vou criar-te apelidos bobos, apertar-te de jeitos tolos e amar-te puramente. Vou acordar de madrugada com teu choro, música para meus ouvidos, e vou cantar-te até o sono, enfim, chegar-te. E te admirarei a noite inteira; tu dormindo e eu sorrindo na espera de um novo gesto meigo, puro e lindo.
Quando a manhã enfim chegar, para o trabalho irei com o pensamento em ti. Mal podendo esperar o momento de encontrar-te novamente, fico o tempo todo olhando o relógio, gritando para o tempo, pedindo que aquele danado passe mais rápido. Quando cresceres um pouco, serás a minha menininha, e eu te protegerei com minha vida. Quando ficares mais adulta – virando moça –, terei ciúmes de teus namorados e desejarei a morte de todos, mesmo sabendo que eles te farão feliz. Terei medo que me troque por eles e que façam de ti, uma menina mais feliz do que eu consegui fazer. Ao saber disso, me lançarás um sorriso rasgado e dirás que ninguém é mais importante e te faz mais feliz que eu mesmo, e eu notarei que a vida está passando. Logo, então, chegará teu casamento e eu estarei lá pra te levar até o homem que escolheste. Voltarei para a casa pensando: “minha menininha definitivamente cresceu”. Voltarei feliz. Voltarei para minha cama quente, recolherei meus cabelos grisalhos e, mais uma vez, gritarei com o danado do tempo, mas agora para que ele passe mais devagar. Vai, tempo, vai falar com a morte e pede para que ela tenha piedade desse velho pai que só quer passar mais tempo com sua filha. Mas e quem sou eu para pedir algo para a morte? Ela não respeitará nem o pedido do tempo, nem a mim. Um dia, chegará em meu quarto, bem de mansinho e dirá: “Vem, Fernando, tua filha ficará em boas mãos”. Falará de um jeito doce para que eu não chore, mas minha vida toda passará diante de meus olhos, se transformará em lágrimas e cairá diante do fim. Lá de cima, passarei o tempo (danado que não me deixa em paz) todo te observando, cada passo, cada gesto meigo, puro e lindo. Só, então, perceberei que nada mudou.

Friday, September 26, 2008

Da luta não me retiro

Não há um jogo sequer que o Brasil de Pelotas não dê emoção para nós, seus fiéis torcedores. O time luta e a torcida grita, tem sido assim em todos os jogos. Não foi fácil, por muitos momentos falamos mal dos atletas e vaiamos o time, mas no próximo segundo já aplaudindo e gritando o nome de cada um. O caminho até aqui não foi fácil e o que virá também não será, lutamos muito e não será agora que irão tirar-nos essa incrível força que nos move até o Bento Freitas a cada dia de espetáculo. Por muitos percalços já passamos, mas nunca pensamos em desistir e isso é ser torcedor Xavante. Isso é torcer por um time: Não deixar nunca que um resultado momentaneamente desfavorável venha resultar numa trágica desistência e é por essas e outras que estamos entre os oito. Agora Falta pouco.

Tuesday, September 02, 2008

Bicho-da-seda

Todos marcaram hora no salão de beleza, tomaram banho (inclusive João, que não gostava muito d’água) e até passaram perfume. Era o dia da foto da família e não havia um parente desarrumado, muito menos um móvel desarrumado na casa de Dona Rica.

Ana tentou mostrar seu penteado recém penteado, Carlos tentou não mostrar os dentes destruídos pelo cigarro, Natália usou do brilho de seus olhos e Gabriela precisou apenas de sua graça natural, assim apresentou-se e representou-se a terceira geração, os netos de Dona Rica. Tia Chiquinha lutou para esconder as rugas que a idade lhe dera, seu marido pareceu estar mais preocupado com ligações importantes do que o momento da foto. Maria de Lurdes e Rameu tentaram parecer um casal feliz e Ricardo e Solange tentaram parecer felizes, assim foi representada a segunda geração, os filhos de Dona Rica. A Matriarca não se importava com o visual e nem com o sentimento que passaria através da foto; Estava feliz e ponto. Estavam todos lá: Netos, filhos, noras, genros e até a fotografia do falecido Brigadeiro Matias.

Contrataram um fotógrafo de primeira, aquela seria a grande foto da família Matias Medeiros. Ana conseguiu mostrar o penteado, mas ele tapou metade de seu rosto. Natália piscou e só ficou sabendo do brilho de seus olhos quem conhecia a moça. Tia Chiquinha cansou de conter as rugas, elas apareceram e aquela mulher forte pareceu feliz. Maria de Lurdes e Rameu foram traídos por seus olhares e não manifestaram felicidade matrimonial. Carlos deixou um cigarro cair no chão, foi descoberto pelos pais e os três mostraram tristeza com os olhos e com os lábios. Mas foi uma bela foto; Gabriela exalou sua graça natural e Dona Rica soltou um belo sorriso, agarrada no Brigadeiro.

Quem tivesse um coração com bons pensamentos conseguiu perceber um sorriso no canto do rosto de Matias.

Saturday, August 09, 2008

Sonho parece verdade quando a gente esquece de acordar


Indescritível o momento e a emoção do show do Teatro Mágico. É algo que só vendo pra ver, com o perdão da redundância. Vendo os vídeos no youtube, eu imaginava ser fantástico, mas, ao assistir, vi que o fato de estar lá é realmente significante. A empolgação e a proximidade do público com a trupe são únicos. A leveza com que Gabi Veiga apresentava sua performance, fazendo com que ninguém desgrudasse os olhos do teto, iluminado pela luz natural da atriz circense, a simpatia dos instrumentistas, sempre jogando sorrisos para a platéia e arrancando outros e a energia transmitida por Fernando Anitelli permanecerão para sempre na memória de todos.
Depois de tão grandiosa experiência, me sinto um grande camarada d’água, um anjo bem mais velho, cidadão de papelão, mas também estou abaçaiado por ter que esperar mais um tempo indeterminado para sentir tudo de novo e não sei como será a primeira semana longe da trupe, porque, na verdade, o que eu queria era ter tudo isso pratododia.
Acreditem, caros leitores, sonho parece verdade quando a gente esquece de acordar.

Tuesday, July 08, 2008

Fogo Verde

Acordou bem cedinho como fazia há quatorze anos - até na hora de nascer foi maneira: insistiu muito em nascer junto com o sol, seis da manhã já estava gritando coisas aparentemente sem sentido -, saiu para caminhar ao lado dos pássaros que deram-lhe bom dia entusiasmados e ela respondeu a altura. Os olhos verdes e os cabelos cor de fogo davam-lhe um ar de moça nova e as poucas sardas, de menina tímida.

Foi para a escola cedinho como fazia desde os seis anos. Anotou tudinho em seu caderno rosa com plumas lilases. Assistiu o garoto de seus sonhos ser espancado em uma briga no colégio e ficou parada. Buscou algodão e água e limpou os ferimentos. “Estás bem?”, perguntou, “Agora contigo aqui estou.”, obteve como resposta. O garoto pegou-a pela mão e disse “Tu és a única que se importa comigo aqui.”, ela sorriu com os olhos e disse “Meu importamento vale por todos”. Ele levantou-se para beijá-la pela primeira vez na vida. Nunca havia sido tocada, o que fazer naquele momento tão ilustre? A vida toda passou em sua cabeça em um segundo, desde o primeiro momento de vida que lembra (ninguém lembra dos primeiros anos de vida, muito menos do momento em que nasceu). Como seria um beijo? O garoto beijaria bem? Seria nojento? Preferiu não fazer nada. O garoto encostou os tímidos lábios nos mais tímidos ainda da menina. Os dois fizeram careta no final, tiveram a mesma impressão ruim de primeiro beijo: Tinha gosto de cuspe. “Eu, eim, prefiro muito mais caminhar e ouvir o canto dos pássaros do que isso!”, pensou ela, “Eu, eim, prefiro muito mais os pokemons ou meus carrinhos do que isso!”, pensou ele. Andaram de mãos dadas pela escola inteira, dando “estalinhos”, nome que deram a tal ato com gosto de cuspe. Todos que viam faziam cara e sons de enojados.

Depois daquele dia, nunca mais acordou cedinho para ir caminhar ao lado dos pássaros, com a mão livre e nunca mais respondeu sozinha ao bom dia das aves. Agora ela o tinha ao seu lado. Depois despediram-se com um estalinho seguido de careta de nojo e ela foi à casa de uma amiga. Quando foi perguntada como foi a sensação de ser beijada, respondeu com firmeza: “Tem gosto de cuspe e eu prefiro andar com os pássaros, mas eu não quero nunca ficar sem tocar na mão dele por muito tempo.”

Thursday, May 01, 2008

Tava lendo os posts antigos. Não sei se eu fico feliz por ter melhorado, ou triste por os velhos serem tão ruins.

Tuesday, April 15, 2008

Prosopopéia

Era uma vez, uma mão. Andava pra lá e pra cá sempre presa a um braço muitas vezes maior. Não gostava daquilo, queria mesmo a tal liberdade, mas por pura preguiça decidiu que junto dele estava confortável, então ficaria ali mesmo. Assim não iria se cansar. Nem arriscar. Ficou, pois, colada com o braço. Perambulando pelo mundo afora sem direção alguma ela ia. E pensando em algum lugar melhor. Pensando se esse lugar existia.
Foi, então, num dia de frio e sol de outono. A mão passeava pelas ruas – grudada no braço – quando de repente (explosão) o braço se descuida e ela bate em uma mão feminina. Bem cuidada. Parecia uma daquelas balas que se vende junto com marshmallow, dava vontade de morder, aquela danada! Deu uma vontade de trombar de novo com ela. Mas como? No meio de tantas mãozinhas pequeninas, como ia achar aquela? Não precisou nem estalar os dedos. No outro dia estava lá ela. E no outro também. Só então resolveu tocá-la. Deixar uma colada na outra, como se tivesse medindo qual a maior. E não é que combinava?